quinta-feira, 24 de junho de 2010

Jabulani é analisada pelo IPT e NASA

Golaço ou gol contra? A maior polêmica da Copa do Mundo na África do Sul até o momento ainda não tem uma conclusão. Para alguns, a bola oficial do evento, denominada Jabulani (“celebração”, em zulu), representa uma notável evolução do ponto de vista tecnológico. Para outros, o resultado deixou a desejar.

O atacante Luis Fabiano, da Seleção Brasileira, criticou. O goleiro Júlio César chamou de “bola de supermercado”. Fernando Torres, atacante espanhol, também falou mal. Kaká está entre os que elogiaram.

As maiores críticas foram com relação aos movimentos imprevisíveis, promovidos pela resposta aerodinâmica da nova redonda, especialmente nos chutes mais fortes. Na primeira rodada, com o baixo número de gols, a reclamação foi ainda maior. Mas no fim da primeira fase da Copa, os gols voltaram. Portugal enfiou sete na Coreia do Norte. O próprio Luis Fabiano marcou dois contra a Costa do Marfim.

Para o fabricante, a Adidas, a bola representa um avanço. Mas o próprio presidente da empresa, Herbert Hainer, reconheceu que é preciso um certo tempo para se acostumar com a Jabulani, por ser “mais aerodinâmica e mais rápida”.

Pesquisadores da Nasa, a agência espacial norte-americana, e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), decidiram avaliar o comportamento da Jabulani.

No Centro de Pesquisa Ames da Nasa, na Califórnia, foram feitos testes para comparar a bola com a usada na Copa de 2006 na Alemanha, a Teamgeist (“espírito de equipe”). A Teamgeist, no lugar dos hexágonos costurados das bolas tradicionais, tinha oito painéis fundidos por um processo térmico, que elimina a necessidade de costura, mesmo interna, entre eles. A Jabulani tem 14 painéis e ganhou sulcos aerodinâmicos.

A conclusão da Nasa é que com a Jabulani os jogadores não deverão ter melhor controle do que com a Teamgeist. “É bem óbvio. O que estamos vendo é um efeito knuckle-ball”, disse Rabi Mehta, engenheiro aeroespacial no centro Ames. Knuckle-ball é um arremesso no beisebol no qual a bola não é segura com os dedos, mas sim com seus nós, resultando em movimento com acentuada curva e imprevisível para o rebatedor.

Segundo Mehta, quando a Jabulani se desloca em velocidade elevada, o ar próximo à superfície é afetado pela sua superfície, resultando em um fluxo assimétrico. Essa assimetria cria forças laterais que podem resultar em mudanças súbitas no percurso. De acordo com o cientista, a Jabulani tende a assumir o efeito knuckle ao superar os 75 km/h, o que corresponde a um chute forte.

Outro ponto a se considerar, segundo Mehta, é que vários dos estádios em que ocorrem os jogos na Copa da África do Sul estão em altitude elevada (Joanesburgo, por exemplo, fica a cerca de 1.600 metros do nível do mar). “Isso afeta a aerodinâmica da bola, uma vez que a densidade do ar é menor. Em altitudes altas, a bola tende a se deslocar mais rapidamente, com menos empuxo”, disse.

Maior arrasto
Os pesquisadores Gilder Nader e Antonio Luiz Pacífico, do Laboratório de Vazão do IPT, realizaram testes no túnel de vento atmosférico do instituto com bolas de torneios oficiais de futebol.

Foram testadas as bolas do campeonato Paulista e Brasileiro deste ano e das copas de 2006 e 2010. Os testes foram encomendados pela Rede Globo. Segundo Nader, foram feitas medições com visualização do escoamento de ar em volta de cada bola. Para isto foi utilizado o sistema PIV (“Particle Image Velocimetry”) com emprego de raios laser.

“Verificamos que a bola do Campeonato Brasileiro, por exemplo, com superfície mais rugosa, do tipo clássico, tem coeficiente de arrasto (resistência ao ar) mais baixo e bom deslocamento. As bolas das Copas apresentaram um ‘descolamento’ mais rápido e maior coeficiente de arrasto”, disse.

Ao ser chutada, a bola ganha uma velocidade inicial que vai diminuindo até que, em um determinado momento, atinge o chamado “ponto de crise de arrasto”, explicou Gilder.

“É quando ela faz uma curva. Com a bola do ‘Brasileirão’, esse ponto demorou mais para ser alcançado, em uma velocidade de aproximadamente 13 metros por segundo. A Jabulani atinge esse ponto e faz a curva bem antes, em uma velocidade que ainda vamos medir com exatidão”, disse.

As bolas de futebol evoluem constantemente, com as grandes novidades surgindo justamente em cada Copa do Mundo. As atuais, e não apenas a Jabulani, são muito diferentes das usadas há meio século. Na Copa da Suécia, em 1958, por exemplo, a bola era de couro curtido, chamada de “capotão”, pesada e que se encharcava em dias chuvosos, dificultando a precisão dos chutes.

Mas isso, claro, não impediu que o Brasil fosse campeão nem que um certo garoto apelidado de Pelé, então com 17 anos, assombrasse o mundo com momentos antológicos, como o gol na final, em que deu um lençol no zagueiro sueco e chutou a bola ainda no ar para o fundo das redes e da história. Mostrou que craque que é craque dá show com qualquer bola. E isso o mundo já está vendo na Copa da África do Sul, independentemente das polêmicas da bola.

Fonte: Agência FAPESP

Redes sociais determinam dinâmica de transmissão do vírus da hepatite C

Social Networks Shape the Transmission Dynamics of Hepatitis C Virus

Conexões virais
O vírus da hepatite C (VHC), descoberto em 1989, já infectou cerca de 170 milhões de pessoas em todo o mundo, mas 40% dos eventos de transmissão não têm causa conhecida. Um novo estudo, liderado por pesquisadores brasileiros e realizado com amostras de sangue de pacientes do Estado de São Paulo, mostra pela primeira vez que fatores sociais podem ter um papel central nos padrões de disseminação do vírus.

O trabalho, publicado na edição desta quinta-feira (24/6) da revista científica de acesso livre PLoS ONE, revela que os diversos genótipos do vírus entraram em território paulista em diferentes momentos e tiveram taxas de crescimento distintas. A pesquisa indica ainda que a transmissão está relacionada com a rede de contatos sociais entre os indivíduos, direcionando-se para grupos com determinado tipo de comportamento.

O trabalho é um dos resultados da Rede de Diversidade Genética Viral (VGDN), formada por dezenas de laboratórios espalhados pelo Estado que estudam as variedades genéticas de vírus. Lançada em 2000 como decorrência do Programa Genoma FAPESP, a rede é financiada pela Fundação.

De acordo com Paolo Zanotto, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), autor principal do artigo e um dos coordenadores da VGDN, o estudo se baseou em sequências genéticas extraídas de amostras de sangue de 591 pacientes de cidades paulistas.

“O padrão predominante dos estudos de epidemiologia tem um viés clínico, mas procuramos entender qual é o papel da interação social na disseminação da doença. Um dos dados que tínhamos à disposição era o número de parceiros sexuais dos pacientes e, a partir daí, percebemos claramente que o número de contatos sexuais – que reflete a conectividade das pessoas nas malhas sociais – é claramente um fator fundamental para a transmissão do vírus”, disse Zanotto.

Estima-se que os portadores do VHC no Brasil correspondam a até 3,5% da população. Não existe vacina disponível para a hepatite C e o tratamento para a doença consiste em antivirais que têm baixa eficácia e provocam efeitos colaterais. “Por isso é tão importante entender a dinâmica de transmissão do vírus e investir em prevenção”, disse Zanotto.

O estudo mostrou que o subtipo 1b do VHC é o mais antigo e avançou mais lentamente que os subtipos 1a e 3a, em múltiplas classes sociais e faixas etárias. Por outro lado, os subtipos 1a e 3b estão associados a pessoas mais jovens, infectadas mais recentemente, com taxas mais altas de transmissão sexual.

“A dinâmica da transmissão do VHC em São Paulo varia de acordo com o subtipo e é determinada por uma combinação de idade, exposição ao risco e características da rede social. Os fatores sociais têm um papel fundamental nas taxas e nos padrões de disseminação. A definição desses grupos de risco será fundamental para orientar políticas públicas de prevenção”, disse Zanotto.

Segundo o cientista, ao utilizar o número de contatos sexuais como indicador do tamanho da rede social em que os pacientes estão inseridos foi possível observar que os subtipos mais recentes do vírus circulam entre indivíduos com mais conexões, potencializando o número de pessoas expostas.

“Outro aspecto observado é que os pacientes com maior número de conexões praticam mais comportamentos de risco, como uso de drogas e sexo desprotegido. A associação entre a transmissão e a alta conectividade social e a transmissão do vírus não havia sido observada até agora porque a maior parte dos trabalhos se restringia a analisar dados provenientes de grupos de risco, mas nós optamos por uma amostra aleatória”, explicou.

Os diferentes subtipos do VHC entraram no Estado de São Paulo em diferentes momentos, segundo o estudo. O subtipo 1b infectava pessoas nascidas antes da década de 1930. Já o subtipo 3a entrou em cena no meio da década de 1950 e começou a se espalhar rapidamente.

“No passado, o vírus foi disseminado principalmente por transfusão de sangue contaminado. Mas em 1990 foram implantados os testes anti-VHC em bancos de sangue e ele continuou se espalhando. O uso de drogas injetáveis é certamente importante para a transmissão, como a transfusão sanguínea já foi. Mas constatamos que grande parte dos novos casos não envolve esta prática e o vírus continua se espalhando”, disse Zanotto.

O subtipo 1a teve seu crescimento acelerado por volta de 1990, mesmo com o fim da contaminação por transfusão de sangue e, segundo o estudo, já é o segundo subtipo mais comum, devendo superar em breve o subtipo 1b.

“O subtipo 1a está associado às pessoas jovens com muita conectividade sexual. Outras características comuns nesse grupo são o uso frequente de drogas, prática de sexo desprotegido, tatuagens e encarceramento”, afirmou.

Além de Zanotto, participaram do estudo Camila Malta Romano, Fernando Lucas de Melo, Atila Iamarino e Marco Motoki – todos do Laboratório de Evolução Molecular e Bioinformática (LEM) , do Departamento de Microbiologia do ICB-USP –, Isabel Guedes de Carvalho-Mello, do Instituto Butantan, João Renato Rebello Pinho, do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP (IMTSP), Leda Jamal, da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, e Edward Holmes, do Departamento de Biologia da Universidade Estadual da Pensilvânia, Estados Unidos.

Estratificação comportamental
O estudo detectou ainda uma correlação do crescimento acelerado dos subtipos mais recentes com a densidade populacional do Estado de São Paulo no período em que os vírus foram introduzidos.

“O aumento populacional favorece o maior número de conexões sociais. Como em qualquer rede social, essas conexões se estabelecem por associação preferencial. Isto é, as pessoas estabelecem mais relações com quem tem comportamentos parecidos. Por isso, têm mais chances de se conectar a indivíduos que já são muito conectados”, disse Zanotto.

O cientista explica que a distribuição do número de parceiros sexuais segue uma lei de potência que indica grande assimetrias nos padrões de conectividade entre os indivíduos. “A maior parte das pessoas tem entre duas e cinco conexões nessa rede de contatos sexuais. Mas alguns indivíduos chegam a ter alguns milhares de conexões. Diferentes subtipos de vírus infectam esses diferentes grupos”, afirmou.

Segundo Zanotto, o estudo mostrou que as políticas de prevenção devem ser voltadas para os indivíduos que estão altamente conectados. “Não podemos garantir que a conectividade sexual explique a disseminação da hepatite C, mas há uma clara correlação. Não sabemos se a sexualidade é um indicador, ou uma via de transmissão, mas onde há fumaça há fogo. Se o sexo não é o fator de transmissão, trata-se pelo menos de algum fator associado à grande conectividade sexual. O fato é que há uma clara estratificação comportamental nos padrões de transmissão”, disse.

O artigo Social Networks Shape the Transmission Dynamics of Hepatitis C Virus, de Paolo Zanotto e outros, pode ser lido gratuitamente na revista PLoS One em www.plosone.org

Fonte: Fábio de Castro / Agência FAPESP

Unifesp: oportunidade de pós-doutoramento para desenvolvimento de pesquisa em "Exercício físico e desenvolvimento cerebral"

PD em neurociências com Bolsa da FAPESP
O Projeto Temático "Estudo da plasticidade cerebral induzida pelo exercício físico", apoiado pela FAPESP, dispõe de uma Bolsa de Pós-Doutorado no Departamento de Fisiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) para o desenvolvimento do subprojeto "Exercício físico e desenvolvimento cerebral".

Os interessados devem ter obtido título de doutor recentemente e comprovar experiência científica no tema proposto e domínio nas metodologias empregadas.

O candidato deve ter capacidade de trabalhar em equipe e mostrar conhecimento nas seguintes áreas: eletrofisiologia, comportamento (memória e aprendizado), imunohistoquímica e western blotting, biologia molecular e treinamento físico de animais em esteira rolante.

Os interessados devem enviar currículo para o pesquisador principal do projeto e responsável pela seleção dos candidatos, professor Ricardo Mario Arida pelo e-mail, contendo as seguintes informações:

a) Curriculum vitae completo, incluindo lista de publicações;
b) Resumo de projeto considerando um período de 24 meses;
c) Carta de apresentação indicando a razão do interesse na bolsa e com um breve relato de sua experiência;
d) Indicação de duas referências com endereço de e-mail para contato.
Especificar no e-mail: Pós-doutorado em Fisiologia.

O prazo para inscrições vai até 30 de junho de 2010. A vaga está aberta a brasileiros e estrangeiros. O selecionado receberá Bolsa de Pós-Doutorado da FAPESP, no valor de R$ 5.028,90 mensais.

Outras vagas de bolsas de pós-doutorado, em diversas áreas do conhecimento, estão no site.

Fonte: Agência FAPESP

ONU: consumo de cocaína aumenta na América Latina

Segundo relatório divulgado pelas Nações Unidas, o consumo de cocaína e ópio está crescendo em países em desenvolvimento. Anfetaminas e drogas sintéticas também são cada dia mais consumidas.

A produção de heroína e cocaína diminuiu em todo o mundo, enquanto as drogas sintéticas e anfetaminas têm cada vez mais adeptos. Essa foi a conclusão do relatório anual do escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) apresentado no último dia 23 em Viena.

O número de consumidores das drogas sintéticas, produzidas em laboratório, é estimado entre 30 e 40 milhões. O grupo de usuários pode em breve se tornar até mesmo maior do que o dos dependentes de ópio e cocaína, alerta o relatório.

O volume de cocaína processada também diminuiu em torno de 18%, enquanto o consumo da droga nos EUA decresce. "Uma das razões para as guerras entre narcotraficantes no México é que os cartéis da droga estão brigando por um mercado minguante", afirma Antonio Maria Costa, diretor do UNODC.

Segundo ele, isso levou à criação de novas rotas de tráfico dos países andinos, na América do Sul, para a Europa via África Ocidental.

Desmatamento para o plantio da coca
De acordo com o relatório, o número de consumidores de cocaína na Europa passou de 2 milhões a 4,1 milhões entre 1998 e 2008, ou seja, mais que duplicou em 10 anos.

Na América do Sul, regiões de mata virgem são cada vez mais utilizadas para o cultivo da coca, consta do relatório. "Os consumidores de cocaína destroem as florestas nos países andinos e desestabilizam governos na África Ocidental", relatou Costa.

O UNODC registrou uma redução na área de cultivo da coca na Colômbia, enquanto o Peru e a Bolívia aumentaram o volume da droga plantada. "Os países pobres não estão em condições de absorver as consequências de um consumo ascendente de drogas. O mundo em desenvolvimento enfrenta uma crise ameaçadora, que poderia levar milhões de pessoas à miséria em função da dependência de drogas", afirmou Costa. O consumo de cocaína aumentou na África Ocidental e América do Sul, enquanto o de heroína cresce na África Oriental.

Drogas sintéticas
De acordo com o relatório da ONU, os traficantes de cocaína na Europa têm um faturamento de 34 bilhões de dólares anuais. Somente nos EUA, o tráfico da substância é responsável pelo faturamento de 37 bilhões de dólares. Muitos criminosos que antes traficavam cocaína ou ópio mudaram o produto devido ao processamento relativamente barato de drogas sintéticas em laboratórios ilegais.

As fábricas de drogas ilegais costumam reagir de forma imediata à demanda do mercado, passando a produzir aquilo que é mais procurado, como o ecstasy, por exemplo, afirma o relatório do UNODC. No caso das substâncias sintéticas, a rota entre fabricante e consumidor costuma ser curta, o que dificulta ainda mais o trabalho da fiscalização.

Maconha: droga mais popular
A maconha, de acordo com o escritório da ONU, continua sendo a droga cujo consumo é mais disseminado, sendo cultivada em praticamente todo o mundo. O UNODC parte do princípio de que 130 a 190 milhões de pessoas fumam derivados da cannabis sativa pelo menos uma vez por ano – mesmo que esse dado não seja muito relevante para demonstrar o número de dependentes reais da substância.

De acordo com o UNODC, as áreas de plantação de ópio, nos últimos dois anos, reduziram-se em todo o mundo, em quase um quarto. O volume de ópio consumido no mundo vem em sua grande maioria (90%) do Afeganistão. O UNODC supõe que no país estejam armazenadas mais de 12 mil toneladas da droga, o que corresponde à colheita de aproximadamente 2,5 anos. (SV/dpa/afp/dpa/epd - Revisão: Roselaine Wandscheer)

Texto integral do Relatório Mundial sobre Drogas 2010, em inglês (em alta resolução ou baixa resolução)

Fonte: DW

Brasil perde a corrida em P&D

Brasil: O risco de não inovar

A esta altura, ninguém mais duvida de que saímos da crise em posição privilegiada frente à concorrência mundial. De acordo com as previsões do FMI, o Brasil é o único Bric que deve crescer neste ano a uma taxa equivalente às registradas antes da crise – 4,7%, pelas contas conservadoras do fundo. China e Índia, é verdade, crescerão mais em termos absolutos. Mas em ritmo ainda inferior ao de 2007. O país vive uma situação incomparável, mas, paradoxalmente, corre o risco de ficar para trás justamente agora, na disputa com seus competidores diretos. Por questões estruturais, como a carga tributária peso-pesado e a legislação trabalhista onerosa, mas principalmente por um problema conjuntural decorrente do investimento insuficiente em inovação.

Em 2009, pela primeira vez desde 1978, o país exportou mais commodities que manufaturados. Isso significa que o esforço de três décadas para agregar valor à pauta de exportações, abrindo mercados para manufaturas made in Brazil, regrediu barbaramente. Como o preço das matérias-primas voltou a subir forte nos primeiros meses de 2010, a questão parece irrelevante. Mas os preços das commodities são historicamente voláteis, e o atual ciclo de alta não vai durar para sempre. Logo, o Brasil só sustentará o atual ritmo de crescimento dos países emergentes se encontrar um modo de reforçar a presença dos produtos industrializados na sua lista de exportações. Com o nível atual de investimentos em inovação, a tarefa é inexequível.

Em um estudo chamado “A Década Brasileira”, a consultoria alemã Roland Berger mostra que, em contraponto aos indicadores macroeconômicos invejáveis, o Brasil está perdendo a corrida dos gastos em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Somados, os investimentos das empresas e do governo brasileiro em tecnologias para o lançamento de novos produtos e serviços ficam na casa dos 0,8% do PIB. É menos de um quarto do que se aplica no Japão, mas o que impressiona mesmo é a comparação com os outros Brics. China e Rússia estão à frente, com 1,42% e 1,08%, respectivamente. E a Índia vem logo atrás, com 0,69%.

No Brasil, não tem havido avanços nessa área. No início de abril, Luciano Coutinho, presidente do BNDES, informou ao presidente Lula que o gasto exclusivamente privado com inovação tecnológica neste ano ficará abaixo do projetado em 2008. Nenhuma das quatro metas de política industrial fixadas há dois anos será cumprida. Uma delas era, justamente, a elevação do investimento das empresas em pesquisa e desenvolvimento para 0,65% do PIB – ante 0,51% em 2008. Pelas contas do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), para que isso acontecesse seria preciso que o incentivo governamental à inovação subisse de 0,07% para 0,09% do PIB, um aumento de 30%. E isso não vai acontecer.

A comparação com outros gigantes emergentes pode parecer artificial, consideradas as diferenças nos modelos de desenvolvimento de cada país. Mas ela é necessária, já que existe uma forte correlação entre (pouca) inovação e (baixo) valor agregado dos produtos exportados. Esta é uma vulnerabilidade preocupante do Brasil, já que uma pauta de exportações concentrada em matérias-primas torna as receitas externas demasiadamente sensíveis ao preço de mercado das commodities. Conclui o relatório da Roland Berger: “O Brasil tem de investir em inovação para desenvolver posição sustentável como uma economia em posição de liderança mundial”. (Época Negócios)

Fonte: Cimm

PNUD: Bolsa Família e ação anti-HIV são exemplos

Relatório considera que programas servem de modelo para países em desenvolvimento avançarem mais rápido nos Objetivos do Milênio

O Bolsa Família e a política de prevenção à Aids estão entre os programas brasileiros que podem servir de modelo para o avanço dos ODM (Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, uma série de metas socioeconômicas que os países da ONU se comprometeram a atingir até 2015, englobando áreas como pobreza, educação, saúde, meio ambiente e desigualdade entre os sexos). A avaliação é de um estudo divulgado nesta quinta-feira pelo PNUD, que analisou relatórios nacionais sobre os Objetivos do Milênio e encontrou em 50 países programas bem-sucedidos, que podem ser adaptados mesmo nas nações mais pobres.

Intitulado O que é necessário para atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio? Uma avaliação internacional, o documento aponta que “os recursos e o conhecimento necessários para atingir os ODM existem” e que “a aceleração do progresso nos próximos cinco anos vai requerer foco na manutenção das estratégias, políticas e intervenções que deram certo, e uma freada radical naquelas que não funcionam”.

Os exemplos do relatório, todos colhidos em países em desenvolvimento, são uma evidência de que é possível fazer progressos rapidamente — e que, portanto, as metas dos ODM podem ser cumpridas até 2015. O texto pretende ser uma das bases de discussão da Cúpula dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que reunirá líderes mundiais em Nova York, entre 20 e 22 de setembro.

A avaliação menciona projetos relacionados a todos os oito ODM. Ao analisar os avanços e os desafios no combate às principais doenças, o texto destaca o sucesso do programa brasileiro para Aids, classificando-o como “um bom exemplo de um enfoque integrado para deter a propagação do HIV”. O ponto central da estratégia é a distribuição gratuita de antirretrovirais (medicamentos que dificultam a multiplicação do vírus HIV), que começou em 1991 e virou lei em 1996. A iniciativa brasileira inspirou outros países. “Seguindo os passos do Brasil, Botsuana, dada sua alta prevalência de HIV (17,6%), também fez do acesso universal e gratuito aos antirretrovirais uma prioridade, junto com informações e suplementos alimentares”, exemplifica o relatório. A lição que fica, destaca o PNUD, é de que “o acesso universal à terapia antirretroviral, o uso de preservativos e o conhecimento sobre transmissão do HIV contribuem para salvar vidas”.

Em outro ponto, o documento defende que os programas de proteção social ajudam a reduzir a pobreza e a desigualdade, a diminuir a vulnerabilidade dos domicílios e a formar capital humano, e usa como exemplo as iniciativas de transferência de renda adotadas na América Latina — pioneiramente no Brasil e no México. Nesses dois países, ao atrelar o pagamento do benefício à frequência escolar, houve aumento das matrículas e da presença em sala de aula, e redução do trabalho infantil. Além disso, “no Bolsa Família, o número de visitas a postos de saúde pelos beneficiários cresceu significativamente”. Os dois programas também resultaram em queda da pobreza e da desigualdade de renda.

Os projetos desse tipo, porém, deparam-se com algumas dificuldades, ressalva o PNUD. Uma delas é fazer com que o benefício chegue de fato a quem precisa. “Os mecanismos de focalização precisam ser melhorados”, diz o relatório. Os “quase pobres” (que estão um pouco acima da linha de pobreza), por exemplo, costumam ser deixados de lado. Outros problemas comuns são a cobertura inferior à necessária, a concessão de benefícios para quem não é pobre e a seleção de beneficiários por meio de clientelismo. Contudo, o estudo avalia que o mecanismo brasileiro de registro e seleção de domicílios pobres, conhecido como Cadastro Único, tem dado bons resultados. “O sistema tornou-se uma ferramenta eficiente do ponto de vista dos custos e precisa na focalização, permitindo ainda que outros provedores de serviços sociais selecionem os domicílios eficientemente.”

Aceleração do progresso
“Para as várias pessoas que vivem na pobreza, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio não são metas abstratas e utópicas, pelo contrário, oferecem recursos para uma vida melhor e, no geral, trazem um mundo mais justo e pacífico”, disse a administradora do PNUD, Helen Clark, durante o lançamento. “Esperamos que essas evidências de políticas testadas e experimentadas e esse plano para a aceleração em direção ao sucesso proporcionem resultados positivos aos líderes mundiais que se reunirão na conferência de setembro”.

O relatório aponta que houve melhorias rápidas em educação e saúde nos países onde foram realizados gastos públicos adequados e parcerias sólidas. A Etiópia, por exemplo, aboliu as mensalidades nas escolas primárias, o que aumentou o número de matrículas no território. Num caso que indica a importância do fomento à agricultura para a redução da pobreza, Gana adotou um programa de subsídio a fertilizantes que elevou a produção de alimentos em 40% e diminuiu a fome em 9% entre 2003 e 2005.

Outro exemplo é um projeto de emprego rural na Índia que beneficiou cerca de 46 milhões de famílias. O programa garante um mínimo de 100 dias de serviço para trabalhadores sem-terra e pequenos agricultores (quase metade deles, mulheres). O relatório salienta que iniciativas como essa, de proteção social e estímulo ao emprego, reduzem a pobreza ao mesmo tempo em que revertem as desigualdades.

O estudo mostra, como já haviam destacado outros relatórios do PNUD, que os ODM estão relacionados — ações direcionadas a um deles têm efeitos nos demais. O fornecimento de geradores em Burkina Faso, Gana, Mali e Senegal ajudou as mulheres a ganharem de duas a quatro horas livres por dia, tempo que elas agora podem usar em educação, cuidados da saúde ou trabalho remunerado. No Brasil, o Programa 1 Milhão de Cisternas usou “uma tecnologia inovadora de coletar água para fornecer água limpa para beber e cozinhar”, diz o texto. “As mulheres, livres da tarefa de pegar água em fontes distantes, agora destinam seu tempo à geração de renda e à educação.”

O relatório também destaca o fracasso em concluir as negociações comerciais da Rodada de Desenvolvimento de Doha, na Organização Mundial do Comércio (OMC), como a lacuna mais significativa no que diz respeito à formulação de uma parceria pelo desenvolvimento. Além disso, o acesso de países em desenvolvimento ao mercado melhorou pouco e os subsídios agrícolas de países ricos continuam a ser obstáculos para o progresso dos ODM.

Ao mesmo tempo, o cenário internacional tem mostrado avanços em pontos fundamentais. Um deles é o crescimento da parceria entre os países em desenvolvimento (chamada de “cooperação Sul-Sul” no jargão diplomático). “Um aspecto importante da nova ordem mundial é a crescente influência política e econômica de economias emergentes relativamente grandes que formaram o G20, incluindo Brasil, China, Índia, Arábia Saudita, África do Sul e Turquia”, observa o documento. O fluxo de recursos do Norte para o Sul ainda é o preponderante, mas “a cooperação Sul-Sul oferece a oportunidade de ir além da relação doador-recebedor para uma parceria baseada em benefícios comerciais mútuos”, diz o estudo.

Fonte: PNUD

Petrobras: construção de polo gás-químico no Espírito Santo

O novo projeto faz parte do Plano Estratégico 2010-2014, anunciado pela companhia, que prevê investimentos de US$ 5,7 bilhões em empreendimentos gás-químicos.


O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, disse que a companhia irá construir um polo gás-químico no Espírito Santo, dentro da estratégia de desenvolver mercados mais flexíveis para o gás natural e agregar valor ao insumo. "Investiremos em um complexo gás-químico no Espírito Santo, que irá produzir diversos produtos, entre eles o metanol", afirmou o executivo em teleconferência com analistas, sem dar detalhes sobre o empreendimento.

O novo projeto faz parte do Plano Estratégico 2010-2014, anunciado pela companhia, que prevê investimentos de US$ 5,7 bilhões em empreendimentos gás-químicos. Além do complexo no Espírito Santo, o executivo revelou que a estatal construirá três outras unidades nesta área: duas fábricas de amônia, sendo uma em Sergipe e outra em Uberaba (MG), e uma instalação de ureia em Três Lagoas (MS), com produção marginal de amônia.

"Esses investimentos permitirão flexibilizar o consumo de gás, otimizando a rentabilidade dos investimentos já realizados", afirmou o executivo. A Petrobras está buscando tornar o consumo de gás mais flexível em função da necessidade de garantir o insumo em 100% do tempo para as térmicas. Como essas usinas só entram em operação quando o nível dos reservatórios das hidrelétricas está baixo, a Petrobras precisa encontrar outros mercados para o gás, para evitar que sua infraestrutura fique ociosa e para que não haja queima de insumo nos campos de produção.

Refino de petróleo
Gabrielli disse ainda que a forte expansão do refino, prevista no Plano de Negócios 2010-2014, será positiva para estatal no longo prazo. "Mesmo que ocorra um aumento dos investimentos que penalize o retorno no curto prazo, acreditamos que, no longo prazo, a atuação integrada será positiva para a companhia", afirmou o executivo.

O plano prevê investimentos de US$ 73,36 bilhões nas atividades de refino e distribuição, valor que é 70% superior aos US$ 43,4 bilhões projetados no plano anterior, de 2009 a 2013. No mesmo período, os aportes em exploração e produção (E&P) crescerão apenas 14%, de US$ 104,6 bilhões para US$ 118,8 bilhões. "Não observamos que esse cenário sinalize uma limitação na nossa capacidade de crescer em E&P, mas sim que temos oportunidades na área de refino, com o aumento da demanda do mercado interno", afirmou.

Gabrielli lembrou que, desde 1980, a estatal concentrou os seus investimentos na expansão da capacidade de produção de petróleo. Tanto que a relação entre produção e refino passou de 13% em 1980 para 108%, em 2009. Com a entrada em operação de novas refinarias no período, a Petrobras prevê que essa relação alcance 132% em 2014 e 123% em 2020. "Vamos continuar aumentando a produção, e isso exige o crescimento da nossa capacidade de refino", afirmou o presidente da estatal. Segundo ele, a demanda interna de derivados também é crescente.

Para o executivo, a atuação integrada da Petrobras na cadeia do petróleo é uma vantagem da companhia ante seus pares na indústria petrolífera. "No mundo, ou as empresas são grandes exportadoras de óleo cru, ou são grandes refinadoras. São poucas as companhias que possuem uma atuação integrada como a Petrobras", comentou.

Baleia Azul
A Petrobras decidiu antecipar a produção de reservas do pré-sal no campo de Baleia Azul, no Espírito Santo. A medida faz parte de uma política de antecipações do pré-sal adotada no novo plano de investimentos da companhia, anunciado ontem. Segundo o documento, o projeto Baleia Azul entrará em produção em 2012, com capacidade de 100 mil barris por dia. Além de Baleia Azul, outros sete projetos do pré-sal entrarão em produção no período do plano estratégico: Cachalote, piloto de Tupi, os testes de longa duração de Tupi Nordeste, Guará e Tiro (estes em 2010) e os pilotos de Guará (2013) e Tupi Nordeste (2014).

A antecipação dos projetos levou a empresa a rever a curva de produção do pré-sal, que atingirá seu pico antes do projetado anteriormente. Por isso, a produção projetada para 2014 é maior que no plano anterior, chegando a 241 mil barris por dia. Já a estimativa para 2020 foi reduzida, de 1,8 mil para 1,078 mil barris por dia. A companhia reforçou que essa estimativa contempla apenas as descobertas já feitas. Ela pode ser revista para cima a partir de novas descobertas no pré-sal. (Agência Estado)

Fonte: TN Petróleo