terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Nanotecnologia - Mercado brasileiro tem grande potencial de crescimento

O mercado brasileiro de produtos com base em nanotecnologia, desenvolvidos originalmente no país, somou no ano passado cerca de R$ 115 milhões. A pesquisa (“nanotecnologia e a competitividade da indústria brasileira”) feita pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), a qual a Agência Brasil teve acesso, não considera as tecnologias trazidas de matrizes para aplicações no país e nem os produtos importados.

O presidente do Conselho Empresarial de Tecnologia da Firjan, Fernando Sandroni, disse que o mercado de produtos nanotecnológicos desenvolvidos no Brasil ainda é pequeno em relação à estimativa de negócios gerados pela nanotecnologia no mundo em 2010, da ordem de US$ 383 bilhões.

Sandroni acredita, entretanto, que o potencial de crescimento é muito grande, considerando-se que a nanotecnologia é incentivada pelo governo federal devido à sua importância para o setor produtivo nacional. O tema está incluído no Plano de Ação 2007/2010: Ciência, Tecnologia e Inovação (Pitce) e na Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP).

“O próprio governo elegeu a nanotecnologia como um campo de atuação tecnológica prioritário para ser atendido pelos programas federais”, disse. Para dinamizar o setor, na parte de tecnologias desenvolvidas no Brasil, Sandroni afirmou que têm de ser feitas novas e mais aprofundadas avaliações de mercado. “A Firjan mostrou que há um caminho a ser trilhado”.

Na avaliação dele, é preciso também que se verifique se os estímulos que estão sendo dados estão corretos. “Essa é uma avaliação que o próprio governo tem que fazer, em termos dos recursos que ele está colocando e quais são os impactos. Porque isso tudo ainda é muito novo no país”.

Sandroni ressaltou a importância, em 2011, de se verificar como o corte de recursos atingirá o Ministério da Ciência e Tecnologia (MC&T), afetando os diversos campos de pesquisa e os estímulos para a própria nanotecnologia.

Com base em dados do MC&T do ano passado, existem no Brasil em torno de 150 empresas que desenvolvem algum produto ou prestam serviços a partir de conhecimentos em nanotecnologia. Elas englobam empresas especializadas na produção de nanomateriais, como as nanopartículas; empresas com foco na fabricação de produtos intermediários, entre os quais revestimentos e tecidos; e companhias que visam ao consumidor final e se dedicam a produtos dos ramos de cosméticos e roupas, entre outros segmentos.

Sandroni disse que as principais áreas de aplicação da nanotecnologia no Brasil são a indústria farmacêutica e de cosméticos. Apesar disso, destacou que a nanotecnologia permeia atualmente toda a indústria de transformação, porque está muito ligada à área de materiais, atingindo outros setores específicos. “Portanto, é um campo em que a gente tem que acordar e investir”.

O desenvolvimento de nanotecnologias nacionais pode vir, inclusive, no futuro, a baratear produtos para o consumidor final. Por isso, é preciso que haja uma produção eficiente e nacional. “Porque só assim você pode ter um equilíbrio de preços em face do mercado internacional”, prevê Sandroni. E apontou que o país terá que fabricar produtos derivados da nanotecnologia, porque isso atingirá cada vez mais a matriz industrial brasileira.

A capacitação dos quadros técnicos é uma das exigências para o desenvolvimento da nanotecnologia no Brasil. O presidente do Conselho Empresarial de Tecnologia da Firjan entende que essa sempre foi uma carência no Brasil e ocorre não só nesse campo. “Basta ver o que está acontecendo na área de engenharia. Basta o Brasil crescer um bocadinho e todo mundo diz logo: está faltando engenheiro”. Avaliou que o problema de formação de quadros especializados é geral no país e, certamente, vai atingir a nanotecnologia. Daí a necessidade de cursos de capacitação. “Espero que esse seja um processo contínuo e crescente”.

Fonte: Agência Brasil

Atividade física reduz sintomas e melhora da qualidade de vida de pessoas com asma


Effects of Aerobic Training on Psychosocial Morbidity and Symptoms in Patients With Asthma 

Mais fôlego e autoestima

O estudo Efeito do treinamento aeróbico sobre a morbidade psicossocial e sintomas em pacientes com asma: um estudo clínico aleatorizado, realizado por Felipe Augusto Rodrigues Mendes, doutorando da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) com Bolsa da FAPESP, recebeu menção honrosa na categoria Trabalho Publicado na edição 2010 do Prêmio de Incentivo em Ciência e Tecnologia para o Sistema Único de Saúde (SUS).

Desde 2002, a iniciativa do Ministério da Saúde distingue trabalhos divididos em cinco categorias: Tese de Doutorado, Dissertação de Mestrado, Trabalho Científico Publicado, Monografia de Especialização ou Residência e Incorporação de Conhecimentos Científicos no SUS. Os temas abordados devem estar focados no desenvolvimento das políticas públicas de saúde no Brasil.

O objetivo do trabalho de Mendes, fruto do mestrado "Efeito do treinamento aeróbico sobre a morbidade psicossocial e sintomas em pacientes com asma: um estudo clínico aleatorizado", era descobrir que benefícios as atividades físicas poderiam proporcionar aos pacientes asmáticos.

“Somos o oitavo país com o maior número de ocorrências de asma no mundo. As causas dessa inflamação nos pulmões estão associadas a fatores genéticos e ambientais”, disse Mendes.

“Os resultados do estudo mostram que os pacientes que realizaram atividade física tiveram uma redução de 66% nos sintomas de asma quando o exercício foi praticado de forma moderada e isso mostra que o exercício físico pode ser um aliado no controle da doença”, indicou.

De acordo com o orientador do trabalho, Celso Fernandes de Carvalho, professor de Fisioterapia Respiratória do Curso de Fisioterapia da FMUSP, o paciente asmático mais ansioso e deprimido abandona o uso da medicação prescrita pelo médico mais facilmente. “Ele é o que mais custa para o Sistema Único de Saúde”, disse.

O estudo integrou o Projeto Temático "Mecanismos de inflamação pulmonar na asma: estudos clínicos e experimentais", coordenado por Milton de Arruda Martins da FMUSP.

O trabalho de Mendes analisou 101 pessoas com idade média de 35 anos. “Setenta por cento eram mulheres, mas isso é uma característica da doença. Quando o indivíduo é jovem, a asma é predominante em meninos, em adultos ocorre o inverso”, explicou Carvalho.

Do total, Mendes e colegas dividiram os participantes em dois grupos: um que não fazia exercício físico e outro que praticava exercícios aeróbicos duas vezes por semana, como a caminhada.

Após três meses de treinamento físico de intensidade moderada a intensa e medicação controlada, o grupo observou uma melhora significativa não só nos sintomas da asma, como na qualidade de vida pacientes.

De acordo com Carvalho, os pacientes que apresentavam sintomas a cada dois dias, totalizando 15 dias com sintomas por mês, passaram a ter entre um e dois dias de sintomas da doença por semana, somando seis no mês.

Menos inflamação

Outra boa notícia foi a melhora no convívio social. Com a asma controlada e a capacidade de realização das atividades diárias, os cientistas observaram que a prática de exercícios reduziu significativamente o quadro de depressão e ansiedade nos pacientes.

“Devido ao fato de os pacientes não saberem quando ocorrerá a próxima crise, os pacientes asmáticos são mais ansiosos e depressivos do que a população sem asma”, afirmou Mendes.

Segundo ele, o próximo passo é tentar descobrir o mecanismo de ação da atividade aeróbica na redução da inflamação pulmonar. Esse é um dos temas que vem trabalhando na sua tese.

O artigo Effects of Aerobic Training on Psychosocial Morbidity and Symptoms in Patients With Asthma (doi:10.1378/chest.09-2389), de Felipe A. R. Mendes e outros, pode ser lido por assinante.

Fonte: Mônica Pileggi / Agência FAPESP

Goldemberg - "Domínio do urânio não é comercialmente justificável"

Domínio do ciclo de produção de urânio não é comercialmente justificável, diz Goldemberg ao Inovação

O Brasil deverá investir R$ 3 bilhões, em oito anos, na construção de duas novas fábricas nacionais, capazes de fazer todo o ciclo de produção de urânio para abastecimento das usinas nucleares nacionais. O anúncio, feito pelo ministro de Minas e Energia, Edson Lobão, foi noticiado pelo jornal Valor Econômico em 4 de fevereiro, um dia depois da apresentação do Plano Nacional de Mineração 2030 (PNM), programa do MME que norteará o setor mineral brasileiro nos próximos 20 anos. A iniciativa de tornar o País capaz de fazer todo o ciclo de produção do combustível nuclear é vista com reservas por um dos maiores especialistas no assunto energia, o físico José Goldemberg, da Universidade de São Paulo (USP), que recebeu em 2008 o Prêmio Planeta Azul, considerado o Nobel do Meio Ambiente. “Se estamos interessados em energia elétrica, o Brasil tem outras opções. A energia nuclear, para o caso brasileiro, claramente não é prioritária”, afirma ele, que foi um dos participantes da criação do Proalcool nos anos 1970. Para o físico, a demanda por urânio não pagará pelos investimentos necessários, o que torna o negócio, do ponto de vista comercial, pouco justificável.

No PNM 2030 consta o objetivo do governo de aumentar a exploração do urânio no Brasil. Em 2009, o Brasil produziu 406 toneladas do minério. Pelos cálculos do ministério, nos próximos 20 anos serão necessárias 1.000 toneladas por ano de urânio para o País poder abastecer as usinas de Angra I, II e III – esta última ainda em construção e prevista para operar em 2015 –, além de outras quatro usinas previstas. O documento diz ser “urgente o desenvolvimento de políticas que consolidem os estudos para a ampliação da produção nacional de urânio”, explicando, ainda, que “os estudos de oferta e demanda apontam para um déficit de produção mundial nos próximos anos, impactando os preços do urânio no mercado internacional” .

Goldemberg sempre foi um crítico da energia nuclear como alternativa para o Brasil. Para ele, a hidroeletricidade e o uso da energia produzida pelas usinas sucroalcooleiras com a queima do bagaço de cana-de-açúcar são soluções mais adequadas para aumentar a geração de energia no Brasil. “É possível que, no futuro, a energia nuclear seja importante para o Brasil e, por isso, é recomendável que o Brasil acompanhe o desenvolvimento tecnológico no setor. Ter mais um ou dois reatores não é dinheiro posto fora, pois estamos acompanhando uma tecnologia que está sendo usada em outros países e que talvez possa vir a ser interessante para o País”, diz. “Se daqui 30 ou 40 anos, o Brasil tiver 10, 20 reatores, precisará de urânio enriquecido aqui, do contrário deverá importar, o que vai criar nova dependência”, pondera.

Contudo, ele discorda da tese defendida por quem é do setor nuclear a respeito da exploração das reservas de urânio hoje. “O establishment nuclear diz que, como o Brasil tem grandes reservas de urânio, deveria enriquecê-lo para se tornar independente e possivelmente um exportador, mas esse argumento é um sonho numa noite de verão porque existe minério de urânio em vários países do mundo”, aponta. “São maneiras de o setor nuclear se tornar um setor importante, mas a lógica econômica é completamente ausente nesse raciocínio”, comenta.

Os cálculos indicam que existem 7 milhões de toneladas de urânio no planeta. Hoje, a reserva conhecida no Brasil é de 310 mil toneladas, o que coloca o Brasil na 6ª posição no ranking mundial de urânio, atrás de Mongólia, Estados Unidos, África do Sul, Canadá e Rússia. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) responsável pelo setor, estima que outras 800 mil toneladas do minério estejam escondidas sob o solo brasileiro, mas ainda não há comprovação dessas reservas. “O Brasil tem reservas razoáveis, mas não são grandes reservas, e não está faltando urânio no mundo”, diz Goldemberg.

“Há todo um problema de se criar uma indústria de mineração de urânio. É uma tarefa grande, precisa de grandes investimentos, mas esse não é o principal gargalo, e sim o enriquecimento de urânio”, pondera o físico da USP. “Precisa ter equipamentos especiais, as ultracentrífugas que o Brasil até desenvolveu [ficam em Resende (RJ)] operam em escala um pouco superior à escala piloto. Para produzir urânio enriquecido em escala realmente industrial precisaria ampliar essas instalações e, com menos de US$ 1 bilhão, não se faz uma usina de enriquecimento viável economicamente”, explica. “É uma construção complicadíssima: envolve enormes somas de investimentos, e uma grande incerteza sobre se haveria, efetivamente, mercado para esse urânio. Nossa demanda atual é pequena e não justifica esse investimento”, acrescenta.

Os seguidos pronunciamentos das autoridades sobre o Brasil dominar todas as etapas da produção do combustível nuclear, exceto o enriquecimento, são parcialmente verdadeiros. Além de fazer o enriquecimento, o País também precisa desenvolver aqui, em maior escala, uma outra etapa hoje igualmente feita no exterior, a da conversão. Atualmente, na mina de Caetité, na Bahia, a Indústrias Nucleares do Brasil (INB) faz a mineração do urânio e o refinamento, em que as pedras são mergulhadas em um ácido para separar o urânio das demais impurezas, produzindo um pó chamado de yellow cake. O País tem uma segunda mina, a de Santa Quitéria, no Ceará, mas o governo aguarda a licença ambiental e nuclear para começar a extração.

A seguir, o yellow cake é combinado com vários produtos químicos para formar o gás hexafluoreto de urânio, na etapa que se chama conversão. Atualmente, a conversão para gás é feita no Canadá. Uma planta piloto está sendo construída no Centro Experimental Aramar, em Iperó (SP), da Marinha, para fazer essa etapa da produção. Em 2000, a Marinha conseguiu a licença ambiental para a construção da planta piloto, mas os sucessivos cortes orçamentários atrasaram o cronograma da obra – o último prazo divulgado para inauguração é março deste ano. Para atender uma demanda maior, a planta da Marinha não será suficiente. Já existem planos de construção de uma usina maior para a conversão, em Resende (RJ), mas apenas para construir essa planta piloto em São Paulo o País demorou mais de uma década.

Após a fase da conversão para gás é que vem a tão citada etapa do enriquecimento do urânio, em que se usam as ultracentrífugas. Elas formam uma cascata que gira o gás e separa o urânio 235 do urânio 238. Ambos são encontrados juntos na natureza, mas o que interessa para a geração de energia nuclear é o urânio 235, pois o outro não tem grande poder de sofrer a fissão nuclear – a operação de quebra do núcleo do átomo que libera a energia.

O Brasil domina tecnologicamente essa etapa, e desenvolveu ultracentrífugas próprias. Os especialistas explicam que a tecnologia nacional é inovadora em relação ao que existe em outros países porque utiliza materiais e sistemas que eliminam o atrito, o que permite que as ultracentrífugas façam movimentos de rotação muito mais velozes e reduz a necessidade de paradas e trocas. Goldemberg, contudo, diz que há equipamentos mais modernos em outros países. Hoje, a maior parte do enriquecimento do urânio brasileiro é feito na Europa, pela empresa Urenco. As últimas etapas do ciclo do combustível nuclear são feitas no Brasil: a reconversão do material enriquecido em pó e a montagem do elemento combustível para envio às usinas são feitas pela INB em Resende.

Assim como no caso da planta piloto capaz de fazer a conversão para gás, o problema da fase do enriquecimento é a escala da operação. Apenas três de dez cascatas planejadas para serem construídas em Resende, em três décadas de projeto, entraram em operação. A primeira cascata de ultracentrífugas entrou em operação em maio de 2006, a segunda em novembro de 2009 e a terceira foi inaugurada em 30 de dezembro de 2010 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em uma cerimônia feita por teleconferência que ligou o Planalto, em Brasília, aos funcionários da INB em Resende. O restante da planta ainda está em fase de instalação. Com a inauguração dessa terceira cascata, a INB passou a ter capacidade de enriquecer apenas cerca de 10% do total do urânio minerado no Brasil. O restante continua sendo enriquecido no exterior. Países autossuficientes no setor nuclear têm cascatas de ultracentrífugas na escala de milhares.

Governo quer atrair empresas privadas
Uma das ideias em discussão no governo federal é ampliar a participação do setor privado no setor de energia nuclear, hoje reservado para o poder público. Segundo a reportagem do jornal Valor, o Palácio do Planalto quer ampliar a identificação e a exploração de novas jazidas, hoje um monopólio da União. Para isso, deve mudar o marco regulatório do setor, alterando regras da exploração mineral. Uma das mudanças prevê que, ao encontrarem jazidas de urânio, as companhias que estejam explorando outros minérios informem imediatamente a União sobre o que foi encontrado. Se não o fizerem, estarão cometendo um crime. De acordo com o jornal, o ministro Lobão informou que é comum empresas encontrarem urânio junto de outros minérios e não comunicarem a União para não terem a concessão suspensa. Caso a jazida de urânio encontrada seja maior do que o mineral achado pela empresa mineradora, a União poderá pagar uma indenização ou propor a exploração em parceria.

Uma primeira iniciativa no sentido de atrair o setor privado foi tomada em 2010, quando a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) organizaram o 1º Encontro de Negócios de Energia Nuclear, realizado no dia 23 de novembro, em São Paulo. Já houve também uma ação concreta nesse sentido: no processo de licitação da jazida de Santa Quitéria, no Ceará, conduzido pela INB, foi feita uma parceria com a empresa Galvani para a produção de urânio e ácido fosfórico. Goldemberg vê como positivo o aumento da participação privada. “Seria uma atitude salutar, daria uma lógica mais empresarial. Se a iniciativa privada demonstrar interesse e fizer investimento, terá de competir no mercado internacional, como ocorre em outros setores econômicos”, conclui.

Fonte: Janaína Simões / Inovação Unicamp