quarta-feira, 13 de abril de 2011

Embrapa - Contando Ciência na Web

Só para menores
Crianças de todo o país contam com um novo recurso para aprender mais sobre o universo da pesquisa. Trata-se do site infanto-juvenil Contando Ciência na Web, lançado no dia 4 pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Desenvolvido pelo braço de Informação Tecnológica da instituição, com sede em Brasília, o site reúne algumas das principais tecnologias de cada centro de pesquisa da Embrapa. Esses centros são apresentados em formatos variados, como jogos e livros virtuais, com linguagem adaptada ao público infantil.

Para desenvolver o site, equipes multidisciplinares de profissionais estiveram envolvidas no projeto durante cerca de dois anos. Para isso, o órgão disse que foram testadas as formas mais adequadas de organização das informações para melhor entendimento pelo público-alvo desejado.

Além das crianças, os testes contaram com o acompanhamento de uma comissão de especialistas e de pesquisadores do Ministério da Ciência e Tecnologia, da Universidade de Brasília (UnB) e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

A principal característica do site é a interatividade. Cada item do menu é gerido por uma unidade da Embrapa. Nas sessões “Você sabia?”, “Conheça a Embrapa”, “Brinque com Ciência”, “Biblioteca” e o “Glossário” é possível aprender um pouco mais sobre o universo científico e o mundo da pesquisa. Já no “Bloguinho”, as crianças podem trocar ideias com pesquisadores sobre diversos temas.

Fonte: Agência FAPESP

Superplástico a partir de resíduos vegetais

De resíduos agroindustriais saem fibras que poderão dar origem a uma nova geração de superplásticos. Mais leves, resistentes e ecologicamente corretos do que os polímeros convencionais utilizados industrialmente, as alternativas vêm sendo pesquisadas pelo grupo coordenado pelo professor Alcides Lopes Leão na Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual de São Paulo (FCA - Unesp), em Botucatu.

Obtidas de resíduos de cultivares como o curauá (Ananas erectifolius) – planta amazônica da mesma família do abacaxi –, além da banana, casca de coco, sisal, o próprio abacaxi, madeira e resíduos da fabricação de celulose, as fibras naturais começaram a ser estudadas em escalas de centímetros e milímetros pelo professor Lopes Leão e colegas no início da década de 1990.

Ao testá-las nos últimos dois anos em escala nanométrica (da bilionésima parte do metro), os pesquisadores descobriram que as fibras apresentam resistência similar às fibras de carbono e de vidro. E, por isso, podem substituí-las como matérias-primas para a fabricação de plásticos. O resultado são materiais mais fortes e duráveis e com a vantagem de, diferentemente dos plásticos convencionais originados do petróleo e de gás natural, serem totalmente renováveis.

“As propriedades mecânicas dessas fibras em escala nanométrica aumentam enormemente. A peça feita com esse tipo de material se torna 30 vezes mais leve e entre três e quatro vezes mais resistente”, disse Lopes Leão à Agência FAPESP. Em testes realizados pelo grupo por meio de um acordo de pesquisa com a Braskem, em que foi adicionado 0,2% de nanofibra ao polipropileno fabricado pela empresa, o material apresentou aumento de resistência de mais de 50%.

Já em ensaios realizados com plástico injetável utilizado na fabricação de para-choques, painéis internos e laterais e protetor de cárter de automóveis, em que foi adicionado entre 0,2% e 1,2% de nanofibras, as peças apresentaram maior resistência e leveza do que as encontradas no mercado atualmente, segundo o cientista. “Em todas as peças utilizadas pela indústria automobilística à base de polipropileno injetado nós substituímos a fibra de vidro pela nanocelulose e obtivemos melhora das propriedades”, afirmou.

Além do aumento na segurança, os plásticos feitos de nanofibras possibilitam reduzir o peso do veículo e aumentar a economia de combustível. Também apresentam maior resistência a danos causados pelo calor e por derramamento de líquidos, como a gasolina. “Por enquanto, estamos focando a aplicação das nanofibras na substituição dos plásticos automotivos. Mas, no futuro, poderemos substituir peças que hoje são feitas de aço ou alumínio por esses materiais”, disse Lopes Leão.

Por meio de um projeto apoiado por meio do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE) da FAPESP, a fibra de curauá passou a ser utilizada no teto, na parte interna das portas e na tampa de compartimento da bagagem dos automóveis Fox e Polo, fabricados pela Volkswagen.

Outras indústrias automobilísticas já manifestaram interesse pela tecnologia, segundo Lopes Leão. Entre elas está uma empresa indiana, cujo nome não foi revelado, que tomou conhecimento da pesquisa após ela ser apresentada no 241º Encontro e Exposição Nacional da Sociedade Norte-Americana de Química (ACS, na sigla em inglês), que ocorreu no final de março em Anaheim, nos Estados Unidos.

Fibras mais promissoras
Segundo o coordenador da pesquisa, além da indústria automobilística as nanofibras podem ser aplicadas em outros setores, como o de materiais médicos e odontológicos. Em um projeto realizado em parceria com a Faculdade de Odontologia da Unesp de Araraquara, os pesquisadores pretendem substituir o titânio utilizado na fabricação de pinos metálicos para implantes dentários pelas nanofibras.

Em outro projeto desenvolvido com a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp de Botucatu, o grupo utiliza as nanofibras para desenvolver membranas de celulose bacteriana vegetal. Em testes de biocompatibilidade in vivo, realizados com ratos, os animais sobreviveram por seis meses com o material. “Nenhuma pesquisa do tipo tinha conseguido atingir, até então, esse resultado”, afirmou Lopes Leão.

Por meio de outros projetos financiados pela FAPESP, o grupo da Unesp também está estudando a utilização de fibras naturais para o desenvolvimento de compósitos reforçados e para o tratamento de águas poluídas por óleo. De acordo com o coordenador, entre as fibras de plantas, as do abacaxi são as que apresentam maior resistência e vocação para serem utilizadas na fabricação de bioplásticos.

Dos materiais, o mais promissor é o lodo da celulose de papel, um resíduo do processo de fabricação que as indústrias costumam descartar em enormes quantidades e com grandes custos financeiros e ambientais em aterros sanitários. Para utilizar esse resíduo como fonte de nanofibras, Lopes Leão pretende iniciar um projeto de pesquisa com a fabricante de papel Fibria em que o lodo da celulose produzido pela empresa seria transformado em um produto comercial. “É muito mais simples extrair as nanofibras desse material do que da madeira, porque ele já está limpo e tratado pelas fábricas de papel”, disse.

Para preparar as nanofibras, os cientistas desenvolveram um método em que colocam as folhas e caules de abacaxi ou das demais plantas em um equipamento parecido com uma panela de pressão. O “molho” resultado dessa mistura é formado por um conjunto de compostos químicos e o cozimento é feito em vários ciclos, até produzir um material fino, parecido com o talco. Um quilograma do material pode produzir 100 quilogramas de plásticos leves e super-reforçados.

Fonte: Agência Fapesp

Um bestiário arcaico – Fábulas e imagens de animais na poesia de Arquíloco

Fragmentos gregos
Os animais tinham uma presença marcante na obra de Arquíloco, um dos mais importantes poetas da Grécia antiga, nascido na ilha de Paros na primeira metade do século 7 a.C. Os fragmentos de seus escritos que contêm fábulas e imagens de animais foram o mote para um estudo realizado pela professora Paula da Cunha Corrêa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas  da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).

O resultado foi o livro Um bestiário arcaico – Fábulas e imagens de animais na poesia de Arquíloco, lançado com apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicação. A obra desvenda a conotação do caráter dos animais – bastante diferentes para os gregos antigos – nos fragmentos de Arquíloco, comentando não apenas os poemas, mas também as fontes e os processos de transmissão dos textos ao longo dos séculos.

Corrêa já havia lançado, em 2009, o livro Armas e Varões – A Guerra na Poesia de Arquíloco, que se dedicava ao comentário da obra de Arquíloco sob o ponto de vista da guerra – outra temática recorrente em seus poemas. A autora dedica suas pesquisas ao poeta de Paros desde o doutorado, concluído em 1995 na USP. Em 2001, fez também pós-doutorado sobre o tema na Universidade de Oxford (Inglaterra), com Bolsa da FAPESP.

“Embora seja um poeta fundamental da literatura grega, não há um comentário exaustivo de seus poemas. Por isso, resolvi comentá-los a partir de enfoques temáticos. Vários de seus poemas narram fábulas e há um grande grupo deles em que aparecem imagens ou metáforas de animais, geralmente utilizados em poemas eróticos”, disse à Agência FAPESP.

Segundo ela, depois de Homero e Hesíodo – que viveram no século 8 a.C –, Arquíloco é o primeiro poeta grego. “Ele é o primeiro autor da chamada lírica grega, considerando-se a classificação moderna que divide a literatura entre teatro, poesia épica e poesia lírica. Apesar disso, seus gêneros característicos eram o jambo e a elegia”, afirmou.

Os antigos colocavam Arquíloco no mesmo patamar de Homero, mas hoje o poeta de Paros é bem menos conhecido do que o autor de Ilíada e Odisseia.

“Sobrou muito pouco da obra de Arquíloco, cerca de 300 fragmentos. Provavelmente isso ocorreu porque os versos em jambos, além da conotação erótica, têm uma moralidade que mais tarde poderia ser chocante para os cristãos”, indicou.

Além da possível rejeição da Igreja, segundo Corrêa, na própria antiguidade os poemas de Arquíloco podem ter sido mal interpretados, já que o jambo é um gênero que tem afinidade com a comédia, em sua forma de zombar da sociedade e abordar temas como sexo.

“O ‘eu lírico’ presente em um poema em primeira pessoa é um personagem criado pelo autor. Mas, eventualmente, poderia ser lido como se fosse um dado autobiográfico. Então, muitos podiam pensar que o próprio poeta fazia as coisas descritas, que podiam ser consideradas indignas”, disse.

Segundo Corrêa, a obra se divide em duas partes. Na primeira, dedicada às fábulas, a autora fez uma análise de cada um dos poemas, a partir de um ponto de vista filológico. A segunda parte consiste em um levantamento do caráter dos animais desde a Antiguidade.

“São fragmentos que nos chegaram, em alguns casos, por transmissão direta – por meio de papiros do segundo século a.C. – ou, nos casos mais frequentes, por transmissão indireta, por meio de comentários e outras obras que nos chegaram pela tradução manuscrita ao longo da Idade Média”, explicou.

Para cada um dos poemas, a autora fez um levantamento das edições de origem e apresenta comentários. Nem todos os versos estão completos. “Ao estudar os poemas, percebi que a conotação ética – o ethos, ou seja, o caráter – dos animais era em alguns casos fundamental para a compreensão do próprio poema. A raposa, por exemplo, aparecia com uma conotação muito diferente da nossa, que remete a uma esperteza maldosa, pejorativa”, disse.

Fonte: Fábio de Castro / Agência FAPESP