sábado, 21 de março de 2009

Mamão na China tem técnica brasileira

China planta mamão com técnica brasileira - Pés produzem mais frutos e antecipam a colheita.Custos operacionais podem ser reduzidos em 60%

Agricultores da província de Hainan, no sul da China, estão usando uma técnica desenvolvida na Universidade de Brasília para melhorar o cultivo de mamão. O método reduz em até 60% os custos operacionais ao privilegiar o plantio de mudas retiradas de pés selecionados, em vez de usar sementes.

O professor Osvaldo Yamanishi, da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária (FAV), explica que o método consiste em extrair brotos de mamoeiros hermafroditas, que produzem frutos alongados, e enxertá-los em outro pé obtido de semente, ou simplesmente enraizar os brotos e plantá-los diretamente no solo. Assim, o produtor terá somente os mamões mais procurados pelos consumidores, cujos frutos são vendidos por até R$ 3,50/Kg em supermercados do Brasil.




“Como a planta é um clone, já sabemos o sexo dela. Só precisamos cultivar uma em cada cova”, explica. A proposta de Yamanishi evita o desperdício gerado pelo uso de sementes, uma vez que é impossível saber quais delas vão gerar pés hermafroditas ou femininos. Os produtores colocam, então, de três a quatro sementes por cova para aumentar as chances de ter uma planta hermafrodita.

Embora os dois tipos de mamoeiros produzam frutos de qualidade semelhante, os femininos geram mamões arredondados, cujo valor comercial é até 50% menor, e por esse motivo são erradicados. O estudo de Yamanishi recebeu o prêmio de melhor pôster e melhor apresentação oral no Second International Symposium on Papaya de 2008, em Madurai, India.

FACILIDADE
A técnica criada pelo professor oferece outras duas vantagens para o produtor. Em experimento conduzido na Escola de Engenharia e Agronomia de Alimentos da Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia, os mamoeiros enxertados cresceram mais rápido e deram mais frutos.

Yamanishi explica que as plantas se desenvolvem mais precocemente porque a planta hermafrodita não divide os insumos com as plantas femininas. “A muda tem maior disponibilidade de luz, água e nutrientes. Aquela que disputa espaço com duas ou três mudas da mesma cova acaba competindo por esses itens”, diz.

O tempo de florescimento dos pés enxertados é de aproximadamente 35 dias, metade dos 70 dias observados em um mamoeiro de semente. Além da colheita antecipada, as plantas geraram mais que o dobro de frutos no mesmo período. Os mamoeiros enxertados produziram em média 132 frutas em 210 dias, contra 63 das plantas comuns.

O professor diz, ainda, que os pés crescem menos, o que é bom para o agricultor. “Com o enxerto, a planta fica menor e produz frutos mais próximo do solo, o que permite mais colheitas ao longo da vida do mamoeiro”. Em uma planta comum, os frutos nascem a partir de 0,7 m a 1,5 m de altura. Ao final de 2 anos, no entanto, o pé está alto demais para a colheita.

RECEPTIVIDADE
Apesar de o Brasil ser o maior produtor mundial de mamão – foram 1,8 milhão de toneladas em 2007 – e poder aumentar a competitividade com a técnica, o interesse pelo método no País ainda é tímido. “Os produtores trabalham com as sementes e preferem ir tocando o plantio assim, por conta da comodidade. São poucos os que inovam”, afirma.

A técnica é adotada apenas no sul da Bahia, que cultiva o mamão hermafrodita por enxerto, mas em caráter experimental. Curiosamente, foi a 17 mil quilômetros do Brasil, em Hainan, na China, que o método encontrou receptividade. Um empresário local, conheceu o trabalho de clonagem do mamoeiro da UnB durante o First International Symposium on Papaya de 2005, na Malásia. Percebeu na técnica uma grande oportunidade e investiu na sua produção comercial, iniciada em 2006. Dois anos depois, as mudas clonais ocupavam 10% da área plantada com mamão em Hainan, aproximadamente 500 hectares.

Para colher os benefícios é preciso estar disposto a adotar certos cuidados. A produção de mudas clonais é mais complexa que a de semente e requer instalações adequadas, como a manutenção das plantas matrizes em estruturas protegidas por telas para impedir a entrada do vetor (pulgão) do vírus do mamoeiro. É necessário, ainda, empregar mão-de-obra especializada.

Os pontos positivos, porém, suplantam as restrições, explica Yamanishi. “Há muitas vantagens da muda clonal em relação à muda de semente. Falta, no momento, sensibilizar o setor produtivo para adotar a técnica em escala comercial.”

PERFIL
Osvaldo Kiyoshi Yamanishi é doutor em Produção Vegetal pela Ehime University (Japão). Concluiu mestrado também em Produção Vegetal e especializou-se em Fruticultura na Kochi University (Japão). Graduou-se em Agronomia na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Contato pelo e-mail ( Arte:Marcelo Jatobá/UnB Agência)

Fonte: UNB