sábado, 19 de março de 2011

UFRJ - Energia Nuclear - Muitos cuidados, bons resultados

Polêmica desde sua descoberta, a radiação, particularmente na figura da usina nuclear, divide opiniões ao redor do mundo. Com sua grande capacidade de liberar energia, é defendida pela classe científica em sua maioria. Mas como tudo tem um preço, a radiação, altamente danosa ao nosso organismo, é duramente criticada e vista como um risco desnecessário.

Para falar mais sobre este polêmico assunto, seus prós e contras, o Olhar Vital, entrevistou Antônio Carlos Marques Alvim, especialista na área de análise de segurança nuclear e professor do departamento de Energia Nuclear do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe/UFRJ).

Segundo o professor, a área de energia nuclear é pioneira quando o assunto é segurança. Os avanços tecnológicos produzidos pela indústria nuclear são utilizados amplamente. “Se você olhar toda essa parte de gestão de risco, inclusive instalações petroquímicas, químicas, qualquer instalação de processo, muitas destas ferramentas vieram da indústria nuclear”, salienta.

Os reatores das usinas nucleares já estão em uma quarta geração, ou seja, as usinas com reatores de quarta e até terceira gerações são as mais modernas e com ínfimas possibilidades de acidentes por falha. Alvim esclarece que “existe possibilidade de acidente, as usinas são projetadas para suportar certos acidentes”, m,as apesar de altamente seguras, elas estão a mercê de catástrofes que possam acontecer no local de sua implantação. “O Japão contava com uma proteção contra abalos sísmicos de nível 7 na escala Richter, o que aconteceu lá foi de intensidade 9”. Em outras palavras, catástrofes de intensidade maior do que a prevista podem acarretar danos e até a possibilidade do vazamento de material radioativo.

Vantagens

A energia nuclear é limpa, sua emissão de carbono é praticamente nula e ela não causa impactos ambientais durante o funcionamento. Outro fator importante é o pouco espaço ocupado e a falta de necessidade de fatores específicos para sua instalação, fazendo com que haja economia com cabos transmissão, e evita as perdas de energia sofridas pelos mesmos. Apesar de todas essas vantagens, o custo de implantação e manutenção de uma usina nuclear de geração 3 ou 4 ainda é muito alto. Esse alto investimento, porém, segundo Antônio Carlos, é um bom investimento, já que as novas gerações de reatores mais seguros e econômicos conferem bom custo para a tarifa de energia. Além disso, a matéria-prima da energia nuclear, o urânio, é facilmente encontrada na natureza, sendo o Brasil a sexta maior reserva de urânio do mundo e pode suprir as necessidades energéticas do país facilmente por cerca de um século, enquanto petróleo e gás natural tendem a durar somente mais 50 anos em média.

Cuidados

Mas, como tudo na vida, a energia nuclear tem sua fraqueza. As sobras da fissão de urânio, que gera o calor para produzir o vapor de água, gerando a energia, são altamente radioativas e têm que ser armazenadas, já que ainda não há maneira de devolvê-las à natureza sem causar danos ao ambiente e aos seres vivos ou ao menos descartá-las. “Esses rejeitos são o que eu chamo de ‘calcanhar de Aquiles’ da energia nuclear, da aplicação para geração, eles são ponto fraco”, admite o professor.

Segundo o professor Alvim, existem duas linhas principais de pesquisa para resolver o problema, a principal é a que visa à transmutação, que consiste em transformar os rejeitos da fissão do urânio em elementos de meia vida menor, ou seja, fazer com que ele demore menos tempo para perder naturalmente sua radioatividade. Essa promissora pesquisa já conseguiu grandes avanços, já que nos testes foi transmutar o urânio, cuja meia vida é bilhões de anos, para elementos com 300 anos de meia vida, uma diminuição aguda. “Existe um conceito quando se fala em rejeitos, que você não deve deixar uma carga para as gerações futuras, você não pode consumir a energia hoje e deixar um pesadelo de gerenciamento do rejeito que você gerou”, explica.

Muitas pessoas se perguntam por que o Brasil precisaria da energia nuclear, já que tem características naturais que permitem grande produção de energia hidrelétrica, cujo dano ao meio ambiente é pequeno. De acordo com Antônio Carlos, o Brasil necessita da energia nuclear para se desenvolver porque confere um grau maior de confiabilidade, já que não dependem do nível de água do rio para funcionar em toda sua capacidade.

Outro argumento utilizado pelos que são contra a energia nuclear é o possível uso de materiais radioativos para fins bélicos, especialmente para fins terroristas. Esse é um problema complicado, já que existe uma agência internacional que regulamenta o uso dessa energia, a Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA, em inglês). Porém, segundo o professor Alvim, a IAEA somente pode estabelecer regras para o uso da energia nuclear, mas não interferir nas ações tomadas por países que queiram desenvolver um programa nuclear, seja para fins bélicos ou energéticos. “A soberania do país é mais importante”, lembra.

Para concluir, o professor afirma que “as usinas nucleares vêm evoluindo e que um cenário como o de Chernobyl vem se tornando cada vez mais improvável. Mesmo assim, é um meio de geração de energia muito delicado, que lida com materiais altamente danosos e necessita de muitos cuidados, logo necessita muito dinheiro. Também há o problema dos rejeitos, que está sendo incansavelmente combatido mundialmente por cientistas da área, inclusive com a ajuda de pesquisadores da Coppe/UFRJ, e tem a tendência de melhorar cada vez mais”.

Fonte: Olhar Vital- UFRJ

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