sexta-feira, 7 de maio de 2010

Menor socialização implica em piores condições de vida

Redes de inclusão
A discussão sobre pobreza quase sempre esbarra nos indicadores de renda, que explicam apenas uma das facetas do problema. Se duas pessoas tiveram acessos diferenciados a serviços públicos como educação e saúde, por exemplo – embora possuam a mesma renda nominal –, uma delas pode ser considerada mais pobre. Além disso, se ela estiver isolada espacialmente, será mais segregada do que a outra.

Pela renda a pobreza até pode ser atenuada, mas, por outro lado, a desigualdade não, pois é reproduzida de várias outras formas. Pesquisas feitas no Centro de Estudos da Metrópole (CEM) – um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da FAPESP e também um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) – têm se dedicado cada vez mais a ampliar essa percepção.

Um dos eixos de estudo foca na relação entre redes sociais e pobreza e mostra que a desigualdade está presente também nas primeiras. Uma das hipóteses sugere que, além da renda, a sociabilidade – relações familiares, de amizade no trabalho ou na vizinhança, na igreja, associações, entre outras – tem grande impacto nas condições de vida.

Um estudo conduzido por Eduardo Marques, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do CEM, tem indicado que membros de redes com grande homofilia – com parceiros de contato com mesmo perfil socioeconômico e demográfico – têm maior dificuldade para conseguir um emprego, por exemplo.

“A pobreza é multidimensional e articula vários elementos sociais. Até agora, nossas análises sugerem que redes sociais de pessoas pobres tendem a ser menores, menos diversas e mais locais do que as da classe média. Mas essa constatação pode ser observada também entre os mais desfavorecidos, explicando por que alguns indivíduos são mais pobres do que outros com mesma renda”, disse Marques, coordenador da pesquisa.

A pesquisa sobre redes sociais – que conta com a participação de duas doutorandas e uma mestranda – foi apresentada durante o Seminário Internacional Metrópole e Desigualdade, realizado em março último.

O estudo de campo colheu dados de redes pessoais de indivíduos pobres de São Paulo e Salvador e comparou com uma pequena amostra da classe média. Foram cerca de 362 casos de pessoas pobres (sendo 209 de sete regiões em São Paulo e 153 de cinco regiões em Salvador) e 30 de classe média.

De acordo com Marques, a amostra da classe média – que foi somente de São Paulo – foi usada apenas para ter um parâmetro. A lógica do estudo foi escolher casos muito diferentes entre eles, principalmente em relação aos pobres, cujas redes variam muito internamente.

“Por isso, escolhemos locais que representam situações urbanas diferentes no interior de cada cidade do ponto de vista da segregação, das condições de moradia e do tipo de habitação, como favelas próximas a bairros ricos e pobres, favela de periferia e outros, e representamos nas duas cidades situações de pobreza muito diferentes”, explicou.

Segundo ele, a escolha de São Paulo e Salvador se deu por se tratar de duas cidades com características bem diferentes do ponto de vista da malha urbana e do mercado de trabalho, mas o que se observou foi que os padrões gerais são similares.

“Percebemos que São Paulo apresenta redes de sociabilidade um pouco maiores, enquanto em Salvador as redes tendem a ser mais densas. Mas o que impressiona é justamente a similaridade em ambas, que sugere que esse padrão que obtivemos em São Paulo é sólido, ou seja, representa uma regularidade nas situações de pobreza”, disse o professor da USP.

Combinação complexa
As entrevistas focaram nas redes de contato do indivíduo. As pessoas foram abordadas em espaços públicos e em casa durante a semana ou no fim de semana. Foram coletadas informações relacionadas às redes e os atributos de seus componentes quanto ao gênero, idade e emprego, status usado para controlar a amostragem e combinação de critérios. Para as pessoas de classe média, as entrevistas foram agendadas por telefone.

“Nos dias da semana, por exemplo, entrevistávamos mais mulheres e, dependendo do horário, mais idosos e jovens. Corrigimos as diferenças nas entrevistas seguintes, realizadas em fins de semana”, explicou Marques.

Os perfis de sociabilidade mostraram semelhanças entre as cidades, com a esfera familiar respondendo em primeiro lugar, com 40,6%, e a vizinhança em segundo, com 31,6%. Em seguida, o trabalho correspondeu a 8%, seguido por amizades (5,9%), igreja (4,6%) e estudos (3,3%).

De acordo com Marques, a esfera familiar é muito alta também na classe média. “Mas pessoas pobres que têm redes concentradas na família, nos vizinhos e nos amigos tendem a ter condições piores do que pessoas com sociabilidade concentrada no trabalho, em associações e na igreja”, disse.

O conjunto das pesquisas conduzidas no CEM parte do pressuposto teórico de que o mundo do trabalho, as políticas e ações do Estado e a sociabilidade representam as três fontes de bem-estar, sendo decisivos para a superação da pobreza.

“Quanto menor a ‘homofilia potencial’ maior a probabilidade de se encontrar pessoas diferentes do grupo no qual se está inserido, em comparação com as esferas da família, da vizinhança e dos amigos. Com isso, as pessoas têm mais acessos a informação, repertórios e oportunidades”, disse.

A ideia do estudo é mostrar que muitos indivíduos podem estar segregados no espaço e, ao mesmo tempo, conectados por redes. “O espaço e as redes podem se combinar de maneira complexa, com um combatendo o efeito do outro”, afirmou Marques.

Segundo ele, a pesquisa estabelece, em um primeiro momento, uma relação entre a classe média e pobres, mas depois é feita uma aproximação nos indivíduos menos favorecidos.

“Quando se faz um mergulho na classe menos favorecida, existe uma enorme variedade interna. O estudo procura explicar por que alguns são mais e outros menos pobres, e por que alguns têm sociabilidade mais variada e outros menos, por exemplo”, disse.

A introdução do estudo de Salvador foi importante, segundo Marques, porque trouxe mais segurança para as hipóteses. “Em um primeiro momento, a situação pareceria específica para São Paulo, devido às suas peculiaridades econômicas e sociais, mas não era. O caso de Salvador mostra que há essa similaridade”, apontou.

As análises referentes a São Paulo serão publicadas em livro (no prelo), que será lançado em breve pela editora da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Fonte:Alex Sander Alcântara / Agência FAPESP

A primeira máquina de escrever elétrica era apresentada em 1957

No dia 7 de maio de 1957, a indústria apresentou na Feira de Equipamentos de Escritório, em Hannover, a primeira máquina de escrever elétrica – uma inovação que facilitou enormemente o trabalho dos datilógrafos.

O que hoje, em plena era dos computadores pessoais, sistemas de processamento de textos e notebooks pode parecer banalidade, na época foi uma grande sensação. Afinal, digitar longos textos em máquinas de escrever mecânicas era um trabalho cansativo.

O tirolês Peter Mitterhofer, nascido em 1822 nas proximidades de Merano (hoje Itália), é considerado um dos pais da máquina de escrever. Após muitos experimentos, o marceneiro apresentou, em 1866, uma "caixa" de 15 quilos ao imperador austríaco Francisco José, em Viena. O equipamento tinha um teclado em forma de estante e um rolo para o papel, um espaçador e uma tampa "para que ninguém lesse o texto sem autorização".

Ao mesmo tempo, os americanos John Pratt e Christopher Sholes (tipógrafo) desenvolveram uma máquina de escrever. Eles inventaram o princípio segundo o qual cada tipo deve bater sempre no mesmo lugar, enquanto o carro com o rolo avança. As teclas dessa Writer eram de madeira de nogueira, sobre as quais estavam desenhadas letras brancas. A cor da escrita vinha de fitas de seda, que eram impregnadas durante horas com tinta e penduradas à noite para secar.

Caminho de sucesso
Em 1877, a ex-fabricante de armas Remington começou a produzir a Type Writer em série, abrindo caminho para o triunfo da "obra-prima da técnica de escrever". Dez anos após o início da produção industrial, haviam sido vendidas 50 mil unidades. Em 1919, mais de um milhão de escritores, contabilistas e secretárias já escreviam à máquina.

A datilografia é considerada um duro trabalho braçal. Segundo o sociólogo Hans Georg Kräft, estudos realizados no Ministério alemão das Relações Exteriores demonstraram, já em 1899, que mesmo um curso de até dois anos não garantia um aproveitamento efetivo da nova técnica de escritório por homens. A principal causa seria o fato de se tratar de um trabalho muito cansativo.Tal atividade seria insuportável a longo prazo para os funcionários públicos e deveria ser entregue somente a datilógrafos jovens.

No primeiro curso de datilografia, foram admitidas somente mulheres com boas condições físicas. Ao longo do tempo, as máquinas de escrever foram aperfeiçoadas. Já no início do século 20, começaram surgir os primeiros modelos semielétricos. Em princípio, conjecturou-se o uso de um eletroímã como força auxiliar – uma idéia que se mostrou impraticável. O que, mais tarde, se impôs foi o motor elétrico, instalado atrás da máquina. Em caso de queda de corrente elétrica, a energia necessária podia ser gerada com o acionamento de um pedal.

Silêncio e rapidez
As máquinas de escrever elétricas eram bem mais confortáveis do que as mecânicas, eliminando os esforços para bater nas teclas, mudar de minúsculas para maiúsculas e recuar o carro. Todas essas funções passaram a ser executadas por um simples toque de tecla. Estudos realizados à época comprovaram que a força empregada no uso de uma máquina de escrever elétrica correspondia a apenas 1,4% do esforço feito numa máquina mecânica. Além disso, os novos equipamentos eram bem mais silenciosos do que os antigos.

Um longo caminho foi percorrido desde a primeira máquina de escrever mecânica, passando pela sucessora elétrica até os atuais sistemas de processamento de textos e computadores pessoais. O que sobrou foi a datilografia. Até mesmo os equipamentos mais modernos, apesar do auxílio do mouse e do scanner, ainda não conseguiram eliminar o teclado.

Fonte: Gerda Gericke (gh)/ DW