sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Estudo mostra como a privação do sono afeta a imunidade

A importância do sono para o bom funcionamento do sistema imunológico é conhecida, mas pouco se sabe sobre os mecanismos envolvidos. Uma pesquisa apoiada pela FAPESP e conduzida nos últimos anos tem mostrado como diferentes tipos de privação de sono interferem nas defesas do organismo.

Na primeira fase da pesquisa, para mimetizar situações comuns na sociedade os pesquisadores submeteram voluntários tanto à privação total por 48 horas – similar à que ocorre com pessoas que trabalham em sistema de plantão noturno – como à privação seletiva de sono REM (movimento rápido de olhos, na sigla em inglês), fase do sono em que prevalecem os sonhos, por quatro noites seguidas.

“Nas últimas décadas, houve diminuição progressiva e importante na média da duração do sono, principalmente na segunda metade da noite, quando prevalece o sono REM”, disse Francieli Ruiz da Silva, autora principal do estudo, feito durante o doutorado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com Bolsa da FAPESP.
O estudo, orientado pelo professor Sergio Tufik, foi realizado no Instituto do Sono, um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela FAPESP. Os resultados do experimento foram publicados em artigo na revista Innate Immunity e apresentados na 23ª Reunião Anual da Associated Professional Sleep Societies, realizada nos Estados Unidos em 2009. O trabalho também foi premiado pela European Federation of Immunological Societies durante o 2º European Congress of Immunology, realizado na Alemanha no mesmo ano.
Em uma segunda fase da pesquisa, realizada com animais, os pesquisadores do Instituto do Sono investigaram os efeitos da privação de sono no desenvolvimento de resposta específica a um desafio imunológico. Os resultados dos experimentos com camundongos foram apresentados na 27ª Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia experimental (FeSBE), realizada em agosto de 2012.

“O objetivo na primeira fase foi avaliar a alteração no perfil imunológico dos voluntários causada pela falta de sono. Para isso, realizamos leucograma – exame que mede a quantidade de leucócitos no sangue – antes e depois do experimento”, disse Ruiz.
Ao longo de uma semana, 30 voluntários saudáveis, entre 18 e 30 anos, permaneceram no laboratório distribuídos em três grupos. Aqueles do grupo controle dormiram normalmente e tiveram seu padrão de sono monitorado por meio do exame de polissonografia.
Os integrantes do grupo submetido à privação seletiva também tiveram o sono monitorado e foram acordados por uma campainha toda vez que o exame indicava a aproximação da fase REM.
“A primeira noite foi tranquila, mas à medida que a demanda do organismo por sono REM foi se acumulando, foi ficando difícil. Esse estágio aparecia cada vez mais cedo, efeito conhecido como rebote de sono REM. Na quarta noite, eles mal cochilavam e já entravam na fase REM”, contou Ruiz.
Já o grupo da privação total manteve-se alerta por 48 horas com a ajuda de videogames, jogos de cartas, internet e eventuais chacoalhadas. Nas três noites seguintes, dormiram normalmente e foram monitorados pela polissonografia para registrar o efeito rebote de sono.
Enquanto o grupo controle não apresentou alteração no perfil imunológico, como esperado, os voluntários do grupo submetido à privação total tiveram uma elevação no número de leucócitos, especificamente de neutrófilos, o primeiro tipo celular que responde à maioria das infecções. Também houve aumento de linfócitos T CD4, responsáveis pela imunidade adaptativa, específica para cada doença.
“Considerando que os leucócitos desempenham a função de defesa ao primeiro sinal de invasão por patógenos, observamos que a privação total de sono desencadeou um sinal de alerta no organismo. Ele entendeu como uma agressão e respondeu a um fantasma”, disse Ruiz.
Essa alteração foi revertida após as primeiras 24 horas de recuperação do sono. “Mas, para nossa surpresa, o número de linfócitos não voltou ao normal após as três noites de recuperação”, contou.
No grupo privado de sono REM, foi observada uma diminuição da imunoglobulina A (IgA) circulante no sangue durante todo o período do experimento. Esse efeito permaneceu após as três noites de recuperação do sono.
“Essa imunoglobulina, presente na secreção de mucosas, está diretamente relacionada à proteção contra a invasão por patógenos. Isso poderia explicar por que a privação de sono REM poderia estar relacionada a uma maior suscetibilidade a doenças como gripes e resfriados já descrita na literatura”, disse.
Desafio imunológico
Na segunda fase da pesquisa, os pesquisadores investigaram, em ratos, os efeitos da privação de sono no desenvolvimento de resposta específica a um desafio imunológico. “Precisávamos de um estímulo que desencadeasse uma resposta vigorosa e optamos por um modelo de transplante de pele entre duas linhagens diferentes e geneticamente incompatíveis de camundongos”, disse Ruiz.
Nesse modelo, de acordo com Ruiz, a rejeição do tecido enxertado pelo organismo do receptor é certa. Mas, enquanto os animais do grupo controle levaram entre 8 e 10 dias para expelir o tecido estranho, aqueles submetidos à privação de sono, seja ela total ou apenas da fase REM, levaram entre 15 e 18 dias.
“Isso representa um aumento de 80% no tempo de sobrevida do tecido, o que equivale ao efeito de drogas imunossupressoras como a ciclosporina”, disse Ruiz.
Para entender o que estava causando o prejuízo na resposta imunológica, os pesquisadores analisaram os órgãos linfoides dos animais e verificaram uma redução de 76,4% no número de linfócito T CD4 no grupo submetido à privação de sono REM. No grupo que sofreu privação total, a queda foi de 34% em relação ao grupo controle.
“Os linfócitos T são essenciais para que o processo de rejeição aconteça. Eles são ativados pelas células apresentadoras de antígenos (APCs) e, então, migram dos órgãos linfoides para a região afetada, onde desencadeiam o processo inflamatório que culmina com a rejeição”, explicou Ruiz.
As análises mostraram que nos dois grupos houve redução de aproximadamente 40% no número de linfócitos T no infiltrado inflamatório do enxerto de pele, ou seja, havia menos células de defesa na região.
Isso pode ser explicado por uma menor expressão da molécula MHC 2, essencial para a comunicação entre as APCs e os linfócitos. Além disso, houve redução de 40% na quantidade de receptores para a interleucina 2 (IL-2) na circulação sanguínea.
“Quando o linfócito migra para a área afetada, precisa se proliferar para atacar o tecido. Para isso libera a IL-2, principal mediador para essa proliferação. Portanto, uma menor quantidade desses receptores no sangue indica menor proliferação de linfócitos e prejuízo ao processo de rejeição”, disse Ruiz.
Para ter certeza de que o possível estresse causado pela privação de sono não estava por trás da imunossupressão, os pesquisadores avaliaram os níveis de corticosterona no sangue dos animais.
“Esse hormônio, nos camundongos, é o equivalente ao cortisol em humanos. Como os níveis não estavam mais elevados nos roedores privados de sono do que no grupo controle, acreditamos que o estresse não tenha interferido nos resultados”, afirmou.
O próximo passo da pesquisa é investigar por que a privação de sono diminui a expressão de MHC 2 e a proliferação dos linfócitos. Além disso, Ruiz pretende investigar, durante o pós-doutorado, também com Bolsa da FAPESP, o efeito da privação de sono na imunidade de pessoas que trabalham em turno e trocam o dia pela noite.
“A literatura indica que o sono durante o dia não é tão reparador como o noturno. Nossa intenção é vacinar esses voluntários e ver como a inversão dos períodos de descanso interfere na imunização”, disse.

Fonte:  Karina Toledo / Agência FAPESP 



Estudo mostra conexão entre abuso de álcool e AVC hemorrágico


 Uma nova pesquisa realizada na França mostra que indivíduos que bebem mais de três doses de bebidas alcoólicas por dia podem correr o risco de sofrer acidentes vasculares cerebrais (AVC) com uma antecedência de quase 15 anos em comparação com as pessoas que não fazem uso pesado de álcool.

O estudo foi publicado nesta terça-feira (11/9), na edição impressa da revista Neurology, editada pela Academia Norte-Americana de Neurologia. De acordo com uma das autoras do estudo, Charlotte Cordonnier, da Universidade de Lille-Nord (França), o estudo teve foco nos efeitos a longo prazo do uso abusivo de álcool, em relação à ocorrência de AVCs hemorrágicos.
“O consumo pesado de álcool tem sido identificado de forma consistente como fator de risco para este tipo hemorrágico de AVC, que é causado por um sangramento no cérebro, em vez de um coágulo de sangue como ocorre no AVC isquêmico", disse uma das autoras do estudo, Charlotte Cordonnier, da Universidade de Lille-Nord (França).
O estudo incluiu entrevistas sobre os hábitos de consumo de 540 pessoas com idade média de 71 anos que haviam sofrido AVC com hemorragia intracerebral. Os médicos também entrevistaram os cuidadores e familiares a respeito dos hábitos de consumo dos participantes.
Um total de 137 pessoas – ou 25% do total – apresentou comportamento de consumo pesado de álcool. A definição de consumo pesado corresponde ao consumo de três ou mais doses de bebidas alcóolicas por dia, ou o equivalente a 47,3 mililitros diários de álcool puro. Os participantes também foram submetidos a exames cerebrais de tomografia computacional e seus prontuários médicos foram revisados.
O estudo revelou que os indivíduos que fizeram consumo pesado de álcool sofreram AVC com uma idade média de 60 anos – cerca de 14 anos antes da idade média de idade dos participantes que não faziam consumo pesado de álcool.
Entre os indivíduos com menos de 60 anos que sofreram um AVC na parte profunda do cérebro, os bebedores pesados tinham maior probabilidade de morrer no período de dois anos de acompanhamento do estudo, em comparação com os que não faziam uso pesado do álcool.
"É importante destacar que o consumo de grandes quantidades de álcool contribui para uma forma mais grave de AVC em idade precoce em pessoas que não tinham histórico médico significativo", disse Cordonnier.
O artigo de Charlotte Cordonnier e outros, pode ser lido por assinantes da Neurology em www.neurology.org/ 
Fonte :  Agência FAPESP  11/09/2012
 

Esfera instalada na USP permite visualizar fenômenos do planeta

Veja a Terra em movimento


É possível agora enxergar o planeta Terra em movimento em São Paulo graças à esfera de 1,80 metro instalada no Museu Oceanográfico, na Cidade Universitária. O globo suspenso por três cabos de aço se transforma, em segundos, na Terra vista do espaço, na qual se veem o avanço das correntes marinhas ou os ciclones em formação. Quatro projetores sincronizados por um computador e dispostos em cada canto de uma sala toda azul – paredes, chão e teto – são os responsáveis pelo efeito (Veja o vídeo do sistema em funcionamento). “Parece um planetário, mas ao contrário”, disse Michel Michaelovitch de Mahiques, diretor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP).
O sistema completo, batizado de Science on a Sphere, foi desenvolvido pela Agência Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (Noaa) como uma ferramenta educacional. O Instituto Oceanográfico é a primeira instituição do Hemisfério Sul a receber esse sistema, instalado em abril deste ano, ao custo de US$ 200 mil. A aquisição inclui as bases de dados mundiais da Noaa – mais de 500 arquivos – e uma atualização constante e automática dos dados feita a cada 15 minutos. Isso é possível porque o computador tem uma ligação direta com a agência norte-americana.
Pelo controle remoto adaptado do videogame Wii, professores do Oceanográfico controlam as imagens projetadas e, assim, o mundo surge dentro da sala. Com um clique, a esfera se transforma no planeta Terra visto do espaço, com a projeção das fotos chamadas Blue Marble (imagens do planeta como é visto pelos cosmonautas) captadas pela Nasa. Com outro comando aparece, no canto do globo, uma contagem do tempo como na série de televisão 24 Horas, e as correntes marinhas de todo o planeta entram em movimento. Ao mesmo tempo, a esfera fixa parece girar em torno de si mesma graças à movimentação das imagens projetadas.
A oceanógrafa Ilana Wainer, do IO-USP, é a primeira pesquisadora na fila para usar a esfera e, assim, visualizar seu trabalho. Junto com sua equipe, Ilana analisa os resultados de modelos matemáticos para entender projeções futuras – dos anos de 2020 até 2050 – da circulação oceânica do Atlântico Sul e do Oceano Austral (que circunda a Antártida). “A projeção na esfera nos possibilitará visualizar de forma mais realista como será a circulação oceânica. Isso nos ajudará a interpretar como ela se relaciona com as mudanças climáticas”, conta a pesquisadora. A projeção está marcada para agosto. Estudiosos de migrações de espécies também podem, por exemplo, usar dados de exemplares marcados com chips e monitorar na esfera a rota percorrida.
“O sistema é também uma excelente ferramenta de divulgação científica. Você pode aproximar o público de dados que são frutos de pesquisa”, destaca Mahiques. O pesquisador, geólogo de formação, está entusiasmado: “Agora, posso explicar os movimentos das placas tectônicas em uma animação projetada na esfera, e não apenas na sala de aula. Será mais fácil para os estudantes entenderem a geologia do planeta”. Além do uso didático, o sistema também pode ser utilizado por pesquisadores em estudos que propõem modelos para explicar e prever fenômenos naturais. “O pesquisador pode criar seus modelos e projetar em forma de animação na esfera”, explica Mahiques.
É possível, assim, observar fenômenos climáticos como ciclones se formando no sul do Oceano Atlântico. Outras projeções mostram o tráfego aéreo (a rota dos aviões pontilhada em amarelo), o impacto de tsunamis nas costas dos continentes, a quantidade de calor emitida pelos oceanos e as variações de produtividade biológica no planeta. Além dessas imagens (algumas derivadas de fotos) com dados reais e modelos relacionados ao planeta, a esfera pode projetar imagens de outros corpos celestes como o Sol e suas explosões, a Lua e o céu estrelado visto da Terra, ou seja, a esfera permite observar fenômenos oceanográficos, atmosféricos, astronômicos, geológicos e ecológicos. “O sistema mostra que um evento local pode ter efeitos mundiais. Por exemplo, o tsunami que atingiu a Indonésia, em 2004, gerou ondas que se propagaram até a costa do Brasil”, conta o pesquisador.
Science on a Sphere pode ser usado por professores de colégios, docentes da USP e pesquisadores mediante agendamento pelos telefones (11) 3091-6541 e 3091-6542. O Museu Oceanográfico está aberto para visitação de terça à sexta das 9h às 11h30 e das 12h30 às 16h30 e aos sábados, domingos e feriados de 10h30 às 15h30.

Fonte: ISIS NÓBILE DINIZ/ REVISTA FAPESP - Edição Online

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