segunda-feira, 21 de junho de 2010

A maravilhosa fábrica de virtudes: o decoro na arquitetura religiosa de Vila Rica, Minas Gerais (1711-1822)

Arqueologia conceitual
O patrimônio arquitetônico e artístico de Minas Gerais no século 18 está entre os mais importantes do país. Mas a tarefa de compreender e analisar esse acervo não é nada fácil, já que ele foi formado a partir de concepções de mundo, preceitos e doutrinas que se transformaram ou se perderam ao longo dos séculos seguintes.

A partir da reconstituição histórica dos conceitos que orientaram as práticas artísticas e arquitetônicas setecentistas na cidade de Ouro Preto (MG), um estudo realizado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP) renovou o método de análise histórica da arte e da arquitetura coloniais, oferecendo uma compreensão alternativa daquele patrimônio.

A pesquisa correspondeu à tese de doutorado de Rodrigo Almeida Bastos, defendida em 2009 na FAU-USP, com Bolsa da FAPESP. Graças à contribuição inédita dada à historiografia da arquitetura brasileira, o trabalho venceu a segunda edição do Prêmio Marta Rossetti Batista de História da Arte e da Arquitetura, organizado pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP.

A premiação reconhece, a cada dois anos, a melhor pesquisa inédita sobre arte e arquitetura escrita no Brasil. A segunda edição incluía trabalhos produzidos desde 2005. O estudo de Bastos, intitulado A maravilhosa fábrica de virtudes: o decoro na arquitetura religiosa de Vila Rica, Minas Gerais (1711-1822), foi orientado por Mário Henrique Simão D’Agostino, da FAU-USP.

De acordo com Bastos, que é professor do Departamento de Análise Crítica e Histórica da Arquitetura e do Urbanismo da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o estudo propõe um método inédito para pesquisar a arquitetura do século 18, ao mesmo tempo em que apresenta os primeiros resultados da aplicação do método em análises de alguns dos exemplares mais paradigmáticos da arquitetura colonial mineira, como a Igreja matriz de Nossa Senhora do Pilar e as igrejas das ordens terceiras de São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Carmo, em Ouro Preto.

“A tese já apresenta resultados que são significativos para a renovação da compreensão das práticas artísticas e arquitetônicas daquele tempo. Além de levantar muita documentação primária e secundária, o trabalho reconstituiu historicamente dezenas de termos – como decoro, engenho, elegância, asseio, formosura, maravilha e perfeição – que perderam o sentido com a mentalidade romântica e moderna, mas puderam ser recuperados pela pesquisa”, disse Bastos.

O decoro era a doutrina central das artes no século 18. Preceito que estabelecia a adequação de conveniências das partes de uma obra, era a noção responsável por efetivar uma beleza que pudesse ser considerada adequada. O decoro, no entanto, foi esquecido há pelo menos um século.

“Hoje, seria muito anacrônico falar nisso. No século 18, o conceito de beleza remetia a uma ideia de proveito e utilidade, isto é, a forma era a função da obra. Atualmente, a forma pode até seguir a função, mas são coisas separadas. Reconstituir a noção de decoro que norteava a produção daquelas obras, no entanto, foi fundamental para compreendê-las e para fazer uma análise consistente”, explicou.

Segundo Bastos, o modo de compreender e fazer a arte e a arquitetura se transformou de forma decisiva nos últimos 200 anos, com o surgimento do romantismo, do positivismo, da psicanálise, da fotografia e de acontecimentos como a revolução francesa, a revolução industrial. Isso gera pontos de vista anacrônicos nas análises sobre a arquitetura setecentista, como, por exemplo, a visão dos modernistas que elegeram o barroco mineiro como o primeiro momento de síntese da arte genuinamente brasileira.

“Outro anacronismo perigoso é a ideia da originalidade, bastante recorrente na historiografia. Não se pode falar em originalidade no século 18, já que naquele tempo o preceito vigente era a imitação. Não existia a ideia moderna de plágio, nem de autoria, como as conhecemos hoje. A ideia do gênio romântico que cria a obra original ao entrar em contato com os padrões sublimes da natureza é do século 19. O homem do século 18 falaria em engenhosidade, mas nunca em originalidade”, disse.

Sutileza de engenho
O preceito dominante da imitação, segundo Bastos, ajuda a entender até mesmo as semelhanças na aparência de arquiteturas e cidades luso-brasileiras da época colonial.

“Se o artista fosse bastante ‘engenhoso’, ele poderia imitar causando variações sutis na obra produzida. O efeito desse artifício virtuoso causava o maravilhamento na sociedade daquele tempo, que reconhecia que o artista havia imitado, mas com certa novidade na operação. A esse artifício, se dava o nome de sutileza ou agudeza de engenho”, destacou.

O trabalho de pesquisa teve início há dez anos, quando Bastos fez seu mestrado na UFMG. “A proposta era compreender a implantação de povoações em Minas Gerais à luz dos conceitos do século 18. A pesquisa mostrou uma grande proficuidade porque, ao compreendermos a implantação dessas povoações com os conceitos de época, pudemos renovar muitas das compreensões consagradas na historiografia, como as ideias de espontaneidade, irregularidade e desordem, por exemplo”, disse.

Durante o doutorado, em 2007, Bastos já havia recebido outra premiação nacional: o 8º Prêmio Jovens Arquitetos, com um texto publicado na Revista IEB. No artigo, intitulado Regularidade e ordem das povoações mineiras no século 18, o autor demonstrou que, ao contrário do que se pensava, as povoações históricas de Minas Gerais, como Ouro Preto, Sabará e Mariana, não se desenvolveram espontaneamente, de forma irregular.

“Aquelas povoações evidenciam a observação de preceitos de ordem, adequação e decoro relativos àquele tempo. Mas o conhecimento dessas práticas se perdeu nos séculos 18 e 19 e foi preciso também reconstituir aquelas noções”, disse.

Fonte: Fábio de Castro / Agência FAPESP

USP: líder ibero-americano no ranking de publicações

USP lidera ranking de publicações ibero-americanas
A Universidade de São Paulo (USP) é a instituição de ensino superior que mais publicou artigos científicos no período de 2003 a 2008 entre os países ibero-americanos, segundo ranking recém-divulgado.

A instituição paulista produziu 37.952 artigos no período, de acordo com o SCImago Institutions Rankings (SIR) 2010, produzido por um grupo de pesquisa sediado na universidade espanhola de Granada e que reúne pesquisadores de instituições na Espanha, Portugal, Argentina e Chile.

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) ocupa o terceiro lugar, com 14.913 artigos, depois da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), com 17.395, e à frente da Universidade de Barcelona (UB)(14.742).

Entre os dez primeiros da lista ainda figuram duas outras instituições de ensino superior brasileiras, a Universidade Estadual Paulista (Unesp), em sexto lugar, com 12.270 artigos publicados, e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em sétimo, com 12.133.

Completam a lista das dez mais a Universidade Complutense de Madri (UCM) (em 5º, com 12.315 artigos), a Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) (8º, com 10.911), a Universidade de Valência (UV) (9º, com 10.107) e a Universidade Autônoma de Madri (UAM) (em 10º, com 9.755).

“Essa classificação é apenas uma maneira de apresentar os resultados, não quer dizer que uma universidade seja melhor do que a outra porque produziu mais papers”, ressaltou Borja González, diretor de comunicação do SCImago.

O ranking tem como base os registros da Scopus, produzida pela editora holandesa Elsevier e considerada uma das maiores bases de dados científicos do mundo, englobando mais de 20 mil periódicos especializados.

Foram contabilizadas apenas as produções científicas oriundas de instituições de ensino superior e que publicaram pelo menos um artigo durante o ano de 2008.

O Brasil apresentou o maior número de universidades avaliadas (109 do total de 607), seguido por Colômbia (89) e Espanha (85). Juntos, os três países englobam quase a metade das instituições no ranking, que incluiu 28 nações.

No caso da Colômbia, González explica que o país tem um grande número de pequenas instituições de ensino superior, o que explicaria a quantidade de entidades do país na lista.

“Mas as universidades mais produtivas se concentram na Espanha e no Brasil. O primeiro tem 43 entre os 100 primeiros colocados do ranking e é seguido pelo Brasil com 27”, disse.

Ao se considerar apenas os países da América Latina e do Caribe, o Brasil tem mais três universidades entre as dez primeiras: as federais do Rio Grande do Sul (UFRGS)(com 8.971 artigos), de Minas Gerais (UFMG)(8.107) e de São Paulo (UNIFESP) (com 7.148 artigos na Scopus no período analisado).

Para Vahan Agopyan, pró-reitor de Pós-Graduação da USP e membro do Conselho Superior da FAPESP, o primeiro lugar é resultado de um trabalho de longo prazo no sentido de priorizar a produção de conhecimento e defender a ideia de que a USP é uma universidade de pesquisa. “Temos um posicionamento bem claro no sentido de não apenas divulgar o conhecimento, mas também desenvolvê-lo”, disse à USP On-line.

Marco Antonio Zago, pró-reitor de Pesquisa da USP, atribui o destaque alcançado pela universidade a um sistema de fomento forte e competitivo que vem sendo aplicado no Estado de São Paulo desde a década de 1970.

A Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, segundo Zago, está envolvida em estimular e dar apoio aos docentes que solicitem financiamento de agências, em especial da FAPESP.

“Na FAPESP, os projetos são submetidos a um processo de revisão por pares bastante exigente e competitivo, uma garantia de qualidade. Estamos oferecendo um estímulo de R$ 10 mil a todos os docentes admitidos na USP desde o início de 2008, desde que submetam um pedido de auxílio à pesquisa à FAPESP”, disse Zago.

Desequilíbrio
Juntos, Brasil, Espanha, Portugal, México, Argentina e Chile respondem por cerca de 90% da produção científica ibero-americana de 2003 a 2008, de acordo com o SCImago Institutions Rankings.

Além da produção científica, o grupo de pesquisa espanhol também avaliou outros aspectos, como o grau de colaboração internacional de cada pesquisa. Para isso, os avaliadores contabilizaram quantos trabalhos foram assinados por autores de diferentes nacionalidades.

Nesse quesito, Espanha e Portugal ficaram com as melhores médias. Na análise apresentada com o ranking, os investigadores justificaram o quesito ao indicar que o grau de internacionalização contribui para melhorar a visibilidade e o impacto científico das instituições.

Segundo Agopyan, a USP tem incentivado relações de seus pesquisadores com outros países. “Temos promovido cada vez mais a internacionalização e tomado medidas mais pró-ativas junto aos programas, ajudando-os a apoiar a mobilidade de professores e alunos”, disse.

O SCImago também calculou a quantidade de citações que os trabalhos científicos tiveram nas bases da Scopus para formar o indicador de qualidade científica CCP. Trata-se de índice comparativo com a média mundial de citações. Um CCP de 1,2, por exemplo, significa que a instituição é citada 20% mais vezes que a média mundial; se o índice é de 0,6, os trabalhos receberam 40% menos citações que a média mundial.

Esse número varia de acordo com a área do conhecimento, pois, de acordo com o diretor do SCImago, as diferentes áreas não apresentam a mesma quantidade média de citações.

“Em biomedicina, um artigo pode receber dez citações e outro de ciências sociais, apenas cinco. Porém, se a média mundial de citações em biomedicina for dez e a de ciências sociais for duas, esta última terá um CCP maior”, exemplificou González.

Nesse indicador, as universidades espanholas e portuguesas também saíram na frente. A média do CCP das universidades brasileiras com maior produção científica foi de 0,80.

“As universidades brasileiras podem ter menos visibilidade internacional do que as espanholas ou portuguesas, mas é importante notar que a pesquisa científica no Brasil tem crescido de maneira extraordinária até nas pequenas universidades”, disse González.

Outro indicador avaliado, chamado “primeiro quarto”, retrata o porcentual dos trabalhos que foram publicados no grupo formado por 25% das publicações mais bem avaliadas pelo ranking.

González contou que as análises dos rankings anteriores apontaram que, quanto mais uma instituição publica nas melhores revistas, mais cresce também o seu número total de publicações.

“Isso pode parecer trivial, mas não é. É esse número que auxilia os gestores das universidades na hora de decidir sobre os sistemas de incentivo e de recompensa aos pesquisadores, caso o aumento da visibilidade da instituição seja uma prioridade”, disse.

Esse sistema de aprimoramento contínuo da qualidade das pesquisas é uma das prioridades da USP, segundo Zago. “Essa excelente classificação se refere apenas ao número de publicações, o que de certa forma é influenciado pelo tamanho da USP. Estamos tomando medidas para manter essa produção elevada, mas também dedicando muita atenção à necessidade de melhorar nossa qualidade”, disse.

Mesmo estando atrás de Espanha e Portugal em alguns quesitos, o Brasil tem apresentado um crescimento em sua pesquisa científica acima da média mundial, segundo o diretor de comunicação do SCImago.

“O Brasil é um caso fascinante na ciência mundial. O crescimento científico brasileiro é fantástico e está criando uma boa estrutura de pesquisa em todo o país. Isso é notório nas grandes e nas pequenas universidades, que também crescem mais rápido do que as pequenas de outros países”, disse González. Segundo ele, a tendência é que as diferenças entre grandes e pequenas instituições de pesquisa no país se tornem cada vez menores.

Veja o Ranking completo no site

Fonte: Fabio Reynol / Agência FAPESP

Austrália: inscrições abertas para bolsas de doutorado

Bolsas de doutorado da Austrália
A Universidade de Sydney (USYD), na Austrália, abriu inscrições para o seu programa de bolsas de doutorado para o ano de 2011. Mais de 20 estudantes serão contemplados com bolsas integrais de três anos de duração.

A universidade elege regularmente regiões prioritárias para a concessão de bolsas e o Brasil foi enquadrado nesse grupo para o próximo ano.

O programa oferece também até 1.250 dólares australianos para o custeio de cada trecho, ida e volta, das passagens aéreas de seu país de origem até a cidade australiana.

Para se candidatar à bolsa, o estudante deve ser residente em um dos países escolhidos pela instituição, apresentar proficiência em inglês e comprovar bom desempenho acadêmico.

Na primeira etapa, o estudante deve procurar um potencial orientador e discutir com ele sua proposta de pesquisa. Para isso, deve acessar a página.

Em seguida, deve preencher o formulário disponibilizado e enviar até o dia 31 de julho. Os candidatos que receberem resposta positiva da instituição devem enviar pelo correio a documentação requerida até o dia 17 de setembro.

Uma comissão escolherá os bolsistas a partir de dois critérios básicos: excelência nos estudos e demonstrar boa capacidade na área de pesquisa inovativa. A bolsa não cobre despesas de moradia e alimentação, nem seguro saúde ou custos com a obtenção do visto australiano.

Mais informações pelo site

Fonte: Agência FAPESP

Prêmio Sérgio Arouca tem inscrições abertas

Estão abertas até 30 de junho as inscrições para o Prêmio Sergio Arouca de Excelência em Atenção Universal à Saúde, organizado pela Fundação Pan-Americana para a Saúde e Educação (Pahef) e pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).

Segundo os organizadores, o prêmio visa a reconhecer a importância da assistência de saúde universal e seu impacto nos povos das Américas. Serão homenageadas uma ou mais pessoas, instituições ou organizações governamentais ou não-governamentais que se destacaram na elaboração de políticas e estratégias nacionais para promoção dos programas de saúde e gestão em saúde.

O vencedor receberá prêmio em dinheiro, diploma de honra ao mérito e viagem paga a Washington para participar da cerimônia anual de Prêmios à Excelência no Evento de Saúde Pública Interamericana da Opas/Pahef.

O candidato deve incluir carta apresentada e assinada, com curriculum vitae, além de carta de apoio do representante oficial da organização a que pertence ou do representante da Opas/OMS no país do candidato ou de um representante oficial do Ministério da Saúde. A indicação pode ser apresentada em espanhol, inglês ou português.

Criado em 2010, o prêmio homenageia o médico Sérgio Arouca (1941-2003), pesquisador e professor na Escola de Saúde Pública Nacional, ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz. Arouca dedicou sua carreira ao progresso da saúde pública nas Américas, com o foco na promoção da causa e no aumento do acesso a serviços de saúde.

Mais informações pelo site

Fonte: Agência FAPESP