segunda-feira, 4 de abril de 2011

Amélia Hamburger morre aos 78 anos

Amélia Império Hamburger, física, pesquisadora, professora e divulgadora da ciência, morreu na sexta-feira (1º/4), aos 78 anos. Após velório no Centro Universitário Maria Antônia, o sepultamento foi realizado no sábado, no Cemitério do Morumbi.

Era casada com o também físico Ernst Wolfgang Hamburger, que conheceu na Universidade de São Paulo (USP). Deixou os filhos Esther, professora da Escola de Comunicações e Artes da USP, Sônia, produtora de cinema, Vera, arquiteta, Cao, cineasta, e Feco, fotógrafo.

Amélia nasceu em 12 de julho de 1932, em São Paulo, filha de Domingos Império e Helena Fausto Império. Os avós paternos e maternos chegaram na capital paulista no fim do século 19, vindos da Itália.

Após concluir a graduação no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), em 1954, fez o mestrado na Universidade de Pittsburgh (1956-1960) e o pós-doutorado (1966-1967) na Universidade Carnegie Mellon, nos Estados Unidos.

Foi professora no IF-USP, onde foi responsável pela organização dos arquivos históricos do instituto. Essa experiência – além do contato pessoal com alguns dos principais pioneiros da física no Brasil – motivou a produção de importantes textos sobre a história da física, da ciência e da arte no país.

Entre seus livros estão Obra científica de Mario Schenberg (Edusp, 2008), vencedor do Prêmio Jabuti em 2010 na categoria de Ciências Exatas, Tecnologia e Informática, e A ciência e as relações Brasil-França 1850-1950.

Também organizou obras sobre a história da FAPESP: FAPESP 40 anos – Abrindo Fronteiras (FAPESP/Edusp, 2004) e FAPESP, uma história de política científica e tecnológica (FAPESP, 1999), este último com Shozo Motoyana e Marida Nagamini.

Com Regina Katz lançou Flávio Império (Edusp, 1999), da série Artistas Brasileiros, sobre o diretor de teatro e pintor de quem era irmã mais velha.

“Amélia foi uma grande amiga que teve uma vida de incansável atividade em prol da ciência no Brasil. Teve papel determinante na criação da Sociedade Brasileira de Física, foi autora de artigos, livros e exposições fundamentais. Sempre defendeu o valor da pesquisa básica e o progresso da ciência, no sentido mais amplo e não utilitário que esta expressão possa ter. Foi cientista, militante e, ainda por cima, junto com o Ernst, criou uma familia de pessoas educadas e inteligentes. Cientista, militante, mãe e avó, sua ausência será muito sentida”, disse Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.

Física contemporânea
“Professora da USP durante mais de 40 anos, Amélia realizou trabalhos em diversas áreas da física e incursões importantes pela epistemologia e história das ciências. Era uma colega de interesses amplos, espírito crítico, e muita generosidade, com influência marcante sobre todo o seu ambiente de trabalho. Foi herdeira direta do período glorioso da construção da física contemporânea na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP”, disse Silvio Salinas, professor do IF-USP e autor, com Antônio Augusto Videira, de A cultura da física: contribuições em homenagem a Amélia Império Hamburger (Livraria da Física, 2001).

Salinas conta que Amélia, no início da carreira, trabalhou em física nuclear experimental, no antigo acelerador Van der Graaf e nos laboratórios da Universidade de Pittsburgh.

“Um dos artigos dessa época, produto da sua dissertação de mestrado, foi publicado no primeiro número de Physical Review Letters. Mais tarde, voltou a Pittsburgh para trabalhar na investigação de propriedades de cristais magnéticos a baixas temperaturas”, disse.

“Amélia publicou artigos e orientou diversas dissertações sobre questões epistemológicas, principalmente sobre tópicos de mecânica clássica e termodinâmica, que certamente mereceriam maior atenção”, afirmou Salinas.

Memória
"Lamentamos profundamente o falecimento da professora Amélia Império Hamburger, que contribuiu de maneira tão importante para a organização e divulgação da memória da atuação da FAPESP, como em FAPESP 40 anos – Abrindo Fronteiras, que reúne os marcos documentais da história da Fundação", disse Celso Lafer, presidente da FAPESP.

"Dizia Santo Agostinho que a sede da alma é a memória. O historiador francês Pierre Norat fala da importância dos locais de memória que precisam e devem ser preservados. A FAPESP tem sido, no correr dos anos, um importante local da memória da pesquisa e da ciência no Estado de São Paulo, com repercussão nacional. O trabalho da professora Amélia contribui para a criação desse local de memória e para manter viva a alma da instituição", destacou.

Memória e história

Memória
É a chave para a relação entre o insight
que enuncia as Leis da Natureza
E o que o enunciado diz do
acontecer na Natureza

A medida do pensamento
é um acontecer
no pensamento.
Do gesto à palavra
palavra e gesto realizando
cinéticas nas redes da mente.
Do pensamento à natureza
que, de volta, nos constitui.

Em movimento de informação
incessante
interior - exterior - interior.
Os significados emergindo
externos e internos
simultaneamente.
O já vivido vai se constituindo na memória.
Essa memória interior
mergulhada no mundo exterior.

Essa memória traz a origem da compreensão
das interações para o conhecimento.

O trazer a memória para nova ação
revela que a história contida no acontecer
contém todas as ligações
do fazer humano
no mundo.

Amélia Império Hamburger, 2004

Em Boletim de Ideias nº 4, FAPESP, março de 2007

Fonte: Agência FAPESP

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