quinta-feira, 22 de abril de 2010

Em 1724 nascia o filósofo Immanuel Kant

O filósofo alemão Immanuel Kant, nascido a 22 de abril de 1724, questionou o que conhecemos através dos sentidos, colocou a razão no centro de sua filosofia crítica e apontou os limites do conhecimento.

Filho de um artesão que trabalhava couro, Immanuel Kant foi o quarto dos 11 filhos de uma pacata família na antiga Prússia Oriental. Tanto o pai como a mãe pertenciam ao ramo pietista da Igreja Luterana, que exigia dos fiéis vida simples e obediência total à lei moral.

Kant frequentou uma escola pietista em Königsberg, hoje Kaliningrado, onde aprendeu latim e línguas clássicas. Posteriormente, criticou as longas preces e a forma de religiosidade ali praticada como "escravidão juvenil". Na Universidade de Königsberg estudou Filosofia, Matemática e Física. Influenciado por Isaac Newton, em 1744 começou a escrever seu primeiro livro, sobre forças cinéticas – Pensamentos sobre o Verdadeiro Valor das Forças Vivas.

Após a morte do pai, trabalhou como professor particular para garantir o sustento da família. Em 1754, voltou à universidade e concluiu o doutorado, tornando-se livre docente. Passou a lecionar Lógica, Metafísica, Filosofia Moral, Matemática, Física e Geografia (que ele introduziu na universidade).

Convites de outras universidades
Sua difícil situação financeira começou a melhorar apenas em 1770, quando se tornou catedrático ordinário de Lógica e Metafísica na Universidade de Königsberg. Convites para lecionar em outras cidades alemãs, como Erlangen, Jena e Halle, não foram aceitos por Kant, que nunca se casou nem teve filhos. "Quando eu precisei de uma esposa, não tinha como sustentá-la", teria dito certa vez.

Seu livro A Religião nos Limites da Simples Razão colocou-o em conflito com o governo da Prússia. Em 1792, foi proibido pelo rei Frederico Guilherme II de ensinar ou escrever sobre temas religiosos. Kant seguiu a determinação durante cinco anos, até a morte do rei.

Durante 40 anos de docência, que só abandonou em 1796, aos 73 anos, conquistou não só a admiração dos alunos pela forma de ser, como também de colegas do mundo científico. Os estudantes afluíam à Universidade de Königsberg como se fosse a meca da filosofia. Kant teve suas teorias ensinadas em todas as universidades importantes da Alemanha.

Iluminismo: a coragem de usar a própria razão
Seu trabalho concentrou-se na resposta a três questões: O que eu sei? O que devo fazer? O que devo esperar? Entretanto, as respostas para as duas últimas dependem da resposta à primeira: nosso dever e nosso destino podem ser determinados somente depois de um profundo estudo do conhecimento humano.

Kant morreu em Königsberg, aos 79 anos de idade, a 12 de fevereiro de 1804. Entre suas principais obras estão Crítica da Razão Pura, Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Crítica da Razão Prática e Crítica da Faculdade de Julgar. A primeira delas criou as bases para a "teoria do conhecimento" como disciplina filosófica.

Immanuel Kant é considerado o grande filósofo do Iluminismo. Ele próprio assim respondeu à questão "o que é o Iluminismo?":
"O Iluminismo é a saída do ser humano do estado de não-emancipação em que ele próprio se colocou. Não-emancipação é a incapacidade de fazer uso de sua razão sem recorrer a outros. Tem-se culpa própria na não-emancipação quando ela não advém de falta da razão, mas da falta de decisão e coragem de usar a razão sem as instruções de outrem. Sapere aude!" Tenha a coragem de fazer uso da sua razão, é, portanto, o lema do Iluminismo. (rw)

Fonte:DW

A natureza como limite da economia: a contribuição de Nicolas Georgescu-Roegen

Economia da natureza
Seria a natureza a única limitante do processo econômico? Existem barreiras biofísicas que impediriam o crescimento exponencial de produção de bens de consumo de tal forma que o mundo caminhasse para uma “estabilização das atividades econômicas”?

Essas e outras questões envolvendo economia e ecologia estão presentes no livro A natureza como limite da economia – a contribuição de Nicolas Georgescu-Roegen, de Andrei Cechin, lançado na segunda-feira (19/4) na livraria da Edusp, a editora da Universidade de São Paulo (USP). Antes do lançamento, o autor e convidados debateram os principais pontos abordados na obra, na sede do Instituto de Estudos Avançados (IEA).

O livro é resultado da pesquisa de mestrado de Cechin, com Bolsa da FAPESP, defendido em 2008 no Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (Procam) da USP, com orientação de José Eli da Veiga, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP.

O título faz referência ao pensamento de Nicolas Georgescu-Roegen (1906-1994), matemático e economista romeno considerado o precursor do conceito de desenvolvimento sustentável. Segundo Georgescu-Roegen, a natureza é a única limitante do processo econômico.

De acordo com Veiga, um dos debatedores do encontro no IEA, o livro aborda interrelações entre economia e natureza e resgata o pensamento do economista romeno na moderna discussão sobre clima, sustentabilidade e governança corporativa.

“Quando, nos anos 1980, ele disse que a economia, no futuro, seria mais um capítulo da ecologia, foi ‘expurgado’ totalmente e caiu no esquecimento. O livro do Andrei traz uma contribuição inédita porque permite que muitos estudantes tenham acesso às suas ideias no Brasil”, disse.

Na oportunidade, o professor também lançou o livro Economia socioambiental, uma coletânea de 14 artigos organizada por ele que enfoca mudanças de paradigmas entre a economia convencional e a economia ecológica ou ambiental. Segundo Veiga, para fazer a introdução à coletânea – que escreveu junto com Cechin – teve como suporte o livro do orientando.

Georgescu ficou conhecido – e pagou um alto preço por suas ideias nos anos de 1970 – por aplicar à economia o conceito de entropia, emprestado da termodinâmica, ao mostrar que as concepções tradicionais da economia pecavam pelo extremo mecanicismo.

“Os manuais de economia sempre começam com o diagrama do fluxo circular, que mostra como o dinheiro, mercadorias e insumos circulam entre famílias e empresas. Para Georgescu, isso é um sintoma claro do mecanicismo que predomina na economia”, disse Cechin.

Segundo ele, o economista romeno tentou mudar a visão sistêmica do fluxo circular unitário e isolado, segundo a qual capital e trabalho são considerados a estrutura do processo que transforma fluxo de energia em produtos e resíduos.

“Ele muda para uma visão metabólica do processo, mostrando que o sistema econômico não era um moto-perpétuo, que alimenta a si mesmo de forma circular, sem perdas. Ao contrário, é um sistema que transforma recursos naturais em rejeitos que não podem mais ser utilizados. Ao desenvolver uma nova representação do processo, Georgescu destacou que ele não é circular e isolado, mas linear e aberto”, disse Cechin.

Novos ritmos
De acordo com Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP e debatedor no encontro no IEA, o trabalho do economista romeno é fundamental, porque conecta duas ciências aparentemente separadas: economia e ecologia.

“Outro ponto atual é a discussão sobre os limites ao desenvolvimento, sejam eles da natureza ou material. Esse recado parece que vem sendo entendido ou pelo menos valorizado pela humanidade”, disse.

Brito Cruz destacou alguns pontos que acha importantes para o debate do crescimento sustentável, como a questão da velocidade do processo, o custo social, o aumento da população e a criação de novas ideias.

“Como entender as partes desse sistema e como elas se combinam e de que maneira as ideias da humanidade vão empurrar para a frente esse ‘fim’ a partir da lei fundamental da natureza? As premissas de Georgescu são também uma oportunidade de conhecer novas ideias, já que sabemos que criamos uma solução para um problema e, em consequência, geramos outros desafios”, destacou.

O livro A natureza como limite da economia está dividido em cinco partes. No capítulo introdutório, Cechin apresenta o paradigma que une todas as escolas do pensamento econômico e o ponto de ruptura com as ideias de Georgescu.

A segunda é dedicada à vida e obra do economista romeno, do seleto grupo de economistas da Universidade Harvard, nos anos de 1930, ao banimento dos círculos acadêmicos nos idos de 1970, quando passou a estudar as bases biofísicas da economia, conhecimento que ele chamou de bioeconomia.

Nos capítulos seguintes, o autor avalia as idéias de Georgescu no contexto do debate sobre a escassez de recursos naturais e o crescimento econômico e a influência de seus postulados para formar a base do pensamento econômico.

Os capítulos apontam ao final para a discussão de que o futuro energético da humanidade está no centro da problemática do chamado desenvolvimento sustentável. “Georgescu mostrou que, para que o termo desenvolvimento sustentável não representasse uma mera inovação retórica, é necessário atentar para o duplo aspecto da relação entre processo econômico e natureza, ou seja, o esgotamento dos recursos naturais e a saída inevitável de resíduos”, disse Cechin.

Uma das principais teses de Georgescu – e a mais polêmica – gira em torno da ideia de decrescimento da economia. “A tese sinalizava que um dia a humanidade terá que pensar em estabilizar as atividades econômicas, pois não haverá como evitar a dissipação dos materiais utilizados nos processos industriais. Em algum momento, segundo ele, haverá a necessidade de diminuir o ritmo da economia”, disse.

Durante os debates outras questões foram levantadas, como o papel das inovações entre países ricos e emergentes. Como defender, por exemplo, o não crescimento em países que ainda precisam crescer.

Para Cechin, não seria correto dizer que o economista romeno se opõe ao desenvolvimento, mas que ele defende que a sociedade precisará se desenvolver decrescendo, sob novos paradigmas. “Os questionamentos sobre as teses de Georgescu só mostram o quanto o momento é propício para aceitação de suas ideias”, disse.

Mais informações: www.edusp.com.br

Fonte:Alex Sander Alcântara / Agência FAPESP