quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Petrobras e ABNT: lançamento da ISO 26000 no Brasil

A ISO 26000, norma internacional de Responsabilidade Social, foi lançada no Brasil hoje, em evento promovido pela Petrobras e pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). A Petrobras, primeira empresa brasileira a anunciar que vai seguir as diretrizes da ISO 26000, promoverá, em parceria com a ABNT, um ciclo de seminários sobre a norma em todas as regiões do país.

A ISO 26000 é considerada inovadora, pois é a primeira norma ISO construída por um grupo de trabalho presidido conjuntamente por um país desenvolvido, a Suécia, e um país em desenvolvimento, o Brasil. Além disso, pela primeira vez a ISO utilizou um sistema participativo composto por seis partes interessadas (representantes da indústria, do governo, dos trabalhadores, dos consumidores, das ONGs, de instituições acadêmicas, de pesquisa e consultoria). Vale ressaltar que a norma tem caráter voluntário e orientador, não implica certificação nem verificação externa por terceiros.

A ISO 26000 levou oito anos para ser construída e envolveu 400 especialistas de mais de 90 países, liderados pelo Brasil e pela Suécia. A versão final foi lançada novembro, em Genebra, e foi traduzida para o português pela ABNT com o apoio da delegação brasileira. Ao todo, a norma contempla sete temas: direitos humanos, práticas de trabalho, meio ambiente, governança organizacional, práticas leais de operação, relacionamento com consumidores, envolvimento comunitário e desenvolvimento e tem um capítulo específico de orientação sobre como integrar responsabilidade social na organização. A expectativa é de que a norma se torne um novo paradigma de atuação em responsabilidade social para todas as organizações.

A Petrobras em parceria com a ABNT apoiou a delegação brasileira na construção da norma. Em quatro anos, foram realizados 14 seminários no país, que envolveram mais de mil participantes, para debater os temas da norma. “Esses eventos mostraram o protagonismo do Brasil na difusão da construção participativa da norma. Nenhum outro país envolvido na discussão da norma promoveu tamanho debate interno sobre sua construção”, explica Ana Paula Grether, coordenadora do Relatório de Sustentabilidade da Petrobras e representante da Indústria na delegação brasileira na ISO 26000.

A parceria da Petrobras com a ABNT continua após o lançamento da norma. A partir de 2011, serão realizados mais seminários em todas as regiões do país (Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Manaus e Porto Alegre) para disseminar a aplicação da ISO 26000. A norma, cujo preço de comercialização no Brasil é de R$ 180,60, será distribuída gratuitamente nos seminários.

“A delegação brasileira foi muito participativa no processo de construção da ISO 26000, levando a contribuição das diferentes partes interessadas ao grupo de trabalho internacional: indústria, governo, trabalhadores, consumidores e organizações da sociedade civil. O foco agora é incentivar a implantação da norma no país”, afirma Ana Paula.

Além disso, a Petrobras é a primeira empresa brasileira a se comprometer em adotar a ISO 26000. “Nós acompanhamos todo o processo de construção da norma. Então nós já trouxemos esse conhecimento para dentro da empresa e a partir disso formulamos requisitos de excelência em responsabilidade social com linhas de ação específicas”, finaliza Ana Paula.

A Petrobras elaborou 80 requisitos de excelência em Responsabilidade Social, seguindo os dez princípios do Pacto Global e baseando-se também no conteúdo da norma e em outros indicadores de relevância internacional, como os da Global Reporting Initiative e o questionário do Índice de Sustentabilidade Dow Jones.

Entre as ações internas da Petrobras quanto à implementação das diretrizes da ISO 26000 estão a formatação de curso específico sobre os temas da norma para seus funcionários na Universidade Petrobras e a capacitação em responsabilidade social para fornecedores, em parceria com o SEBRAE. A primeira iniciativa está relacionada à questão de desenvolvimento humano e capacitação no local de trabalho e à integração de responsabilidade social em toda a organização, tratados pela norma. E a segunda iniciativa está alinhada ao conceito de Esfera de Influência, também definido na norma. A ISO 26000 relaciona os temas da responsabilidade social que devem ser considerados na esfera de influência e na cadeia de valor da organização, incluindo, por exemplo, seus fornecedores, parceiros comerciais, distribuidores e clientes.

Sobre a norma
A ISO 26000 elenca os princípios e temas centrais de responsabilidade social e orienta como as organizações devem integrá-los em sua atuação, considerando os impactos econômicos, sociais e ambientais de suas atividades, diretos ou indiretos.

Entre outros tópicos, a ISO 26000 definiu o conceito de responsabilidade social: “Responsabilidade de uma organização sobre os impactos de suas decisões e atividades na sociedade e no meio ambiente através de comportamento transparente e ético que contribua para o desenvolvimento sustentável, incluindo saúde e o bem estar da sociedade; leve em conta a expectativa das partes interessadas; esteja de acordo com as leis aplicáveis e consistente com as normas internacionais de comportamento; e esteja integrada através da organização e praticada nos relacionamentos desta”.

São temas centrais da norma:
Governança organizacional – Trata dos processos e estruturas de tomada de decisão, delegação de poder e controle. O tema é, ao mesmo tempo, algo sobre o qual a organização deve agir e uma forma de incorporar os princípios da responsabilidade social à sua forma de atuação cotidiana.
  • Direitos humanos – Inclui verificação de obrigações e de situações de risco; resolução de conflitos; direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais; direitos fundamentais do trabalho; evitar a cumplicidade e a discriminação; considerando grupos vulneráveis.
  • Práticas trabalhistas – Refere-se tanto a emprego direto quanto ao terceirizado e ao trabalho autônomo. Inclui emprego e relações do trabalho; condições de trabalho e proteção social; diálogo social; saúde e segurança ocupacional; desenvolvimento humano dos trabalhadores.
  • Meio ambiente – Inclui prevenção da poluição; uso sustentável de recursos; combate e adaptação às mudanças climáticas; proteção e restauração do ambiente natural; e os princípios da precaução, do ciclo de vida, da responsabilidade ambiental.
  • Práticas operacionais justas – Compreende combate à corrupção; envolvimento político responsável; concorrência e negociação justas; promoção da responsabilidade social na esfera de influência da organização; e respeito aos direitos de propriedade.
  • Questões dos consumidores – Inclui práticas justas de negócios, marketing e comunicação; proteção à saúde e à segurança do consumidor; consumo sustentável; serviço e suporte pós-fornecimento; privacidade e proteção de dados; acesso a serviços essenciais; educação e conscientização.
Envolvimento com a comunidade e seu desenvolvimento – Refere-se a investimento social; desenvolvimento tecnológico; investimento responsável; criação de empregos; geração de riqueza e renda; promoção e apoio à saúde, à educação e à cultura.

Fonte: Agência Petrobras

INPE: Verão terá mais tempestades do que a média dos últimos anos


Sujeito a chuvas e trovoadas
A região Sudeste do Brasil deverá registrar no verão de 2011 um número de tempestades severas – formadas por altas descargas atmosféricas (raios), ventos fortes e chuvas intensas – maior do que a média dos últimos três anos, alerta o coordenador do Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Osmar Pinto Júnior.

A previsão é baseada em um algoritmo utilizado pelos pesquisadores do Inpe que, na última década, teve uma média de acerto de 80%, prevendo corretamente as condições climáticas em oito dos dez anos analisados. Mas, a exemplo de outras metodologias empregadas para fazer previsões de curto prazo de tempestades severas, o sistema ainda apresenta uma margem de erro relativamente alta, ressalva o pesquisador.

“As abordagens utilizadas até hoje para fazer previsões de tempestades severas, como dados de satélite, de rede e modelos meteorológicos, falharam. Como no Sudeste e, talvez, também em outras regiões do país esses eventos severos estão ficando cada vez mais frequentes, é preciso testar outras abordagens para prevê-los”, disse Pinto Júnior.

Por isso, no Inpe já estão sendo testadas outras ferramentas, como modelos meteorológicos de alta resolução espacial, em escalas de 1 a 2 quilômetros, para tentar medir a concentração de gelo em nuvens, que é o fator determinante para a formação de raios. Outro exemplo são sensores de descargas intranuvem, que passam de uma nuvem a outra.

Reconhecido como um dos melhores indicadores para prever a severidade de uma tempestade, os dados sobre esse tipo de raio só eram captados no Brasil na região do Vale do Paraíba, no leste do Estado de São Paulo.

Mas um projeto de pesquisa realizado pelo Elat, em parceria com a empresa distribuidora de energia elétrica EDP Bandeirante, possibilitará que essas informações sejam captadas ainda no Espírito Santo, onde a empresa também atua.

Previsto para ser realizado ao longo de três anos, ao custo de R$ 2 milhões, o projeto, denominado ClimaGrid, visa a desenvolver um sistema computacional que integre diversas informações meteorológicas para monitorar tempestades severas.

Segundo Pinto Júnior, o fenômeno climático é responsável por um número significativo de falhas no sistema elétrico brasileiro e causa um prejuízo anual de mais de R$ 600 milhões às operadoras de energia no país com reparos nas redes de transmissão.

“As redes de transmissão no Brasil estão expostas diretamente aos fenômenos climáticos porque 99% são aéreas. Se conseguirmos prever eventos extremos, como tempestades severas, será possível às operadoras de energia fazer um planejamento preventivo da manutenção de suas redes”, disse o pesquisador no lançamento do projeto, que ocorreu em 3 de dezembro, em São Paulo.

Ao monitorar diariamente a probabilidade de descargas nuvem-solo (que descem ao solo) no território abrangido por suas redes de transmissão, as distribuidoras de energia poderiam planejar e tomar decisões melhores sobre o posicionamento de suas equipes, de forma que pudessem reparar rapidamente eventuais falhas no sistema.

Resultados de Temático
A primeira fase do projeto foi iniciada em novembro com a instalação de uma versão inicial do sistema computacional no centro de operações da empresa, situado em Mogi das Cruzes, na região metropolitana de São Paulo. Na segunda, que está prevista para ser iniciada em 2011, os pesquisadores pretendem analisar os impactos das mudanças climáticas sobre todo o setor elétrico brasileiro.

“Os resultados do projeto também podem ter repercussões em outros setores que sofrem com impactos de fenômenos climáticos severos, como o de aviação e a defesa civil”, disse Pinto Júnior.

O cientista coordena o Projeto Temático “Impacto das mudanças climáticas sobre a incidência de descargas atmosféricas no Brasil”, apoiado pela FAPESP.

“Esse Temático, com previsão de término para o fim de 2013, resultará em muitos resultados aplicados. Um deles é o Clima Grid”, disse.

Fonte: Elton Alisson / Agência FAPESP

SEBRAE ES: Prêmio MPE Brasil anuncia as quatro empresas capixabas vencedoras

Micro e pequenas empresas foram reconhecidas por aprimorar seus processos de gestão

As empresas vencedoras da etapa capixaba do Prêmio MPE Brasil – Ciclo 2010 foram anunciadas no dia 23 de novembro, em evento de premiação que contou com dezenas de autoridades, empresários e parceiros. As empresas Sathler Baby, de Vila Velha, Tecsystem, do município de Castelo, e Aplysia e Conde de Sanduíche, ambas de Vitória, conquistaram o prêmio, respectivamente, nas categorias Comércio, Tecnologia da Informação, Serviços e Turismo.

As empresas vencedoras receberam troféu e certificado de reconhecimento, além do direito ao uso do selo de vencedora, e vão, agora, disputar a etapa nacional do prêmio, cuja solenidade de premiação está marcada para março de 2011, em Brasília.

O evento de premiação da etapa estadual aconteceu no Centro de Convenções de Vitória, e foi também o de premiação das empresas vencedoras do Prêmio Qualidade Espírito Santo (PQES), desenvolvido pelo Compete-ES – Programa para Incremento da Competitividade Sistêmica do Estado do Espírito Santo.

Incentivo à competitividade
O MPE Brasil tem como objetivo incentivar as práticas de gestão e da qualidade no ambiente das micro e pequenas empresas visando ao aumento da competitividade no mercado, e reconhece, anualmente, as que se destacam. Na etapa estadual, o prêmio é uma realização do Sebrae/ES, da Sedes (Secretaria de Estado de Desenvolvimento), por meio do Compete-ES, e da ONG Espírito Santo em Ação. Já na etapa nacional, o MPE Brasil é realizado pelo Sebrae, MBC – Movimento Brasil Competitivo, Grupo Gerdau e Fundação Nacional da Qualidade (FNQ).

A edição 2010 do MPE Brasil – Etapa Regional – teve 2.850 empresas capixabas inscritas, 453 autoavaliações, 60 empresas avaliadas e a participação de 66 avaliadores voluntários. Participaram da solenidade de premiação, o governador Paulo Hartung, o superintendente do Sebrae-ES, José Eugênio Vieira, e o presidente do Conselho Deliberativo do Movimento Empresarial ES em Ação, José Armando Campos.

O governador Paulo Hartung, em seu discurso, enfatizou que as empresas caminham em direção a uma competitividade sistêmica. “Sou apaixonado pelo trabalho voluntário e gostaria de agradecer aos avaliadores voluntários. Imaginem a cada edição a revolução e as mudanças que um trabalho desse pode provocar?”, destacou o governador.

Paulo Hartung disse, também, que é necessário envolver um número ainda maior de empresas na competição. “As empresas precisam produzir com qualidade, preço e condições planetárias. Essa base vale para todas as áreas. Parabéns a todos que participaram e que mais empresas possam participar do programa”.

O diretor-superintendente do Sebrae-ES, José Eugênio Vieira, ressaltou que o prêmio tem o objetivo de estimular e contribuir para a competitividade das micro e pequenas empresas. “Essa é a nossa missão, mas não a executamos sozinhos. Precisamos de parceiros como o Governo do Estado e não podemos deixar de agradecer aos avaliadores voluntários, que disponibilizaram o seu tempo para julgar as empresas. O prêmio é um orgulho para nós e todas as empresas participantes são vencedoras por atuarem com a proposta de buscar a excelência”, afirmou o diretor-superintendente.

Já o presidente do Conselho Deliberativo do Movimento Empresarial ES em Ação, José Armando Campos, lembrou que os prêmios fomentam a qualidade dos serviços e a competitividade. “Ficamos muito satisfeitos com o desenvolvimento das empresas participantes”, disse.

Vencedores
As empresas vencedoras creditaram suas vitórias ao comprometimento das equipes e ao apoio do Sebrae-ES. A Sathler Baby, além de vencer na categoria Comércio, também faturou o Destaque em Responsabilidade Social, devido ao trabalho que realiza junto de gestantes em hospitais. “Já são cinco anos participando do MPE Brasil e não tivemos pressa para ganhar”, afirmou a diretora comercial Cláudia Rocha Sathler.

Com a voz embargada de emoção, o proprietário da Conde de Sanduíche, Alberto Campos Fernandes, afirmou que sua empresa lhe desperta dois sentimentos. “Ternura e respeito pelo que já conseguiu e pelo que ainda irá alcançar”, declarou.

A gerente técnica da Aplysia, Tatiana Furley, falou do diferencial da empresa. “Trabalhamos para a sustentabilidade do planeta”, afirmou. 



E em nome da Tecsystem Tecnologia de Software, que é de Castelo (ES), o diretor Carlos Alberto Fim valorizou a participação das candidatas do interior do Estado. “O prêmio é a prova de que uma empresa pequena e do interior pode prestar um serviço de qualidade e ser reconhecida por isso”, afirmou. (fotos Abnel Agência de Fotografia)


Fonte: Rita Diascanio / SEBRAE ES

Teatro e censura: Vargas e Salazar

União totalitária
As ditaduras de Getúlio Vargas, no Brasil (1937-1945), e de António de Oliveira Salazar, em Portugal (1932-1968), colaboraram intensamente – e até assinaram acordos bilaterais – para fiscalizar e censurar o teatro nos dois países. O próprio modelo de controle da expressão artística implantado pelo Estado Novo foi “importado” do regime totalitário português.

As revelações históricas aparecem no livro Teatro e censura: Vargas e Salazar, de Maria Cristina Castilho Costa, professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP).

A obra é produto do Projeto Temático "Comunicação e censura: analise teórica e documental de processos censórios a partir do arquivo Miroel Silveira da biblioteca da ECA/USP", apoiado pela FAPESP. O projeto é coordenado por Maria Cristina, que estuda a produção cultural paulista entre 1930 e 1970 a partir da documentação reunida no Arquivo Miroel Silveira , que reúne mais de 6 mil processos de liberação de peças teatrais pelo Departamento de Diversões Públicas do Estado de São Paulo.

O livro teve base em informações extraídas do arquivo, que foi resgatado pelo professor de teatro, diretor, produtor e autor Miroel Silveira (1914-1988) e está sob custódia da Biblioteca da ECA e também do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Portugal.

“Trabalhando simultaneamente com os dois arquivos, pudemos analisar como a cumplicidade política dos regimes de Vargas e de Salazar se refletia nos palcos, nos órgãos de censura e nas políticas culturais dos dois países. Constatamos que essa cooperação estendeu a presença do teatro português no Brasil, enquanto o modelo de censura salazarista era importado pelo Estado Novo”, disse Maria Cristina.

O livro teve origem no mais recente pós-doutorado da pesquisadora, realizado em 2007 e 2008 na Universidade de Coimbra (Portugal), com Bolsa da FAPESP. Na época, a equipe do Projeto Temático já estava produzindo uma base de dados a partir dos processos censórios reunidos no Arquivo Miroel Silveira.

“Um dos campos mais importantes dessa base de dados é o nome dos autores das peças encenadas no Brasil. Mas, muitas vezes, os arquivos remetem a autores sobre os quais não existem mais registros. Grande parte desses nomes era de origem portuguesa, mas não sabíamos quando se tratava de autores do Brasil ou de Portugal. Queríamos descobrir uma base de dados portuguesa, a fim de descobrir quais peças encenadas aqui eram de autores que moravam em Portugal ou no Brasil”, explicou.

Maria Cristina foi a Portugal e descobriu que não havia no país uma base de dados semelhante. No entanto, a partir de estudos sobre a censura realizados em Portugal por Graça dos Santos, da Universidade de Paris 10 – Nanterre (França), a pesquisadora brasileira descobriu a existência, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, de um arquivo que reunia processos de censura prévia do teatro português.

“O arquivo tinha mais de 11 mil registros sobre a censura ao teatro, mas estava em uma fase inicial de organização e não possuía uma base de dados. Comecei a explorar esses arquivos e logo percebi que havia uma incrível semelhança com os processos de censura brasileiros”, disse.

A pesquisadora passou a investigar também, na Torre do Tombo, outros arquivos que diziam respeito ao Brasil. A relação íntima entre os governos de Vargas e Salazar começou a ficar cada vez mais evidente. O ditador português implantou diversas iniciativas culturais a fim de manter os imigrantes ligados à pátria.

“Essas iniciativas envolviam o teatro de revista, o balé folclórico e as Casas de Portugal abertas no Brasil. Havia registros de que o governo português patrocinava companhias teatrais que vinham encenar suas peças no Brasil. Nas décadas de 1920 e 1930 houve uma grande onda de imigração de portugueses para o Brasil e a preocupação manifesta de Salazar era manter a coesão cultural desses imigrantes”, contou.

Os arquivos mostraram intercâmbios diretos entre o Secretariado Nacional de Informação (SNI) e o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) – órgãos responsáveis pela censura em Portugal e no Brasil, respectivamente.

“O DIP e o SNI tinham acordos de trocas de informações formalmente estabelecidos. Quando um intelectual brasileiro ia ser recebido em Portugal, por exemplo, o DIP era acionado para informar ao SNI dados sobre o passado e a atividade política do visitante. E vice-versa. Havia uma seção brasileira no SNI e uma seção portuguesa no DIP”, disse.

Os estudos também mostraram que o modelo adotado pelo governo Vargas para a censura prévia, implantado no fim da década de 1930, foi claramente inspirado no modelo salazarista.

“Os modelos tinham trâmites muito semelhantes, com pareceres de três censores, por exemplo. Por outro lado, ambos eram modelos de controle da produção artística voltados para uma visão ufanista da pátria. Os dois procuravam afastar qualquer análise crítica de problemas nacionais, contradições ou conflitos”, disse Maria Cristina.

As anotações dos censores incluíam, por exemplo, indicações relacionadas ao comprimento das roupas no teatro de revista. Em alguns casos, exigiam que cenas que se passavam em um quarto fossem transferidas para uma sala. Havia preocupação com a linguagem, que não devia se aproximar dos termos populares. “Nos dois casos, tratava-se de uma censura estética, moralista e política extremamente conservadora”, disse.

Mesa-redonda
A censura em Portugal, no entanto, era mais rígida do que no Brasil, segundo Maria Cristina. Os censores portugueses eram militares, alguns deles na ativa, outros já aposentados. Os brasileiros eram civis, a maior parte deles “pseudo-intelectuais apadrinhados do governo”.

“Em Portugal, os pareceres, longos e minuciosos, mostravam que os censores eram pessoas que encaravam a censura como uma atividade patriótica. No Brasil, os pareceres eram mais sintéticos e menos rígidos. No entanto, a quantidade de vetos e cortes era mais ou menos a mesma”, disse.

Os estudos constataram também que a proximidade entre as duas ditaduras proporcionou a manutenção da presença do teatro português em território brasileiro em plena década de 1940, quando as tendências modernistas repudiavam a imitação de modelos europeus.

“Na década de 1940 já estávamos em plena época da cultura modernista, que tinha tendência antilusitana. Por isso era intrigante ver, no Arquivo Miroel Silveira, uma imensa quantidade de peças e autores portugueses sobre os quais não havia qualquer referência. Isso fica explicado com a existência de uma parceria internacional envolvendo um modelo de Estado nazifascista que se apoiava nos meios de comunicação, na arte e nos espetáculos para angariar poder”, explicou.

O lançamento oficial do livro será realizado em março no Centro Universitário Maria Antonia, da USP, com uma mesa-redonda. “Vamos trazer professores portugueses e brasileiros que irão debater a questão da censura e as políticas de Salazar em relação ao Brasil e aos imigrantes”, disse Maria Cristina.
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Fonte: Fábio de Castro / Agência FAPESP

Papel da dopamina no sistema de recompensa do cérebro ajuda a entender os problemas de compulsão associados a dependência

A selective role for dopamine in stimulus-reward learning

Mecanismos da compulsão
Uma nova descoberta sobre o papel do neurotransmissor dopamina no sistema de recompensa do cérebro poderá ajudar a compreender melhor os problemas de compulsão associados a dependência e a diversos distúrbios psiquiátricos.

O estudo, feito por cientistas das universidades de Michigan e de Washington, nos Estados Unidos, concluiu que, ao contrário do que se estimava, diferenças nos tipos de resposta a estímulos ambientais entre indivíduos podem influenciar padrões químicos no cérebro relacionados à recompensa.

Segundo os pesquisadores, a maior compreensão dessas diferenças poderá levar ao desenvolvimento de novos tratamentos e de formas de prevenção para o comportamento compulsivo. Os resultados da pesquisa foram publicados nesta quinta-feira (9/12) no site da Nature e sairão em breve na edição impressa da revista.

“Conseguimos responder a uma antiga dúvida sobre qual é o papel da dopamina no sistema de recompensa”, disse Shelly Flagel, da Universidade de Michigan, primeira autora do artigo.

Os cientistas usaram uma variação de um experimento clássico, no qual um rato aprende a associar uma alavanca com a obtenção de uma recompensa, no caso, comida. No novo estudo, os animais não precisavam pressionar a alavanca, uma vez que os cientistas estavam testando a importância do mecanismo como sinal do surgimento de comida.

O que não se sabia era se dopamina liberada no cérebro dos ratos estava relacionada à alavanca como previsão do surgimento de comida ou se a liberação do transmissor já se daria apenas pela visão da alavanca.

A resposta, segundo o estudo, depende do tipo de rato em questão, ou do tipo de indivíduo. “Algumas pessoas veem um cartaz de uma sorveteria e para elas é apenas isso: um simples sinal de que há uma sorveteria por perto. Mas outras têm uma reação forte ao sinal, uma associação tão intensa com os sorvetes que os leva a até mesmo sentir o gosto e, frequentemente, a entrar e consumir o produto”, disse Shelly.

Os pesquisadores estudaram ratos que foram procriados seletivamente para que tivessem certos traços comportamentais, entre os quais diferentes tendências para drogas aditivas. O grupo inclinado para as drogas direcionou mais a atenção para a alavanca, enquanto que os demais se importaram mais com o local em que a comida aparecia.

Os cientistas mediram as respostas à dopamina no cérebro dos ratos à medida que variavam em frações de segundo. A análise mostrou que o grupo orientado ao uso de drogas teve um “salto de felicidade” apenas com a visão da alavanca, o que não ocorreu com os demais. Além disso, nesse grupo, o desejo pela alavanca continuou mesmo após a recompensa ter sido removida.

“O estudo ajuda a entender como, em algumas situações, a dopamina amplifica as mensagens do mundo à nossa volta, assumindo um papel importante no controle de comportamentos”, disse Huda Akil, outro autor do estudo.

Leia o abstract do artigo A selective role for dopamine in stimulus-reward learning (doi:10.1038/nature09588), de Shelly B. Flagel e outros.

Fonte: Agência FAPESPci