segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Restrição alimentar e estresse durante a gestação podem resultar em prole com órgãos menores

Perigos do estresse na gestação
Fêmeas de ratos foram tratadas por um grupo de cientistas com uma dieta com menos proteínas ou menos calorias durante o período gestacional. Além de nascerem abaixo do peso normal, seus filhotes apresentaram rins também menores e com número reduzido de néfrons, as estruturas responsáveis pelo processo de filtração do sangue. Os rins tinham 70% da capacidade de processamento em comparação a um órgão normal.

Esses efeitos foram constatados pela professora Patrícia Boer, do Instituto de Biociências de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (IBB - Unesp), na pesquisa “Biologia do desenvolvimento renal em modelo de restrição proteica durante a gestação em ratas”, que teve apoio da FAPESP por meio do Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes.

“Estresses emocionais ou nutricionais sofridos pelas ratas durante a gravidez provocam alterações nas crias, que nasceram com fisiologia alterada”, disse.

O número menor de néfrons é acompanhado também de uma redução de receptores da angiotensina, peptídeo responsável pelo controle da pressão arterial. Com menos receptores, os rins não conseguem eliminar sódio o suficiente e o excedente se acumula nesses órgãos, gerando a retenção de líquidos e provocando hipertensão arterial.

Além do efeito sobre os rins, a restrição proteica ou calórica na gravidez pode ocasionar efeitos semelhantes em outros órgãos, como fígado, coração e até em partes do cérebro.

O estudo verificou que o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), estrutura cerebral associada à resposta ao estresse, também tem alterações nos receptores dos filhotes cujas mães sofreram estresse durante a gravidez. Como consequência, esses animais terão uma resposta exacerbada ao problema, apresentando mais impaciência e irritabilidade.

“Os fígados dessas proles também serão menores e, consequentemente, terão menor capacidade funcional. Haverá um número menor de células beta, presentes no pâncreas e responsáveis pela produção de insulina, o que aumentará o risco de desenvolver diabetes”, disse Patrícia.

Segundo a pesquisadora, as alterações no feto seriam uma maneira de a mãe passar características adaptativas para aumentar as chances de sobrevivência dos filhotes. “Em um ambiente cheio de predadores, é constante o convívio com o estresse e importante que os filhotes nasçam prontos para ele”, apontou. O mesmo ocorre em um cenário com pouca comida, no qual indivíduos menores teriam mais chance de sobreviver.

A professora da Unesp citou estudos nos quais foram encontrados resultados semelhantes em humanos. Nesse caso, uma pessoa que nasce com um rim de menor capacidade teria que adaptar sua alimentação e seu estilo de vida para que não sobrecarregue o órgão. Patrícia alerta para o fato de que ignorar essa situação poderia provocar insuficiência renal em idades precoces.

“O problema é que não há um diagnóstico que aponte essa situação. Um dos indicadores são bebês que nascem com baixo peso sem serem prematuros”, afirmou. Segundo ela, ignorar essas limitações físicas é preocupante, pois, ao desconhecer essa condição, as pessoas atingidas acabam não se cuidando.

Fenótipo econômico
A motivação da pesquisa da Unesp veio da hipótese do fenótipo econômico, elaborada pelo epidemiologista inglês David J.P. Barker. Segundo a hipótese, em um ambiente com condições nutricionais precárias, a mãe seria capaz de modificar o desenvolvimento do feto de maneira a prepará-lo para sobreviver em meio à escassez. Com isso, seriam gerados indivíduos com características fenotípicas mais enxutas, como órgãos e corpos em tamanho reduzido.

Antes dessa hipótese não se levava muito em conta o papel dos fatores epigenéticos, aqueles que provocam mudanças e que não estão no genótipo. “Acreditava-se que, quando se formava o zigoto, as informações genéticas estavam ali e todas as características já estariam determinadas”, disse Patrícia. A hipótese do fenótipo econômico acabou chamando a atenção para as alterações que modificam as expressões genéticas sem alterar os genes.

Um exemplo conhecido da comunidade científica é o da enzima placentária 11 Beta-Hidroxiesteróide desidrogenase. Normalmente, essa enzima inativa os corticoides maternos para que não atinjam o bebê. Uma gravidez tranquila chega a manter gradientes de concentração de mil partes de glicocorticoides na mãe para somente uma parte no bebê.

Em situações de estresse, porém, cai a capacidade da enzima, expondo o feto aos glicocorticoides maternos, que são importantes sinalizadores do desenvolvimento fetal, pois promovem a maturação dos tecidos.

“Se traços dos glicocorticoides da mãe atingirem o feto prematuramente, os tecidos que estiverem sendo formados vão se diferenciar antes do tempo e não vão crescer o quanto poderiam”, disse Patrícia.

Agravantes sociais
Ao transpor os resultados obtidos com animais para seres humanos, a professora da Unesp especula sobre vários problemas nos quais o fenótipo econômico pode estar envolvido.

“Basta lembrar que as mães de hoje sofrem estresses bem maiores do que as de antigamente. Elas trabalham fora, têm dupla jornada e a alimentação também é um fator preocupante. Entre 30% e 35% das gestantes brasileiras são anêmicas”, disse.

Ela também levanta outras questões sociais que podem agravar o problema. Um exemplo está nas favelas, onde a restrição alimentar e o estresse se fazem mais presentes e de maneira simultânea. “São Paulo, cidade mais rica do país, tem 20% de seus habitantes morando em favelas. Em Maceió, esse número chega a 50%”, disse.

A equipe da Unesp está avaliando o período mínimo de restrição proteica necessário para causar uma alteração no feto, no caso, a redução de néfrons. Na pesquisa com camundongos, Flávia Mesquita, aluna de doutorado de Patrícia, observou que os primeiros 14 dias gestacionais de restrição alimentar (compatível ao 40º dia em humanos) são suficientes para provocar reduções de 28% no número de néfrons.

Patrícia esteve este mês em Portugal para avaliar os efeitos da dieta hipoproteica sobre a formação do cérebro. A contagem de neurônios e as ramificações dendríticas em regiões importantes para a aprendizagem, como o hipocampo, poderão indicar se o estresse gestacional tem um raio maior de alcance dentro do cérebro.

Um dos objetivos da pesquisa é gerar dados que subsidiem políticas públicas voltadas a resolver o problema da subnutrição entre as mulheres grávidas. “É preciso dar muita atenção ao problema da gestação no Brasil para que evitemos sérios problemas de saúde no futuro”, alertou a cientista.

Fonte: Fabio Reynol /Agência FAPESP

Revolta Paulista: Revolução de 1924 ganha exposição on-line

O Arquivo Público do Estado de São Paulo lançou uma exposição na internet sobre a Revolução de 1924, também conhecida como “Revolta Paulista”, destinada principalmente a alunos do ensino médio.

A Revolução de 1924 é contada em nove “salas”, acompanhada de textos e ilustrações. Compõem a exposição textos explicativos sobre o período, conjuntos documentais de processos criminais instaurados após o movimento e cartas dos líderes do movimento, além de jornais e revistas da época.

Antecedentes, motivos do envolvimento da cidade de São Paulo, consequências para a cidade e outras questões importantes do movimento ainda pouco conhecido pela população são expostos nas páginas do site.

Além do material informativo, professores e alunos têm acesso a 11 atividades pedagógicas para trabalho em sala de aula, preparadas de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais.

Foram selecionadas publicações especiais, como a Revista da Semana e a revista Careta, que narram os antecedentes e os desdobramentos do episódio que eclodiu no Rio de Janeiro em 1922, mas que ganhou força na capital paulista em 1924.

O conflito ocorreu em meio a um período de crise econômica, agravada no país pela queda das exportações consequente da Primeira Guerra Mundial e por uma crise política gerada pela insatisfação de alguns grupos com a chamada política do café com leite (revezamento de São Paulo e Minas Gerais no poder nacional durante a República Velha).

A Revolta Paulista de 1924 é considerada o maior conflito bélico já ocorrido na cidade de São Paulo. Comandada pelo general reformado Isidoro Dias Lopes, a revolta contou com a participação de muitos tenentes, entre os quais Juarez Távora, Miguel Costa, Eduardo Gomes, João Cabanas e Joaquim do Nascimento Fernandes Távora.

Deflagrada em 5 de julho de 1924 (segundo aniversário da Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, a primeira revolta tenentista), a Revolta Paulista ocupou a cidade por 23 dias, forçando o presidente do estado, Carlos de Campos, a fugir para o interior de São Paulo, depois de ter sido bombardeado o Palácio dos Campos Elíseos, sede do governo paulista na época.

Fonte: Agência FAPESP

FMVZ-USP: vagas para professor doutor

A Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Universidade de São Paulo (USP) abriu processo seletivo para o preenchimento de vagas para professores doutores para atuar em regime de dedicação integral à docência e à pesquisa (MS-3). As inscrições vão até 14 de outubro.

São duas oportunidades no Departamento de Nutrição e Produção Animal, uma na área de Nutrição e Criação de Cães e Gatos e outra em Melhoramento Animal.

No Departamento de Patologia há três oportunidades para doutor, uma na área de Patologia Morfológica e Molecular, outra em Imunopatologia Veterinária e a terceira na área de Medicina Aviária.

Os concursos serão constituídos de julgamento de memorial com prova pública de arguição (peso 4) mais prova didática e prática, ambas com peso 3. O salário é de R$ 7.574,75.

As inscrições e os documentos exigidos devem ser entregues no serviço de apoio acadêmico da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, localizada na Av. Prof. Dr. Orlando Marques de Paiva, 87, no Bloco 17, na Cidade Universitária, na capital paulista.

Fonte: Agência FAPESP

Jean Meyer, ex diretor-presidente da FAPESP, faleceu na última sexta-feira

O físico Jean Albert Meyer, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo (CTA) da FAPESP de 1976 a 1980, morreu na sexta-feira (24/9), aos 85 anos, em Paris, em decorrência de um derrame. O velorio será no crematório do cemitério Père-Lachaise, na capital francesa, na quarta-feira (29/9) às 10h20.

“Físico experimental de grande capacidade científica e de organização de pesquisa, apesar de ter feito grande parte de sua carreira no exterior – na Itália e em importantes laboratórios europeus –, deu contribuições significativas na Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), nas universidades federais da Bahia e do Rio de Janeiro, no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas - CBPF (membro fundador), e em diversos órgãos de fomento à pesquisa no Brasil, como Finep, CNPq e FAPESP”, destacou Amélia Império Hamburger no livro FAPESP 40 anos – Abrindo Fronteiras (2004).

"A FAPESP lamenta profundamente o falecimento do doutor Meyer, um físico de grande qualidade, com contribuição muito grande em sua área de estudo e de importante participação na FAPESP no periodo em que ocupou a diretoria da presidência do CTA da Fundação", disse Celso Lafer, presidente da FAPESP.

Meyer nasceu em Dantzig (atualmente Gdansk), na Polônia, em 25 de maio de 1925, em uma família operária. Com as perseguições nazistas contra os judeus, veio com a família a São Paulo, em 1940. Estudou no Colégio Franco-Brasileiro e trabalhou como operário em uma indústria química, até terminar o curso universitário.

“Esse intermezzo operário foi extremamente interessante porque aprendi a fazer coisas que dificilmente aprenderia na universidade”, disse em entrevista ao professor Shozo Motoyama, diretor do Centro Interunidade de História da Ciência da USP, no livro organizado por Amélia.

Indeciso entre física e filosofia, conheceu o professor Gleb Wataghin (1899-1986), então diretor do Departamento de Física da Universidade de São Paulo, e entrou para o curso de física. Começou a trabalhar em experiências sobre raios cósmicos, construindo detectores geiger.

“Era um curso com muito poucos alunos e muito bons professores. A iniciação com raios cósmicos foi dirigida por Wataghin, Marcello Damy e Cesar Lattes. Fizemos experiências que tiveram uma repercussão internacional. Participei desse começo”, disse.

Depois da volta de Wataghin à Itália, em 1949, Meyer tentou continuar o grupo de raios cósmicos, mas não teve apoio. De 1951 a 1953, esteve na França, no Laboratório do professor Leprince Ringuet na Escola Politécnica de Paris.

Voltou à USP, mas em 1956 partiu novamente para a Europa, primeiro em Pádua, Itália, e em seguida na França, em Saclay, onde trabalhou com física nuclear e física de partículas elementares.

Em 1968, recebeu convite para retornar à USP, “mas veio o AI-5 e não voltei”, disse. Em 1969, trabalhou no Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern), na Suíça, em experiências com aceleradores de partículas.

Organizou um programa de pesquisas apoiado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), sobre fontes de energias alternativas e, em 1975, voltou ao Brasil, dessa vez na Unicamp, para liderar um grupo no então novo campo de pesquisa. Foi nessa época que assumiu o cargo de diretor-presidente da FAPESP.

"Jean Meyer foi, desde o início, um dos impulsionadores do projeto do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS). Não apenas no âmbito político, onde seu apoio (dentro e fora do laboratório) foi fundamental, mas também em questões organizacionais e técnicas. Sua experiência de trabalho em 'big science' no Cern, seu bom senso e seu bom humor, sua apreciação irônica e, ao mesmo tempo, generosa da natureza humana e sua extensa rede de relacionamentos estiveram sempre à disposição da jovem e inexperiente equipe do LNLS. Era um prazer trabalhar com ele. A comunidade usuária do LNLS deve mais a Jean Meyer do que sabe ou imagina", disse Cylon Gonçalves da Silva, presidente da Ceitec, professor emérito do Instituto de Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador adjunto de Programas Especiais da FAPESP.

Em 1980, Meyer voltou à França para o Comissariado de Energia Atômica, onde já tinha estado. Aposentou-se em 1990, “acabando a carreira como diretor do Laboratório da Escola Politécnica de Paris, onde comecei com Leprince Ringuet. Fechei o ciclo. É complexa a vida”, disse.

Fonte: Agência FAPESP