sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

FGV: País poderá alcançar nível de países desenvolvidos em 20 anos

Crise econômica representa oportunidade para economia brasileira decolar A crise econômica que desde 2008 afeta Estados Unidos e Europa deverá durar pelo menos mais dez anos. Nesse período, a economia brasileira terá grande oportunidade de crescimento. E em duas décadas poderá alcançar o nível de países desenvolvidos. A avaliação foi feita por Yoshiaki Nakano, diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EESP - FGV) e membro do Conselho Superior da FAPESP, durante palestra de abertura do seminário Latin American Advanced Programme on Rethinking Macro and Development Economics (Laporde), dia 9 de janeiro, na capital paulista. Em sua terceira edição, o evento reuniu ao longo da semana palestrantes como Gabriel Palma e Há-Joon Chang (Universidade de Cambridge), Jan Krengel (Universidade do Missouri) e Luiz Carlos Bresser-Pereira (EESP-FGV). A iniciativa teve como público-alvo jovens professores de economia do Brasil e de outros países. Foi realizada pela FGV em parceria com a Universidade de Cambridge. O evento teve apoio da FAPESP, por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa – Organização de Reunião Científica e/ou Tecnológica, e da Ordem dos Economistas do Brasil. Em sua apresentação, Nakano destacou o fim da hegemonia econômica dos Estados Unidos e o início de um período no qual há um vazio não apenas de poder, mas também de ideologia e de consenso político. Nesse contexto, há uma redistribuição de liderança na economia mundial e países emergentes, como China e Brasil, ganham destaque. “A consequência mais importante da atual crise para os países desenvolvidos não é econômica, mas social e política. O velho establishment político está em declínio e, com isso, crescem os movimentos da direita populista”, disse. O fenômeno, apontou Nakano, é semelhante ao que ocorreu após a Primeira Guerra Mundial, quando ganharam força correntes como fascismo e nazismo. Com os Estados Unidos mais preocupados em revitalizar a si mesmos, os países periféricos ganham autonomia. O papel de economia hegemônica deve ficar com a China, já que na previsão dos especialistas o Produto Interno Bruto (PIB) chinês deverá ultrapassar o dos Estados Unidos em 2018. Segundo Nakano, resta saber se a ascensão da potência asiática vai representar o declínio da globalização liberal governada pelo mercado e o fortalecimento do capitalismo estatal autoritário no modelo chinês. “A grande pergunta hoje é: que modelo está vindo para a economia mundial? A tendência, já vista em países como Grécia, Espanha, Itália e Portugal, é as questões domésticas se tornarem prioridade. O próximo passo é o fortalecimento do nacionalismo”, disse. Otimismo O cenário é bastante positivo para o Brasil, na avaliação de Nakano, que comparou o momento atual com as grandes depressões do fim do século 19 e da década de 1930. “No vazio de poder que ocorreu entre o declínio do Império Britânico e a ascensão dos Estados Unidos, o Brasil vivenciou a República, o fim da escravidão e a consequente chegada dos imigrantes europeus, que ajudaram a construir a base industrial do país. Após a crise de 1930, a industrialização ganhou força”, disse. Agora, segundo ele, é a grandeza e a diversidade do mercado interno – resultante da ascensão da nova classe média – que garantem ao país a oportunidade de “decolar”. “Essa nova classe média que foi integrada ao mercado de consumo representa quase metade da população. Isso nos coloca no contexto do consumo de massa, algo similar ao que ocorreu nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial”, analisou. Nakano ressaltou ainda os avanços na política macroeconômica ocorridos nos últimos anos. A estabilidade da moeda e o controle da inflação deixaram de ser a única prioridade do governo. A meta hoje, destacou, é estabilidade com crescimento. “E esse crescimento se tornou essencial para a estabilidade política e social no Brasil. A nova classe média quer manter o poder de consumo conquistado e, para isso, precisa de emprego. Criar empregos se tornou uma prioridade”, disse. Nakano apontou ainda outras razões para a resiliência brasileira à crise internacional, como os preços favoráveis das commodities – que devem permanecer assim no futuro próximo –, a abundância de recursos naturais e energia, indústria de transformação diversificada, grande reserva externa e déficit e dívida pequenos. Entre os obstáculos que podem atrapalhar a alavancada da economia brasileira, o economista destacou a taxa de câmbio sobrevalorizada. A partir dos anos 1980, relembrou Nakano, o Brasil passou por um processo de desindustrialização precoce, com redução do emprego nesse setor. “Agora é o momento ideal para reverter o quadro, mas a taxação excessiva ao setor produtivo e o câmbio sobrevalorizado atrapalham”, disse. “Também é preciso eliminar as heranças do período inflacionário, como alta taxa de juros e correção monetária do sistema financeiro”, apontou. Nakano aponta que o Brasil conseguirá vencer esses obstáculos. Uma das razões é o crescimento do PIB observado nos últimos anos, suficiente para impulsionar a economia. “Com o crescimento fica mais fácil solucionar problemas, reduzir a taxa de juros e mudar o câmbio. O Brasil poderá avançar muito se abandonar a mentalidade de colônia e deixar de esperar que o desenvolvimento venha de fora, por meio de investidores estrangeiros. O país precisa aprender a pensar por si próprio”, destacou. 

  Fonte: Karina Toledo / Agência FAPESP

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