quinta-feira, 15 de julho de 2010

Amplitude-Phase Synchronization at the Onset of Permanent Spatiotemporal Chaos

Sincronização no caos
Estudos sobre manchas solares, fisiologia respiratória, operações financeiras, meteorologia e outras áreas tão diversas como essas poderão se beneficiar de uma pesquisa publicada no periódico Physical Review Letters.

O trabalho foi feito por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos (SP), em cooperação com colegas das universidades japonesas de Kyoto e de Hokkaido.

Por meio de simulações numéricas, o grupo analisou a intermitência espaço-temporal, um fenômeno encontrado em fluidos, plasmas, óptica, reações químicas e biomedicina.

A demonstração da dualidade da sincronização de amplitude-fase feita pelo grupo pode ser aplicada em ciclos solares, variabilidades climáticas, plasmas de fusão termonuclear controlada, ritmos cardíacos e respiratórios, sinais sísmicos e frentes de ionização no Universo, entre outros exemplos.

A intermitência é caracterizada por uma série temporal que exibe períodos laminares que, por sua vez, são intercalados por surtos de flutuações de grandes amplitudes. Já na chamada intermitência espaço-temporal, o sistema apresenta um comportamento caótico no tempo e também no espaço.

O grupo foi liderado pelo físico espacial Abraham Chian, do Inpe, e investigou o mecanismo físico da intermitência do tipo on-off na transição do caos temporal para o caos espaço-temporal, com base na simulação numérica de um modelo não-linear de ondas longas. Esse modelo matemático pode ser utilizado para descrever fenômenos como a evolução da onda de deriva em plasmas ou de um tsunami em um oceano.

“O avanço significativo é a demonstração da dualidade da sincronização de amplitude-fase das flutuações, o que pode ser aplicado em muitos problemas de sistemas complexos como, por exemplo, o funcionamento do coração ou flutuações da bolsa de valores”, disse Chian.

O trabalho contou com o apoio da FAPESP por meio de um Auxílio à Pesquisa – Regular coordenado por Erico Rempel, professor do ITA, e de Bolsa de Pós-Doutorado para Rodrigo Miranda, do ITA. Yoshitaka Saiki, das universidades de Kyoto e Hokkaido, esteve no Brasil em 2006 com apoio da FAPESP.

Os três também assinam o artigo publicado na edição de 25 de junho da Physical Review Letters. O grupo também teve a participação de Michio Yamada, professor da Universidade de Kyoto, conhecido por ter desenvolvido o modelo GOY (Gledzer-Ohkitani-Yamada) de turbulência em fluidos.

O estudo promoveu também avanços metodológicos. Os pesquisadores lançaram mão tanto da representação de Fourier como a de Lyapunov para calcular as entropias espectrais de potência e de fase, bem como as médias temporais dos espectros de potência e de fase.

Segundo Chian, a metodologia desenvolvida durante o trabalho poderá ser aplicada na resolução de uma grande variedade de problemas em sistemas físicos, biológicos, químicos e tecnológicos.

Problemas no ritmo cardíaco e crises nas bolsas de valores são exemplos de instabilidades nesses sistemas. “Quando essa instabilidade evolui para um sistema não linear, esse fenômeno caótico que analisamos aparece”, disse.

A pesquisa focou nesse ponto de transição entre o período de fluxo laminar e o turbulento. O fato de o estudo poder ser aplicado também na análise de imagens implica que poderá auxiliar estudos de manchas solares.

Chamadas de regiões solares ativas, essas manchas apresentam comportamento turbulento enquanto as regiões à sua volta atuam de maneira laminar. “Nosso trabalho poderá ajudar a entender a diferenciação das regiões solares ativas”, disse Chian.

Entender a transição de sistemas laminares para sistemas turbulentos pode ajudar também nas investigações sobre o clima, como a formação de fenômenos meteorológicos como furacões e tornados.

A investigação atual está relacionada a outro trabalho publicado anteriormente também na Physical Review Letters.

Na época, o grupo de Chian caracterizou uma nova estrutura chamada de “selas caóticas” que ajudam a prever o comportamento de um sistema caótico e a controlar caos e turbulência em sistemas complexos.

O nome foi inspirado nas selas de montaria devido a uma característica dessas estruturas: elas são estáveis em uma direção e apresentam instabilidade nas direções transversais a essa.

Prêmio Guggenheim
Chian foi um dos quatro brasileiros agraciados com a bolsa de 2010 da Fundação Memorial John Simon Guggenheim, dos Estados Unidos, que contemplou 180 pesquisadores, professores e artistas.

A premiação envolve uma bolsa de cerca de US$ 23 mil para ser utilizada em pesquisas na área de estudo do ganhador. Anunciado no início de junho, o prêmio de 2010 contou com cerca de 3 mil inscrições.

Foram contemplados 37 latino-americanos e o Brasil teve quatro laureados: Patricia Torres Bozza (Instituto Oswaldo Cruz), na categoria biologia molecular e celular; João Ricardo Mendes de Oliveira (Universidade Federal de Pernambuco), na categoria neurociência; Jorge Villavicencio Grossmann, violinista e compositor radicado nos Estados Unidos, na categoria composição musical; e Chian, escolhido na categoria ciência da Terra.

O artigo Amplitude-Phase Synchronization at the Onset of Permanent Spatiotemporal Chaos (doi : 10.1103 / PhysRevLett .104.254102), de Abraham Chian, Rodrigo Miranda, Erico Rempel, Yoshitaka Saiki e Michio Yamada, pode ser lido por assinantes da Physical Review Letters pelo site.

Fonte:Fabio Reynol /Agência FAPESP

Manual de gastrópodes límnicos e terrestres do Estado de São Paulo associados às helmintoses

Inventário de moluscos
Um levantamento sobre a fauna de moluscos no Estado de São Paulo foi feito por pesquisadores da Divisão de Programas Especiais da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen), órgão vinculado à Secretaria Estadual da Saúde.

O objetivo do estudo foi inventariar a fauna malacológica de gastrópodes (como caramujos, lesmas, caracóis) de água doce e terrestres de importância para a saúde pública, além de descrever possíveis formas larvais de helmintos (parasitas) associadas a ela – malacologia é o ramo da biologia que estuda moluscos.

Os resultados da pesquisa deram origem ao Manual de gastrópodes límnicos e terrestres do Estado de São Paulo associados às helmintoses. O inventário fornece dados sobre a morfologia, distribuição, biologia e ecologia das espécies de moluscos, bem como identifica áreas potenciais de ocorrências de zoonoses.

“O manual contém informações de interesse da saúde pública e serve como instrumento de consulta para profissionais da área da saúde e pessoas leigas que tenham interesse em obter conhecimentos mais precisos sobre os moluscos e as doenças por eles transmitidas”, disse Fernanda Pires Ohlweiler, do Laboratório de Malacologia do Sucen e coordenadora da pesquisa.

O inventário é resultado da pesquisa, coordenada por Fernanda, intitulada “Gastrópodes límnicos e terrestres do Estado de São Paulo associados às helmitoses”, apoiada pela FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular . O livro recebeu apoio da Fundação por meio de um Auxílio à Pesquisa – Publicações.

Os gastrópodes são hospedeiros intermediários de helmintos, fazendo parte do ciclo de vida desses parasitas. “O fato de muitos helmintos terem os moluscos como hospedeiros intermediários durante a fase larvária os torna importante fonte de infecção para o homem e outros animais”, explicou.

Segundo Fernanda, um dos objetivos do estudo é auxiliar no controle e na vigilância de doenças transmitidas ao homem por moluscos, principalmente com relação à esquistossomose mansônica (transmitida pelo Schistosoma mansoni).

O inventário foi realizado a partir de coletas realizadas em coleções hídricas e seu entorno, bem como em ambientes urbanos dos municípios paulistas.

Para atualizar e ampliar o inventário as foram obtidas informações a partir de dados bibliográficos e de coleções malacológicas como da Sucen, Museu de Ciências e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul, Museu de Ciências Naturais da Fundação Zoobotônica do Rio Grande do Sul (FBZ) e Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ).

O estudo gerou mapas de distribuição geográfica no Estado de São Paulo. “A falta de investigação malacológica e a ausência de monitoramento das áreas de ocorrência, associadas a não notificação de casos pelo sistema de vigilância epidemiológica, contribuem para a subestimação de dados de prevalência das doenças no Estado”, destaca.

A distribuição dos moluscos é bastante ampla, podendo ser encontrada em ambientes naturais e antrópicos. “Um exemplo importante é o molusco terrestre Achatina fulica, de origem africana, que tem distribuição bastante abrangente, podendo ocorrer em vários países, inclusive no Brasil. Inicialmente, a espécie era encontrada em ambientes antrópicos e, em vista da saturação dessas áreas, passou a invadir ambientes naturais”, disse.

A espécie é uma ameaça à fauna nativa, praga agrícola e de interesse epidemiológico, por ser hospedeira intermediária de nematódeos. Segundo a pesquisadora, a presença da Achatina fulica no Brasil é alarmante, tanto pelos prejuízos causados à agricultura como para a saúde pública, uma vez que a espécie tem se adaptado perfeitamente às condições ambientais no país.

“Mesmo que nenhum caso autóctone de angiostrongilíases (angiostrongilíase abdominal e meningoencefalite eosinofílica) registrado no Brasil seja de responsabilidade da Achatina fulica, deve-se ampliar a vigilância a fim de se evitar a possível instalação de focos destas parasitoses no país por responsabilidade deste molusco”, alertou.

A angiostrongilíase abdominal, segundo a pesquisadora, causa dores abdominais, febre prolongada, falta de apetite e vômitos. “Além disso, pode provocar perfuração intestinal, hemorragia abdominal e infecções que podem levar à morte”, disse.

Já a meningoencefalite eosinofílica provoca cefaleia, rigidez da nuca e em alguns casos paralisia temporária. Possui, normalmente, curso benigno, raramente levando ao óbito.

Com relação à Achatina fulica existe registro da espécie portando larvas de Angiostrongylus cantonensis no município de São Vicente.

“Os moluscos têm uma distribuição bastante dispersa no Estado de São Paulo, existindo ainda muitas lacunas a serem preenchidas, principalmente com relação aos terrestres”, disse Fernanda.

Com relação às parasitoses, a esquistossomose (causada pela Biomphalaria glabrata) é responsável por focos da doença na bacia do rio Paranapanema, no oeste do Estado.

“Os focos de esquistossomose, por responsabilidade da Biomphalaria tenagophila, são mais recorrentes no Vale do Ribeira, Baixada Santista e no Vale do Rio Paraíba do Sul. O único registro da espécie Biomphalaria straminea portando larvas do parasita foi no município de Cruzeiro”, indicou.

Devido às lacunas existentes com relação à distribuição dos moluscos no Estado de São Paulo, o grupo está realizando agora um inquérito malacológico na região da Grande São Paulo, que abrange 39 municípios.

O atual projeto, intitulado “Diversidade da malacofauna de importância epidemiológica na grande São Paulo”, tem apoio da FAPESP, na modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular, e conclusão prevista para abril de 2011.

O livro Manual de gastrópodes límnicos e terrestres do Estado de São Paulo associados às helmintoses custa R$ 40 incluídas despesas de envio ou R$ 35 se não houver taxas de correio. A obra pode ser solicitada pelo e-mail ou pelo telefone (11) 3812 – 4859 – ramal 225.

Fonte: Alex Sander Alcântara /Agência FAPESP

MCB: A arquitetura de Lelé: fábrica e invenção

O Museu da Casa Brasileira (MCB) abrirá no dia 20 de julho a mostra A arquitetura de Lelé: fábrica e invenção, em homenagem ao arquiteto João Filgueiras Lima, conhecido como Lelé.

A mostra, que ficará até 19 de setembro, traz maquetes, fotografias, desenhos, filmes e animações que contam a história do arquiteto cuja obra é reconhecida especialmente pela colaboração com Oscar Niemeyer na construção de Brasília e pelo conjunto de projetos que desenvolveu junto à Rede Sarah de hospitais.

A exposição inicia com um painel cronológico de centenas de obras, com destaque para os sistemas e tecnologias desenvolvidos para a construção de passarelas que marcam a paisagem da cidade de Salvador, de hospitais e centros de reabilitação do aparelho locomotor e a sede em vários cidades do Tribunal de Contas da União (TCU) .

A obra arquitetônica de Lima, nascido em 1932 no Rio de Janeiro, caracteriza-se especialmente pela busca da racionalização e da industrialização na arquitetura.

Outros projetos de destaque são o prédio do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia, o Presídio de Segurança Máxima do Rio de Janeiro e o Hospital de Taguatinga (Distrito Federal).

Atualmente, Lelé atua como diretor do Centro de Tecnologia da Rede Sarah (CTRS), onde desenvolve os projetos e a execução dos novos hospitais da rede.

O Museu da Casa Brasileira fica na Av. Faria Lima, 2705, Jardim Paulistano, na capital paulista. A exposição é aberta ao público de terça a domingo, das 10 às 18 horas. Aos domingos e feriados a entrada é franca.

Mais informações pelo telefone (11) 3032-3727.

Fonte: Agência FAPESP

Unicamp de Portas Abertas (UPA)

Escolas dos ensinos médio e fundamental de todo o país já podem se inscrever para participar do evento Unicamp de Portas Abertas (UPA), que será realizado nos dias 10 e 11 de setembro na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em Campinas (SP).

O evento anual possibilita aos alunos a oportunidade de conhecer salas de aulas e laboratórios, participar de experimentos e trocar ideias com docentes e universitários, além de assistir a uma série de atrações culturais.

São esperados cerca de 60 mil visitantes, que terão a assistência da comunidade composta de 36 mil alunos, 2 mil professores e 7,8 mil funcionários da Unicamp. A universidade tem 66 cursos de graduação e 138 programas de pós-graduação, espalhados pelo campus nas suas 22 faculdades e institutos, três hospitais, 23 centros e núcleos interdisciplinares e dois colégios técnicos.

Para atrair mais participantes, a Unicamp reformulou o site do evento de modo a permitir a atualização constante das informações e, sobretudo, dinamizar o processo de inscrição das escolas.

O site da UPA 2010 traz todas as instruções para inscrição das escolas, que devem fornecer dados fundamentais para os organizadores, como endereço e cidade, professores responsáveis, número de alunos e de veículos coletivos na excursão, dia da visita e horário de chegada. A página disponibilizará em breve a programação completa dos dois dias de evento.

Fonte: Agência FAPESP

Inéditos sobre Carlos Gomes. Para ouvir, aprender e praticar

Tese de trompetista resulta em gravação,bibliografia e edição de partituras
Pesquisa concentrada no naipe de trompete e cornet existente nos prelúdios e nas sinfonias das óperas do compositor campineiro Antônio Carlos Gomes (1836-1896), realizada pelo trompetista Paulo Adriano Ronqui, teve quatro resultados concretos – e inéditos. O primeiro é uma bibliografia em língua portuguesa que aponta a evolução na construção dos trompetes de válvulas na Europa. O segundo, a reedição das partituras do naipe nas obras envolvidas na pesquisa. O terceiro, a realização de um caderno de trechos orquestrais com as partes mais relevantes dessas obras e, por fim, a gravação desses trechos como referencial auditivo.

Ronqui, que é músico da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas (OSMC), ressalta que seu trabalho tem como meta suprir uma lacuna sobre os estudos a respeito de Carlos Gomes. A primeira contribuição, segundo o trompetista, é afirmar a importância do compositor dentro da história da música mundial. Já a segunda, diz, é relativa à prática interpretativa – área de atuação de Ronqui. “São pouquíssimas as teses que envolvem o naipe de trompete e, também, a interpretação da música brasileira. Trata-se de uma ferramenta de trabalho para a prática e a performance no Brasil nessa área”, afirmou o instrumentista. A pesquisa foi orientada pelo professor Roberto César Pires, do Departamento de Música do Instituto de Artes (IA) da Unicamp.

O interesse do músico sobre esse trabalho teve início durante o desenvolvimento do mestrado, que foi direcionado para obras de trompete solo de compositores paulistas. Parte acompanhante da dissertação, um CD continha um importante levantamento de obras de compositores paulistas e sugestões interpretativas, tendo como elemento de análise os conceitos da Escola de Trompete de Boston, que é a mais difundida no Brasil. Concluído esse trabalho, Ronqui optou por dar continuidade nesse segmento de práticas interpretativas, que é um ramo da pesquisa musical no Brasil, só que com um compositor de Campinas.

Atuante desde 1998 na Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, o trompetista conhecia obviamente a importância de Carlos Gomes para a cidade e também para o Brasil, porém não tinha noção de quanto o compositor foi importante para a música mundial. “Sempre quis pesquisar sobre Carlos Gomes. Como trabalho em uma orquestra e sou músico dentro do naipe de trompete, sempre nos chamou a atenção os erros de edições que existem nas partituras do compositor, além do descaso com a pesquisa, que é um problema recorrente no Brasil”, disse Ronqui.

Logo após a Semana de Arte Moderna de 1922, realizada em São Paulo, debateu-se a seguinte questão: Carlos Gomes era um compositor brasileiro ou “italiano”? Nas últimas duas décadas, porém, os estudos desenvolvidos no Brasil dirimiram a “dúvida”. “A configuração de elementos gomesianos mostraram-se importantíssimos tanto para o desenvolvimento da música brasileira quanto para a lírica italiana”, afirma o pesquisador.

O interesse do autor foi direcionado para um trabalho de performance dentro da música de Carlos Gomes. Para a pesquisa do doutorado foi necessário fazer um recorte e, para tanto, primeiramente foram selecionadas as óperas. Após a verificação de que o número de peças (oito) era muito grande, ele resolveu focar suas aberturas, que são os prelúdios e sinfonias – nomes empregados pelo compositor para essas obras.

Naipe
Trata-se de um trabalho que constitui toda reedição das partituras do naipe de trompete a partir dos manuscritos do compositor. Ronqui teve acesso a uma cópia desses manuscritos publicada em tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo (USP) pelo professor Marcos Pupo Nogueira, realizou todas as edições dessas partituras, selecionou os trechos mais importantes para o naipe de trompete dessas aberturas e, na sequência, fez as sugestões interpretativas baseadas nos conceitos da escola de trompete de Boston.

Nessa trajetória, o autor descobriu elementos no âmbito da instrumentação de Carlos Gomes que não se aplicavam nem no Brasil nem na Itália, entre os quais o uso do cornet. A novidade pode ser encontrada na primeira ópera escrita no Brasil, chamada A Noite do Castelo, em 1861. Nas três óperas que a antecederam, não há registro do uso desse instrumento por parte dos outros compositores. Trata-se de uma característica diferenciada e representa todo um contexto de evolução do instrumento. No âmbito da tese, o trompetista faz um estudo da evolução inteira dos instrumentos de válvula, a partir de 1815 até agora. Quando, em 1840, começou-se a usar trompetes de chaves com válvulas nas orquestras da Europa, em 1855 Carlos Gomes e seu pai, Manoel José Gomes, já estavam usando esse instrumento no Brasil.

Isso aponta para uma consonância com o que havia de novidade além-mar. A professora Lenita Nogueira, do Departamento de Música do IA, tem uma pesquisa sobre o pai de Carlos Gomes, na qual descobriu que ele comercializava instrumentos musicais em Campinas. “Talvez, por isso, a vinda dessas novidades tenha possibilitado a escrita para esses novos instrumentos. Manuel José Gomes foi o primeiro professor de música e mestre de capela da cidade. Toda iniciação musical de Carlos Gomes foi com seu pai. Existem novidades incríveis dentro desse universo de instrumentação que jamais tinham sido tocados”, disse o trompetista.

Uma das novidades apresentadas por Carlos Gomes, já na Itália, foi o uso de dois trompetes e dois cornets no naipe – prática proveniente da cultura francesa. A Itália, naquela época, era muito fechada a qualquer influência estrangeira. Com audácia e originalidade, Gomes empregou essa formação de naipe na ópera O Guarani. Uma outra conotação de naipe diferente e original é o uso de três trompetes. Historicamente, na Itália, os trompetes eram usados em pares. Em Salvador Rosa, que é a terceira ópera escrita por Carlos Gomes na Itália, ele colocou três. “Tratava-se de um componente da cultura alemã, e Vagner estava fazendo isso, não colocando a quebra na sequência de pares e sim no naipe ímpar, com três instrumentos. Depois desse uso em Salvador Rosa, conseguimos enxergar o emprego desses instrumentos em óperas de compositores italianos pós-Carlos Gomes, denominados Veristas, como Puccini”.

São várias as teses encontradas na literatura em que se explora a contribuição de Carlos Gomes para o Verismo. Há uma lacuna entre Verdi e os Veristas, que é conhecida como Período de Transição. Nesse interregno, explica o pesquisador, Carlos Gomes chegou à Itália colocando vários outros elementos, entre os quais o naipe de trompete, que ainda não foi devidamente pesquisado.

Erros
Muitos manuscritos de partituras foram negociados pelo próprio Carlos Gomes e, na hora da edição, os responsáveis tiveram pouca preocupação com a fidelidade da partitura original. Ronqui apontou o fato de que o cornet representava um papel muito importante ao longo do século XIX, no entanto, no início do século XX houve um relativo desuso desse instrumento. Ele perdeu o lugar para o trompete, que tem um som mais incisivo e brilhante, além do que o uso de surdinas possibilita novas modalidades de timbres. Com isto, os editores e copistas substituíam o instrumento – ao invés de dois cornets e dois trompetes, colocavam quatro trompetes. “Isso acaba com toda a orquestração, que levou quase 70 anos para se consolidar. Esse é um dos erros mais graves de edição”, ressaltou o trompetista.

Sobre o caderno de trechos orquestrais, Ronqui observou que os compositores de relevância na história da música mundial associados a trechos mais importantes para naipe ou instrumentos – caso seja solo –, são selecionados por editores. “Isso é pedido em concursos. Quando fiz uma busca para ver quantos excertos de Carlos Gomes existiam, verifiquei que não havia nenhum. Ou seja, esse é o primeiro caderno das aberturas. Ainda falta fazer o mesmo procedimento com todas as óperas. Foram extraídos 38 trechos orquestrais das aberturas. Ainda há muito trabalho a ser realizado”, concluiu.

Artigo
RONQUI, P. A.; PIRES, R. C. . O Naipe de Trompete na obra de Carlos Gomes. ISME/GLOMIS Electronic Journal, v. 1, p. 52-53, 2009

Publicação
Tese de doutorado: “O naipe de trompetes e cornets nas sinfonias e prelúdios das óperas de Carlos Gomes
Autor: Paulo Adriano Ronqui
Orientador: Roberto César Pires
Unidade: Instituto de Artes (IA)

Fonte: Jeverson Barbieri/Jornal da Unicamp

Petrobras inicia produção no pré-sal do Espírito Santo utilizando novas tecnologias

A Petrobras começa a produzir hoje (15), o primeiro óleo da camada pré-sal do Campo de Baleia Franca, localizado a cerca de 85 km da cidade de Anchieta (ES), no complexo denominado Parque das Baleias, na Bacia de Campos. As acumulações do pré-sal do Campo de Baleia Franca foram descobertas em dezembro de 2008.

A produção será iniciada através da conexão do FPSO Capixaba ao poço 6-BFR-1-ESS. O FPSO Capixaba é afretado para a Petrobras pela empresa SBM, e operava anteriormente no Campo de Golfinho. Para aproveitar a oportunidade de antecipação de produção dos Campos de Cachalote e Baleia Franca, foi realizada uma adaptação na planta de processo da plataforma, para viabilizar a instalação no Parque das Baleias.

O poço do pré-sal de Baleia Franca começará a produzir cerca de 13 mil barris de petróleo por dia (bpd) de petróleo leve, estimado em 29 graus API. A previsão é que atinja a capacidade máxima, de 20 mil bpd, ainda este ano.

O projeto adotará tecnologias pioneiras, concebidas para operar nas condições geológicas do pré-sal. Entre elas, novos modelos de risers flexíveis (tubulações para o escoamento de petróleo que ligam o poço à plataforma) e novas soluções tecnológicas para colocar os poços em produção (completação). O uso dessas tecnologias permite a melhoria da eficiência operacional e representa um novo passo no desenvolvimento dos reservatórios do pré-sal.

O FPSO faz parte do Projeto de Desenvolvimento Integrado de Cachalote e Baleia Franca e permite a interligação dos dois campos. A Plataforma já produz desde maio deste ano no pós-sal do Campo de Cachalote, através do poço 7-CHT-5HA-ESS, localizado a 5 km de Baleia Franca, e desde junho de 2010 no poço 7-CHT-7HP-ESS, totalizando uma produção de 44 mil bpd.

Até o final do ano, está previsto que a plataforma seja interligada a um total de nove poços. Serão três poços produtores e dois injetores em Cachalote, e três poços produtores - dois destes na camada pré-sal - e um injetor em Baleia Franca. O pico de produção está programado para ocorrer em dezembro de 2010, com expectativa de volume de 100 mil barris de óleo por dia e 1,35 milhões de m3 de gás natural.

Fonte: Agência Petrobras