quinta-feira, 8 de julho de 2010

HC-FMUSP: perfil dos motociclistas acidentados

Perigo em duas rodas

Um levantamento realizado pelo Instituto de Ortopedia (IOT) do Hospital das Cínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) traçou um perfil dos motociclistas acidentados que foram internados na unidade.

O levantamento – que contabilizou os casos ocorridos de 12 de maio a 12 de novembro de 2009 – mostra que, dos 255 acidentados de moto atendidos no IOT, 84 precisaram de internação e, desses, 54% tiveram fratura exposta.

Os acidentados passaram 18 dias internados em média, mas cerca de 14% dos pacientes, após a alta médica, precisaram ser reinternados.

Segundo o levantamento, apesar de os homens responderem pela maioria dos casos, o percentual de mulheres acidentadas chegou a 10%, o dobro verificado em relação a estudos anteriores.

O trabalho mostrou ainda que 64% dos pacientes possuíam vínculo empregatício e 67% afirmaram ter moto apenas como meio de transporte, e não como ferramenta de trabalho. Dos 84 motociclistas internados, avaliados na pesquisa, 45% afirmaram nunca terem sofrido acidente de trânsito.

A maioria dos acidentes ocorreu em colisões com carro e mais de 70% dos acidentados disseram “conhecer as leis de trânsito e não terem sido imprudentes”. Dos pacientes acompanhados, 12% tiveram lesões neurológicas periféricas.

Sessenta e seis por cento dos acidentes aconteceram no horário comercial e 71% dos envolvidos são jovens no auge da produtividade. De acordo com o levantamento, a internação dos 84 pacientes representou um custo de, aproximadamente, R$ 3 milhões para o Estado.

Agência FAPESP

Prêmios Santander Universidades: inscrições abertas

Estão abertas até 27 de agosto as inscrições para a edição 2010 dos Prêmios Santander Universidades.

Ao todo serão quatro premiações diferentes oferecidas este ano. Além do Prêmio Santander de Ciência e de Inovação e do Prêmio Santander de Empreendedorismo, dois outros foram incorporados: Universidade Solidária, voltado a projetos de extensão, e Guia do Estudante – Destaques do Ano, que será realizado em parceria com a Editora Abril, com foco na excelência do ensino.

Os prêmios são concedidos por categorias. O vencedor de cada categoria receberá R$ 50 mil. Além disso, este ano os quatro melhores projetos de cada disputa serão indicados a concorrer também ao Prêmio Ibero-Americano de Inovação e Empreendimento, que é organizado pela Secretaria Geral Ibero-Americana e inclui finalistas da Argentina, Peru, Colômbia, Chile e Espanha.

Na categoria Universidade Solidária serão contemplados até oito projetos de instituições de ensino superior que apresentem os melhores projetos de desenvolvimento sustentável com ênfase na geração de renda.

O Prêmio Guia do Estudante visa a premiar e reconhecer ações e trabalhos de excelência realizados por instituições de ensino superior parceiras do Grupo Santander nas categorias: parceira com o setor privado, combate à evasão, formação de docentes e investimento em infraestrutura.

A categoria de Ciência e de Inovação tem por objetivo estimular a produção da pesquisa científica de caráter inovador e é voltada a pesquisadores com títulos de doutor e docente.

O prêmio de Empreendedorismo é voltado para alunos de graduação e pós-graduação devidamente matriculados durante o período de inscrições e objetiva apoiar e reconhecer a criação e o desenvolvimento de projetos de estudantes com perfil e postura empreendedora. No prêmio, serão quatro selecionados e cada um receberá R$ 50 mil.

Outro destaque da edição de 2010 é que todos os inscritos ganharão um curso on-line de empreendedorismo com foco na criação de novas empresas, concedido pela Babson College, dos Estados Unidos.

Fonte: Agência FAPESP

Instituto de Geociências da USP traz ao Brasil as mais avançadas técnicas de análise geológica voltadas à exploração de petróleo e gás

Pesquisa de ponta em petróleo
Até o fim de 2010, uma microssonda iônica de alta resolução de US$ 3 milhões fará parte do Centro de Pesquisas Geocronológicas (CPGeo) do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGc-USP), colocando o Brasil entre os nove países a contar com tal equipamento no mundo – atualmente, são apenas 14 sondas do tipo.

Fruto de um investimento conjunto entre a FAPESP, por meio do Programa Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE), e a Petrobras, a máquina beneficiará várias áreas da investigação geológica. Será especialmente empregada na geologia isotópica, que se utiliza de isótopos radioativos para fazer datações de rochas, uma importante ferramenta utilizada na exploração de petróleo.

“Será o principal equipamento da área na América Latina”, disse Colombo Celso Gaeta Tassinari, diretor do IGc-USP. Essa microssonda é capaz de fornecer a composição isotópica de grãos retirados de uma rocha sedimentar. A análise é feita em um ponto de um grão, da ordem de até cinco mícrons (milésimos de milímetro), mostrando as diferentes fases de crescimento dos cristais que se formaram em épocas distintas.

“Para saber sobre o potencial de se encontrar petróleo é muito importante determinar quando cada sedimento foi depositado e qual a rocha da qual se originou”, disse Tassinari. As rochas sedimentares são formadas pelo acúmulo dos sedimentos vindos de outras formações minerais, chamadas de rochas fonte. Ao longo do tempo, os sedimentos se desprendem dessas rochas, carregados pela água ou pelo vento.

Ao fazer a datação das amostras, a análise permite inferir a possibilidade de haver petróleo em uma região. “Existe maior potencial em uma bacia se suas rochas fonte são de uma determinada idade”, disse Tassinari. Duas informações são particularmente importantes: a da formação das rochas sedimentares e a idade daquelas que lhe deram origem.

Muitas vezes, entre as camadas de rochas sedimentares há níveis de rochas vulcânicas ricas em zircão, um mineral fácil de ser datado por meio de um método chamado de urânio-chumbo. A datação das camadas vulcânicas permite estimar a idade das rochas sedimentares entre elas. As que estiverem abaixo são mais antigas, assim como os sedimentos encontrados acima da fatia vulcânica têm uma formação mais recente.

Por ser bastante resistente, o mesmo zircão é utilizado em outro parâmetro importante para a pesquisa geológica em petróleo: a caracterização das rochas origem. Ao ser separado dos demais sedimentos, o zircão fornece a idade da rocha que cedeu esse mineral à bacia sedimentar.

“Ao caracterizar rochas sedimentares e suas fontes, construímos um potencial petrolífero para aquela bacia”, disse o professor do IGc, explicando que essas datações são apenas parte dos parâmetros utilizados na análise.

Outro método que também está sendo desenvolvido pelos pesquisadores brasileiros por meio de outros equipamentos é o levantamento da história térmica da bacia ao longo do tempo geológico. O objetivo é descobrir as temperaturas às quais as rochas sedimentares e seu embasamento foram submetidos desde a sua formação até os dias de hoje.

Caso uma bacia tenha sido submetida a temperaturas muito elevadas, o petróleo ali existente pode ter se perdido. Portanto, uma bacia deve apresentar uma história térmica de baixa temperatura para ter condições de armazenar petróleo.

Esse perfil térmico é levantado por meio de vários métodos analíticos, que os pesquisadores também desenvolvem, entre eles: o argônio-argônio, o urânio-tório-hélio e o traço de fissão.

Temático
Todas essas pesquisas são desenvolvidas no Instituto de Desenvolvimento de Técnicas Analíticas Inovadoras para Exploração de Petróleo e Gás (INCT-Petrotec), um dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia apoiados no Estado de São Paulo pela FAPESP – por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa – Projeto Temático – e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Em 2009, no primeiro ano de atividade do INCT, foram aprimorados métodos analíticos importantes como o urânio-chumbo. Até então a análise pontual dos grãos por esse método não era possível: os minerais tinham de ser quimicamente diluídos e a solução resultante era analisada. “O método in situ aumentou a precisão e o poder interpretativo dos dados”, disse Tassinari.

A experiência brasileira em geocronologia, porém, é anterior ao projeto do instituto. Os trabalhos conjuntos que lhe deram origem surgiram em 2004 com a criação da rede Geochronos, que uniu laboratórios existentes em quatro universidades para trabalhar em rede.

Para realizar as análises, cada um dos centros participantes da rede foi equipado com um espectrômetro de massa de alta resolução com extração a laser ICP-MS (sigla em inglês para “espectrometria de massas com fonte de plasma de acoplamento indutivo”), que custa cerca de R$ 2 milhões.

“Na USP, o ICP-MS foi adquirido com apoio da FAPESP por meio do Projeto Temático ‘A América do Sul no contexto dos supercontinentes’, coordenado pelo professor Miguel Basei, também do IGc-USP”, contou Tassinari. Com análises pontuais com diâmetros da ordem de 30 mícrons, o ICP-MS tem ajudado a aprimorar a pesquisa nacional em geocronologia.

Além desses métodos, outros começam a surgir no Brasil. Entre eles estão as técnicas para datar rochas geradoras de petróleo e rochas reservatório. Isso porque o óleo é formado em um lugar e fica armazenado em outro. A pesquisa nacional também tem conseguido determinar a época em que o petróleo migrou de um para outro.

“Esperamos que esses métodos estejam sendo feitos rotineiramente no Brasil até 2014, quando está previsto o fim de nosso Projeto Temático”, disse Tassinari. O pesquisador ressalta a importância de não depender de laboratórios estrangeiros para isso e de deter importantes tecnologias voltadas ao setor de petróleo.

A pesquisa brasileira na área tem contribuído na análise de riscos exploratórios, o que ajuda a indústria petroleira a reduzir incertezas na hora de determinar os locais a serem perfurados. “A pesquisa brasileira em geologia isotópica está entre as melhores do mundo”, afirmou Tassinari.

Fonte: Fabio Reynol / Agência FAPESP

Ernst Bloch, o filósofo da utopia e da esperança, nascia em 1885

A 8 de julho de 1885 nascia o filósofo do "princípio esperança" e da "utopia concreta" e um dos mentores do movimento estudantil. Décadas depois, o pensamento do alemão Ernst Bloch permanece vivo.

Um punho esquerdo cerrado; abaixo do polegar, uma estrela. No ano da morte de Ernst Bloch, o diretório acadêmico da Universidade de Tübingen propôs que a instituição adotasse o nome do filósofo, acompanhado desta logomarca.

A homenagem lembra que Bloch foi um dos pais intelectuais do movimento estudantil. O punho fechado em protesto evoca um gesto muito repetido por ele em suas palestras, expressando resistência contra a injustiça existente.

"Utopia concreta"
Ernst Bloch nasceu em 8 de julho de 1885, numa família judaica de Ludwigshafen. Muitos anos mais tarde, ele ainda definiria como constitutivo para seu pensamento o contraste entre a cidade natal, industrial e operária, e a vizinha Mannheim, burgo da cultura burguesa herdada.

Em 1905, iniciou seus estudos de Filosofia, Germanística, Física e Música em Munique e Würzburg, doutorando-se em Filosofia três anos mais tarde. Já em 1918 publicou a obra Espírito da utopia, onde afirma: "O mundo existente é o mundo passado, porém o anseio humano, em ambas suas formas – como inquietude e como sonho acordado – é a vela que leva ao outro mundo".

Defendendo-se das acusações de perseguir o irrealizável, Bloch desenvolverá o conceito, aparentemente paradoxal, da "utopia concreta", distanciando-se assim tanto do puro sonho quanto do banimento de todas as esperanças para um mundo melhor, para o além.

À idéia freudiana do inconsciente como algo "não-mais-consciente", o filósofo justapõe a existência do "ainda-não-consciente". "Sobretudo nos dias de expectativa, em que predomina não o que já foi, mas sim o que está por vir, na dor indignada, na gratidão da felicidade, na visão do amor [...], transpomos claramente as fronteiras de um saber ainda-não-conhecido."

Nasce o princípio esperança
Após seu doutoramento, Bloch torna-se amigo do filósofo húngaro Georg Lukács e freqüenta os círculos de Max Weber em Heidelberg. Na década de 20, vivendo como autor autônomo em Berlim, aproxima-se tanto de Walter Benjamin, Theodor Adorno e Siegfried Kracauer como dos artistas Bertolt Brecht, Kurt Weill e Otto Klemperer.

Já em 1924, Bloch se manifestara contra a ameaça nazista num artigo intitulado "A violência de Hitler". A ascensão ao poder do Partido Nacional-Socialista em 1933 obriga o filósofo ao exílio. Após permanências em Paris e Praga, passa a viver, a partir de 1938, nos Estados Unidos. Lá ele inicia, entre muitos outros projetos, o manuscrito de sua obra máxima, O princípio esperança, cujo primeiro de três volumes só será lançado em 1954.

Música e esperança
Para o pensador judeu, a precondição para que se supere a servidão e as estruturas hierárquicas da sociedade é o princípio vital da esperança. Este não se deixa abalar por uma decepção qualquer, pois o ser humano precisa de coragem e de disposição à luta, um "otimismo militante".

Esperança e utopia dirigem-se, para Bloch, a alvos concretos: um humanismo real; uma sociedade cujos membros façam valer seu direito de recusar a posição de humilhados e ofendidos, onde possam ousar "andar eretos". Ao contrário de seus colegas marxistas, para ele a superação do capitalismo não passava de trabalho preparatório, a caminho desse alvo maior.

Nesse longo caminho, as artes, em especial a música, desempenham um papel ativo: "A relação com este mundo torna a música um sismógrafo social, ela reflete fraturas sob a superfície social, expressa desejos de transformação, convida à esperança. [...] O som exprime o que ainda está mudo no ser humano", afirma Bloch em O princípio esperança.

"Revisionista" na RDA
Em 1949, Bloch retorna à terra natal, visando "cooperar com todas as forças para a construção democrática da Alemanha", e assume a cátedra de Filosofia na Universidade de Leipzig, na então República Democrática Alemã (RDA).

O conflito com o Partido Socialista Unitário (SED), latente desde o início, explode em 1956, quando sua obra é classificada como "antimarxista e revisionista".

Durante uma viagem à Alemanha Ocidental, cinco anos mais tarde, ele e sua família são surpreendidos pela construção do Muro de Berlim, que dividirá o país fisicamente em duas metades, duas visões de mundo. Bloch decide permanecer, passando a lecionar na Universidade de Tübingen.

Revolução, movimento estudantil e terrorismo
Bloch saudou o movimento estudantil do final dos anos 60 como uma "rebelião contra a repressão primária", capaz de pôr em desordem e movimento uma sociedade estagnada. "Nossos senhores fazem, eles próprios, que o homem comum se torne seu inimigo e se indigne, e a isso eles chamam de rebelião."

Entretanto o filósofo distinguia estritamente entre protestos estudantis e o terrorismo desgovernado à maneira da Facção do Exército Vermelho (RAF). "Não se deve confundir revolução com exibição barata de força. Espernear sem cessar porque nada nos agrada, jogar tudo fora por ter visto algo melhor [...], isso não é revolução. É claro que revolução é um estado de maturidade."

O filósofo faleceu em 4 de agosto de 1977, em Tübingen. E a "Universidade Ernst Bloch" é uma utopia: ela só existiu no mundo palpável por um curto espaço de tempo e sob pressão estudantil. Porém a assembleia geral dos estudantes reivindicou para si o nome e a logomarca, e os preserva, mais de 30 anos depois. Movida a esperança, a resistência contra o jeito como as coisas são – mas não deveriam ser – continua, nem que seja apenas em algumas cabeças.

Fonte: Augusto Valente/DW