quarta-feira, 4 de março de 2009

Primeira fábrica de insulina terá tecnologia da UnB

Universidade terá 2% da renda líquida. Comercialização de patentes rendeu R$ 176,6 mil para a instituição em dois anos

A primeira fábrica de insulina do Brasil produzirá o hormônio com tecnologia desenvolvida pela Universidade de Brasília. A comercialização da patente abre perspectivas de rendimento para a instituição, que tem direito a 2% da renda líquida referente à venda do produto.

O investimento inicial no empreendimento será de aproximadamente R$ 200 milhões para produzir 800 quilos de matéria-prima por ano. A fábrica funcionará no Distrito Federal e o produto deverá chegar ao mercado em dois anos, conforme anunciou em fevereiro a União Química, empresa responsável pela produção.

O negócio fechado com a União Química - intermediado pela empresa Biomm, que detém a patente junto com a UnB – inaugura a comercialização de tecnologias da universidade no Brasil. A transferência de tecnologia a outros países rendeu para a instituição, nos últimos dois anos, R$ 176,6 mil em royalties, valor pago para o detentor de uma inovação pelo seu uso.

Atualmente, a universidade possui 72 patentes registradas e negocia 10 tecnologias. Entre as patentes estão um composto farmacêutico para o tratamento de Doenças de Chagas e um aplicador de fita adesiva, cujo protótipo será produzido este ano. “São inovações desenvolvidas na universidade que podem chegar ao mercado e beneficiar a população”, ressalta do diretor do Centro de Desenvolvimento Tecnológico  (CDT) da UnB, Luís Afonso Bermúdez.

O CDT investiu R$ 18 milhões em registro e transferência de tecnologia em 2008. Valor captado pelo centro em editais de fomento à pesquisa e projetos desenvolvidos pela unidade. O custo do registro internacional pode atingir valores altos. Para registrar uma patente nos Estados Unidos e México em 2009, o CDT gastou R$ 20 mil.

A expectativa de Bermúdez é de um retorno muito maior em longo prazo. Isso porque o diálogo com empresas para fechar negócio demora, em média, 2 anos. O estudo para o desenvolvimento do método de tecnologia para fabricação de insulina, por exemplo, começou dez anos atrás, com a participação da Biomm.

DESAFIOS
A relação entre empresas e universidades ainda é frágil no Brasil. A comercialização de patentes é prática recente. Para se ter uma idéia, a Lei de Inovação, marco regulatório na relação entre empresa e instituições de ensino e pesquisa, é de 2004. “É difícil convencer a empresa a fazer parceria com a universidade, não temos essa tradição. Países de primeiro mundo, como Estados Unidos e Japão, fazem isso há décadas”, afirma a coordenadora de Inovação e Transferência de Tecnologia do CDT da UnB, Rosângela Ribeiro.

Antes mesmo de a lei ser criada, algumas universidades se aventuravam no setor. Na linha de frente, estão a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Federal de Minas Gerais (UFMG), entre as cinco instituições brasileiras com o maior número de patentes registradas. A Unicamp anunciou 500 patentes em dezembro de 2007, enquanto a UFMG detém hoje exatas 362.

A comercialização e transferência de tecnologia rendeu para a Federal de Minas Gerais R$ 1,4 milhão em royalties entre 2004 e 2008. O primeiro produto resultado de tecnologia produzida na instituição chegará ao mercado este ano, uma vacina recombinante contra Leishimaniose para cães, um dos principais vetores do homem.

“O processo é lento, ainda estamos afinando a pesquisa com a dinâmica da empresa”, afirma o pró-reitor Adjunto de Pesquisa e Diretor da Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica da UFMG, Rubén Dario Millán.

Segundo ele, só agora surgem contratos baseados na Lei de Inovação. A UFMG lançou o primeiro edital nos moldes da lei em 2008. Mesmo com a regulamentação, ainda existe uma insegurança jurídica no funcionamento das universidades, especialmente no que se refere ao papel das fundações de apoio. “Precisamos colocar no papel formas claras de funcionamento”, destaca Milan.

Saiba mais sobre a tecnologia
A tecnologia de produção de insulina humana desenvolvida pela UnB, em parceria com a Biomm, permite obter uma quantidade maior do hormônio, bem como ter um produto mais seguro.

Os pesquisadores do Instituto de Biologia da instituição modificaram geneticamente a bactéria da flora intestinal Escherichia coli para torná-la capaz de produzir o hormônio. Nesse processo, a insulina é fabricada em 30 dias, um terço do tempo necessário para obtê-la pelo método tradicional.

O custo de produção também é menor em longo prazo e não há dependência de matéria-prima. A produção de insulina no Brasil, atualmente, é obtida a partir do pâncreas de boi e de porco, matéria-prima limitada.

“Desenvolvemos a pesquisa no Distrito Federal e agora vamos favorecer todo o país”, afirma a professora do IB Beatriz Dolabela. Ela participou do estudo, coordenado pelo então professor da UnB, Spartaco Astolfi Filho, hoje do quadro da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Quem ganha com a comercialização de tecnologia?
De acordo com o contrato feito entre a UnB e a Biomm, a instituição de ensino tem direito à 2% da renda líquida referente à venda do produto. Desse total, um terço vai para os pesquisadores e o restante, para a universidade e investimentos em pesquisa.

Proteção às descobertas
O depósito de patente garante ao pesquisador a propriedade da inovação e tecnologia descoberta. Dessa forma, ela não poderá ser reproduzida sem o consentimento do autor ou pagamento de royalties (percentual de vendas líquidas). Assim que registradas, as invenções ficam sob a proteção do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). No Brasil, a avaliação de cada patente demora entre sete e oito anos, após o depósito. Os principais aspectos analisados na concessão da patente são: novidade, atividade inventiva e aplicação industrial.

Na Universidade de Brasília, o reconhecimento do invento é possível graças à atuação do Núcleo de Propriedade Intelectual e Transferência Tecnológica (Nupitec) do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (CDT) da instituição, criado em 1999. O Nupitec atende a professores, servidores e estudantes, além de oferecer serviços de assessoria. Também orienta, incentiva e colabora com a comercialização das tecnologias.

Desde seu surgimento, recebeu 195 consultas e organizou 51 proteções de tecnologias. O horário de funcionamento é das 8h às 12h e das 14h às 18h. As visitas podem ser agendadas por telefone (61) 3307 0617e 3307 2730. Contatos também pelo e-mail .

Fonte: Camila Rabelo /UnB Agência