quinta-feira, 18 de junho de 2009

Poeira do Saara faz chover na Amazônia

Relative roles of biogenic emissions and Saharan dust as ice nuclei in the amazon Basin


Poeira do deserto faz chover na floresta
A poeira do deserto do Saara, na África, tem uma influência importante no regime de chuvas da Amazônia. A afirmação, que pode parecer inusitada à primeira vista, foi comprovada em um estudo realizado por um grupo internacional de pesquisadores – com participação brasileira –, publicado na revista Nature Geoscience.

De acordo com Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e um dos autores do trabalho, o objetivo foi realizar, pela primeira vez em uma região tropical do planeta, medidas de aerossóis conhecidos como núcleos de condensação de gelo – partículas que têm a propriedade de formar nuvens convectivas, influenciando a precipitação, a dinâmica das nuvens e a quantidade de entrada e saída de radiação solar.

“As nuvens convectivas na Amazônia, que ficam entre 12 e 15 quilômetros de altitude, têm suas gotas congeladas. Para que possam aparecer partículas de gelo nessas nuvens é preciso existir os núcleos de condensação de gelo. Pela primeira vez medimos as propriedades físico-químicas desses núcleos”, disse.

Segundo Artaxo, ao fazer as medidas, o grupo descobriu que a vegetação da própria Amazônia e a poeira proveniente do Saara são as duas principais fontes dos núcleos de condensação de gelo.

“A importância disso é que a maior parte da chuva na Amazônia é proveniente das nuvens convectivas. E é a primeira vez que detectamos essas partículas. Identificamos como núcleos de gelo e medimos suas propriedades físicas, químicas e biológicas”, disse o também coordenador do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA) e ex-coordenador da área de geociências da FAPESP.

Para realizar o estudo, o grupo utilizou modelos matemáticos que simulam o comportamento das nuvens de gelo em condições amazônicas. “A parte surpreendente é que a poeira do Saara é responsável por uma fração significativa dos núcleos de condensação de gelo da Amazônia, especialmente em altas altitudes e temperaturas mais baixas”, explicou.

Segundo Artaxo, o estudo sugere que a contribuição das partículas biológicas locais para a formação de núcleos de gelo aumenta em altas temperaturas atmosféricas – com altitude mais baixa –, enquanto a contribuição por partículas de poeira cresce nas baixas temperaturas das regiões mais altas.

“Descobrimos que a vegetação da própria floresta alimenta os núcleos em altitudes que vão até 8 ou 9 quilômetros. Enquanto isso, a poeira do Saara nessa época do ano – o estudo foi feito entre fevereiro e março – predomina em altitudes acima de 9 ou 10 quilômetros”, disse.

As análises apontaram que os núcleos são compostos principalmente de materiais carbônicos e poeira. “Mostramos que as partículas biológicas dominam a fração carbônica, enquanto a importação da poeira do Saara explica o aparecimento intermitente de núcleos contendo poeira”, contou.

A poeira do deserto africano, segundo Artaxo, é um fenômeno atmosférico sazonal cujo pico se dá entre março e o fim de abril. “É um fenômeno de transporte atmosférico de longa distância que já conhecíamos. Mas nunca tínhamos medido as propriedades de nucleação dessas partículas.”

Continuidade em Temático
Na primeira fase do estudo a equipe utilizou um equipamento supercongelador para esfriar as partículas a 50 graus negativos e lançá-las na Floresta Amazônica, a fim de fabricar cristais de gelo.

“A partir daí, analisamos as propriedades físicas, químicas e biológicas desses cristais, utilizando técnicas analíticas nucleares – especificamente o método Pixe, disponível no Instituto de Física da USP. Pudemos analisar a concentração de alumínio, silício, titânio e ferro nas partículas”, disse.

A partir da análise, os pesquisadores descobriram que a assinatura elementar das partículas correspondia à assinatura da poeira do deserto do Saara. O segundo passo foi descobrir como essas partículas saem da África e chegam à Amazônia.

“Para isso rodamos modelos de circulação global da atmosfera e mostramos que, efetivamente, quando estavam presentes as concentrações de alumínio, silício, titânio e ferro que correspondiam à poeira do Saara, o modelo confirmava essa circulação”, afirmou.

Com a pesquisa, o grupo concluiu que a concentração e a abundância de núcleos de condensação de gelo na Amazônia podem ser explicadas, em sua quase totalidade, por emissões locais de partículas biológicas complementadas pela importação da poeira saariana.

Segundo Artaxo, os estudos terão continuidade dentro de um Projeto Temático apoiado pela FAPESP no âmbito do Programa FAPESP sobre Pesquisa Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG). “Faremos novos estudos dentro desse Temático que acaba de ser aprovado. Tentaremos simular e medir como se dá a variabilidade sazonal dos núcleos de condensação de gelo sobre a Amazônia”, destacou.

Além de Artaxo, participaram do estudo Markus Petters, Sonia Kreidenweis e Colette Heald, do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade Estadual do Colorado (Estados Unidos), Scot Martin, da Escola de Engenharia e Ciências Aplicadas da Universidade de Harvard (Estados Unidos), e Rebecca Garland, Adam Wollny e Ulrich Pöschl, do Departamento de Biogeoquímica do Instituto de Química Max Planck (Alemanha).

O artigo Relative roles of biogenic emissions and Saharan dust as ice nuclei in the amazon Basin, de Ulrich Pöschl e outros, publicado em 3 de maio na Nature Geosciences, pode ser lido por assinantes em www.nature.com/ngeo

Fonte: Fábio de Castro / Agência FAPESP

Bolsas para pós-graduação na Alemanha em políticas públicas e boa governança

O DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico) está recebendo candidaturas para o programa de bolsas de pós-graduação master em políticas públicas e boa governança (PPGG), com cinco opções de cursos (ver cursos e universidades no edital).

O programa tem como público-alvo graduados, com ou sem experiência profissional, que visem exercer funções de liderança nos campos político, jurídico e econômico, bem como da administração pública. Para candidatar-se, os interessados não podem ter concluído a graduação há mais de seis anos. Os candidatos não podem estar residindo na Alemanha há mais de um ano.

Para os cursos ministrados em inglês, será exigido certificado de proficiência no idioma (Toefl ou equivalente). Para os cursos em alemão, terão prioridade aqueles que já tiverem ao menos conhecimentos básicos de alemão em nível A2. Todos receberão bolsa para curso de alemão na Alemanha, em geral de seis meses, antes do início da pós-graduação. Prevê-se o início dos cursos de alemão presenciais em 1o. de abril de 2010. A partir de janeiro, os aprovados deverão ter acesso ao curso on-line de alemão DUO.

Além destes, todos os cursos possuem outros pré-requisitos próprios para admissão. Os candidatos deverão informar-se previamente nos respectivos sites sobre eles.

As candidaturas devem ser enviadas até 28 de agosto de 2009 (data da postagem) ao escritório regional do DAAD no Rio de Janeiro (ver endereço no edital), podendo os candidatos indicar sua preferência por até dois dos cinco cursos oferecidos no programa.

Os cursos terão, em regra, duração de dois anos. As bolsas estão fixadas em 750 euros mensais, mais seguro-saúde, subsídio para viagem e aluguel, bem como outros adicionais, conforme o caso.

Para melhor orientação, os interessados devem ler e seguir o edital em inglês, disponível pelo site. Pedidos de esclarecimento devem ser encaminhados ao escritório do DAAD no Rio pelo e-mail.

O DAAD é a maior organização de intercâmbio acadêmico e científico do mundo, com orçamento de 300 milhões de euros e cerca de 56 mil fomentados (alemães e estrangeiros) anualmente.

Fonte: DAAD

Unesp desenvolve biodiesel a partir do abacate

Biodiesel de abacate
O abacateiro pode ser uma nova alternativa para a produção de biodiesel, de acordo com estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Segundo eles, o abacate apresenta vantagem em relação a outras oleaginosas estudadas ou usadas para a produção de biocombustível, como a soja. O motivo é que do mesmo fruto é possível extrair as duas principais matérias-primas do biodiesel: óleo (da polpa) e álcool etílico (do caroço).

“O objetivo principal da pesquisa era a extração do óleo para produção de biodiesel. Mas, ao tratarmos o resíduo, que é o caroço, conseguimos obter álcool etílico. Isso, por si só, é uma grande vantagem, já que da soja é extraído somente o óleo e a ele é adicionado o álcool anidro”, explicou Manoel Lima de Menezes, professor do Departamento de Química da Faculdade de Ciências da Unesp, em Bauru, e coordenador da pesquisa que teve apoio da FAPESP na modalidade Auxílio a Pesquisa – Regular.

O Brasil é o terceiro produtor mundial de abacate, com cerca de 500 milhões de unidades produzidas por ano. Cultivado em quase todos os estados, mesmo em terrenos acidentados, a produção se dá o ano todo, com 24 espécies que frutificam a cada três meses.

Não são todos os óleos vegetais que podem ser utilizados como matéria-prima para produção de biodiesel, pois alguns apresentam propriedades não ideais, como alta viscosidade ou quantias elevadas de iodo, que são transferidas para o biocombustível e o tornam inadequado para o uso direto em motor de ciclo diesel.

Segundo Menezes, o teor de óleo do abacate varia de 5% a 30%. As amostras coletadas na região de Bauru (SP) apresentaram, no máximo, 16% de teor de óleo. “Esse índice é similar ao teor de óleo da soja que, na mesma região, é de 18%”, comparou.

“Teoricamente, é possível extrair de 2,2 mil litros a 2,8 mil litros de óleo por hectare de abacate”, disse. O número é considerado por ele elevado quando comparado com a extração de outros óleos: soja (440 a 550 litros/hectare), mamoma (740 a 1 mil litros/hectare), girassol (720 a 940 litros/hectare) e algodão (280 a 340 litros/hectare).

Já o caroço do abacate tem 20% de amido. Com base nesse percentual, estima-se que seja possível extrair 74 litros de álcool por tonelada de caroço de abacate. Valor próximo ao da cana-de-açúcar, que possibilita a extração de 85 litros por tonelada, enquanto a mandioca fornece 104 litros por tonelada.

Apesar da enorme disponibilidade do fruto no Brasil, o óleo do abacate ainda é importado, pela falta de tecnologias adequadas para o processamento. O principal obstáculo para obtenção do óleo é o alto teor de umidade – o abacate tem 75% de água, em média –, que afeta o rendimento da extração. Esse foi um dos desafios que a pesquisa se propôs solucionar: aperfeiçoar as metodologias de extração para obter melhor rendimento.

Extração do óleo
De todos os métodos estudados pelo grupo orientado por Menezes, o melhor resultado foi obtido com a desidratação. Foi desenvolvido um forno rotativo, com ar quente e, após a secagem, a polpa foi moída e colocada na prensa, seguida do processo de suspensão com solvente. A partir desse momento, foi transferida para uma centrífuga de cesto, desenvolvida pelo grupo. “Com a força centrífuga, a polpa fica bem seca e o rendimento melhora”, observou Menezes.

Da extração do óleo, passou-se para a produção do biodiesel, o que inclui uma etapa de purificação. Uma vez purificado, foi feita a síntese do biodiesel, já com o método tradicional utilizado atualmente, que é a reação por transesterificação (conhecido como método Ferrari), seguido pela caracterização por cromatografia gasosa.

Essa é a técnica exigida pela ANP 42, regulamentação da Agência Nacional do Petróleo, (ANP) Gás Natural e Biocombustíveis que define a caracterização e avaliação da qualidade do produto obtido e deve ser seguida pelos mercados comprador e fornecedor.

O primeiro estudo feito com o caroço foi a hidrólise enzimática, com a qual se obteve rendimento baixo, de cerca de 24 litros por tonelada. Agora, os pesquisadores estão iniciando uma nova etapa, que é a hidrólise alcalina e/ou ácida sob pressão, seguida por hidrólise enzimática para melhorar o rendimento.

Grande parte dos parâmetros físico-químicos está de acordo com as exigências da regulamentação ANP 42, com exceção do teor de glicerina total e acidez, que ficaram um pouco acima, segundo Menezes.

Os teores de enxofre, fósforo e sódio não foram determinados nessa etapa do projeto devido à dificuldade em encontrar laboratórios para executar os ensaios. Esses são aspectos que a pesquisa continuará analisando para que fiquem totalmente compatíveis com os parâmetros da ANP 42.

“Nosso objetivo é propor o emprego da técnica de espectrofotometria de absorção atômica, empregada na determinação de metais e desenvolver uma nova metodologia que possa ser adaptada para análise do fósforo”, disse.

Como os demais resultados obtidos estão em conformidade com a regulamentação, os pesquisadores consideram que a metodologia empregada é adequada para realizar a síntese do produto.

Viabilidade econômica
Segundo o estudo feito na Unesp, as características do biodiesel do óleo de abacate são bastante semelhantes às verificadas com o biodiesel de soja, com exceção da coloração, que é esverdeada, diferente do amarelo no caso da soja. Mas isso não afetaria a qualidade.

“Na análise de carbono, a clorofila não alterou o resíduo de carbono que a norma estabelece. Ficou abaixo. Portanto, nesse caso, a cor não interfere na qualidade, é mais uma questão de aparência. Clarificar, portanto, é opcional, diferentemente da aplicação medicinal, em que clarificar levaria à perda de propriedades medicinais, ao passo que a coloração escura não tem apelo comercial na produção de cosméticos”, disse Menezes.

A viabilidade econômica do biodiesel de abacate não foi foco dessa etapa do estudo nem é a especialidade desse grupo de pesquisa, segundo o coordenador. O custo do biodiesel ainda é alto. Produz-se óleo de soja a um custo de R$ 1,20 o litro. O álcool anidro para adicionar é comprado a R$ 0,74 o litro. O abacate tem a vantagem de oferecer as duas matérias-primas e, por enquanto, a um custo mais baixo que o da soja, segundo Menezes.

A extração do óleo e álcool do abacate ainda demanda investimentos em equipamentos. De acordo com o professor da Unesp, é necessário estudar o desenvolvimento de um despolpador – para separar a polpa do caroço – e produzir a centrífuga para obter máximo rendimento. O estudo resultou na apresentação de quatro trabalhos em congressos nacionais.

Fonte: Jussara Mangini / Agência FAPESP

Consecti e Confap discutirão novo plano nacional para área de C&T

Os conselhos nacionais de Secretários Estaduais para Assuntos de CT&I (Consecti) e das Fundações de Amparo à Pesquisa (Confap) discutirão com o MCT um novo planejamento nacional para a área de CT&I. O convite foi feito hoje (18), pelo secretário executivo do ministério, Luis Elias, durante a reunião conjunta dos conselhos. O evento acontece até amanhã, em São Paulo (SP).

Até 2010, estará em vigor o Plano Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Nacional (Pacti). O debate com os conselhos em torno do novo planejamento será feito no âmbito do Comitê Executivo MCT/Consecti/Confap.

De acordo com Elias, será discutido em quais temas foi possível avançar com o Pacti consideravelmente, em quais é necessário aprimorar, quais as lacunas existentes, especialmente na questão da distribuição regional. "Isso é um enfrentamento que temos que fazer. Não foi resolvido por completo, é necessário que a gente tenha uma dimensão regional dos recursos e que esses recursos sejam possíveis para incrementar, a nível estadual, o processo em movimento na ciência e tecnologia", afirmou.

Nesse contexto, o secretário destacou a importância das parcerias entre os Estados e o MCT. Ele lembrou que, por meio dessa ação conjunta, os recursos para diversos programas foram ampliados significativamente. De acordo com Elias, antes dessa parceria, o Instituto Milênio registrou um recurso, para a sua chamada, em torno de R$ 90 milhões; o Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex), de cerca de R$ 100 milhões; o Edital Universal, R$ 90 milhões; e o Casadinho, R$ 20 milhões.

Segundo o secretário, após a consolidação dessa ação conjunta e a introdução do Pacti, os recursos para essas iniciativas passaram, respectivamente, para R$ 600 milhões; R$ 220 milhões; R$ 100 milhões; e R$ 30 milhões. "Isso dá uma dimensão do que coloquei na estrutura do governo federal, da importância de se estruturar um Plano Nacional de C&T que fosse integrado, que não olhasse apenas os programas internos do MCT, mas que considerasse a parceria efetiva com os ministérios da Educação, da Indústria e Comércio, da Agricultura, entre outros", disse.

Em sua opinião, essa articulação se refletiu certamente no Comitê Executivo MCT/Consecti/Confap. O secretário considera que é fundamental dar continuidade a essa agenda estratégica, estruturando projetos que consolidem temas como o bioma do Cerrado, a área de biocosméticos e de biocombustíveis. "Tem um conjunto de parcerias que se estruturam e que na verdade levam à consolidação da CT&I como uma política de Estado", afirmou.

Conferência
O secretário disse acreditar que os resultados desses programas estarão refletidos na próxima Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, que deverá ser realizada nos dias 26, 27 e 28 de maio de 2010. O assessor do ministro da C&T, Ronaldo Mota, foi designado como secretário geral para conversar e indicar as instituições ou os Estados sede dos eventos prévios regionais. "É importante porque isso consolida o processo e certamente na conferência nacional teremos o resultado dessa consolidação", disse.

Informações sobre as ações do MCT podem ser obtidas no site www.mct.gov.br.

Fonte: Bianca Torreão/ Gestão CT