quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Louis Braille, inventor da escrita para deficientes visuais, morre em 1852

A 6 de janeiro de 1852, Braille fechava os olhos para sempre. Cego desde os três anos, o francês desenvolveu, ainda adolescente, o sistema de escrita para deficientes visuais mais difundido atualmente em todo o mundo.

"Nossa principal preocupação deve ser ensinar os cegos a ler", dizia Valentin Haüy, fundador da primeira escola para cegos do mundo, em Paris. Ele observara que as folhas impressas em sua gráfica exibiam no reverso todas as letras em relevo, só que invertidas. Haüy usou esse princípio para imprimir livros em relevo, com escrita palpável.

Foi assim que tudo começou. Mas as letras em relevo de Haüy só podiam ser lidas a dedo com muita dificuldade. Isso também não mudou com uma escrita desenvolvida na Alemanha, que substituía o alinhamento de letras pela justaposição de pontos isolados. Influenciados pelo fato de terem visão perfeita, os primeiros inventores da escrita para cegos seguiam a lógica da escrita normal.

O cego Louis Braille, porém, revolucionaria as pesquisas nessas área. Nascido a 4 de janeiro de 1809, na pequena cidade francesa de Coupvray, no distrito de Seine-et-Marne, a cerca de 45 km de Paris, Braille era cego desde os três anos de idade. Ele ferira o olho esquerdo ao tentar perfurar um pedaço de couro na oficina do pai. A infecção produzida pelo acidente expandira-se e atingira o outro olho, provocando a cegueira total.

Estudo
Apesar disso, inicialmente Braille frequentou uma escola para crianças com visão normal, onde se destacou como aluno aplicado. Em 1820, pediu transferência para o instituto de crianças cegas de Paris, fundado 40 anos antes por Valentin Haüy.

Logo notou que os meios e métodos usados à época no ensino para deficientes visuais ainda eram muito lentos. Isso se devia, principalmente, à baixa velocidade de leitura permitida pela escrita em relevo. Sua primeira tentativa para mudar este incômodo sistema foi usar as letras recortadas em couro.

Por influência da concertista cega Teresa von Paradis, Braille passou a estudar música. Como músico, conseguiu fundos para levar adiante suas pesquisas em torno de um novo sistema de leitura.

Seis pontos
Ainda como colegial, Braille testou uma nova escrita e, em 1825, com apenas 16 anos de idade, apresentou seu sistema de seis pontos. Depois de aperfeiçoá-lo, Braille descobriu que podia usá-lo na aritmética, álgebra e até na música.

A chamada "célula braille" é composta de seis pontos, em relevo, dispostos em duas colunas de três. As combinações destes pontos permitem representar todo o alfabeto, incluindo os acentos, números e a pontuação.

Reconhecimento
Como professor auxiliar no instituto de Paris, Braille demonstrou a utilidade prática do sistema de seis pontos, que em 1830 passou a integrar a escrita escolar e rapidamente melhorou o desempenho dos alunos cegos. A propagação e o reconhecimento oficial da nova escrita, porém, só viriam muito mais tarde.

Somente após a morte precoce de Braille, a 6 de janeiro de 1852, alguns franceses iniciaram uma campanha para transformar seu sistema em padrão europeu. Na Alemanha, foi adotado no ensino para cegos em 1879. Em 1951, a Unesco criou seu código internacional oficial do braille e fundou o Conselho Mundial Braille, a fim de uniformizar a escrita para cegos em todo o mundo.

Para as organizações internacionais dos cegos, o desenvolvimento da anagliptografia, como também é chamado o braille, significou uma revolução cultural semelhante à invenção da imprensa por Gutenberg. "A escrita de pontos possibilitou literalmente o acesso dos cegos à grande parte da educação que antes lhes era inacessível", diz Hans Werner Lange, diretor da Associação dos Cegos da Baixa Saxônia.

Realidade
Apesar de muitas barreiras terem caído, as estatísticas provam que o acesso dos cegos à educação ainda é relativo. Apenas cerca de 25% dos 155 mil cegos da Alemanha sabem ler em braille. Isso, porém, se deve ao grande número de idosos. Mais de 70% dos deficientes visuais graves têm mais de 65 anos, idade em que o tato se torna menos aguçado, o que dificulta o aprendizado de uma nova escrita. Essas pessoas informam-se principalmente através do rádio, da tevê e de livros sonorizados.

"O rádio e a tevê, porém, de forma alguma podem substituir a palavra escrita. Mesmo na era do processamento eletrônico de dados, o braille mantém o valor que tinha quando só existia o livro.

Veja o site Braille Virtual da USP

Fonte: Dirk Stroschein (gh)/ DW