quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Caio Prado Júnior: O sentido da Revolução

Um intelectual deslocado
Quase duas décadas depois da morte do historiador, geógrafo e filósofo Caio Prado Júnior (1907-1990), uma série de publicações sobre o autor de A Revolução Brasileira (1966) coloca o pensamento caiopradiano entre os grandes “explicadores” do Brasil no século 20, ao lado de Sergio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre. A mais recente delas é o livro Caio Prado Júnior: O sentido da Revolução, de Lincoln Secco.

Para Secco, que é professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), dos três grandes intelectuais, Caio Prado Júnior é o único que de fato se integrou numa luta prática revolucionária.

“Os outros tiveram escassa e passageira intervenção política. Sergio Buarque de Holanda escrevia no bojo da emergência das classes médias na política e projetou uma luta pela democracia. Gilberto Freyre, genial sem dúvida, é um saudosista de um Brasil que desaparecia. Caio olhava para o futuro e tentava ver o Brasil na ótica da classe operária nascente e das classes desprotegidas em geral”, afirmou Secco.

No livro, Secco pôs em primeiro plano a faceta política de Caio Prado Júnior ao focar a relação com o Partido Comunista Brasileiro. Mas também fez vir à tona facetas menos conhecidas do intelectual. Para compor a obra, o autor reuniu informações pouco conhecidas pelo público, como o desejo que o historiador tinha de conhecer o país a fundo percorrendo-o de automóvel.

“Eu descobri inúmeros roteiros de viagens que ele fazia de automóvel. Ele tinha um Volkswagen com o qual viajava, pois acreditava que, assim, poderia percorrer caminhos antigos, abandonados, estradas vicinais e parar sempre que quisesse. Eu refiz de automóvel alguns desses caminhos”, disse Secco.

Caio Prado, de acordo com Secco , foi transformado em personagem de ficção por Jorge Amado. “Fiz uma análise do romance Subterrâneos da Liberdade, pois Jorge Amado retratou Caio Prado segundo os cânones do realismo socialista e, na minha opinião, reproduziu – e também ajudou a consolidar – uma imagem de Caio Prado que existia entre os dirigentes do Partido Comunista Brasileiro”, diz.

Secco, no entanto, acredita que a melhor definição para Caio Prado Júnior não é a de um “aristocrata marginal”, mas a de um “intelectual deslocado”. “Eu o classificaria como um intelectual deslocado, ou seja, alguém que dificilmente poderia ser integrado em algum lugar. Deslocado da sua família e da sua classe social. Deslocado no partido, pois suas idéias eram marginalizadas lá; e deslocado na universidade, pois nunca lhe deram uma cátedra. Isso contribuiu para que ele se tornasse tão original, pois pensou o Brasil fora das restrições da academia, do partido e da própria classe social de origem”, defende Secco.

O professor diz que tentou desfazer alguns equívocos cometidos contra Caio Prado Júnior, como a crítica feita por muitos marxistas que vêem nele uma visão que analisa a economia colonial pela esfera da circulação e não pela esfera da produção. Ou seja, ele não seria propriamente um marxista.

“Eu mostro que ele não podia fazer de outra forma, pois tratava de uma economia cujo centro dinâmico estava na Europa. Portanto, não fazia sentido repetir Marx e ficar descrevendo um suposto modo de produção colonial”, argumenta.

Secco diz que também apresenta as críticas feitas por alguns professores da Universidade Federal Fluminense (UFF) e mesmo da USP, que acusavam Caio Prado de não dar atenção à dinâmica interna da economia colonial.

“Ora, ele foi pioneiro em mostrar que, para explorar a periferia, o centro do sistema precisava desenvolvê-la. Mostro as críticas sobre a questão da industrialização. Enfim, é também um livro que serve como um manual que recolhe as principais polêmicas em torno dele”, acrescenta Secco.

De acordo com o autor, o que singularizou o historiador foi o fato de não se prender às fórmulas de Marx, embora fosse marxista. “Ele traduziu o marxismo no Brasil e o fez se enraizando numa tradição tipicamente brasileira que retoma posições de José Bonifácio e Manoel Bonfim”, afirmou.

Biográfico e ensaístico, o livro, de acordo com Secco, tem o objetivo de “ajudar a entender o Brasil em que vivemos”. Mas o autor acrescenta que, propositalmente, ele escreveu a obra pensando em uma narrativa que mostrasse o homem enquanto “sujeito” de sua própria história, no duplo sentido da palavra.

“Sujeito como ator e autor da história. Mas também como alguém ‘sujeito’ a circunstâncias herdadas do passado que ele não podia controlar. Cada um faz o que pode com as condições em que se insere na vida social e política. Ele fez bastante, sofreu muito, pôs suas opções e colheu fracassos também”, destaca.

Segundo Secco, a narrativa se inicia de forma tradicional, começando das origens, passando pela formação e o primeiro choque com a Revolução de 1930, até chegar à adesão ao comunismo e à atuação política. O papel de Cario Prado Júnior como deputado na assembléia constituinte paulista, de acordo com Secco, é um tema que ainda não havia sido tratado com profundidade.

“Iniciei-me pelas determinações mais simples da vida dele, pelo mais comum, para atingir as idéias mais abstratas nos capítulos seguintes. Discuti os conceitos, as obras e as polêmicas em torno delas. No último capítulo eu tentei chegar ao concreto, ou seja, ao Brasil de hoje, mostrando o atual e inatual na obra dele”, afirma ao destacar que não fez uma tese.

Mais informações pelo site.

Fonte: Alex Sander Alcântara / Agência FAPESP

Pequeno crustáceo (ostracodes) facilita busca por petróleo

UnB recebe mais de R$ 2 milhões da Petrobras para desenvolver pesquisas na área

Os novos campos de petróleo encontrados na camada pré-sal, ao longo da costa que vai de Santa Catarina ao Espírito Santo, são resultado de pesquisas caras e sofisticadas realizadas em alto-mar. A busca foi além das sondagens no fundo do oceano. Fósseis de pequenos animais aquáticos, do tempo em que o Oceano Atlântico se formou, ajudaram na descoberta.

Os chamados ostracodes, crustáceos de menos de 1 mm cujo corpo é revestido por duas pequenas conchas, auxiliam a determinar a idade das rochas mais propensas à descoberta de campos e são tema de pesquisas feitas na Universidade de Brasília (UnB). Desde janeiro de 2008, os estudos passaram a contar com recursos da Petrobras da ordem de R$ 2 milhões.

Os resultados começam a aparecer. Uma das contribuições mais recentes é um artigo científico do professor do Instituto de Geociências (IG) Dermeval Aparecido do Carmo, aceito para publicação no Journal of Paleontology, em que são apresentadas características e fotos de duas espécies de ostracodes próprios da camada pré-sal, também chamada de pré-evaporitos.

IDADE
Carmo explica que as informações ajudam a refinar o conhecimento sobre esses crustáceos e, conseqüentemente, facilitam na identificação do período de formação do fundo oceânico, fundamental para a prospecção de petróleo. “A definição e a atualização de espécies ajuda a definir com mais precisão a idade de cada camada e a detalhar o paleoambiente do pré-evaporito”, diz.

Esses organismos são uma das fontes mais confiáveis sobre a época em que se formaram as camadas rochosas. As partículas e características químicas das rochas são muito parecidas. O que as diferencia é o conteúdo fossilífero, dos quais os ostracodes são uma fonte.

Com o auxílio dos crustáceos, aumentará o conhecimento sobre o pré-sal, antes considerado um tipo de jazida de segunda categoria. Regiões como essa tiveram origem há cerca de 110 milhões de anos, com o depósito de material orgânico após a separação dos continentes americano e africano.

Segundo o professor, o conhecimento gerado com os recursos ficará disponível a toda a comunidade científica, seja da UnB, de demais universidades brasileiras e estrangeiras, ou mesmo do Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes).

INVESTIMENTO
A UnB, por meio do Laboratório de Micropalenteologia, foi a primeira instituição brasileira a receber os recursos da Petrobras provenientes do 0,5% do faturamento bruto da empresa. Esses investimentos foram previstos na Lei do Petróleo como uma forma de aumentar a interação entre o setor e as universidades.

O recurso financeiro possibilitou que, no primeiro semestre de 2008, o Instituto de Geociências montasse uma infra-estrutura comparável à dos melhores centros do mundo. Entre os primeiros itens adquiridos constam cinco microscópios de alta definição no valor de R$ 50 mil cada um, que possibilitam obter imagens em 3D dos crustáceos.

A universidade também comprou computadores e assinou as bases de dados Micropalenteology Press, GeoScience World e Lyell Collection, que permitem aos participantes e demais interessados da UnB ter acesso a quase tudo que é publicado no mundo sobre os ostracodes, além de outras áreas das geociências.

Para Carmo, os investimentos beneficiam os dois lados. Ao mesmo tempo em que a UnB caminha para se transformar em um centro de excelência no assunto, produz conhecimento e profissionais para um setor que carece de especialistas. A Petrobras, por sua vez, conta com mais estudiosos pesquisando temas de seu interesse.

Perfil
Dermeval Aparecido do Carmo
é doutor em Ciências e mestre em Geociências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Graduou-se em Geologia pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). Contatos pelo e-mail

Fabiana Vasconcelos / Imagens Marcelo Jatobá / Helena Lamenza- UnB Agência

Microalgas encontradas no litoral brasileiro têm potencial energético para produzir 90 mil quilos de óleo por hectare

Biodiesel feito de algas
Embora, entre as matrizes vegetais, a soja seja a principal base do biodiesel do Brasil, sua escala de produtividade é baixa – de 400 a 600 quilos de óleo por hectare – e tem apenas um ciclo anual. O girassol pode produzir um pouco mais, de 630 a 900 quilos. No entanto, pesquisa realizada no Instituto de Biologia da Universidade Federal Fluminense (IB-UFF) indica que microalgas encontradas no litoral brasileiro têm potencial energético para produzir 90 mil quilos de óleo por hectare.

E, segundo o estudo, elas têm diversas outras vantagens. Do ponto de vista ambiental, o biodiesel de microalgas libera menos gás carbônico na atmosfera do que os combustíveis fósseis, além de combater o efeito estufa e o superaquecimento.

A alternativa também não entra em conflito com a agricultura, pode ser cultivada no solo pobre e com a água salobra do semi-árido brasileiro – para onde a água do mar também pode ser canalizada – e abre possibilidades para que países tropicais (como a Polinésia e nações africanas) possam começar a produzir matriz energética. Além disso, as algas crescem mais rápido do que qualquer outra planta.

“O biodiesel de microalgas ainda não é viável, mas em cinco anos haverá empresas produzindo em larga escala”, estima o biólogo Sergio Lourenço, do Departamento de Biologia Marinha da UFF, responsável pelo estudo.

Lourenço identificou dezenas de espécies com potencial para produzir o biodiesel em larga escala. O problema é que a porcentagem de lipídios de cada alga não é alta – poucas espécies chegam a 20% de concentração. Mas a soja (18%) e o dendê (22%) também concentram baixas quantidades de lipídios. O amendoim concentra 40%.

“Se a matriz tem baixa concentração de lipídios, temos que acumular muito mais massa”, explica o biólogo. Por isso, ele e sua equipe trabalham em métodos para estimular a concentração de lipídios. “Por meio de técnicas de manipulação das condições de cultivo, conseguimos alterar a composição química nos meios de cultura, aumentando assim a concentração de lipídios. Em dez dias a biomassa está apta a ser colhida.”

Há pouco mais de um ano, o projeto vem sendo articulado com o Ministério da Ciência e Tecnologia, o Ministério da Agricultura, a Secretaria Especial de Água e Pesca e a Casa Civil, que conduz o Programa Nacional de Biodiesel.

Conversas têm sido feitas com a Petrobras para apoiar o projeto. O financiamento permitiria o cultivo em grande densidade, em tanques de 20 mil litros, primeiramente em uma unidade da UFF, antes de ser levada ao semi-árido. Há também, segundo Lourenço, outra vantagem ecológica nesse cultivo: para fazê-las crescer, é necessário tirar carbono da atmosfera.

As microalgas são usadas há décadas na produção de encapsulantes e na aquacultura, para alimentar peixes e outros animais. Segundo o pesquisador, desde a década de 1970, depois da primeira grande crise do petróleo de 1973, já se pensava na aplicação desses organismos marinhos para a produção de energia a partir da biomassa.

“Perdemos terreno por nunca ter investido o suficiente nessa frente. Hoje, o barril do petróleo custa US$ 70 e já chegou a custar US$ 143 este ano, batendo um recorde histórico. O Brasil tem tudo para se tornar a potência energética mundial. Nos encontramos na vanguarda dos biocombustíveis: além de termos alcançado a auto-suficiência na produção de petróleo, temos o maior programa de álcool do mundo”, destacou.

De acordo com Lourenço, outra vantagem é que, assim como a cana-de-açúcar, matéria-prima do etanol, as microalgas demandam uma área pequena para seu cultivo e podem produzir uma quantidade de biocombustível bem maior.

“A cana-de-açúcar ocupa 2% da área agrícola do Brasil, aproximadamente 45 milhões de hectares. A Embrapa indica que o país tem ainda 100 milhões de hectares que pode ocupar. O programa energético prevê mais 2 milhões de hectares, ainda assim uma fração da área total disponível. Com o cultivo das microalgas ocupando apenas 1% da área que a soja utiliza hoje, pode-se produzir a mesma quantidade de biodiesel que ela produz ao ano”, afirmou.

Algas para aviação
Presidente da Associação Brasileira de Biologia Marinha (ABBM) e autor do livro Cultivo de Microalgas Marinhas: princípio e aplicações (2006), Sergio Lourenço explica que não são todas as espécies de microalgas com potencial para biocombustível, mas conta que aquelas que identificou também poderiam ser aplicadas para a produção do bioquerosene, maior interesse do setor da aviação na atualidade.

Em fevereiro de 2008, um Boeing da companhia aérea Virgin Atlantic fez um vôo entre Londres e Amsterdã movido a bioquerosene à base de óleo vegetal – uma mistura de babaçu e coco. As empresas aéreas gastam 85 bilhões de galões de querosene tradicional por ano e são responsáveis por 3,5% das emissões de dióxido de carbono no mundo.

“O setor tem que diminuir as emissões e pretende trabalhar com uma mistura de 20% de bioquerosene, hoje feita à base de óleos vegetais, com o querosene tradicional, que custa o equivalente a 40% do preço de uma passagem aérea”, disse Lourenço.

Segundo ele, o processo de produção do bioquerosene é semelhante ao do biodiesel – ambas as moléculas estão presentes nas microalgas, com a diferença de que as do biodiesel são maiores.

“Elas têm a mesma classe de moléculas, mas com características químicas diferentes; uma alga descartada para aplicação de biodiesel pode ser usada para bioquerosene”, disse.

Em fevereiro de 2009, o setor aeronáutico estará reunido em Montreal, no Canadá, no Congresso da Associação Internacional de Aviação (Iata) para discutir, entre outros assuntos, o uso das microalgas na produção de bioquerosene. Esse foi também o destaque de um evento promovido pela Boeing em outubro passado.

O projeto da UFF será um dos destaques de um Congresso da Associação Brasileira de Biologia Marinha que será realizado em abril de 2009, na cidade de Búzios, no Rio de Janeiro.

Fonte: Washington Castilhos / Agência FAPESP