sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Desenvolvimento de refinarias de biomassa

Biorrefinaria virtual
A biorrefinaria virtual foi um dos principais temas apresentados e discutidos no Workshop Instrumentação e Automação Agrícola e Agroindustrial na Cadeia Cana-Etanol, realizado no âmbito do Projeto de Pesquisa em Políticas Públicas (PPPP) da Cadeia Cana-Etanol apoiado pela FAPESP, na sexta-feira (28/11), na Embrapa Instrumentação Agropecuária, em São Carlos, interior de São Paulo.

No lugar do petróleo, a biorrefinaria tem biomassa como matéria-prima. Para ajudar em seu desenvolvimento, entra o componente “virtual”, o das simulações em computador.

Segundo Antonio Bonomi, do Centro de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), o principal objetivo da biorrefinaria virtual é otimizar processos e conceitos. “Isso se dá por meio da avaliação de diferentes alternativas de biorrefinaria, do estágio de desenvolvimento das novas tecnologias e da aplicabilidade do projeto”, disse.

O projeto da biorrefinaria virtual apresentado por Bonomi passa por diferentes etapas: a definição de unidades de produção padrão, considerando as diversas cadeias produtivas; a construção de modelos matemáticos das unidades; a construção de planilhas para avaliação de fluxos de caixa e de análise de risco das diversas alternativas de produção, empregando softwares de simulação de processos e de análise econômica; e a avaliação de parâmetros de sustentabilidade ambiental e social.

No que se refere à simulação, para os projetos que envolvem a biorrefinaria virtual é necessário que as ferramentas sejam adaptadas. “É importante que sejam quantificadas as características do processo, os requisitos de energia e os parâmetros apresentados pelos principais equipamentos para um dado cenário operacional”, apontou Bonomi.

A etapa da construção de modelos matemáticos se dá por meio de formulários construídos para que seja possível visualizar as principais variáveis e a situação em que se encontra o projeto: o ajuste dos modelos de acordo com a realidade e tratamento dos dados experimentais, a avaliação estatística e a otimização, levando em consideração critérios técnicos e econômicos. “A biorrefinaria virtual indica que caminho tomar para que o processo seja otimizado e aplicado com garantias de recursos financeiros”, afirmou.

Após a palestra de Bonomi, André Bello de Oliveira, da Petrobras, apresentou conceitos de novas refinarias planejadas pela empresa. Segundo destacou, o conhecimento reunido na área de refino de petróleo pode ser adotado na refinaria de biomassa. “Entretanto, a dificuldade está em prever os preços dos produtos, pois estamos tratando de investimentos na ordem de bilhões de reais”, disse.

A primeira fase da elaboração de uma biorrefinaria se dá na definição do macroprojeto, a avaliação das tecnologias a serem implantadas e o estudo da oportunidade e concepção do negócio. Na segunda fase estão a elaboração do projeto básico, o uso de ferramentas variadas de automação, de simuladores de processos e o detalhamento do projeto.

Também presente no debate, Flávio Vasconcellos da Silva, professor da Faculdade de Engenharia Química da Unicamp, fez uma importante ressalva. “Além do aspecto tecnológico, temos que investir no desenvolvimento de recursos humanos. É fundamental preparar o profissional para enfrentar esse novo tipo de processo”, disse.

Fonte: Agência FAPESP

Desafios tecnológicos na exploração de petróleo na camada de pré-sal

Lição de casa

A exploração do petróleo e gás nas grandes reservas descobertas recentemente na camada de pré-sal da Bacia de Santos implicará em novos desafios científicos e tecnológicos. Mas, para superá-los, o país terá que melhorar a interlocução entre a universidade e a indústria, além de acabar com o contingenciamento das verbas de pesquisa no setor.

A análise foi feita por especialistas que participaram do Workshop da Comissão Especial de Petróleo e Gás Natural (Cespeg), realizado nesta segunda-feira (1/12) na sede da FAPESP, em São Paulo.

O evento, com o tema “Pesquisa e inovação tecnológica”, faz parte de uma série de workshops realizados pela Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo, por meio da Cespeg. O objetivo é discutir as questões levantadas pelos grupos de trabalho da comissão.

Os temas “Construção naval” e “Formação de mão-de-obra” serão debatidos, respectivamente, nos dias 3 e 4 de dezembro, na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). O tema “Impactos sobre desenvolvimento regional” encerrará a série no dia 12 de dezembro, na Universidade Paulista (Unip) em Santos (SP).

Osvair Vidal Trevisan, diretor do Centro de Estudo do Petróleo (Cepetro) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), afirmou que o valor dos recursos previstos em lei para o Fundo Setorial do Petróleo e Gás Natural (CT-Petro), criado em 1997, cresceu continuamente até atingir cerca de R$ 1 bilhão. Mas o orçamento operado não chega a 10% desse total.

“Se o contingenciamento acabasse, haveria um aumento muito rápido do número de pessoas preparadas para atuar em pesquisa na área. Esse é um dos gargalos que temos enfrentado, tanto na universidade como na indústria, que, por necessidade, acaba contratando gente sem formação adequada”, disse.

Segundo Trevisan, por outro lado é um erro afirmar que não há capacidade de pesquisa na universidade brasileira. O que falta, diz ele, não é qualidade de recursos humanos, mas recursos para ampliar a formação.

“A capacidade existe. Temos centros de excelência com recursos humanos de alta qualidade para pesquisa e desenvolvimento. Mas ainda é pouca gente em relação à demanda, que deverá crescer de forma vertiginosa. Com as verbas garantidas por lei, seria possível agregar novos doutores a esse esforço”, afirmou o também professor do Departamento de Engenharia de Petróleo da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp.

De acordo com ele, a situação ficará crítica quando a exploração dos recursos do pré-sal começar efetivamente. “Com a entrada do pré-sal e de uma produção maior, essa situação ficará mais aguda. Vamos dobrar ou triplicar os recursos legalmente disponíveis para a pesquisa. Se mantivermos a mesma estrutura, essas distorções serão potencializadas”, afirmou.

Fases tecnológicas
Kazuioshi Minami, gerente de engenharia de produção da Bacia de Santos da Petrobras, concordou que a demanda por mais pesquisa deverá aumentar gradualmente. Segundo ele, a produção em grande escala no pré-sal começará já em 2010 – ainda na fase zero do planejamento de testes de longa duração – com uma unidade piloto que deverá produzir 100 mil barris por dia.

“A fase zero, que irá até o fim de 2010, é essencialmente voltada para a obtenção de informação, a fim de diminuir os riscos associados ao desenvolvimento de processos em uma área que não conhecemos – relacionada a reservatório, à área geográfica distante da costa ou à lâmina d’água e dificuldades relacionadas às condições oceanográficas de cada área”, disse.

Segundo Minami, a intenção dessa primeira fase é medir e obter informações sobre os reservatórios, avaliar sua produção, definir se há possibilidade de injeção de água ou de gás, se a facilidade de transporte do óleo está satisfatória e se as condições de mar são favoráveis para a implantação de projetos dentro da expectativa da empresa.

“Em 2011 iniciaremos a fase 1A , de implantação de grandes projetos que alavancarão a produção para um patamar de produção próximo da meta da Petrobras, de quase 1 milhão de barris por dia. Nessa fase entrará o conhecimento tecnológico já acumulado e extensões tecnológicas – ou seja, saltos menores, estudos adicionais, incrementais, para comprovar que a tecnologia pode ser estendida para as condições que vamos enfrentar dali em diante”, disse.

A fase 1A está planejada para funcionar de 2011 a 2017. “A partir de 2017, acreditamos que teremos condições de implantar projetos com saltos tecnológicos. Para isso, precisaremos desenvolver interlocutores na indústria, implantando ali um maior número de doutores”, disse Minami.

Melhorar a interlocução
Para Raimar van den Bylaardt, gerente de tecnologia do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), embora a pesquisa básica só vá ser trabalhada pela Petrobras a partir de 2017, o desafio para o setor de tecnologia já começou.

“A pesquisa de fronteira produzida pela universidade é fundamental, mas há necessidade urgente de impulsionar o desenvolvimento de tecnologias de base para dar sustentabilidade tecnológica às empresas envolvidas com o setor de petróleo e gás”, disse.

Segundo ele, existem exigências relativas ao índice de nacionalização das empresas que participam do esforço de exploração do pré-sal. “Essas empresas já têm dificuldades para atender aos índices atuais de conteúdo local. Com o avanço da demanda produzido pela exploração do pré-sal, o desafio ficará mais premente, pois a importação também aumentará. Se não houver desenvolvimento de tecnologias de base locais, essa indústria ficará insustentável”, disse.

Para ampliar o índice de nacionalização, segundo Bylaardt, a solução é diminuir a distância entre universidade e indústria no fornecimento de tecnologia básica. De acordo com ele, se a cooperação entre universidade e empresas no Brasil é escassa, a principal lacuna está no nicho da tecnologia de base.

“É preciso mudar a mentalidade nessa interface entre indústria e universidade. A tecnologia de base é condição para chegarmos ao patamar das empresas internacionais. Para desenvolver uma válvula de alta tecnologia, é preciso primeiro dominar os processos de fundição, por exemplo”, destacou.

Fonte: Fábio de Castro / Agência FAPESP