segunda-feira, 21 de março de 2011

UFRJ - Estudo desenvolve suplementos alimentares para melhorar desempenho físico de atletas

Quantos anos a mais Ronaldo, o fenômeno, permaneceria nos campos se tivesse recebido, diariamente, suplementos que ajudassem na recuperação de seu corpo após cada treinamento e jogo? Quantas lesões teriam sido evitadas e quantos jogos a mais ele teria jogado? Isso não dá para saber ao certo, mas, visando melhorar o desempenho de atletas, a pesquisadora Anna Paola Pierucci já desenvolve um estudo para gerar esses que seriam os melhores amigos dos profissionais do esporte.

Nutricionista e professora do Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (INJC – UFRJ), Anna Paola Pierucci comanda, no Laboratório de Desenvolvimento de Alimentos para Fins Especiais e Educacionais (LabDAFEE), um estudo que visa a orientação nutricional e suplementação alimentar para formação de atletas de alto desempenho. O estudo foi desenvolvido com biomaterias ativos, micro e nanoencapsulados, e seu campo de estudo envolve pentatletas de base que treinam na Federação de Pentatlo Moderno do Estado do Rio de Janeiro (FPMERJ).

No caso específico dessa pesquisa, os chamados biomateriais são transportadores (pequenas cápsulas) que levam nutrientes, através da membrana do intestino, até o seu destino dentro do organismo. Eles só começam a afrouxar a sua estrutura dentro do intestino. “Existem substâncias que são muito instáveis. Elas acabam degradando-se antes de chegar ao seu final esperado. Encapsular, logo, é proteger essas vitaminas dos outros componentes do alimento que vai recebê-las, e vice versa, pois elas também podem provocar alterações nas propriedades do alimento”, explica Anna Paola.

A grande questão do trabalho é se as partículas das vitaminas devem ser micro ou nano, expõe a pesquisadora. A diferença entre eles é basicamente o tamanho. O nano é mil vezes menor que o micrometro, mas, segundo a pesquisadora, isso faz toda a diferença: “Teoricamente, o que se vê é que as substâncias micro não são absorvidas pelas células, pois precisam ser liberadas antes, devido ao seu tamanho. Alguns estudos, na literatura, já mostraram que, ao reduzir essas estruturas para nano, é possível uma absorção direta, ainda encapsulada”, detalha.

A expectativa é grande. “Se comprovado para esse caso em especial o que a literatura afirma, poderemos garantir as propriedades da substância até ela entrar na corrente sanguínea e, dependendo do material que está encapsulando pode encaminhar para algum órgão específico”, anima-se Anna Paola Pierucci. “A nossa grande intenção é chegar nessa escala nano, para verificar de fato se há essa diferença na captação desses materiais”, declara a pesquisadora.

Por que utilizar atletas no estudo?

A nutricionista e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Anna Paola Pierucci, segundo ela própria, sempre trabalhou com a parte de nutrição de atletas. Logo, esse know-how adquirido contou na hora de escolher o seu campo de estudo. Segundo ela, a sua experiência facilita a aplicação das substâncias envolvidas e a avaliação dos efeitos desse estudo.

“Atletas, teoricamente, são pessoas saudáveis. Então, para você interferir e administrar uma substância é mais fácil que em pessoas enfermas”, declara a professora. Segundo sua explicação, como os atletas treinam intensamente e as atividades são muito desgastantes, eles entram no chamado estresse oxidativo. Esse fenômeno é caracterizado pela produção de uma série de moléculas oxidadas, podendo provocar morte celular, lesões, dores musculares e outros malefícios.

As famosas lesões no joelho de jogadores de futebol são em parte ocasionadas por esse estresse oxidativo, ressalta a pesquisadora. Além disso, de acordo com ela, esse fenômeno reduz a capacidade de se exercitar do atleta. Os que competem seguidamente, como é o caso dos jogadores de futebol, dos pentatletas, tem treinos diários e desgastantes. “O quanto mais rápido eles se recuperarem daquele treino, melhor será o desempenho atlético no dia seguinte”, afirma Anna Paola.
Dessa forma, o produto desenvolvido tem essa intenção: acelerar a recuperação pós-treino ou competição, de forma que o desportista possa estar restabelecido para a nova competição ou o novo treinamento dele, no dia seguinte. “O estudo é com atletas, mas provavelmente poderá ser utilizado no tratamento de outras doenças. Para comprovar, teremos que utilizar outro estudo. Mas se nós percebemos o efeito antioxidante frente à atividade física, provavelmente, também observaremos frente a uma patologia”, acredita Anna Paola Pierucci.

Gel enérgético

O início desse estudo se deu com o desenvolvimento do alimento com o gel, em 1999, para a dissertação de mestrado da pesquisadora. “Eu desenvolvi esse gel energético para ser utilizado na recuperação de atletas, após eventos esportivos ou treinamentos muito intensos. Por conter carboidratos, ele pode acelerar a reposição de energia na forma de glicogênio para o músculo”, declara.

Depois disso, Anna Pierucci resolveu testar a introdução de partículas antioxidante, como as vitaminas C e E, nesse alimento em gel. Contudo, ela percebeu que dessa forma, as vitaminas degradavam com muita rapidez. “Elas interagem entre si. A vitamina C protege a vitamina E contra oxidação, mas ao fazer isso ela própria se oxida, degradando-se”, explica. Foi assim que surgiu a idéia de encapsular essas as vitaminas e introduzi-las no gel, em seu trabalho de doutorado: o processo de encapsulamento dessas vitaminas.

Na sequência, veio o estudo com atletas de futebol, na orientação de uma dissertação de mestrado. A intenção era ver se essas vitaminas encapsuladas teriam uma ação diferenciada no combate ao estresse oxidativo. Para isso, a pesquisa selecionou atletas de elite de futebol, juniores. O resultado do estudo mostrou que após um jogo, o consumo dessa vitamina encapsulada e inserida dentro do gel, pode criar um efeito oxidante prolongado, maior que quando oferecida de forma livre.

“Isso é vantajoso, pois quando o atleta sai do jogo ele está em uma situação de estresse oxidativo que se prolonga, às vezes por um ou dois dias. Então, quando você tem um produto administrado, gradativamente, ao longo de um determinado tempo, isso é interessante, pois à medida que o organismo vai produzindo radicais livres, a vitamina vai atuando sobre eles. Não é aquela coisa pontual”, explica Anna.

O estudo com atletas do pentaclo moderno é o estágio mais avançado desse estudo que começou em 1999. Os desgastes provocados pela carga excessiva de atividade, podem diminuir o seu tempo de carreira do profissional. É difícil comprovar isso, assume ela, é um estudo que demanda tempo, longitudinal, grande, mas a intenção final do estudo é essa: proporcionar ao atleta uma recuperação rápida, para que ele possa manter, ou até mesmo, melhorar a sua performance.

Diferença para os outros tipos de suplemento
De acordo com a professora do Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Anna Paola Pierucci, os suplementos disponíveis no mercado, não possuem a mesma função que os que estão em desenvolvimento no laboratório. “A aplicação desses produtos desenvolvidos não é para produzir aumento de massa muscular ou emagrecimento. Eles são específicos para os atletas que apresentam alto desgaste físico, durante a carga de treinamento ou competição. Não é para ser consumido por pessoas comuns, é para atletas” informa.

Fonte: Luana Severiano / Olhar Vital - UFRJ

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