sábado, 14 de agosto de 2010

1º Ciclo de Debates “A universidade pública brasileira no decorrer do próximo decênio”


Universidades no futuro
Programas de cooperação com outros países serão mais frequentes. Boa parte dos cursos será oferecida a distância. Alunos de graduação terão formação cada vez mais interdisciplinar.

Essas são algumas das tendências que deverão formar o perfil da universidade na década de 2020, segundo Julio Cezar Durigan, vice-reitor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que coordenou o 1º Ciclo de Debates “A universidade pública brasileira no decorrer do próximo decênio” , realizado nesta quarta-feira (11/8) no campus da Barra Funda, na capital paulista.

“O evento foi extremamente produtivo e cumpriu o objetivo de trazer visões de especialistas de outras instituições para contribuir com o debate”, disse Durigan, que preside a Comissão Permanente de Gestão do Plano de Desenvolvimento Institucional da Unesp.

Participaram dos debates os professores Olgária Matos, da Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Luiz Antonio Constant Rodrigues da Cunha, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Gerhard Malnic (USP), Naomar Monteiro de Almeida Filho, reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Hélio Nogueira da Cruz (USP) e Marco Aurélio Nogueira (Unesp). Abriram a sessão o reitor da Unesp, Herman Jacobus Cornelis Voorwald, e o secretário de Ensino Superior do Estado de São Paulo, Carlos Vogt.

Uma das tendências mais lembradas no encontro foi a crescente interdisciplinaridade. Almeida Filho falou sobre a experiência da Universidade de Bolonha, na Itália, na qual os graduandos têm uma formação genérica nos três primeiros anos e escolhem uma carreira específica, fazendo um curso de mais dois anos.

“Na primeira fase, o estudante já obtém o diploma de graduação, e, após os dois anos de especialização, sai com o título de mestrado”, disse Durigan. No entanto, segundo ele, há vários obstáculos para que esse modelo seja adotado no Brasil, como, por exemplo, a falta de reconhecimento desse tipo de pós-graduação pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Os problemas também são de ordem prática. “Se um estudante de engenharia, por exemplo, quiser cursar disciplinas em ciências sociais, ele terá dificuldades. Por isso, precisamos facilitar o acesso dos alunos a outras áreas”, afirmou.

O intercâmbio com instituições de outros países foi outro ponto abordado no evento e tido como fundamental para o desenvolvimento da pesquisa brasileira e para o aumento de sua visibilidade no mundo. Um importante obstáculo nesse caso é o idioma.

“Enviamos muitos alunos para intercâmbios em Portugal e na Espanha, por exemplo, mas isso não ocorre com a mesma intensidade com a Alemanha, China e Coreia do Sul”, disse Durigan, destacando que há muitos pesquisadores de outros países que desejam trabalhar com brasileiros.

Para contornar o problema, a Unesp está diversificando os cursos de línguas que são disponibilizados aos alunos, como o curso de mandarim, ensinado em cinco unidades da universidade.

As universidades paulistas também investem no aprofundamento de intercâmbios com instituições para a dupla titulação, em que o aluno faz parte de seu curso no Brasil e parte no exterior e, na conclusão, obtém um diploma reconhecido pelos dois países.

Mais tempo para pesquisa
A universidade da próxima década também terá forte infraestrutura de tecnologias da informação e da comunicação (TIC), segundo os presentes no debate, uma vez que boa parte de sua função educacional deverá ser cumprida a distância.

O ensino a distância é capaz de atender mais pessoas e apresentar qualidade igual ou até superior à modalidade presencial, de acordo com o vice-reitor da Unesp. As TIC também serão uma ferramenta importante nas aulas presenciais. Os docentes deverão manter sites a fim de fornecer os conteúdos que serão abordados em sala de aula.

“Estudos mostram que o aproveitamento do estudante está muito relacionado à disponibilização de material antes da aula, para que ele possa se preparar para o encontro com o professor”, disse Durigan.

Outra previsão é que as novas tecnologias deverão proporcionar mais tempo para o docente se dedicar aos trabalhos de pesquisa e de extensão. Já os serviços de extensão das universidades estarão cada vez mais relacionados com projetos de inovação.

A informática será ferramenta fundamental também na gestão das universidades. “Por estar espalhada por todo o Estado de São Paulo, a Unesp, por exemplo, tem uma logística complexa. Temos que contornar essa questão com a ampliação das ferramentas de comunicação e informação”, disse Durigan.

A criação de planos de desenvolvimento institucionais foi apontada como alternativa para o problema da falta de continuidade de projetos nas universidades.

Durigan explica que a existência do Plano de Desenvolvimento Institucional da Unesp impede gestões personalistas em que programas iniciados em outras gestões são abandonados ou descontinuados por novas administrações.

“Pretendemos agora organizar outros debates e visitar as unidades da Unesp para que cada uma desenvolva o seu plano”, disse Durigan.

Fonte: Fabio Reynol /Agência FAPESP

UFRJ: Cérebro de policiais do Bope é tema de estudo neurocientífico


O alto índice de aproveitamento dos policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) virou objeto de estudo de cientistas do Laboratório de Mapeamento Cerebral e Integração Sensório-Motora da UFRJ. Com apoio do Instituto de Neurociências Aplicadas (INA) e da Fundação de Amparo à Pesquisa (Faperj), os pesquisadores acompanharam os cursos de formação do Bope e desenvolveram instrumentos para auxiliar o treinamento do batalhão. Durante dois anos, de 2007 a 2009, realizaram uma série de testes a fim de avaliar de que forma a neurociência pode contribuir com a formação dos PMs e com a prevenção de erros cometidos no desempenho de suas funções.

“Recentemente, vários tipos de deslizes cometidos por policiais vieram à tona. O aspecto que estudamos é o da tomada de decisão, isto é, todo o processo de identificação que envolve a integração da informação do meio com a experiência prévia do indivíduo. A partir desse processo, uma resposta é escolhida e executada, que pode ser adequada ou não”, explica a psicóloga Bruna Velasques, doutoranda do Laboratório de Mapeamento Cerebral e Integração Sensório-Motora da UFRJ.

De acordo com o professor do Instituto de Psiquiatria (Ipub) da UFRJ e coordenador do projeto, Pedro Ribeiro, “com o estudo, podemos entender aspectos cerebrais de policiais e levá-los à melhor avaliação possível das situações, na tentativa de diminuir os índices de erros”. O coordenador diz ainda que “se levarmos em consideração o número de operações do Bope, o montante de pessoas envolvidas, tanto do batalhão como das comunidades, vemos que se trata de um número muito baixo de fatalidades.”

O objetivo do projeto é evitar a repetição de erros e acidentes graves, que, segundo Ribeiro, “são perfeitamente evitáveis com treinamento constante e eficiente”. O estudo conclui principalmente que a tecnologia aliada ao treinamento constante pode melhorar significativamente o desempenho dos policiais. "Boa parte das falhas que policiais cometem tem a ver com a questão do treinamento. Um policial bem treinado ganha mais consciência da importância do seu trabalho e das consequências de seus atos. Logo, ele tende a evitar os erros", avalia o pesquisador.

Implementação de sistemas nos treinamentos
A partir do conceito de “tomada de decisão”, foram implementados sistemas dentro do treinamento do Bope a fim de testar as funções cognitivas, a capacidade de memória, atenção e a tomada de decisão. “Pensamos em sistemas simples e baratos que englobassem o conceito da tomada de decisão. É preciso condicionar o policial a uma tomada de decisão acertada e consciente, ao invés de uma resposta automática, isto é, o policial precisa ter controle sobre aquilo que executa”, observa Ribeiro.

Foram realizados diferentes tipos de treinamentos a partir de equipamentos criados pelos próprios pesquisadores. Na avaliação, os policiais do Bope mostraram que podem exercer diversas funções simultâneas, ativando várias áreas do cérebro. “Isso ocorre porque, com o treinamento, desenvolvem, entre outras coisas, percepção, raciocínio rápido e capacidade de tomar decisões em situações extremas”, explica Bruna Velasques.

Os aparelhos empregados na pesquisa estão sendo gradualmente incorporados ao treino no Bope e a PM estuda estender o projeto a outras unidades. “A ideia é introduzir os treinamentos nos cursos de formação para desenvolver a percepção dos policiais militares de outros batalhões de modo a reduzir o número de erros e acidentes”, diz o coordenador.

O papel da Universidade em causas públicas
Ribeiro comenta que um grande aspecto do projeto é fortalecer as parcerias incentivadas pelo Estado através da Faperj com as universidades públicas, as unidades da polícia militar e da polícia civil. “Se conseguimos fechar um ciclo, será possível investir o conhecimento produzido nas universidades em causas públicas, e esse é o nosso ponto central”, declara.

Bruna Velasques acrescenta que “o campo para o trabalho conjunto entre um instituto de pesquisa e as instituições do estado é grande, e, no caso da segurança, por mais elevado que seja o nível de treinamento dos policiais, mesmo no Bope, onde já existe uma excelência, sempre há um campo enorme de aprimoramento e projetos que podem ser estendidos à rotina de outros batalhões”.

Os pesquisadores comentam a importância da participação de outros segmentos no projeto. “A nossa contribuição foi na vertente neurofisiológica a partir de um tratamento mais pontual do treinamento. É importante que outros segmentos da sociedade participem, com projetos sociais, pesquisas ou ações de conscientização, por exemplo.”

Outras unidades militares
Pedro Ribeiro e Bruna Velasques fizeram uma breve análise do desempenho dos policiais do Bope e compararam a outros batalhões a partir da experiência de dois anos em que acompanharam os treinos da tropa de elite. De acordo com Velasques, “podemos apontar o treinamento e a exposição como fatores diferenciais. O treinamento e a prática diários aprimoram a habilidade e refletem no desempenho, o que infelizmente ainda é muito precário em outros batalhões”.

“Trata-se de um grau de combate que só encontramos em aparatos militares. Treinamento é um aspecto fundamental em qualquer atividade, inclusive na policial. É preciso treinar continuamente a tomada de decisão de modo a diminuir as lacunas na formação militar, especialmente sob o estresse das situações de risco”, complementa Ribeiro.

A psicóloga observa que “os policiais que estão diretamente nas ruas, em contato no dia a dia com a sociedade, não têm tanta exposição a esse treinamento pontual, o que acarreta sérios riscos”.

A questão policial no Brasil
Os pesquisadores comentaram ainda a questão policial no contexto brasileiro. Segundo o coordenador, “a polícia é um dos efeitos, ou consequências, que aparece nesse contexto social que o Rio de Janeiro e o próprio Brasil estão inseridos”.

O docente analisa que “a principal diferença é que, no nosso caso, o tráfico de drogas tem um nível de armamento muito grande. Esses dois aspectos envolvidos geram uma situação que é praticamente de guerrilha, o que justifica esse treinamento específico do Bope, bem como sua participação contínua no confronto”.

Bruna Velasques acrescenta que a abordagem policial vai variar dependendo do contexto em que está inserida. “Em várias partes do mundo existe tráfico de drogas, mas algumas exceções apresentam um aspecto armado associado ao tráfico, como é o caso do Rio de Janeiro. Os confrontos são outros, e, portanto, as estratégias também têm de ser.”

Fonte: Vivian Langer / Olhar Vital - UFRJ

Pesquisa de professores da UFRJ é publicada na revista a ISME Journal


Recentemente, a revista ISME Journal, que faz parte do grupo de publicações da Nature, publicou a pesquisa sobre diversidade bacteriana da Antártica coordenada pelos pesquisadores Alexandre Rosado e Raquel Peixoto do Instituto de Microbiologia Professor Paulo de Góes (IMPPG/UFRJ).

A pesquisa, com o auxílio do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), partiu da análise de plantas vasculares (plantas com tecidos especializados para o transporte de água e seiva) coletadas durante estadia na Estação Antártica Comandante Feraz.

Essa análise de milhares de sequências de DNA em laboratório na UFRJ, resultou na diferença entre o perfil de bactérias encontrado nas rizosferas de plantas vasculares (região onde o solo e as raízes das plantas entram em contato) na Antártica e em outros locais já estudados em todo o planeta.

Além disso, os pesquisadores concluíram que as duas espécies de plantas vasculares que existem na Antártica apresentaram perfis bacterianos associados semelhantes entre si, indicando que as condições abióticas na Antártica constituem fator rigoroso na seleção da microbiota presente, mesmo os associados a organismos diferentes.

De acordo com o professor Alexandre Rosado, isso mostra o quão único é esse ambiente, capaz de selecionar uma microbiota tão específica, e, dessa forma, como ele pode ser da mesma forma sensível a impactos.

Publicação
Sobre a publicação na revista ISME Journal, o pesquisador revelou ao Olhar Vital que tal acontecimento significa o grande reconhecimento pela excelência da pesquisa e visibilidade ao trabalho do grupo de pesquisa brasileiro, principalmente devido ao fato de o trabalho ter sido selecionado como destaque na capa desta edição da revista. “Essa publicação representa uma grande contribuição dos pesquisadores brasileiros para a pesquisa no cenário mundial.”

Saiba mais sobre a pesquisa.


Fonte: Michelly Rosa/ Olhar Vital-UFRJ