quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Vírus da dengue pode desencadear doenças neurológicas

Um estudo pioneiro realizado no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF) da UFRJ revelou que o vírus da dengue pode acarretar transtornos neurológicos. De acordo com a idealizadora do trabalho, Marzia Puccioni Sohler, chefe do Laboratório de Líquido Cefalorraquidiano do HUCFF, é importante saber se uma doença neurológica é decorrente do vírus da dengue devido à determinação do prognóstico médico. “O diagnóstico precoce e de certeza evita tratamento e maior tempo de internação desnecessários na busca de outras possíveis causas para aquela enfermidade neurológica”, aponta ela.

Segundo Marzia, o comprometimento neurológico associado à dengue era considerado raro, de acordo com a literatura científica. “No sentido de averiguar essa informação, e considerando que os sorotipos prevalentes durante a epidemia de dengue de 2002 no estado do Rio de Janeiro possuíam a capacidade de invadir o sistema nervoso, considerei a importância de se investigar a associação entre a doença neurológica e a infecção pela dengue na nossa população”, conta a pesquisadora.

Avaliação de pacientes
Na primeira fase da pesquisa foram estudados 13 pacientes com manifestações neurológicas em vigência de infecção aguda pela dengue: 54% apresentavam encefalite (comprometimento do encéfalo), 31% síndrome de Guillain Barrè (doença inflamatória que acomete as raízes nervosas) e 15% mielite (comprometimento da medula espinhal). “O exame de líquido cefalorraquidiano (líquido que reveste o sistema nervoso) foi anormal em 60% dos casos, evidenciando alterações inflamatórias”, destaca Marzia.

A pesquisadora relata que os casos de mielite parecem estar relacionados à invasão direta do vírus, que ocasiona lesões inflamatórias na medula espinhal. Já a síndrome de Guillain-Barrè é precipitada, muitas vezes, por uma infecção viral. “Acredita-se que a infecção viral prévia possa induzir a produção de anticorpos contra a mielina (estrutura que protege a raiz nervosa), ou seja, seria uma reação imunoalérgica”, explica.

E o mecanismo responsável pela encefalite, segundo Marzia, ainda necessita esclarecimentos. “Alguns autores consideram a possibilidade de ser decorrente de um processo imunoalérgico, enquanto outros atribuem à ação direta do vírus”, observa.

De acordo com a especialista, existe um leque maior de transtornos neurológicos atribuídos à dengue; porém, são doenças que ocorrem mais raramente. “Enquanto os casos de encefalite, encefalopatia, hemorragia cerebromeníngea, mielite e meningite surgem durante a infecção aguda, as outras doenças aparecem no período pós-infeccioso, tais como encefalomielite disseminada aguda (ADEM), neuromielite óptica (NOM), síndrome de Guillain-Barrè e paralisia (mononeuropatia) dos nervos ulnar ou facial. A encefalite é, em geral, a manifestação neurológica mais frequente associada à dengue”, expõe.

Tratamento
Segundo a pesquisadora, o tratamento não é específico e depende do diagnóstico da doença neurológica. “Algumas manifestações neurológicas associadas à dengue são benignas, resultando em rápida recuperação espontânea. Isso ocorre na maioria dos casos de encefalite e em alguns casos de síndrome de Guillain-Barrè”, indica. Nestas situações, os pacientes não costumam evoluir com sequelas.

Marzia demonstrou, em estudo prévio, que os casos de síndrome de Guillain-Barrè, quando associados à dengue, apresentam as mesmas características e prognóstico do que quando associados a outras doenças infecciosas. “Já os pacientes com mielite evoluem mais frequentemente com sequelas, tais como paraparesia (diminuição de força muscular nos membros inferiores) e retenção urinária”, relata a especialista.

Até o momento, não existe nenhuma vacina ou tratamento específico para prevenir a dengue ou as doenças neurológicas associadas a ela. “A única prevenção está em evitar as epidemias da dengue, através de medidas de controle dos vetores”, informa a pesquisadora. Marzia Puccioni revelou que os próximos passos de seu trabalho consistem em aumentar a casuística, com a participação de novos centros de pesquisa da área.

Fonte: Cília Monteiro /Olhar Vital