terça-feira, 31 de agosto de 2010

Mudanças fundamentais no funcionamento do IPCC

Os processos empregados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) para produzir seus relatórios periódicos têm sido, de modo geral, bem sucedidos. Entretanto, o IPCC precisa reformar fundamentalmente sua estrutura gerencial e fortalecer seus procedimentos, para que possa lidar com avaliações climáticas cada vez mais complexas, bem como com uma intensa demanda pública a respeito dos efeitos das mudanças climáticas globais.

A conclusão é de um comitê independente de especialistas reunido pelo InterAcademy Council (IAC), organização que reúne academias de ciências de diversos países, e está em relatório entregue nesta segunda-feira (30/8), na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e ao presidente do conselho do IPCC, Rajendra Pachauri.

O relatório, intitulado Climate change assessments: review of the processes and procedures of the IPCC, foi produzido por 12 especialistas coordenados pelo economista Harold Shapiro, ex-reitor das universidades Princeton e de Michigan, nos Estados Unidos. Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, integra o comitê indicado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC), uma das academias de ciência que aprovaram o relatório.

“O comitê fez recomendações sobre a governança do IPCC, funções e limites dos mandatos de dirigentes do painel e enfatizou o debate e a valorização de ideias contraditórias. A análise feita trata de como lidar com as incertezas e recomenda cuidado com a avaliação de impactos”, disse Brito Cruz.

A revisão do IPCC foi solicitada pelas Nações Unidas. O comitê revisou os procedimentos empregados pelo painel na preparação de seus relatórios. Entre os assuntos analisados estão o controle e a qualidade dos dados utilizados e a forma como os relatórios lidaram com diferentes pontos de vista científicos.

“Operar sob o foco do microscópio do público da forma como o IPCC faz exige liderança firme, a participação contínua e entusiástica de cientistas destacados, capacidade de adaptação e um comprometimento com a transparência”, disse Shapiro.

O IPCC foi estabelecido em 1988 pela Organização Meteorológica Mundial e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente com o objetivo de auxiliar na formulação de políticas públicas a partir da divulgação de relatórios sobre os aspectos científicos conhecidos sobre as mudanças climáticas, os impactos globais e regionais dessas mudanças e as alternativas de adaptação e mitigação.

Após a divulgação de seu primeiro relatório, em 1990, o IPCC passou a ganhar a atenção e o respeito do público, a ponto de ter sido premiado com o Nobel da Paz de 2007. No entanto, com a divulgação do relatório de 2007, o painel de especialistas passou a ser alvo de questionamentos a respeito de suas conclusões.

O crescente debate público sobre a acurácia dos relatórios levou a ONU a solicitar ao IAC uma revisão do IPCC e recomendações sobre como fortalecer os procedimentos e processos do painel para os próximos relatórios.

A análise do IAC faz diversas recomendações para que o IPCC melhore sua estrutura gerencial, entre as quais estabelecer um comitê executivo que atue em nome do painel e garanta a manutenção de sua capacidade de tomar decisões.

“Para aumentar sua credibilidade e a independência, esse comitê executivo deveria incluir especialistas externos, não ligados ao IPCC e nem mesmo à comunidade mundial dos cientistas climáticos”, disse Shapiro.

O IPCC também deveria ter um diretor executivo que liderasse o secretariado do painel. Esse diretor seria o responsável pelas operações diárias e falaria em nome do IPCC. Segundo a análise do IAC, o atual secretário do IPCC não tem os níveis de autonomia e responsabilidade equivalentes aos dos diretores executivos de outras organizações.

Os mandatos do presidente do conselho e do novo diretor executivo também deveriam ser menores do que os dos atuais coordenadores do IPCC, limitando-se ao período de produção e divulgação de cada relatório, de modo a manter a variedade de perspectivas e o frescor das abordagens em cada relatório – o mandato atual do presidente do conselho é de até 12 anos.

A análise do IAC também recomenda que o IPCC adote uma política rigorosa para evitar conflitos de interesse entre as lideranças do painel, autores, revisores e responsáveis pela publicação dos relatórios.

Para a produção de sua análise, o comitê de especialistas consultou não apenas o próprio IPCC, mas também pesquisadores de diversos países que participaram na produção dos relatórios, bem como cientistas que criticaram os procedimentos adotados pelo painel em suas conclusões.

O público em geral participou da avaliação, por meio de questionários publicados na internet. O comitê também realizou diversas reuniões, inclusive no Brasil, para chegar às suas considerações.

Abordagem de controvérsias
Como a análise do comitê de especialistas convocado pelo IAC foi solicitada em parte por problemas no mais recente relatório do IPCC, o comitê também examinou os processos de revisão adotados pelo painel.

A conclusão é que o processo é eficaz, mas o comitê sugere que os procedimentos de revisão empregados atualmente sejam fortalecidos de modo a minimizar o número de erros. Para isso, o IPCC deveria encorajar seus editores a exercer sua autoridade de modo que todas as conclusões fossem consideradas adequadamente.

Os editores também deveriam garantir que os relatórios abordem controvérsias genuínas e que a consideração devida seja dada a pontos de vista conflitantes e propriamente bem documentados. Os autores principais deveriam documentar explicitamente que a mais completa gama de abordagens científicas foi considerada.

O uso da chamada “literatura cinza” (de trabalhos científicos não publicados ou não revisados por pares) tem sido bastante discutido, mas a análise do IAC destaca que frequentemente tais fontes de dados e informações são relevantes e apropriadas para utilização nos relatórios do IPCC.

“O IPCC já tem uma norma sobre uso criterioso de fontes de informação sem revisão por pares. O relatório do comitê de revisão confirma que esse tipo de fonte pode ser usado, desde que sejam seguidas as normas estritas já existentes e que protegem a qualidade científica das conclusões”, disse Brito Cruz.

Os problemas ocorrem quando os autores não seguem as normas do painel para a avaliação de tais fontes ou porque tais normas são muito vagas. O comitê recomenda que as normas sejam revisadas de modo a se tornarem mais claras e específicas, principalmente na orientação de que dados do tipo sejam destacados nos relatórios.

O comitê também sugere que os três grupos de trabalho do IPCC sejam mais consistentes nos momentos de caracterizar as incertezas. No relatório de 2007, o comitê identificou que cada grupo usou uma variação diferente das normas do painel sobre incertezas e que as próprias normas não foram sempre seguidas.

O relatório do grupo de trabalho 2, por exemplo, continha conclusões consideradas como de “alta confiança”, mas para as quais havia pouca evidência. O comitê recomenda que os grupos de trabalho descrevam a quantidade de evidência disponível bem como as discordâncias entre os especialistas.

“O relatório do comitê sugere atenção para levar em consideração as diferentes opiniões baseadas em fatos com base científica e para considerar atentamente o uso da literatura científica revisada por pares em línguas que não a inglesa. A intenção é tornar o relatório o mais abrangente possível”, disse Brito Cruz.

A demora do IPCC em responder a críticas sobre as conclusões de seu relatório de 2007 faz da comunicação um assunto crítico para o painel, de acordo com o comitê de revisão.

Os 12 especialistas recomendam que o IPCC complete e implemente a estratégia de comunicação que está em desenvolvimento. Essa estratégia deve se pautar na transparência e incluir um plano de contingência para respostas rápidas e eficazes em momentos de crise.

Segundo o comitê, como o escrutínio intenso por parte dos responsáveis pela formação de políticas públicas, bem como do público em geral, deverá continuar, o IPCC precisa ser “o mais transparente possível no detalhamento de seus processos, particularmente nos seus critérios de seleção de participantes e no tipo de informação científica e técnica utilizado”, disse Shapiro.

Fonte:Agência FAPESP

Delegação da Suíça visita a sede da FAPESP

Esforço para cooperação
O objetivo da missão suíça ao Brasil foi tratar do aprofundamento de relações científicas e tecnológicas bilaterais, de questões de educação superior nos dois países e da cooperação internacional em diversas áreas, com destaque para saúde, energia e meio ambiente.

Durante a viagem de seis dias, a comitiva passou por Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo e visitou instituições como a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Universidade de São Paulo (USP) e a Univesidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A comitiva foi recebida na FAPESP por Celso Lafer, presidente da Fundação, por Eduardo Moacyr Krieger, professor emérito da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e membro do Conselho Superior da Fundação, e por Sergio Robles Reis de Queiroz, professor do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (IG- UNICAMP) e coordenador adjunto de Pesquisa para Inovação da FAPESP.

Participaram da reunião Mauro Dell’Ambrogio, secretário de Estado para Educação Superior e Pesquisa da Suíça, Dieter Imboden, presidente do Fundo Nacional Suíço para o Desenvolvimento de Pesquisa Científica, e Wilhelm Meier, embaixador da Suíça no Brasil, além de representantes de instituições de pesquisa do país europeu.

Os suíços conheceram um panorama geral do sistema de ciência e tecnologia em São Paulo, além da atuação da FAPESP com foco nos programas e auxílios à pesquisa no Estado.

“Tivemos a oportunidade de falar sobre o sistema geral da ciência e tecnologia da pesquisa no Brasil e de mostrar também o que significa a FAPESP dentro desse contexto. Esperamos que a partir desse primeiro encontro possam surgir oportunidades de cooperação”, disse Lafer.

Para o presidente da Fundação, o encontro significou uma primeira aproximação e tem condições de frutificar, sobretudo, pela disposição e interesse que a delegação empenhou em conhecer os institutos de pesquisa e universidades brasileiras.

Dell’Ambrogio ressaltou a importância da internacionalização para os dois países. “Cerca de 60% dos estudantes universitários suíços estão em 200 das maiores universidades do mundo e 80% dos estudantes de doutorado são formados fora do país. É um alto índice, pois somos um país pequeno e precisamos nos manter abertos aos outros países”, disse.

Imboden apresentou o contexto do investimento em ciência na Suíça. Cerca de 80% do orçamento é investido na pesquisa básica. “Alguns dos nossos projetos são de longo prazo, duram em média dez anos. Mas, diferentemente do Brasil, não podemos investir em empresas”, disse, ao tomar conhecimento de programas da FAPESP como o Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE).

Imboden destacou que o Brasil é o principal parceiro comercial da Suíça na América Latina. As empresas suíças sediadas no Brasil empregam mais de 90 mil profissionais. Além disso, os suíços que estão no país formam a quarta maior colônia suíça fora da Europa, com quase 15 mil cidadãos.

“Para nós, é muito importante estar sempre atualizado sobre o que está sendo feito no Brasil e consideramos São Paulo um pólo estratégico na aliança entre os dois países”, disse Patrick Aebischer, presidente da Escola Politécnica Federal de Lausanne.

Fonte:Alex Sander Alcântara/ Agência FAPESP

Frontiers of Science: cooperação entre pesquisadores e jornalistas é fundamental

Mais que tradutores
O jornalismo voltado para a cobertura de ciência foi um dos temas debatidos por especialistas em Itatiba (SP), diante de uma plateia composta por alguns dos mais proeminentes cientistas do Brasil e do Reino Unido em diferentes áreas do conhecimento.

O debate ocorreu durante o UK-Brazil Frontiers of Science Symposium, evento que terminou nesta segunda-feira (30/8) e integra o programa Fronteiras da Ciência da Royal Society. A instituição britânica – que comemora 350 anos – e a FAPESP organizaram o evento em parceria com o Consulado Britânico em São Paulo, a Academia Brasileira de Ciências, a Academia Chilena de Ciências e a Cooperação Reino Unido-Brasil em Ciência e Inovação.

Com base em seus estudos sobre jornalismo científico e a percepção pública da ciência, o sociólogo Yurij Castelfranchi defendeu que o envolvimento do público com o universo científico é importante para a sociedade e fundamental para a própria ciência. De acordo com o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Brasil tem atualmente um ambiente favorável para essa aproximação entre ciência e sociedade.

“Quando aprofundamos os estudos sobre o tema, nos surpreendemos ao descobrir que o apoio do público à ciência no Brasil é imenso. Cerca de 80% das pessoas têm uma atitude positiva em relação à ciência. Isso não quer dizer que as pessoas compreendam a ciência. A questão que nos interessa é como transformar essa ‘confiança ignorante’ na ciência e na tecnologia em conhecimento real”, disse.

Segundo ele, não se trata apenas de transmitir informação de forma autoritária, trazendo “a luz do conhecimento” para o público. A tarefa consiste em mostrar ao público, por meio de um jornalismo crítico, como a ciência funciona do ponto de vista político e epistemológico. O jornalista não seria um vulgarizador, mas “uma ponte entre dois mundos”.

“Se transmitirmos a ideia da ciência como uma máquina de invenções maravilhosas, tentando conquistar o interesse do público com uma brilhante lista de descobertas, o efeito pode ser o inverso do desejado. Isso equivale a apresentar a ciência como uma solução mágica. Não temos que fazer marketing da ciência, mas mostrar como ela é feita a partir de um ponto de vista crítico”, afirmou.

A jornalista Mariluce Moura, diretora da revista Pesquisa FAPESP apresentou uma análise da evolução do jornalismo científico no Brasil nas últimas décadas. Segundo ela, nos últimos dez anos, o foco da mídia brasileira sobre o conhecimento científico tem se acentuado de forma extraordinária. A própria revista, derivada do boletim Notícias FAPESP, lançado em 1995, teve um papel central nessa evolução.

“A Pesquisa FAPESP é um exemplo de sucesso em relação à cooperação entre cientistas e jornalistas. A revista se tornou muito próxima da comunidade científica paulista, estabelecendo uma relação de confiança”, disse.

Essa cooperação, segundo Mariluce, é exercida por um procedimento particular adotado na produção da revista: antes de chegar ao público, a informação apurada pelos jornalistas é, em geral, revisada pelos entrevistados.

“Pertencendo a uma instituição pública, normalmente enviamos o texto final para os pesquisadores. Entretanto, há uma recomendação expressa: eles podem corrigir todo tipo de informação científica, mas o texto é a nossa área de excelência. A noção estética e a ideia de produto jornalístico cabem ao profissional da área”, afirmou.

O britânico Tim Hirsch comentou as dificuldades do jornalismo científico e destacou as diferenças marcantes das experiências de divulgação da ciência no Brasil e no Reino Unido. Hirsch foi correspondente da área de meio ambiente da BBC News entre 1997 e 2006 e hoje atua no Brasil como consultor e jornalista independente.

Segundo ele, a interação entre os cientistas e os meios de comunicação de massa é bastante difícil. “Há uma área de cooperação, mas nem sempre isso é possível. O limite entre a informação científica responsável e a liberdade da comunicação não é nada fácil de estabelecer. Não há respostas fáceis nesse terreno. É preciso unir talento e coragem para traduzir um processo de expertise em uma linguagem que seja acessível ao grande público”, afirmou.

Para contornar essas dificuldades, a saída seria desenvolver um relacionamento de confiança entre cientistas e jornalistas. “No Brasil, parece-me, a autocrítica em relação à cobertura jornalística da ciência é muito severa. Há bastante preocupação com a tensão entre jornalistas e cientistas e com a qualidade do material publicado, mas o fato é que grande parte do noticiário é muito bom”, afirmou.

Fonte: Fábio de Castro / Agência FAPESP

Unicamp:PD em genética da HDL com bolsa da FAPESP

O Projeto Temático "Relação de concentração de HDL-colesterol com o metabolismo de colesterol em monócitos e na plasma humano", apoiado pela FAPESP, oferece uma Bolsa de Pós-Doutorado junto ao Laboratório de Lípides da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) na área de genética da lipoproteína de alta densidade (HDL).

A bolsa tem duração de um ano podendo ser renovada por oito meses. O bolsista deverá atuar em atividades laboratoriais e acadêmicas do Laboratório de Lípides da Unicamp e poderá atuar também no Laboratório de Lípides da Faculdade de Medicina da USP e essas não contemplam atividades oficiais de ensino.

Os interessados devem enviar, até o dia 30 de setembro de 2010, os seguintes documentos:

1. Curriculum Vitae atualizado contendo e-mail e telefones de contato;
2. Uma proposta de pesquisa especificando os tópicos a serem estudados com cronograma e as esperadas publicações;
3. Uma carta de recomendação acadêmica ou profissional;
4. Uma cópia de publicação científica recente.

Os documentos devem ser enviados para a coordenadora do projeto, professora Eliana de Faria, em:

* Departamento de Patologia Clínica – Faculdade de Ciências Médicas
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
Caixa postal 6111
13083-970 – Campinas – SP

O material enviado será tratado confidencialmente. O(a) candidato(a) selecionado(a) será comunicado(a) por e-mail.

Mais informações pelo e-mail ou (19) 3521-7064.

A vaga está aberta a brasileiros e estrangeiros. O selecionado receberá Bolsa de Pós-Doutorado da FAPESP, no valor de R$ 5.028,90 mensais.

Fonte: Agência FAPESP