quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Cenpes: Petrobras inaugura expansão

A Petrobras inaugura a expansão das instalações do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello (Cenpes), na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro.

Com a ampliação, o complexo na Ilha do Fundão ocupará mais 300 mil m², tornando-se um dos maiores centros de pesquisa aplicada do mundo. Serão diversos laboratórios destinados a atender as demandas tecnológicas das áreas de negócio da Petrobras, com destaque para os laboratórios de Biotecnologia, Meio Ambiente e Gás & Energia. A ampliação também contará com modernos laboratórios para atender exclusivamente as demandas do pré-sal.

A ampliação do Cenpes é parte de uma estratégia da Petrobras para ampliação da capacidade experimental do parque tecnológico brasileiro. A companhia é hoje a empresa que mais investe em ciência e tecnologia no país. Nos últimos três anos (2007-2009) foram investidos cerca de R$ 4,8 bilhões, sendo R$1,2 bilhão para universidades e institutos de pesquisa nacionais, parceiros da Petrobras na construção de infraestrutura experimental, na qualificação de técnicos e pesquisadores e no desenvolvimento de projetos de pesquisa.

Para fazer a gestão de investimentos dessa envergadura, foi criado o modelo de Redes Temáticas, em 2006. A empresa identificou 50 temas estratégicos na área de petróleo e gás e para cada tema selecionou potenciais colaboradores, que hoje somam cerca de 100 instituições nacionais de Pesquisa & Desenvolvimento.

“A área laboratorial construída por meio dessa estratégia nas universidades brasileiras já é cerca de quatro vezes a área existente do Cenpes e, para cada pesquisador nosso, outros dez participam, nas suas respectivas instituições de pesquisa, de estudos relacionados à solução de desafios enfrentados pela Petrobras. Os investimentos feitos nas universidades, associados aos investimentos que estamos fazendo com a expansão do Cenpes, estão transformando o parque tecnológico nacional para óleo e gás em um dos mais bem aparelhados do mundo”, explica Carlos Tadeu da Costa Fraga, gerente executivo do Centro de Pesquisas.

Este movimento não se restringe à comunidade nacional de ciência e tecnologia. Com o pré-sal, a escala e a complexidade das demandas da Petrobras têm aumentado bastante e fornecedores tradicionais, incluindo grandes multinacionais, estão estabelecendo com a companhia parcerias de longo prazo. A fim de estreitar ainda mais esse relacionamento e ampliar a troca de conhecimentos, a Petrobras tem estimulado essas empresas a construir centros de pesquisa no Brasil, em locais próximos às suas instalações ou de universidades parceiras.

Somente no Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PARQUEDORIO-UFRJ), localizado próximo ao Cenpes, já foi anunciada a construção de centros de pesquisas de pelo menos quatro importantes fornecedores de equipamentos e serviços da indústria de energia: Schlumberger, Baker Hughes, FMC Technologies e Usiminas.

A ampliação do Centro de Pesquisas da Petrobras conta com instalações inovadoras. Entre elas está o Núcleo de Visualização Colaborativa (NVC), com ambientes para desenvolvimento de estudos e projetos com simulação tridimensional. Os pesquisadores e especialistas poderão trabalhar remotamente no NVC e em outros locais, como se estivessem imersos dentro do modelo estudado. O prédio conta ainda com nove alas dedicadas a instalações laboratoriais e um prédio central com áreas administrativas e espaços de convivência e trabalho colaborativo.

O sistema de reaproveitamento de águas merece destaque. A água da chuva, que é coletada através do telhado e do piso, será reaproveitada na irrigação de jardins e no fornecimento para os sanitários. Já os efluentes sanitários, oleosos e químicos serão tratados na Etra (Estação de Tratamento e Reuso de Águas) e reutilizados no sistema de ar condicionado, permitindo redução do consumo de água potável.

A Central de Utilidades, considerada o coração do complexo, é responsável pela distribuição de energia elétrica, geração de energia através do gás do diesel; pelo recebimento de água tratada pela Etra e pelo fornecimento dos insumos básicos para a operação do complexo. Usando tecnologia de última geração, a Central possui diversos sistemas capazes de fornecer todas as utilidades, garantindo sua constante e segura operação.

O desenho de linhas modernas, de autoria do arquiteto brasileiro Siegbert Zanettini, concorreu ao Prêmio Mundial de Construção Sustentável, da tradicional organização internacional Holcim Foundation, além de ter sido destaque na 6ª Bienal Internacional de Arquitetura (BIA), em 22 de outubro de 2006. O projeto se candidatou, ainda, à certificação verde, fornecida pelo Leadership in Energy and Environmental Design (LEED), uma ferramenta utilizada para avaliação e classificação do desempenho ambiental dos edifícios.

Para maior harmonização da área construída existem espaços verdes entre as edificações, laboratórios e jardins internos dos prédios, favorecendo a integração do ser humano com a natureza no local de trabalho ao recriar um ambiente que estimule a criatividade e inovação, motivando a produtividade do pesquisador.
Enfatizando os conceitos de ecoeficiência, ocorre o maior aproveitamento possível de áreas de sombra e ventilação para menor consumo de energia elétrica e carga de ar condicionado, minimizando a incidência direta de sol nos ambientes internos. Os tetos possuem aberturas translúcidas e haverá venezianas direcionais em cada dependência, com inclinação calculada para a captação da luz solar e da ventilação natural. Quando alcançado o nível ideal de iluminação, apagam-se automaticamente as luzes artificiais, mantendo-se o mesmo padrão de claridade.

Em sua construção foram combinadas estruturas em aço com estruturas de concreto, previamente projetadas para evitar cortes e descartes e, conseqüentemente, reduzir a produção de resíduos. Eventuais sobras de materiais, como concreto e chapas, foram reaproveitadas na própria obra.

Fonte: Ipesi

O psiquiatra Geraldo Busatto ganha Independent Investigator Award

Pesquisador brasileiro ganha Independent Investigator Award
Geraldo Busatto, coordenador do Laboratório de Neuroimagem em Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCNET-FMUSP), recebeu o Independent Investigator Award, concedido pela Aliança Nacional pela Pesquisa sobre Esquizofrenia e Depressão (Narsad, na sigla em inglês), nos Estados Unidos.

A Narsad é considerada a maior organização não-governamental do mundo dedicada a levantar recursos financeiros de doadores para apoiar projetos científicos considerados promissores e relacionados a saúde mental, com ênfase em aspectos envolvidos em transtornos psiquiátricos como esquizofrenia, depressão, transtornos da infância como autismo, déficit de atenção e hiperatividade, transtorno bipolar e transtornos de ansiedade.

O Independent Investigator Award, uma das principais modalidades de auxílio da Narsad, é concedido anualmente a cerca de 40 pesquisadores. Busatto, cuja linha de pesquisa é voltada para o uso de técnicas de neuroimagem no estudo dos mecanismos cerebrais subjacentes aos sintomas dos transtornos psiquiátricos, foi o único cientista do hemisfério Sul a receber o auxílio em sua edição de 2010.

Com os recursos concedidos pela Narsad, Busatto irá liderar um projeto que envolve o uso de exames de ressonância magnética do crânio para avaliar um dilema diagnóstico importante na psiquiatria: a diferenciação entre transtorno bipolar e déficit de atenção (e hiperatividade) em adultos.

“Trata-se de uma questão importante na prática clínica. Até alguns anos atrás se considerava válida a ideia de que déficit de atenção e hiperatividade não pudessem persistir na vida adulta. Acreditava-se que eram diagnósticos próprios da infância e adolescência. Nos últimos anos, a partir de estudos epidemiológicos, foi constatado que há uma alta prevalência desse quadro clínico na vida adulta. A pesquisa terá a preocupação de abrir perspectivas diretas para o tratamento”, disse Busatto.

Segundo ele, cada vez mais se suspeita que é comum confundir os diagnósticos de transtorno bipolar com os de hiperatividade e déficit de atenção na vida adulta. “Isso se reflete em uma questão prática de grande importância: se houver confusão no diagnóstico, o médico pode fazer escolhas terapêuticas equivocadas e, eventualmente, levar até mesmo a uma piora do quadro clínico”, explicou.

Busatto enfatiza, no entanto, que o projeto é um estudo de fronteira da ciência, que não terá aplicação imediata na prática clínica: as imagens de ressonância magnética feitas em pessoas com diagnósticos psiquiátricos não são capazes de detectar nenhum tipo de alteração característica de forma direta.

“Estamos falando de processamentos computacionais voltados para a classificação de desvios extremamente sutis da normalidade. Essas alterações não seriam visíveis a olho nu nas imagens. Atualmente, não existe – e nem é possível antever – possibilidade de aplicação clínica desses métodos, como se fossem uma radiografia do padrão de transtorno bipolar”, explicou.

O projeto financiado pela Narsad consistirá em avaliar cerca de 30 indivíduos em cada um dos grupos diagnósticos. Os pacientes serão tratados e seguidos ao longo do tempo para confirmação dos diagnósticos.

“Depois de um determinado período – de três meses a um ano –, vamos saber se o diagnóstico permaneceu o mesmo e identificar qual tratamento teve as melhores respostas. A partir daí, retrospectivamente, iremos comparar o desfecho clínico dos casos com os diagnósticos de imagens”, disse o professor da FMUSP.

Para a realização do projeto, os pesquisadores deverão fazer uma parceria com grupos de atendimento a pacientes no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq- FMUSP), em especial com o Programa de Déficit de Atenção e Hiperatividade (Prodath), que atende portadores das doenças na vida adulta.

“Em parceria com esses grupos, vamos classificar os pacientes diagnosticados e tratá-los na instituição. Os recursos do Narsad serão utilizados para o pagamento de pessoal de pesquisa, dos exames e dos custos envolvidos no processamento de dados”, disse Busatto.

Apoio da FAPESP
Segundo o pesquisador, o projeto apresentado à Narsad foi agraciado com o limite máximo do valor alocado para a modalidade, de US$ 100 mil. “Mas não teria sido possível chegar a receber uma distinção como essa, em uma seleção altamente competitiva, sem o apoio da FAPESP durante 14 anos”, disse.

Busatto coordena atualmente o projeto “Novas ferramentas automatizadas para avaliação neuropsicológica: processos cognitivos de tipo social e correlatos cerebrais”, com apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular. Suas pesquisas vêm recebendo apoio da Fundação desde 1996, quando obteve financiamento para um projeto no Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes.

“O objetivo do projeto era criar um núcleo de aquisição e processamento de imagens cerebrais para pesquisa em psiquiatria. Desde então fui investigador principal de um grande número de estudos de análise cerebral e psiquiatria com auxílio da FAPESP”, destacou.

Esses projetos, segundo Busatto, têm gerado muitas publicações e, com essa base, seu grupo pôde caminhar na direção dos estudos atuais: verificar se os dados de ressonância magnética do crânio poderão, no futuro, ser usados para melhorar os diagnósticos em psiquiatria.

Fonte:  Fábio de Castro /Agência FAPESP

Sociedade Excitada - filosofia da sensação

 Sob a mira da metralhadora audiovisual
O filósofo alemão Christoph Türcke, professor da Universidade de Leipzig, não deixa barato. Para o intelectual, a força imagética da alta tecnologia fez do homem de hoje refém de um estado que é, ao mesmo tempo, inescapável e paralisante: a distração concentrada. Passamos a ser alvos, compara o pensador, da metralhadora audiovisual. A tese está em seu último livro, Sociedade Excitada (Editora da Unicamp), lançado no último dia 15 de setembro no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL). A obra desvela a gênese e os desdobramentos da "filosofia da sensação", conceito cunhado pelo pensador e que, para além de sintetizar um complexo arco teórico tributário da Escola de Frankfurt, da qual Türcke é herdeiro, revela como o espetacular passou a ditar o comportamento da sociedade - excitada e anestesiada pela "compulsão à emissão". "Com cada mudança de foco da câmera, a máquina audiovisual emite um pequeno choque no sensório humano, mesmo sendo quase imperceptível. Tal choque tem o caráter de uma injeção diminuta de adrenalina. A injeção singular instiga a atenção. Bilhões delas, porém, têm o efeito contrário. Absorvem-na, corroem-na a ponto de sugá-la", afirma o filósofo na entrevista que segue.

 Seu livro inicia com uma boutade dos anos 70 ["O Bild foi o primeiro a falar com o cadáver"] para mostrar como a piada caiu na obsolescência diante da enxurrada de "pontos culminantes" despejada por mídias "altamente tecnologizadas". Essa espetacularização, em sua opinião, é um caminho sem volta? Conteúdos reflexivos tendem a ser coisa do passado?
Christoph Türcke - A resposta seria sim. Quanto ao caminho sem volta, não necessariamente. O que se observa atualmente é um processo de reforço - ou até de autorreforço - de tendências dominantes da sociedade da sensação. A palavra sensação to-mou um caminho semântico que significa inicialmente percepção banal, comum - em última instância, a sensação de qualquer coisa. E isso foi, ao longo do tempo, assumindo um signi-ficado cada vez mais denso e intenso. Esse fenômeno espelha um processo real na sociedade. Essa intensificação está ocorrendo e encontra-se numa estrutura sistêmica de autorreforço.

De que maneira?
Christoph Türcke - O sensacionalismo implica a necessidade de ultrapassar a si mesmo em todos os momentos.

 Ele se retroalimenta.
Christoph Türcke - Mais do que isto - todos que reclamam atenção têm que superar os outros. A mídia moderna, portanto, está assentada sobre uma estrutura concorrencial. Assim, ela instiga o processo de autorreforço ao qual me referi. Trata-se de uma observação em termos sistêmicos e é difícil intervir contra isto; não vejo, ao menos em curto prazo, uma possibilidade de "desligá-lo". Não acho que ele será eliminado sem afetar as estruturas básicas da sociedade capitalista. As estruturas sensacionalistas nada mais são, digamos, do que ransformações de estruturas básicas da sociedade capitalista no que diz respeito ao cam-po estético, ao campo da percepção.
Por outro lado, todo esse processo do autorreforço é impelido e fomentado por seres humanos. São, portanto, seres que têm uma vontade - e quem tem vontade, obviamente, pode alterar esse estado de coisas. O que vivemos não é um destino. Ou, dito de outra maneira, trata-se de destino enquanto não percebemos que nós estamos dentro dele e que desencadeamos o processo social em sua integralidade - em graus diferentes, obviamente. A estrutura social não é exógena, nós não ficamos fora dela. Somos aqueles que fazemos as coisas para o bem ou para o mal.

Gradação à parte, o homem tem capacidade de reverter esse processo?
Christoph Türcke - Capacidade, sim. Mas trata-se de uma capacidade paralisada. Não vejo uma saída imediata para o impasse. Mas, por outro lado, tudo isso só é destino enquanto mal-entendido e enquanto não for levado em conta o fato de que uma sociedade é formada por indivíduos que podem agir. A autorreflexão, embora exercitada por poucos, é um resíduo contra o determinismo histórico. Ele só parece determinado porque nós fazemos com que assim se pareça.
A mídia está totalmente integrada nesse processo, daí vem o fato de ela não ser uma coisa neutra. O estado no qual a mídia seria neutra, seria de certa maneira um estado utópico. Trata-se de um estado que poderíamos alcançar, mas, infelizmente, não é o caso atualmente. Temos que trabalhar para neutralizar a mídia.

 Paradoxalmente, blogs e redes sociais vêm sistematicamente cumprindo um papel importante nesse âmbito. O senhor acha que essas ferramentas virtuais podem ser vistas como antídotos a esse poder midiático?
Christoph Türcke - Pode ser usada dessa maneira, só que, atualmente, isso não acontece simetricamente. Um dos grandes problemas no discurso é a avaliação que fala de vantagens e detrimentos da nova mídia, sugerindo que os dois lados se comportam na relação um a um. Não é o caso. A assimetria é uma realidade. Por outro lado, há a possibilidade de, digamos, termos nichos virtuais de resistência.

O senhor poderia exemplificar?
Christoph Türcke - Temos o caso da China, onde a resistência não tem um espaço que não seja o virtual, enquanto em outras partes do mundo e em outras relações se desenvolve o poder catastrófico dessa mídia e desses meios eletrônicos, causando uma forma de pu-blicidade que destrói os indivíduos. Trata-se de uma ofensiva invasiva na esfera privada, distraindo as pessoas totalmente. É uma das grandes forças do que chamo de metralhadora audiovisual. Denominei esse processo de distração concentrada.

 No que ela consiste?
Christoph Türcke - Não sou contra a distração quando ela significa lazer, descanso. Isto é ótimo. Ocorre que a distração concentrada é resultado de um regime de atenção que penetra no mais profundo interior da pessoa, decompondo-a, causando, por conseguinte, estados psíquicos de desassossego e inquietação. Trata-se de um novo tipo de sofrimento psicossomático que não mais se manifesta diretamente.

Quais são seus efeitos mais deletérios e visíveis?
Christoph Türcke - Os psicanalistas observam que os clientes não mais mostram as doenças clássicas, mas vivenciam um processo de distração até mesmo dos sintomas ditos sólidos. Qual o resultado disto? É cada vez mais difícil intervir e eles - os especialistas - são forçados a forjar novos métodos de tratamento, por exemplo.

Ou seja, o componente orgânico acaba também sendo atingido.
Christoph Türcke - Isto. Entra até no tratamento psicofísico. Como eu disse em outro livro, Filosofia do sonho [Editora Unijuí], tenho a impressão de que a metralhadora audiovisual afeta o que Freud chama de processo primário, que consiste em três mecanismos básicos: a condensação, o deslocamento e a inversão. São processos psicofísicos básicos que fazem, como analisou Freud, com que os homens tenham capacidade de sonhar. O crucial da psicanálise freudiana era entender esse triplo mecanismo para desvendar o conteúdo imagético da vida onírica.
Minha suspeita é que esse processo tenha muito mais alcance do que o próprio Freud achou. Considero-o, na verdade, o motor da gênese da cultura humana e suspeito também que a metralhadora audiovisual está afetando esse processo primário, interferindo em sua dinâmica, dando início àquela concentração distraída. Por isso me interesso tanto pelo encontro dos extremos, que são a alta tecnologia e o paleolítico.

 Por que a comparação?
Christoph Türcke - O paleolítico é a época na qual, por meio desse processo primário, a cultura humana - o culto, o sacrifício e tudo que distinguia a humanidade dos outros primatas - se formou. Essa base da vida humana, que parecia por mil milênios um fato natural e imutável, se mostra à luz da nova tecnologia como sendo uma coisa bem mutável. Mais do que isto: é uma coisa que está ameaçada e, quando isto ocorre, ela busca refúgio na luz... Começamos a nos interessar pelo ameaçado, por aquilo que não se subentende mais a si mesmo. Isto, me parece, aconteceu com a chamada metralhadora audiovisual em relação ao processo primário.

Essa metralhadora teria então a capacidade de mimetizar esse componente onírico do ser humano?
Christoph Türcke - Está há tempos fazendo isso. De certa maneira, a realidade virtual não forma senão o que Freud chamava de conteúdo manifesto do sonho. Só que esse conteúdo manifesto é aperfeiçoado pelos padrões de uma estética mais ou menos refinada, chegando às vezes a resultados fantásticos. Não quero negar que foram produzidos grandes filmes, que merecem sem dúvida o título de grandes obras de arte. O problema não são esses filmes, não são os highlights.

 Qual seria?
Christoph Türcke - O problema é o dia a dia. Trata-se de um conteúdo manifesto de sonho que é sonhado por uma grande máquina. Ela substitui os sonhos das próprias pessoas, fornecendo-os prontos, como se eles fossem comida encontrada no supermercado. No fundo, trata-se de um processo de desapropriação das capacidades básicas mentais das pessoas. É um grande problema se pensarmos no dia a dia.
Seria ótimo se, exclusivamente, tivéssemos os highligths; foi nessa condição que surgiu o cinema. As pessoas esperavam por semanas o próximo filme, e a capacidade de produzir e receber esse novo tipo de entretenimento era nutrida por outros mecanismos. Produtores, diretores e o próprio público eram esteticamente formados por outros meios - teatro, literatura etc -, para além dos filmes.

Já o recipiente midiático, inserido num mundo que "efetua" 24 horas por dia, está dirigido por um impulso voltado para alguém que vive sistematicamente distraído. Essa pessoa não é mais capaz, por exemplo, sequer de fazer uma resenha sobre um filme inteiro. Todas as programações da televisão supõem um espectador incapaz de acompanhar uma obra do início ao fim. De certa maneira, um resenhista que sabe escrever um artigo inteiro sobre um filme é uma figura atrasada, obsoleta...

Em compensação, aquele que faz a sinopse em duas linhas...
Christoph Türcke - Está up to date... Isso faz com que a pessoa que vê algo na tela sempre tenha a impressão de que está dentro do filme errado. Essa desconfiança ao atual e o olhar de soslaio para outra atração estão sistematicamente vinculados ao controle remoto. Sempre que a tensão diminui um pouco no filme - o que deve acontecer em toda boa obra - é uma ameaça à emissora. O dedo do clique passa a ditar o jogo. Talvez seja este o impulso humano atual...

O senhor recorre a Roma antiga para afirmar que a notícia que merece ser dada está umbilicalmente vinculada àquilo que diz respeito a todos - a res publica. Porém, essa mesma res publica até pouco tempo atrás pautava editores e intelectuais - sobretudo da área de humanidades - preocupados em tocar em pontos nevrálgicos do funcionamento - ou distorções - do Estado. Muitos intelectuais, porém, foram seduzidos por essas novas ferramentas. As coisas mais relevantes tendem a ser cada vez mais ignoradas?
Christoph Türcke - Concordo. Tudo o que eu falei em relação ao "dedo clique" pode ser descrito em termos de desvio. Sempre há alguma coisa que me desvia das coisas das quais tomo conta. Isto representa uma ameaça ao próprio "tomar conta" enquanto dedicação a alguma coisa a ou a uma pessoa. As coisas e as pessoas, em última instância, não podem ser separadas. Dedicação e concentração são quase sinônimos. O autorreforço do sistema no qual vivemos pertence a essa perda contínua de espaços de concentração, de dedicação e de reflexão.

Por isso, gosto muito da famosa colocação de Walter Benjamin de que é preciso entender a revolução - que Marx considerava a locomotiva do processo social - como um agarrar o freio de emergência do trem da história. O que me interessa é desenvolver o que poderia ser esse agarrar o freio de emergência hoje em dia. Em todos os campos sociais, ou seja, na educação, no meio ambiente, na política, na arte. Tudo isso está relacionado - ou ao menos traçado, já que nem tudo está desenvolvido - com esse frear. Ele pode ser entendido ou praticado. Isto tem muito a ver com encaminhar processos de retardamento ou consistir em criar ilhas de sossego, de silêncio e de concentração que podem começar no quarto da criança, hoje impregnado de apelo visual e de parafernálias de toda ordem.

Qual o efeito desse apelo?
Christoph Türcke - Impede o desenvolvimento do carinho da criança em relação a dois, três brinquedos. O cavalo de madeira ficou na saudade. É possível isto, basta que cada um dê início a esse movimento. E não basta lamentar o processo global. Claro que eu também lamento, mas de nada adianta apenas se queixar e deixar as coisas como estão.

A alta tecnologia alijou do mercado milhões de trabalhadores e fez com que os remanescentes/sobreviventes abraçassem várias funções até então desconhecidas. Qual foi o efeito dessa mudança brusca na composição da sociedade?
Christoph Türcke - Para uma minoria que tem projetos próprios ou ao menos um emprego interessante, isso abre novos espaços de aprendizagem e desdobramento individual. Que bom sentar em casa diante da tela com o apoio imediato de dicionários e enciclopédias do alcance da Wikipedia e do Google! Mas a maioria que carece de tais projetos e independência devida não aproveita tanto disso. Ela está, na verdade, ameaçada de se perder no mundo virtual, desorientada por uma quantia descomunal de dados, sem que os recursos materiais e intelectuais melhorem decisivamente. Por exemplo, a busca de emprego se transforma cada vez mais, para a internet, mas a internet não fornece cada vez mais emprego. E para todos, o estresse se intensifica. Sempre tem de ser up to date, tem de conferir novos emails, novas ofertas de emprego, novas chances de venda, etc. Em resumo, só para os já privilegiados essa mudança social pode ganhar um caráter de bênção.

O senhor afirma que a irradiação etérea dos monitores se converte não apenas em fantasma da pessoa, mas também em seu vampiro. Por quê?
Christoph Türcke - Com cada mudança de foco da câmera, a máquina audiovisual emite um pequeno choque no sensório humano, mesmo sendo quase imperceptível. Tal choque tem o caráter de uma injeção diminuta de adrenalina. A injeção singular instiga a atenção. Bilhões delas, porém, têm o efeito contrário. Absorvem-na, corroem-na a ponto de sugá-la. Eis o seu vampirismo.

Como o senhor vê os que estão excluídos desse processo? Esse universo tende a crescer? E a invisibilidade desse contingente?
Christoph Türcke - Quem está, hoje em dia, sem a trindade de celular, email e website está excluído: cada vez mais incapaz de fazer compromissos, a ponto de perder qualquer visibilidade social. Por outro lado, os próprios gadgets se barateiam. Cada vez mais pessoas conseguem acesso a eles. Mas o próprio acesso, por si mesmo, não adianta muito. Não passa de uma condição elementar de vida atual. No entanto, não sou profeta, e a história continua em aberto. As contraforças que o processo social vigente desencadeia são imprevisíveis, mas também um arsenal de esperança em tempos que não instigam um grande otimismo.

Quem é
Christoph Türcke, nascido em 1948, é professor de filosofia na Hochschule für Grafik und Buchkunst em Leipzig. Além de Sociedade Excitada - Filosofia da sensação, recém-lançado pela Editora da Unicamp, destacam-se entre suas principais publicações: Der tolle Mensch. Nietzsche und der Wahnsinn der Vernunft (4a ed., 2000), livro que foi traduzido para a língua portuguesa com o seguinte título: O louco: Nietzsche e a mania da razão (Vozes, 1993); Sexus und Geist: Philosophie im Geschlechterkampf (3a ed., 2001), Rückblick aufs Kommende: Altlasten der neuen Weltordnung e Filosofia do Sonho (Unijuí, 2010).

Fonte: Álvaro Kassab / Jornal da Unicamp

O geneticista Bernardo Beiguelman faleceu nesta terça-feira

O geneticista Bernardo Beiguelman morreu na terça-feira (5/10), aos 78 anos. Foi fundador, em 1963, do Departamento de Genética Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp), o primeiro do gênero na América Latina.

Graduado em História Natural pela Universidade de São Paulo (USP), Beiguelman se especializou em Genética e fez o doutorado na USP, obtendo o título de livre docente na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.

Foi um dos primeiros professores da Unicamp, tendo participado do processo de implantação da universidade e testemunhado o processo da escolha do terreno para a instalação do campus, realizado por Zeferino Vaz.

Na Unicamp, implantou o Ambulatório de Genética Clínica (1969) e foi um dos mentores do Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética (CBMEG). Foi pró-reitor de Pós-Graduação da universidade entre 1986 e 1990 e se aposentou na mesma instituição, em 1997.

Depois de aposentado, manteve vínculo sem remuneração com a Unicamp colaborando com o Curso de Pós-Graduação em Genética do Instituto de Biologia. Nesse período, também foi professor visitante do Programa de Pós-Graduação em Biologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e membro do Conselho de Pós-Graduação do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

De 1972 a 1992 foi consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS). Foi membro do corpo de revisores da nomenclatura internacional de doenças do Council for International Organization of Medical Sciences (CIOMS) e da OMS, membro eleito da Comissão de Seleção da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (ACIESP) e presidente da Regional de Campinas dessa Academia.

Foi membro do Comitê Assessor de Genética do Conselho Nacional para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), tendo sido eleito por duas vezes para a Comissão Assessora do Programa Integrado de Genética do CNPq.

Entre 1970 e 1972, foi presidente da Sociedade Brasileira de Genética e da Associação Latino-americana de Genética. Era membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e foi conselheiro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em diversas gestões.

Foi assessor científico ad hoc da FAPESP e de outras instituições de fomento à pesquisa. Foi editor associado da revista Genetics and Molecular Biology e fazia parte de conselhos editoriais de diversas outras, como Hansenologia Internationalis, Revista da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e Medicina, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.

Produziu mais de 400 trabalhos científicos entre livros, teses, capítulos, publicações em revistas e comunicações em congressos. Orientou cerca de cerca de 70 pesquisadores, muitos dos quais se tornaram expoentes na área de ensino e pesquisa em genética médica.

Seus trabalhos foram reconhecidos com diversos prêmios como a medalha do CNPq, em 1981, e a placa de prata da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, em 1982, instituição na qual também recebeu o título de professor emérito, em 2004.

Entre os seus trabalhos mais importantes estão estudos sobre a resistência e a suscetibilidade hereditária à hanseníase e pesquisas sobre genética antropológica. Recentemente estava se dedicando a investigações sobre a epidemiologia de gêmeos.

O corpo do professor Beiguelman foi velado no Hospital Albert Einstein e sepultado na manhã de quarta-feira (6/10) no Cemitério Israelita do Butantã, em Taboão da Serra, na Grande São Paulo.

Fonte: Agência FAPESP