sábado, 7 de maio de 2011

Lei do Telhado Branco pode provocar o efeito contrário gerando colonização por fungos

Teto de vidro
A pintura de todos os telhados da cidade de São Paulo de branco para, entre outros objetivos, minimizar a absorção de calor e, consequentemente, reduzir o consumo de energia com o uso de ventiladores e ar-condicionado e o efeito de ilha de calor urbana, como pretende promover um Projeto de Lei aprovado em primeira votação na Câmara Municipal de São Paulo no fim de 2010, pode provocar o efeito contrário.

Isso porque as tintas imobiliárias comuns, à base de água, são muito suscetíveis à colonização por fungos filamentosos, conhecidos como mofo ou bolor, assim como algas e ciabobactérias, que causam o escurecimento de telhados e, consequentemente, o aumento da temperatura interna e do consumo de energia dos imóveis.

E se essas tintas forem aplicadas diretamente nos telhados, sem a completa remoção dos fungos do local, esses microrganismos poderão crescer de forma muito mais acelerada entre as camadas de tinta, apontam estudos realizados no Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (PCC-USP).

Nos últimos anos, um grupo da instituição iniciou as primeiras pesquisas no Brasil sobre biodeterioração – a deterioração de materiais de construção civil por fungos demáceos (que possuem melanina na parede celular) e microrganismos fototróficos, que utilizam luz como fonte de energia e produzem pigmentos que causam o escurecimento em ambientes internos e externos dos imóveis, como o telhado e a fachada, deixando-os com a aparência de “chapas de raio X” de edifícios.

A partir de 2007, por meio do projeto “Microbiologia aplicada à ciência dos materiais de construção civil”, financiado pela FAPESP no âmbito do programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes, eles começaram a estudar a ação desses microrganismos em tintas expostas em diferentes regiões climáticas do Brasil em um laboratório de microbiologia aplicada à ciência dos materiais de construção, implantando na Poli com recursos do projeto.

Os testes em laboratório demonstraram que os biocidas (fungicidas) presentes na formulação das tintas para conferir proteção do produto à ação dos fungos são lixiviados (removidos) pela água.

Já estudos realizados em estações de pesquisa em São Paulo, no Pará e no Rio Grande do Sul revelaram que o clima e as condições ambientais influenciam a velocidade da colonização microbiana em tintas. Embora as tintas em Belém tenham ficado mais escuras pela colonização por organismos fototróficos, as utilizadas em São Paulo foram mais colonizadas pelos fungos.

“É preciso realizar mais pesquisas sobre a durabilidade das tintas desenvolvidas para aplicação em telhados antes de implementar qualquer lei. Porque, com o tempo, sabemos que haverá crescimento microbiano e o escurecimento dos telhados, e isso acarretará mais gastos de repintura e o aumento de lixiviação do biocida das tintas”, disse a pesquisadora coordenadora do projeto, Márcia Aiko Shirakawa.

A pesquisadora ressalva que não há necessidade de o telhado ser da cor branca. Produtos de outras cores podem ser reflexivos e superfícies metálicas também podem ajudar.

Para minimizar os efeitos dos microrganismos sobre as tintas, de acordo com Shirakawa, são necessárias formulações especiais. Uma alternativa é o uso de tintas inorgânicas autolimpantes, com nanopartículas de dióxido de titânio, que possuem capacidade de fotocatálise (aceleramento de uma reação por luz ultravioleta), impedindo a colonização microbiana. Porém, também é necessário estudar a eficiência desses novos materiais e suas suscetibilidades à colonização por microrganismos em condições de clima tropical, como o do Brasil.

“Há outro projeto, também apoiado pela FAPESP, que está sendo realizado no departamento para estudar a formulação dessas novas tintas que aumentam a refletância e diminuem o consumo de energia e que não precisam, necessariamente, ser branca”, disse Shirakawa.

Biocalcificação
Além de tintas, os microrganismos também atuam sobre outros tipos de materiais de construção civil porosos, como concreto, argamassa e fibrocimento contendo fibras orgânicas, utilizados para fabricação de telhas em substituição ao amianto.

Com o objetivo de inibir essa ação deletéria dos microrganismos e de poluentes atmosféricos, cientistas na Europa iniciaram pesquisas sobre a utilização de alguns grupos de microrganismos para proteger os materiais de construção por meio de um processo denominado biocalcificação.

O processo consiste na formação de uma camada de carbonato de cálcio, induzida por microrganismos, dentro da estrutura de poros da superfície de materiais cimentícios, para diminuir a permeabilidade do produto e a biodeterioração.

Na Europa, segundo Shirakawa, a nova técnica já foi utilizada em países como a França para a restauração de edifícios históricos. No Brasil, os pesquisadores da Poli estão estudando em parceria com cientistas do exterior a aplicação da tecnologia pela primeira vez em fibrocimento, para proteger as telhas à base do material da ação dos microrganismos e reduzir o escurecimento superficial por fungos, e em bioconsolidação de solos.

Em vez de cimento, os pesquisadores utilizaram bactérias ureolíticas, que induzem a precipitação de carbonato de cálcio, para cimentar grãos de areia e melhorar a estabilização de solos. Como isso, seria possível prevenir a erosão e aumentar a estabilidade de encostas.

“Estamos avaliando a durabilidade das camadas de carbonato de cálcio expostas às intempéries naturais, porque também não sabemos a eficiência dele ao longo do tempo”, ressaltou Shirakawa.

Fonte: Elton Alisson / Agência FAPESP

Biólogos da USP defendem institucionalização de coleções biológicas em carta publicada na Nature

Coleções dispersas
As coleções biológicas existentes nas universidades, em geral, não estão incluídas no orçamento permanente das instituições. Por conta disso, as limitações de recursos financeiros ameaçam esses acervos de importância capital para o avanço do conhecimento sobre a biodiversidade.

Essa preocupação foi levantada por um grupo de pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP), em uma carta publicada na edição de 21 de abril da revista Nature.

Na carta, Flávio Bockmann, do Departamento de Biologia da FFCLRP-USP, e colegas anunciam que estão reunindo suas coleções dispersas em diversos laboratórios para formar um Museu da Biodiversidade. A iniciativa teve apoio da FAPESP a partir de um projeto selecionado na Chamada de Apoio à Infraestrutura de Pesquisa – Centros Depositários de Informações, Documentos e/ou Coleções Biológicas .

Segundo os autores do texto, as universidades com coleções científicas bem estruturadas fornecem um ambiente muito rico para o treinamento de biólogos que, posteriormente, serão os responsáveis por lidar com as questões mais prementes relacionadas à conservação da biodiversidade.

Bockmann conta que o imenso volume de material biológico armazenado em inúmeras outras universidades brasileiras está aumentando exponencialmente à medida que avança a expansão da educação superior no país.

“É fundamental que outras universidades brasileiras tomem iniciativas semelhantes, consolidando suas coleções e coordenando esforços na pesquisa sobre a biodiversidade para contribuir com as políticas de conservação e gestão”, disse à Agência FAPESP.

Bockmann destaca que geralmente os grandes museus têm origem em coleções científicas que, no início, são acumuladas por pesquisadores nas universidades. Mas, para que se transformem em museu, é preciso que haja investimento que possibilite a sua institucionalização. Caso contrário, o material permanece disperso e muitas vezes só não se perde por esforço dos próprios pesquisadores.

“Hoje, acumulamos um volume muito grande de material científico em coleções que estão em diferentes graus de conservação e manutenção. O problema é que a responsabilidade por esses acervos não está definida nos regimentos das universidades”, explicou.

O problema das coleções biológicas, segundo Bockmann, tem escala mundial. Isso motivou o grupo de pesquisadores a divulgar a iniciativa do Museu de Biodiversidade na Nature. No Brasil, o problema se acentua ainda mais, já que o país detém a maior biodiversidade do mundo.

“Temos grandes coleções espalhadas por universidades de todo o país, muitas vezes sem os devidos cuidados. Além disso, atualmente qualquer estudo de avaliação ambiental no país exige que todo o material coletado seja tombado em coleções científicas. No nosso caso, recebemos material biológico continuamente e a tendência é que o acervo cresça exponencialmente”, afirmou.

Segundo Bockmann, o apoio financeiro da FAPESP permitiu que a FFCLRP-USP desse início ao processo de institucionalização e organização de suas coleções. “A iniciativa da FAPESP de lançar uma chamada especificamente voltada para a gestão de coleções biológicas é exemplar. Nossa expectativa é que o projeto do museu crie um efeito multiplicador, incentivando outras iniciativas semelhantes”, disse.

A manutenção das coleções, segundo Bockmann, exige investimentos de caráter organizacional – incluindo a compra de servidores e a implantação de softwares gestores dos acervos –, além de recursos para a estrutura física.

“Estamos utilizando os recursos, por exemplo, para montar a infraestrutura de armazenamento, incluindo estantes compactadoras modulares e para adquirir um equipamento de raio X digital, muito utilizado na área de vertebrados. Trata-se de uma verba relativamente modesta em relação aos enormes resultados que poderá trazer”, afirmou.

De acordo com o pesquisador, a previsão é que sejam investidos R$ 20 milhões para que a primeira parte do museu seja completada e se torne plenamente operacional. O orçamento total está estimado em R$ 70 milhões.

As coleções da FFCLRP-USP, segundo Bockmann, incluem, por exemplo, um vasto herbário e um importante acervo de peixes, répteis, crustáceos, de paleontologia e de entomologia, além da maior coleção do mundo de abelhas neotropicais sem ferrão. “São mais de dez coleções. Nossa estimativa é que o acervo tenha, no momento, mais de 600 mil exemplares. Mas esse número cresce continuamente”, disse.

Essas coleções, segundo Bockmann, formarão a base para o acervo expositivo do museu. “Essa é uma parte importante do projeto, porque não queremos que o museu seja apenas um pretexto para guardar as coleções para pesquisa. Queremos consolidar um ambiente de pesquisa de alto padrão sobre a biodiversidade e fazer uma exposição pública de nível internacional sobre o tema. O objetivo é ambicioso: queremos um museu que seja um polo de atração em âmbito nacional e não apenas regional”, afirmou.

Fonte:  Fábio de Castro / Agência FAPESP

Bioenergia - um novo cenário de inovação e tecnologia

O Brasil iniciou a safra de cana-de-açúcar em abril e possui hoje mais de 430 unidades produtivas espalhadas por 22 Estados, segundo a Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar).

A história de sucesso que assistimos hoje reflete o processo de amadurecimento e de evolução vividos por esse setor nos últimos anos e a crescente demanda mundial por combustíveis limpos e renováveis.
O grande desafio das empresas de bioenergia é elevar sua competitividade e crescer de forma sustentável, além de reunir as competências necessárias, tangíveis e intangíveis, que garantirão novos investimentos para o aumento da produção brasileira de etanol e de energia elétrica.

Já no médio e longo prazos, entretanto, o diferencial virá do desenvolvimento de tecnologias de ruptura. Há anos o setor busca e obtém maiores ganhos de produtividade nas áreas agrícola e industrial, mas pouco tem sido feito no desenvolvimento de novos produtos e de novas aplicações.

Processos químicos e bioquímicos inovadores permitirão o desenvolvimento de moléculas mais complexas e de maior valor agregado, de forma cada vez mais competitiva, garantindo novas aplicações em diversos setores produtivos.

Outro importante foco deve ser a busca constante por variedades de cana-de-açúcar com performances cada vez mais elevadas.

Os programas de melhoramento das variedades de cana-de-açúcar do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e da Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroalcooleiro (Ridesa), por exemplo, utilizam modernas técnicas para obter variedades mais resistentes a pragas e a doenças, além de maior produtividade agrícola.

A intensificação de parcerias entre empresas, pesquisadores e institutos gerará maior estabilidade e rendimento nas operações agrícolas e industriais. Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento, no entanto, ainda são heterogêneos no país.

É essencial que o processo de inovação seja integrado à reflexão estratégica do setor bioenergético e que as empresas destinem recursos e energia para alavancar seu potencial de criação de valor.

Em março, a boa notícia foi o anúncio, feito pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES) e pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep): o Paiss (Programa de Apoio à Inovação dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico).

Essa iniciativa visa o desenvolvimento, a produção e a comercialização de novas tecnologias para a biomassa, com investimento de R$ 1 bilhão até 2014.

O desafio é fazer com que os recursos de fomento à inovação cheguem, de fato, às mãos das empresas e que todos -governo, iniciativa privada e instituições de pesquisa- trabalhem juntos em tecnologia e em gestão empresarial para que o setor de bioenergia do Brasil se transforme por meio da inovação. (Folha de São Paulo - 06/05/2011)

Fonte: TN Petróleo