quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Programa L’Oréal-Unesco para Mulheres na Ciência premia sete cientistas brasileiras

Jovens e premiadas
Com o objetivo de incentivar jovens pesquisadoras, o programa L’Oréal-Unesco para Mulheres na Ciência premiou sete cientistas brasileiras nesta quarta-feira (23/9), no hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro.

Das sete pesquisas contempladas – de um total de 271 inscritas no país –, três são trabalhos com apoio da FAPESP. O Programa L’Oréal-Unesco para Mulheres na Ciência é realizado em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) e no Brasil conta com o apoio da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Cada vencedora recebeu bolsa-auxílio no valor de US$ 20 mil para desenvolver seus respectivos projetos no período de um ano.

As ganhadoras paulistas são Sheila Cavalcante Caetano e Lea Tenenholz Grinberg, da Faculdade de Medicina, e Elysandra Figueredo, do Departamento de Astronomia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), ambas unidades da Universidade de São Paulo (USP).

As demais vencedoras são Flávia Carla Meotti, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Alexandra Zugno, da Universidade do Extremo Sul Catarinense, Annelise Casellato, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Valéria Sandrim, da Santa Casa de Belo Horizonte.

Sheila foi contemplada pelo estudo “Programa de transtorno bipolar”. O trabalho da psiquiatra, desenvolvido no ambulatório do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, envolveu o estudo de casos de crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos com transtorno bipolar.

O estudo é parte de sua pesquisa de pós-doutorado, intitulada “Avaliação volumétrica e neuroquímica de filhos de pacientes com transtorno afetivo bipolar através da espectroscopia por ressonância magnética de próton (ERM-1H)”, coordenado por Geraldo Busatto Filho, da Faculdade de Medicina da USP, e que tem apoio da FAPESP na modalidade Bolsa de Pós-Doutorado.

Segundo Sheila, o início da pesquisa teve foco em crianças cujos pais apresentavam transtorno bipolar do tipo 1, que é o mais grave. “Entre os filhos de pais que apresentam o transtorno, há um aumento de cerca de 10% de chances de desenvolver o problema, ou seja, dez vezes mais do que a população em geral”, disse.

“Agora, propusemos um novo projeto que inclui o estudo genético para tentar entender, por meio do mapeamento do cérebro, a transmissão dessa doença dos pais para os filhos. A partir da neuroimagem, poderemos comparar o cérebro de crianças portadoras e não portadoras do transtorno e estudar uma estrutura cerebral chamada de amígdala, responsável pela formação e reconhecimento das emoções”, explicou.

Esse novo projeto será iniciado em outubro. “Estou muito feliz porque poderemos continuar e ampliar o estudo iniciado com a bolsa da FAPESP. Além do incentivo em dinheiro, trata-se de um prêmio acadêmico de prestígio”, afirmou.

Envelhecimento cerebral
Outro estudo premiado também se ocupa do cérebro. “Envelhecimento cerebral” é o tema do trabalho de autoria de Lea Grinberg. O estudo é um desdobramento da pesquisa de doutorado “Correlação anantomoclínica da associação entre demências e alterações comportamentais no cérebro durante o envelhecimento”, orientado por Wilson Jacob Filho, professor da FMUSP, para a qual Lea teve bolsa da FAPESP.

De acordo com a pesquisadora, que atualmente gerencia o projeto Envelhecimento Cerebral na FMUSP, a doença de Alzheimer é geralmente considerada a mais comum entre os diagnósticos de demência. Mas o envelhecimento cerebral, afirma, é de fato o tipo mais comum de demência na população brasileira.

“Observamos que a demência causada por alterações nos pequenos vasos sanguíneos do cérebro, que chamamos de demência vascular, é mais comum do que a doença de Alzheimer. E, apesar de nenhuma das duas ter tratamento, a demência é passível de prevenção. Esse é o ponto mais forte da pesquisa: mostrar que no Brasil muita gente fica doente por algo que é possível prevenir”, disse Lea, acrescentando que o prêmio permitirá estender a amostra do estudo de 206 para 600 pessoas.

Estrelas raras
A proposta de criação de um catálogo das estrelas de grande massa, raras na galáxia, resultou no Prêmio L’Oréal-Unesco para Mulheres na Ciência a Elysandra Figueredo, do Departamento de Astronomia do IAG-USP.

O estudo de Elysandra – que também foi bolsista de doutorado da FAPESP – é parte de sua pesquisa de pós-doutorado sobre a formação de estrelas de alta massa, intitulado “Estrutura espiral da Via Láctea e a formação de estrelas massivas”.

O estudo foi orientado por Augusto Damineli Neto, professor titular e chefe do Departamento de Astronomia do IAG-USP, e realizado no âmbito do projeto de Auxílio à Pesquisa – Regular “Observação e modelagem de estrelas massivas”.

O projeto de Elysandra, “Criação de um catálogo das estrelas de alta massa”, tem como objetivo tentar entender como se dá a formação e quais são os diferenciais e peculiaridades das estrelas de grande massa.

“É difícil ter uma amostragem muito grande dessas estrelas, mas o primeiro passo é conseguir essa amostragem com várias imagens e espectros, para que se consiga construir um modelo em cima de dados concretos”, explicou.

A pesquisadora do IAG criou uma técnica especial com a utilização de infravermelho para medir e avaliar a distância exata dessas estrelas e delinear, da forma mais verossímil possível, os braços da Via Láctea a fim de relatar todas as suas especificidades.

“Conhecemos muito pouco sobre essas estrelas e todo o processo de formação delas ainda é desconhecido. Sua ocorrência é rara – para cada mil estrelas de baixa massa, temos uma de alta massa –, mas elas têm uma importância muito grande no contexto da astronomia”, explicou.

De acordo com Elysandra, existem poucas pesquisas no Brasil sobre esse assunto. E a principal forma de ampliar o conhecimento sobre a formação dessas estrelas é entender qual o processo físico envolvido. Por essa razão é preciso criar um catálogo. “Fiquei muito feliz com o prêmio. É um reconhecimento importante para quem, como eu, está no começo da carreira”, disse.

Sul e Sudeste
Flávia Meotti, com o projeto “Processos inflamatórios na bexiga que dão origem à cistite urinária”, pretende utilizar no tratamento desse tipo de infecção uma substância química chamada genuxal, empregada contra o câncer e responsável por uma reatividade que previne a proliferação de bactérias. A escolha do tema é fruto da carência de opções de tratamento das cistites urinárias.

A pesquisa de Alexandra Zugno, da Universidade do Extremo Sul Catarinense, aborda a questão da esquizofrenia, doença que pode incluir uma variedade de transtornos com sintomas comportamentais similares. Com o projeto “Esquizofrenia”, ela pretende procurar melhores tratamentos e fármacos mais eficazes para uma doença complexa cujos mecanismos de ação são pouco conhecidos.

Annelise Casellato, da UFRJ, recebeu o prêmio com pesquisa sobre o papel dos metais nos materiais biológicos utilizados em alguns pesticidas no combate a pragas nas plantações de tomate. O objetivo do estudo é verificar os danos causados por esses produtos e estudar seus impactos ambientais de forma a reduzi-los.

Valéria Sandrim, da Santa Casa de Belo Horizonte, foi premiada por um projeto de pesquisa que busca avaliar as evidências de pré-eclâmpsia nas gestantes a partir de 20 semanas antes do aparecimento dos primeiros sintomas da doença.

Mais informações: http://loreal.abc.org.br

Fonte: Alex Sander Alcântara / Agência FAPESP