segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O sociólogo Glauco Arbix defende a criação agência de inovação no Brasil

Sociólogo afirma que nem ABDI nem Finep articulam políticas de desenvolvimento do País; e propõe nova agência, que pense grande
 
Assim que Luiz Inácio Lula da Silva chegou à Presidência da República, em 2003, o sociólogo Glauco Arbix foi por ele escolhido para liderar o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o IPEA. Enquanto esteve à frente do Instituto, até 2006, Arbix também foi influente na formulação de uma política de inovação para o País. Ajudou a conceber a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE), depois renomeada ou substituída pela Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP). Para articular as ações do governo no âmbito da PITCE, Arbix também participou da criação da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).

No dia 12 de julho, Arbix publicou o artigo "Por uma agência nacional de inovação", na página 2 do Caderno de Economia do jornal O Estado de S. Paulo. No texto, defende que o País precisa de um "choque de inovação" e propõe a criação de uma agência nacional de inovação, vinculada à Presidência da República. A ideia, destaca no texto, já foi apresentada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) aos atuais candidatos à Presidência. Mas não seria a ABDI essa agência? Não: para ele, como se lê na entrevista que concedeu a Inovação sobre o assunto, e no texto do artigo, é necessário o aparecimento de uma outra instituição, misto da ABDI, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), e da Finep, agência de fomento do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT).

O texto publicado no Estado teve pelo menos uma repercussão imediata: no dia 13, foi lido pelo senador Marco Maciel (DEM-PE), em discurso na tribuna do Senado. Fora do governo desde a saída do IPEA, Arbix coordena o Observatório de Inovação e Competitividade do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. Permanece sendo um interlocutor do governo nas questões relacionadas a inovação — integra o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CCT). Leia a entrevista, concedida a Janaína Simões no dia 13 de julho.

O senhor propõe a criação de uma agência de inovação. A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial não seria essa agência? E a Finep, não realiza as funções de uma agência de inovação?
A ABDI nasceu em 2004 para coordenar a política industrial, mas até hoje não conseguiu se firmar nesse papel. Ao falar da ABDI, não estou criticando as pessoas que trabalham na agência, ou dizer que ela não é útil, mas temos uma deficiência institucional, e seria interessante pensar em unir a Finep e a ABDI para formar algo maior. A Finep tem como principal atribuição o apoio à inovação. Desempenha papel importante, mas, apesar de estar mudando, lentamente, ainda tem um viés acadêmico forte — tem dificuldade de avaliar projetos com critérios empresariais, de mercado, da economia. Quando consegue chegar ao mundo das empresas, obtém bons resultados, mas sofre do mal das ideias e dos projetos pequenos. Por exemplo: desde 2006 a Finep concede a subvenção econômica. É um programa excelente, mas precisa de muito mais recursos. A ideia de criar uma agência nacional de inovação, forte, nasceu da percepção de que os instrumentos atuais são insuficientes. Se as condições institucionais em que estamos forem mantidas, e tudo indica que serão, não vamos dar o salto em inovação de que o Brasil precisa.

Na sua opinião, por quais razões a ABDI não conseguiu "se firmar", como o senhor mencionou, na coordenação da política industrial?
A ABDI deveria articular as várias instituições responsáveis pela PITCE, concebida em 2004: Ministério das Relações Exteriores, Banco Central, Banco do Brasil, MCT e MDIC. O comando do Conselho de Administração da ABDI era do ministro do Desenvolvimento [na época o ministro Luiz Furlan] e a Secretaria Executiva ficaria com o ministro da Ciência [na época, Eduardo Campos]. Também faziam parte do Conselho os ministros Antonio Palocci, da Fazenda, José Dirceu, da Casa Civil, e o presidente do Banco do Brasil. A ideia era montar um núcleo político que pudesse implementar uma política. Desde o início, a ABDI teve dificuldade para dar conta dessa tarefa. Houve um afastamento da Casa Civil e da Fazenda logo no início da sua criação. Depois, a ABDI foi colocada embaixo das asas do MDIC, e não da Presidência da República; esse talvez tenha sido o primeiro passo em falso. Aos poucos, a ABDI foi se transformando em uma secretaria informal do MDIC, foi deixando de ser uma agência autônoma, cujo presidente é nomeado pela Presidência da República. Tivemos outro complicador. Na época do lançamento da PITCE e da ABDI, o BNDES [dirigido por Carlos Lessa, nota do E.] mantinha certa distância dos debates sobre inovação. Havia a política industrial com foco em inovação, mas o principal instrumento de política industrial do País, o BNDES, estava relativamente distante das discussões, o que gerava desconfiança. Com isso, faltaram recursos.

Titulares de órgãos de governo, como MCT, MDIC, Finep e BNDES, sempre destacam em seus pronunciamentos que há articulação... Citam o Plano de Ação de Ciência e Tecnologia, o PAC C&T e as ações do BNDES no apoio à inovação como exemplo.
Não estão mentindo, mas é necessária uma articulação mais intensa. Por que temos dois PACs, um geral, focado em infraestrutura, e um para C&T? Por que o primeiro, o Plano de Aceleração do Crescimento, não incluiu questões de tecnologia? Como imaginar acelerar o crescimento de um país sem tecnologia? Temos um PAC de C&T porque C&T, no Brasil, tem dificuldade de se articular. O BNDES é um banco e os critérios de um banco são aversão ao risco, para segurança de investidor, a quem presta contas. Ninguém faz a estruturação mais macro das políticas de desenvolvimento do Brasil. As instituições agem por si.

Faltam recursos?
Os recursos estão aumentando, mas, por vezes, a carência é de foco: dispersamos investimento, colocamos recursos em algo que não precisaria, colocamos mais dinheiro onde não precisa e menos onde precisa. Juros, impostos altos, deficiências regulatórias são problemas que precisam ser sanados, mas nossa economia precisa ser mais inovadora. As empresas precisam inovar mais e nossas universidades estar sintonizadas com esse esforço. Muitas vezes repetimos essas frases, mas quando olhamos os orçamentos, os instrumentos, a postura, os convênios e acordos, é tudo muito pequenininho. Um exemplo: há quatro meses, a Geely, uma empresa chinesa, que até cinco anos atrás era apenas do segmento de linha branca, comprou a Volvo — a fabricante sueca de automóveis controlada pela Ford. O valor da internacionalização dessa empresa equivaleu a algo em torno de 40% daquilo que o BNDES financiou para a internacionalização da JBS Friboi [frigorífico brasileiro]. É importante internacionalizar nossos frigoríficos, mas estamos falando de carne, de commodity. A China passou a ter uma das montadoras mais sofisticadas do mundo, vanguarda na área de segurança, desempenho. Sei que as commodities hoje são mais sofisticadas, mas não é comparável com o que a Volvo faz. Ela trabalha nas áreas intensivas de conhecimento: software, mecânica, química fina, aços especiais, com tudo aquilo que o País precisaria para elevar o patamar da nossa economia. É na articulação de ações desse tipo que estou pensando quando falo na criação da agência.

Isso não poderia ser feito sem uma agência?
Poderia, com critérios mais ou menos bancários. Do ponto de vista de um banco, o retorno de emprestar dinheiro para um ou para outro [a internacionalização da Geely ou da JBS Friboi] seria mais ou menos o mesmo. Já para o País, seria diferente. Estive em Berkeley (EUA) recentemente. Lá há um número gigantesco de pesquisadores em biotecnologia, e observei que o número de empresas à venda em função da crise é muito grande. Quem está comprando essas empresas são os chineses e indianos. O Brasil não foi às compras... E isso ocorre por falta de articulação. Temos instrumentos para apoiar a aquisição de empresas no exterior em setores estratégicos para o País. Uma agência nacional de inovação poderia acelerar esse processo. Deve estar subordinada à Presidência da República, para que tenha legitimidade institucional, representatividade junto ao conjunto das outras instituições, e para ter sintonia com os planos prioritários do governo. Uma agência como essa talvez pudesse interferir na formulação de um PAC que não fosse apenas um plano de infraestrutura, mas de tecnologia. Não há como sustentar crescimento com construção de estradas, apesar de ser necessário melhorar nossa infraestrutura. Precisamos aliar esses investimentos ao desenvolvimento de áreas intensivas em tecnologia. Corremos o risco de fazer estradas antigas, portos antigos. Isso é uma desarticulação com a área de C&T. Vamos ver o mesmo problema com o pré-sal. A Petrobras pode trabalhar com as multinacionais, que não têm tecnologia para lidar com a exploração do pré-sal. Terão de desenvolver isso. O Brasil poderia articular uma iniciativa para ter uma ou três empresas brasileiras com condições de desenvolver tecnologia para o pré-sal. Se não tivermos uma política industrial que queira capacitar as empresas brasileiras, vamos extrair petróleo, mas estaremos fortalecendo as grandes fornecedoras que já estão no setor. Com a compra da Volvo, a China colocou um pé no setor automobilístico. Pode conseguir uma capacitação tecnológica e de gestão que não teria sozinha ou que demoraria anos para obter. Ela queimou etapas. Por que não fazemos isso? Prospecção e extração de petróleo em águas profundas têm a ver com nanotecnologia, biotecnologia, com informática. A Petrobras debate internamente a necessidade de o Brasil construir refinarias. Não sou contra refinarias, mas o refino é uma atividade madura, pode ser feita em qualquer lugar do mundo. Por que montar refinaria e não gerar e capacitar grupos nacionais que dominem os softwares de prospecção geológica no pré-sal, por exemplo? São sistemas complexos e para os quais temos baixa expertise. Teremos petróleo no pré-sal em outros países. Diante da perspectiva de ampliação da exploração de petróleo em águas profundas, por que não ter empresas do tipo da Petrobras trabalhando com as áreas de prospecção, de software?

Estamos no último ano da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva. Qual avaliação faz da PITCE e da Política de Desenvolvimento Produtivo que, de acordo com o governo, a sucedeu?
A PITCE tinha quatro prioridades, a PDP tem mais de 25 setores incluídos como prioridade. Tendo a achar que houve diluição, e isso é uma fraqueza da PDP. Mas a questão do investimento na PDP é muito mais presente do que foi na PITCE. Políticas industriais são de longa duração, e nossa experiência ainda é muito recente. Vejo como muito positivo o que foi feito, ainda que tenhamos dificuldade de fazer uma avaliação mais expressiva. As métricas de avaliação nem sempre são muito razoáveis ou explícitas. Os programas nem sempre contêm suas formas de avaliação, os objetivos nem sempre são claramente formulados e não sabemos se atingimos os resultados esperados, se fomos eficazes. Isso é um problema sério no que se refere a todo tipo de política pública no Brasil. A crise econômica mundial dificultou a implementação das diretrizes básicas da PDP, que teve de optar entre se apegar às prioridades definidas pelo governo e pela PDP ou manter o nível da atividade econômica, liberando empréstimos e financiamento para capital de giro. A opção foi manter a economia rodando, e a questão tecnológica, no caso do Brasil, acabou não sendo determinante para liberação dos investimentos.

O oposto dos Estados Unidos...
Exatamente. O plano de recuperação do governo Obama tem um viés muito forte em tecnologia, o que evidentemente não dará fruto no curto prazo, mas no médio e longo prazo se mostrará algo infinitamente mais eficiente do que a escolha pela manutenção da atividade econômica. O Brasil não fez esse movimento e isso não é bom porque não vamos sentir o impacto agora.

Mas as medidas adotadas no Brasil são tidas como corretas porque entramos por último e saímos primeiro da crise...
Isso é real e, óbvio, positivo. Olhando novamente para a qualidade do investimento público feito no período, percebemos que a parcela direcionada para as áreas mais dinâmicas e intensivas em conhecimento foi bastante menor, mesmo em relação ao que era feito antes da crise. Repetimos o que foi feito nos anos 80 e 90, quando não investimos em eletrônica e microeletrônica, em telecomunicações. O Brasil ficou completamente defasado. Nossa capacidade de comércio está diminuindo — a venda de manufatura não está aumentando por falta do que vender. Mesmo voltando ao patamar de venda anterior [à crise], deveríamos melhorar, aumentar a qualidade do que produzimos, oferecer novos produtos. Se não tomarmos medidas relacionadas ao pré-sal, por exemplo, não teremos o que oferecer. E as sedes das grandes multinacionais que fornecem para a Petrobras estarão vendendo para Alemanha, Estado Unidos, França.

A ABDI escolheu acompanhar as empresas inovadoras na nova Sondagem da Inovação por acreditar que elas "arrastam" a cadeia de fornecedores. O senhor acredita que o apoio a essas empresas ajudaria o País a ter o "choque de inovação"?
Política industrial é para as empresas que não deram certo. Para aquelas que venceram, a política serve de suporte para manterem sua competitividade. O grande problema da política industrial é chegar às empresas que fabricam produtos padronizados, que competem cortando custos e salários, que sacrificam qualidade. Precisaria ter uma explosão de pequenas empresas qualificadas no País. As pequenas empresas não têm gente qualificada. Podemos combinar programas sem ter muitos custos. Por exemplo, temos a disseminação de escolas técnicas. As pequenas empresas poderiam ter um abatimento de impostos ou tributos, e contratar os formandos dessas escolas. Esse seria um exemplo de como pensar de forma articulada. Seria um processo mais maciço de qualificação das pequenas empresas. No mundo todo, as pequenas empresas são as mais inovadoras. Isso não ocorre no Brasil. Talvez tenhamos dois problemas. Um, as pequenas empresas talvez não tenham grande estímulo para ser inovadoras. O outro é que talvez tenhamos métricas equivocadas para medir a inovação nessas firmas. Se fizer isso por número de patentes, licenciamento, laboratório de P&D, engenharia, vamos excluir 99% das pequenas empresas brasileiras.

Fonte: Inovação Unicamp

H1N1 pode estar se transformando e adquirindo uma patologia semelhante à do vírus da influenza sazonal

Transformação viral
Logo após o aparecimento dos primeiros casos da gripe suína, no México, em abril de 2009, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, divulgou que a doença poderia se transformar em uma pandemia – o que de fato ocorreu. Um ano e meio depois, os cientistas do CDC continuam tentando entender a patologia do vírus da influenza A H1N1, causador da gripe.

De acordo com Sherif Zaki, chefe do Departamento de Patologia e Doenças Infecciosas do CDC, o H1N1 pode estar se transformando e adquirindo uma patologia semelhante à do vírus da influenza sazonal, que causa a gripe comum.

Zaki explica que o H1N1 continua circulando e os surtos podem voltar a ocorrer. Mas com o avanço do conhecimento sobre as possíveis mudanças em suas características, com desenvolvimento de novas vacinas e com a continuidade das campanhas de educação e prevenção, os riscos serão baixos.

Por outro lado, as pesquisas têm mostrado que, nos casos fatais de influenza, a incidência de coinfecções com bactérias é maior do que se imaginava.

Zaki participou, na semana passada, do 3º Encontro de Patologia Investigativa e da 13ª Jornada Internacional de Patologia, realizados pelo Hospital A.C. Camargo, em São Paulo. Leia a seguir a entrevista concedida pelo cientista norte-americano:

Agência FAPESP – Há um ano e meio surgiu o surto de gripe A, que matou mais de 100 pessoas no México e marcou o início de uma pandemia. Hoje, o CDC continua estudando o H1N1. O que há de especial na patologia desse vírus?
Sherif Zaki – Há muitas diferenças entre os vírus da influenza sazonal, que causam a gripe comum, e o H1N1. Eles atacam diferentes partes do pulmão. O vírus da influenza sazonal envolve mais as vias superiores, traqueia e brônquios. É uma doença das vias respiratórias superiores. O H1N1 ataca mais a parte periférica, ou inferior, dos pulmões, causando mais pneumonia. Essas diferenças têm a ver com as partes dos pulmões a que estão ligados os receptores desses vírus. As doenças que eles causam, portanto, são um tanto diferentes.

Agência FAPESP – Essas diferenças também se refletem na gravidade da doença?
Zaki – A questão é que os pacientes que têm certas condições subjacentes – como obesidade extrema, diabetes, câncer ou algum tipo de imunossupressão – são mais suscetíveis a forma severa da doença. E os mais jovens são mais suscetíveis à influenza do H1N1 do que à sazonal. Essa última normalmente atinge com maior incidência gente acima de 60 anos. A gripe do H1N1 envolve mais a faixa dos 20 aos 55 anos por uma questão relacionada à imunidade. As pessoas nessa faixa não foram expostas a vírus similares, enquanto as mais velhas já foram e, por conta disso, desenvolveram algum tipo de imunidade a eles.

Agência FAPESP – Há ainda desafios científicos envolvidos com a patologia desses vírus?
Zaki – Sim, ainda há muitas coisas que não entendemos. Acho que o próximo desafio será prever o que acontecerá em relação à influenza no próximo outono no hemisfério Norte. Não sabemos com que intensidade ela voltará, quantas pessoas serão afetadas, qual a disponibilidade de vacina ou como as novas vacinas serão incluídas nos programas regulares de vacinação. No caso da H1N1, essas perguntas são muito importantes porque não sabemos se esse vírus está aqui para ficar. Não sabemos se ele se tornará uma outra influenza sazonal, ou se é algo que passará. Há algumas evidências de que o vírus pode estar se modificando com o tempo, aproximando-se da patologia da influenza sazonal. Há muitas perguntas a fazer e temos que continuar pesquisando.

Agência FAPESP – Depois de abril de 2009 o surto do vírus H1N1 gerou muitas manchetes nos jornais. Mas, agora, parece que o assunto arrefeceu. A pandemia foi superada? Qual o desafio daqui em diante em termos de epidemiologia?
Zaki – Essa é uma questão muito boa e que nos intriga. O vírus ainda está aí, gerando novos casos da doença. Mas, como ocorre com a gripe sazonal, dependendo da localização de cada país – no hemisfério Norte ou Sul –, há diferenças na estação em que ocorrem os surtos de gripe. O fato é que o vírus não desapareceu, ele ainda está circulando. A pergunta agora é: a cepa que causou o último surto foi ou não substituída por uma nova cepa? É típico do vírus da influenza ter uma cepa circulando quando, subitamente, ela é substituída por uma nova.

Agência FAPESP – É possível prever qual será a próxima cepa a circular?
Zaki – Sempre temos várias linhagens em ação – a questão é saber qual delas vai predominar. É por isso que a vacina muda a cada ano. Temos que tentar prever qual será a principal cepa no próximo ano. Precisamos de vários meses para preparar as vacinas e as decisões devem ser feitas cinco ou seis meses antes. Especialistas de todo o mundo se encontram, discutem sobre as linhagens, trocam informações e fazem recomendações para a OMS sobre quais as novas linhagens que devem ser incluídas na vacina do ano seguinte.

Agência FAPESP – As vacinas são eficientes?
Zaki – Elas são eficientes em 60% a 70% dos casos. São altamente recomendadas para os muito jovens ou muito velhos, além de pessoas com doenças como diabetes, câncer ou asma. Grupos suscetíveis a essas e outras doenças devem tomar a vacina. Mas há um aspecto muito importante: não se trata só da vacina da influenza. Um dos problemas da influenza é que muitas vezes há coinfecções bacterianas. E estamos constatando que o vírus H1N1 tem uma incidência maior de coinfecções com bactérias do que pensávamos antes.

Agência FAPESP – O vírus abre as portas do organismo para as bactérias?
Zaki – Sim, basicamente ele abre as portas danificando as defesas do corpo. É importante saber quais são as bactérias com maior incidência nesses casos, pois temos vacinas também para algumas delas. Esse é um componente muito importante para a prevenção, não só para a influenza, mas também para outras bactérias associadas – em especial a infecção por estreptococos, que sabemos ser comum entre pacientes de gripe. E essas infecções afetam especialmente pessoas com aquelas condições que mencionamos, como crianças e diabéticos.

Agência FAPESP – A doença causada pelo vírus H1N1 é realmente muito mais grave do que a gripe comum?
Zaki – Essa é uma questão difícil de ser respondida. Ela é mais severa em alguns casos, porque não temos imunidade nessa grande faixa etária dos 20 a 55 anos e 90% dos pacientes podem ter alguma condição subjacente. Mas nem todos têm a gripe em sua manifestação severa. Em geral, a gripe suína não parece causar mais mortalidade do que a gripe sazonal comum.

Agência FAPESP – Podemos dizer que é importante destacar as diferenças entre os dois tipos de gripe, mas que não há razão para pânico em caso de um novo surto do vírus H1N1?
Zaki – Exato. Não há razão alguma para pânico. Precisamos conhecer o inimigo, vacinar, prevenir e continuar a campanha educativa, que inclui lavar as mãos, seguir regras de higiene, etc. Esse é o ponto. Mas não é preciso se preocupar com essa gripe mais do que fazemos com a gripe sazonal. Trata-se apenas de mais uma forma de gripe sobre a qual precisamos saber mais. Não é mais mortal, nem mais perigosa. É apenas diferente. E precisamos nos preparar para essas diferenças.

Agência FAPESP – Em relação ao vírus H1N1 e à influenza de modo geral, qual é o foco da pesquisa, atualmente, no seu grupo do CDC?
Zaki – Estamos observando as transformações do H1N1. Cada vez mais estamos vendo casos envolvendo as vias superiores. Então, nossa principal questão é saber se o vírus permanecerá o mesmo, ou se vai se adaptar e ficar mais parecido com a variedade sazonal em relação à patologia.

Agência FAPESP – Os esforços, então, estão voltados para compreender o próprio vírus?
Zaki – Sim, mas não estamos tão ocupados como há cinco meses. Agora, podemos fazer estudos de rotina e levar adiante trabalhos de epidemiologia. Fazemos estudos a partir de cerca 800 casos fatais que recebemos, sendo que em metade deles foi confirmado que a morte foi causada por influenza. Daqui em diante, o importante é também aprimorar os diagnósticos clínicos. Em muitos casos achamos que o paciente morreu de gripe, mas que ele tinha várias doenças ao mesmo tempo. É preciso aprender sobre essas doenças também. Infelizmente, quando se tem uma pandemia, todo mundo pensa só na influenza e tende a atribuir tudo ao vírus. É preciso definir melhor os diagnósticos e educar a população em relação a quais são as características de influenza, distinguindo-as melhor de outros casos.

Fonte: Fábio de Castro /Agência FAPESP

Acidentes com animais peçonhentos estão entre as principais doenças negligenciadas

Picadas negligenciadas
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que anualmente 5 milhões de pessoas sofram algum tipo de acidente envolvendo serpentes. A metade dos casos resulta em diversos graus de envenenamento, ocasionando cerca de 120 mil mortes e 250 mil indivíduos que carregarão sequelas.

Esses números levaram a OMS a enquadrar o acidente com serpentes na lista de doenças tropicais negligenciadas (DTNs), que reúne enfermidades erradicadas ou praticamente erradicadas nos países desenvolvidos, mas que persistem naqueles em desenvolvimento.

“Como as comunidades atingidas têm pouca voz política, essas doenças ganham baixo impacto nas agendas de saúde mundiais”, disse Denise V. Tambourgi, diretora do Laboratório de Imunoquímica do Instituto Butantan de São Paulo (SP).

O assunto foi abordado em uma conferência dada pela cientista durante a 62ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada no fim de julho, em Natal.

Cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo são vítimas de doenças tropicais negligenciadas, um grupo que engloba enfermidades como dengue, hanseníase, doença de Chagas, leishmaniose e esquistossomose.

Os acidentes com serpentes chegam a ser mais numerosos do que casos de doenças como a dengue, que tem atingido 500 mil pessoas por ano e provocado a morte de 19 mil, apontou Denise, que conta com um Auxílio à Pesquisa – Regular da FAPESP para estudar os mecanismos moleculares de ação do veneno das lagartas Premolis semirufa.

De acordo com a cientista, as ocorrências com serpentes devem ser ainda mais numerosas do que o apontado pela OMS, uma vez que o registro desses acidentes não é feito em todos os países. A situação se torna ainda mais grave se forem considerados acidentes com outros animais peçonhentos.

“Acidentes com aranhas são comuns e os registros de picadas de escorpiões têm crescido nos últimos anos”, disse. Segundo ela, a lista da OMS deveriam abranger acidentes com todos os animais peçonhentos no grupo de doenças tropicais negligenciadas.

A importância do assunto tem levado o Instituto Butantan a investir no aprimoramento do antiveneno de outros animais além das serpentes, como é o caso da aranha marrom.

Mesmo sem ter o número exato de acidentes, pode se concluir que a maioria ocorre nos países mais pobres. Segundo Denise, há uma relação direta entre a quantidade de ocorrências com animais peçonhentos e a pobreza. Há estudos mostrando que o número de mortes desse tipo é maior nos países com menor índice de desenvolvimento humano (IDH).

“O problema é mais preocupante na África, onde há uma crise na produção e na distribuição de antivenenos”, disse. No continente africano não há laboratórios produtores de antiveneno, o que aumenta a dificuldade de acesso a esse tipo de medicamento.

Para enfrentar a questão foi criada na Austrália a Iniciativa Global para Acidentes com Serpentes, que estabeleceu uma série de metas que objetivam auxiliar as nações mais carentes a lidar com o problema.

Fazem parte da lista o levantamento de informações confiáveis sobre esses acidentes, a melhora na produção de antivenenos, o auxílio aos países pobres no desenvolvimento de soros específicos, a produção regional desses soros a preços acessíveis e estudos sobre a eficácia dos antivenenos.

“Esses ensaios clínicos são mais complicados do que os testes de outros tipos de medicamentos, pois você não pode administrar placebo em um suspeito de picada de cobra”, explicou Denise.

A Iniciativa Global almeja um sistema eficiente de distribuição dos soros observando-se a ocorrência das espécies de serpentes de cada região, além da criação de um programa de educação preventiva aos acidentes e de outro para apoiar as vítimas com sequelas.

Outra meta seria a criação de um fórum permanente de agentes de saúde com o objetivo de monitorar os casos e deliberar ações para combater esses acidentes.

No Brasil, apenas em 2006 tornou-se obrigatória a notificação dos acidentes com animais peçonhentos. Em 2008, o país apresentou mais de 100 mil ocorrências do tipo, sendo 27 mil com serpentes e 20 mil envolvendo aranhas.

Mais soros polivalentes
Denise afirma ser fundamental a distribuição e o acesso aos antivenenos para a redução dos casos. O Instituto Butantan tem trabalhado para aprimorar os antivenenos que produz, de modo a ampliar sua ação para um número maior de espécies.

Das mais de 20 espécies existentes do grupo Bothrops, da jararaca, no Brasil, apenas cinco participam da mistura de imunização utilizada para a produção do soro polivalente no país. Devido às variações entre as espécies, não há garantias de que o soro terá uma neutralização dos venenos de todas.

Para atender a todo o Brasil, os pesquisadores do Butantan têm de lidar com uma tarefa árdua: conseguir um conjunto de venenos que neutralize ao máximo a ação tóxica de todos eles.

“Isso não é fácil, pois os venenos são misturas químicas muito complexas e que possuem uma ampla variação”, disse Denise. Para enfrentar esse desafio, os pesquisadores do Butantan desenvolveram métodos in vitro para analisar a ação dos soros terapêuticos.

É um equilíbrio difícil. Temos de desenvolver antivenenos que apresentem o mínimo de toxicidade, com uma máxima capacidade neutralizante para os venenos das diferentes espécies de serpentes que ocorrem em todo o território nacional”, disse.

Fonte: Fabio Reynol / Agência FAPESP

Programa Eco Challenge: Powering the Grid recebe projetos sobre energia renovável

Desafio mundial em energia renovável

Pesquisadores, estudantes e empreendedores poderão encaminhar até 30 de setembro ideias para o programa Eco Challenge: Powering the Grid, da General Electric, que prevê investimentos de US$ 200 milhões.

O objetivo é incentivar projetos na área de geração, distribuição e uso de energia renovável. A iniciativa visa à busca de soluções para geração de energia limpa e a diversificação das matrizes energéticas existentes.

São três as categorias: Energias Renováveis, Rede Elétrica e Casas e Prédios Ecológicos. O programa é aberto a maiores de 18 anos.

Os participantes selecionados receberão um aporte de investimentos no valor inicial de US$ 100 mil e estabelecerão relações comerciais com a GE, trabalhando em conjunto com cientistas, técnicos e pesquisadores da companhia em seus centros de pesquisa.

Para participar é necessário registrar-se no site. A proposta – que pode ser individual ou em grupo – deve ser clara e detalhada, de forma que descreva etapas de execução das tecnologias a serem desenvolvidas. Em caso de inscrição em grupo, é preciso indicar o responsável.

Também é necessário informar se a ideia tem algum pedido de patente. Além disso, o participante pode enviar um vídeo opcional, mas é obrigatório o envio de uma foto simples, do participante, grupo, empresa ou organização.

O júri selecionará as ideias como base na originalidade, viabilidade e impacto dos projetos. Na primeira fase, até 30 de setembro, o público geral votará nas melhores ideias, mas a decisão final será da comissão da GE. Na segunda, de 1º de outubro a 30 de novembro, a companhia anunciará os projetos com os quais ela pretende estabelecer relações comerciais.

Fonte: Agência FAPESP

Brasil ganha 5 medalhas na 1ª International Physics Olympiad (IPhO)

Medalhas na Olimpíada Internacional de Física

A equipe brasileira que participou da 41ª International Physics Olympiad (IPhO), realizada em julho em Zagreb, na Croácia, ganhou cinco medalhas de bronze.

A equipe foi formada pelos estudantes do ensino médio Rodrigo Alencar (CE), Filipe Rodrigues de Almeida Lira (PE), Cássio dos Santos Sousa, Gustavo Haddad Braga e Rodrigo Silva, os três últimos de São Paulo.

O Brasil participa da IPhO desde 2000 por iniciativa da Sociedade Brasileira de Física (SBF). O evento visa a estimular o interesse pela física, aproximar o ensino médio das universidades e selecionar talentos para as competições internacionais de física.

O Brasil é o país da América Latina com maior número de medalhas conquistadas na IPhO. Este ano, foi a primeira vez que todos os integrantes da equipe conquistaram medalhas. No ano passado, o país ganhou quatro: duas de prata e duas de bronze.

Os brasileiros concorreram com 380 estudantes de 80 países. Eles foram selecionados a partir da Olimpíada Brasileira de Física (OBF) entre cerca de 250 mil alunos de 4,8 mil escolas que participaram da última edição da OBF. Os selecionados da OBF são preparados para participar da IPhO e da Olimpíada Ibero-Americana de Física (OIbF).

Os alunos receberam orientação da comissão de preparação, de seus professores e dos coordenadores estaduais da OBF, além de terem feito diversas provas seletivas, sendo a preparação concluída com atividades intensivas no Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo, (IFSC) sob a orientação do professor Euclydes Marega Júnior.

Fonte: Agência FAPESP