segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Pesquisa sobre remuneração e justiça reúne 25 pesquisadores de 16 instituições e coleta dados de 25 mil pessoas

O brasileiro acha justo o seu salário?
A professora Ana Maria F. Almeida, da Faculdade de Educação: “Nosso interesse é entender os critérios a partir dos quais a pessoa percebe e julga a sua remuneração”Qual é a avaliação do brasileiro a respeito de sua remuneração? Os valores são considerados justos e compatíveis ao trabalho realizado? Ou o salário é inadequado em relação às exigências e responsabilidades de determinados cargos? Qual seria, então, a contrapartida financeira considerada justa para a tarefa executada? E quais critérios de comparação são empregados no julgamento das rendas auferidas? As respostas a essas questões serão conhecidas em um estudo sediado na Faculdade de Educação (FE) da Unicamp e conduzido por pesquisadores de outras três instituições nacionais. A pesquisa sobre remuneração e justiça integra uma ampla e inédita investigação das dimensões das desigualdades sociais brasileiras, prevista para ser concluída em 2009.

Coordenado pelo sociólogo Nelson do Valle Silva, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e financiado pelo CNPq, a empreitada reúne 25 pesquisadores em 16 instituições de sete estados do país, e envolve a coleta de dados de 25 mil pessoas em cinco mil domicílios, entre outras ações. Campinas foi incluída na relação dos municípios que tiveram residências visitadas durante etapa preliminar do trabalho. Os pesquisadores também buscaram conhecer, em entrevistas desenvolvidas em três bairros de classes sociais distintas da cidade, como os jovens planejam seu futuro profissional.

Em um país que tenta aprofundar sua experiência democrática, mas cuja desigualdade de renda é atestada como das maiores do mundo e persistente no tempo, o estudo comparativo coordenado pela Unicamp tem a finalidade de identificar as formas de julgamento das remunerações utilizadas pelo brasileiro, assim como os critérios e as concepções de justiça aos quais se refere para julgar o que ganha. Pretende ainda construir o ramo brasileiro de uma comparação internacional com a França, coordenada por Christian Baudelot, do Laboratoire de Sciences Sociales da École Normale Supérieur de Paris.

Tanto as entrevistas francesas quanto as desenvolvidas com aproximadamente 500 pessoas no projeto-piloto em Campinas, no Rio de Janeiro e em cidades nordestinas revelaram a ocorrência de uma grande variedade de concepções de justiça mobilizadas pelos indivíduos no julgamento de suas remunerações e mostram como diferentes categorias de trabalhadores se julgam bem ou mal remuneradas, explica Ana Maria F. Almeida, docente da FE da Unicamp e responsável pelo estudo juntamente com Roberto Grun (UFSCar), Maria Lígia Barbosa (UFRJ) e Jacob Lima (UFSCar).

“Conseguimos desenhar algumas distribuições, ainda que preliminarmente. O nosso interesse não é tanto saber quem está feliz e infeliz com o salário, mas entender os critérios a partir dos quais a pessoa percebe e julga a sua remuneração”, afirma Ana Maria, que na equipe campineira contou com a participação da professora da rede municipal de ensino Sueli Presta, da mestranda Adriana Carnielli de Lima, da professora da PUC-Campinas Maria Silvia Pinto de Moura Librandi da Rocha, da professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP Graziela Serroni Perosa e, numa fase inicial, da professora Kimi Tomizaki, da Faculdade de Educação da USP.

Na pesquisa preparatória buscou-se acessar, entre outros aspectos da temática estudada, os critérios de justiça empregados por diferentes categorias da população, para julgar o nível de remuneração considerado justo e o quanto ele se distancia do valor recebido hoje. A importância de auferir uma renda capaz de atender necessidades básicas, ou que seja coerente com responsabilidades impostas pelo cargo ocupado e função exercida, ou que esteja compatível com produtividade e competências pessoais do trabalhador foram algumas das justificativas já recenseadas nas entrevistas para o que é classificado como remuneração adequada.

Conforme o levantamento preliminar, os assalariados nas posições de execução se referem principalmente a uma concepção do salário fundada sobre a satisfação de suas necessidades e de seu modo de vida. As pessoas mais qualificadas e próximas do topo da empresa julgam freqüentemente que o valor de sua remuneração deve ser proporcional ao valor que seu trabalho traz para a companhia. Outros enfim, em geral executivos particularmente bem pagos, julgam que seus salários dependem diretamente do mercado e das flutuações de oferta e demanda. E o estabelecimento de uma correspondência entre nível de remuneração e nível de formação é freqüentemente invocado pela fração mais diplomada para situar sua remuneração, acima ou abaixo de seu “valor”.

Ainda de acordo com o estudo, parece claro que os diferentes indivíduos não recorrem aos mesmos critérios e aos mesmos princípios de justiça para avaliar seu próprio salário e o dos outros, sobretudo quando eles se encontram numa situação que lhes permite definir aquele dos outros. Parece também que as teorias da justiça a que se referem implicitamente os indivíduos variam de forma significativa, o mesmo indivíduo mudando de modelo de referência segundo os aspectos da remuneração sob consideração. O sentido dessas variações, contudo, será compreendido com mais segurança após a conclusão do trabalho geral, salienta a professora da Unicamp.

As novas fronteiras dos jovens
Entre as famílias que julgam a renda obtida insuficiente para as suas necessidades, há uma preocupação de se evitar que os filhos fiquem à mercê da mesma situação. Os próprios jovens, diante da percepção das dificuldades financeiras enfrentadas pelos pais, receiam por destino idêntico e demonstram a intenção de estudar para trabalhar em atividades diferentes daquelas desempenhadas pelos genitores, capazes de remunerá-los de forma melhor e de lhes propiciar um padrão socioeconômico superior.

Essa dimensão foi proporcionada por outra vertente da pesquisa que focalizou os processos pelos quais a percepção da justiça da remuneração é construída pelas novas gerações. Com essa intenção, Ana Maria e Sueli Presta procuraram compreender como adolescentes de diferentes grupos sociais constroem disposições quanto ao futuro em relação à escola e ao trabalho. Elas realizaram o trabalho de campo em Campinas, em uma região formada por três bairros contíguos localizados nas vizinhanças de duas grandes universidades, uma pública e outra privada, ouvindo 14 adolescentes entre 13 e 14 anos e 17 adultos responsáveis por eles.

O primeiro bairro reúne famílias de baixa renda. As mulheres são, em maioria absoluta, empregadas domésticas mensalistas ou diaristas. Algumas estão empregadas nas empresas da região, desempenhando em geral tarefas de limpeza. Os homens constituem mão-de-obra autônoma na construção civil (pedreiros, pintores de parede, serralheiros) ou jardineiros nos bairros de classe média das proximidades. O segundo é de classe média, reunindo famílias de professores das universidades, engenheiros ou outros profissionais liberais. Para além daqueles empregados nas universidades, os adultos dessas famílias trabalham nas indústrias das vizinhanças ou têm seus escritórios, consultórios e clínicas nas proximidades. O terceiro bairro é mais heterogêneo, agregando famílias de grupos populares e outras ainda mais pobres, embora tenha recebido na última década um contingente importante de famílias de classe média e classe média superior, altamente escolarizadas.

O estudo conseguiu relacionar as disposições quanto ao futuro apresentadas pelos jovens com o percurso social de suas famílias. Assim, adolescentes de famílias em situação de ascensão social, mesmo modesta, são mais ambiciosos quanto ao futuro do que aqueles cujas famílias encontram-se em situação de desclassificação social. A pesquisa verificou ainda uma associação significativa entre os recursos econômicos e escolares de que dispõem as famílias e a maneira como organizam seus investimentos relativos ao futuro dos filhos.

Uma das principais características das disposições quanto ao futuro expressas pelos jovens entrevistados é a intenção de chegar ao ensino superior. Segundo as autoras da investigação, isso deve ser interpretado como um dos efeitos da expansão da escolarização ocorrida na sociedade brasileira na última década, que traz em seu bojo uma modificação significativa na maneira como as fronteiras presentes no interior do sistema de ensino são percebidas. Para os jovens dos grupos populares, sobretudo, o ensino superior é visto como uma necessidade na luta contra o desemprego ou contra os trabalhos manuais extenuantes que esses adolescentes vêem os adultos à sua volta desempenhando.

Além dessa dimensão relativa à relação com os estudos, os jovens se distinguem também por suas disposições quanto ao trabalho, que variaram em função da ocupação ou do modo de exercício desta considerados interessantes ou desejáveis. Num extremo estão os jovens cuja preocupação, fundamentalmente, é evitar o tipo de trabalho manual desempenhado pelos adultos que os cercam, enfatizam as educadoras.

De acordo com a pesquisa, esses adolescentes querem um trabalho “mais leve”, “menos controlado”, “que não seja de faxineira”, “que não seja de jardineiro”, “que não tenha que trabalhar em pé” etc. No outro extremo estão os jovens que buscam imitar ou ultrapassar as condições de trabalho dos adultos de referência, buscando posições de comando e de autonomia: “montar minha construtora”, “montar uma academia de ginástica”, “abrir empresa de moda” e mesmo “operar na bolsa de valores”, conforme declararam.

O trabalho também mostrou a tendência de as famílias guiarem os investimentos escolares dos filhos em função do veredicto da escola. Tanto no caso das famílias dos grupos populares, quanto no caso das famílias dos grupos médios, as ambições dos alunos só deixam de se correlacionar perfeitamente com a posição social de suas famílias quando a escola acena num sentido diferente daquele que é esperado, ou seja, quando o desempenho escolar fica aquém ou além do necessário para se alcançar a formação profissional desejada. O que indica, segundo as pesquisadoras, a importância estratégica da escola na definição do que os jovens e suas famílias pensam como futuros possíveis e impossíveis.

Segundo as especialistas, o exame dos mecanismos que contribuem para a produção de visões de mundo responsáveis por orientar os investimentos dos indivíduos numa direção ou noutra, definindo proibições e possibilidades, é questão fundamental para o melhor entendimento da persistência dos altos níveis de desigualdades presentes na sociedade brasileira. Elas argumentam:
“Compreender a visão de mundo como algo que se constrói a partir de condições concretas de existência, e não por um legado não tangível que uma geração transmite à seguinte, tem implicações bastante relevantes. A construção do futuro depende de uma exposição consistente e significativa a condições concretas de existência que possam confirmar ou negar os destinos de classe previamente traçados.”

Fonte: Paulo Cesar Nascimento / Jornal da Unicamp

Pesquisa sobre remuneração e justiça reúne 25 pesquisadores de 16 instituições e coleta dados de 25 mil pessoas

O brasileiro acha justo o seu salário?
A professora Ana Maria F. Almeida, da Faculdade de Educação: “Nosso interesse é entender os critérios a partir dos quais a pessoa percebe e julga a sua remuneração”(Foto: Antoninho Perri)Qual é a avaliação do brasileiro a respeito de sua remuneração? Os valores são considerados justos e compatíveis ao trabalho realizado? Ou o salário é inadequado em relação às exigências e responsabilidades de determinados cargos? Qual seria, então, a contrapartida financeira considerada justa para a tarefa executada? E quais critérios de comparação são empregados no julgamento das rendas auferidas? As respostas a essas questões serão conhecidas em um estudo sediado na Faculdade de Educação (FE) da Unicamp e conduzido por pesquisadores de outras três instituições nacionais. A pesquisa sobre remuneração e justiça integra uma ampla e inédita investigação das dimensões das desigualdades sociais brasileiras, prevista para ser concluída em 2009.

Coordenado pelo sociólogo Nelson do Valle Silva, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e financiado pelo CNPq, a empreitada reúne 25 pesquisadores em 16 instituições de sete estados do país, e envolve a coleta de dados de 25 mil pessoas em cinco mil domicílios, entre outras ações. Campinas foi incluída na relação dos municípios que tiveram residências visitadas durante etapa preliminar do trabalho. Os pesquisadores também buscaram conhecer, em entrevistas desenvolvidas em três bairros de classes sociais distintas da cidade, como os jovens planejam seu futuro profissional.

Em um país que tenta aprofundar sua experiência democrática, mas cuja desigualdade de renda é atestada como das maiores do mundo e persistente no tempo, o estudo comparativo coordenado pela Unicamp tem a finalidade de identificar as formas de julgamento das remunerações utilizadas pelo brasileiro, assim como os critérios e as concepções de justiça aos quais se refere para julgar o que ganha. Pretende ainda construir o ramo brasileiro de uma comparação internacional com a França, coordenada por Christian Baudelot, do Laboratoire de Sciences Sociales da École Normale Supérieur de Paris.

Tanto as entrevistas francesas quanto as desenvolvidas com aproximadamente 500 pessoas no projeto-piloto em Campinas, no Rio de Janeiro e em cidades nordestinas revelaram a ocorrência de uma grande variedade de concepções de justiça mobilizadas pelos indivíduos no julgamento de suas remunerações e mostram como diferentes categorias de trabalhadores se julgam bem ou mal remuneradas, explica Ana Maria F. Almeida, docente da FE da Unicamp e responsável pelo estudo juntamente com Roberto Grun (UFSCar), Maria Lígia Barbosa (UFRJ) e Jacob Lima (UFSCar).

“Conseguimos desenhar algumas distribuições, ainda que preliminarmente. O nosso interesse não é tanto saber quem está feliz e infeliz com o salário, mas entender os critérios a partir dos quais a pessoa percebe e julga a sua remuneração”, afirma Ana Maria, que na equipe campineira contou com a participação da professora da rede municipal de ensino Sueli Presta, da mestranda Adriana Carnielli de Lima, da professora da PUC-Campinas Maria Silvia Pinto de Moura Librandi da Rocha, da professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP Graziela Serroni Perosa e, numa fase inicial, da professora Kimi Tomizaki, da Faculdade de Educação da USP.

Na pesquisa preparatória buscou-se acessar, entre outros aspectos da temática estudada, os critérios de justiça empregados por diferentes categorias da população, para julgar o nível de remuneração considerado justo e o quanto ele se distancia do valor recebido hoje. A importância de auferir uma renda capaz de atender necessidades básicas, ou que seja coerente com responsabilidades impostas pelo cargo ocupado e função exercida, ou que esteja compatível com produtividade e competências pessoais do trabalhador foram algumas das justificativas já recenseadas nas entrevistas para o que é classificado como remuneração adequada.

Conforme o levantamento preliminar, os assalariados nas posições de execução se referem principalmente a uma concepção do salário fundada sobre a satisfação de suas necessidades e de seu modo de vida. As pessoas mais qualificadas e próximas do topo da empresa julgam freqüentemente que o valor de sua remuneração deve ser proporcional ao valor que seu trabalho traz para a companhia. Outros enfim, em geral executivos particularmente bem pagos, julgam que seus salários dependem diretamente do mercado e das flutuações de oferta e demanda. E o estabelecimento de uma correspondência entre nível de remuneração e nível de formação é freqüentemente invocado pela fração mais diplomada para situar sua remuneração, acima ou abaixo de seu “valor”.

Ainda de acordo com o estudo, parece claro que os diferentes indivíduos não recorrem aos mesmos critérios e aos mesmos princípios de justiça para avaliar seu próprio salário e o dos outros, sobretudo quando eles se encontram numa situação que lhes permite definir aquele dos outros. Parece também que as teorias da justiça a que se referem implicitamente os indivíduos variam de forma significativa, o mesmo indivíduo mudando de modelo de referência segundo os aspectos da remuneração sob consideração. O sentido dessas variações, contudo, será compreendido com mais segurança após a conclusão do trabalho geral, salienta a professora da Unicamp.

As novas fronteiras dos jovens
Entre as famílias que julgam a renda obtida insuficiente para as suas necessidades, há uma preocupação de se evitar que os filhos fiquem à mercê da mesma situação. Os próprios jovens, diante da percepção das dificuldades financeiras enfrentadas pelos pais, receiam por destino idêntico e demonstram a intenção de estudar para trabalhar em atividades diferentes daquelas desempenhadas pelos genitores, capazes de remunerá-los de forma melhor e de lhes propiciar um padrão socioeconômico superior.

Essa dimensão foi proporcionada por outra vertente da pesquisa que focalizou os processos pelos quais a percepção da justiça da remuneração é construída pelas novas gerações. Com essa intenção, Ana Maria e Sueli Presta procuraram compreender como adolescentes de diferentes grupos sociais constroem disposições quanto ao futuro em relação à escola e ao trabalho. Elas realizaram o trabalho de campo em Campinas, em uma região formada por três bairros contíguos localizados nas vizinhanças de duas grandes universidades, uma pública e outra privada, ouvindo 14 adolescentes entre 13 e 14 anos e 17 adultos responsáveis por eles.

O primeiro bairro reúne famílias de baixa renda. As mulheres são, em maioria absoluta, empregadas domésticas mensalistas ou diaristas. Algumas estão empregadas nas empresas da região, desempenhando em geral tarefas de limpeza. Os homens constituem mão-de-obra autônoma na construção civil (pedreiros, pintores de parede, serralheiros) ou jardineiros nos bairros de classe média das proximidades. O segundo é de classe média, reunindo famílias de professores das universidades, engenheiros ou outros profissionais liberais. Para além daqueles empregados nas universidades, os adultos dessas famílias trabalham nas indústrias das vizinhanças ou têm seus escritórios, consultórios e clínicas nas proximidades. O terceiro bairro é mais heterogêneo, agregando famílias de grupos populares e outras ainda mais pobres, embora tenha recebido na última década um contingente importante de famílias de classe média e classe média superior, altamente escolarizadas.

O estudo conseguiu relacionar as disposições quanto ao futuro apresentadas pelos jovens com o percurso social de suas famílias. Assim, adolescentes de famílias em situação de ascensão social, mesmo modesta, são mais ambiciosos quanto ao futuro do que aqueles cujas famílias encontram-se em situação de desclassificação social. A pesquisa verificou ainda uma associação significativa entre os recursos econômicos e escolares de que dispõem as famílias e a maneira como organizam seus investimentos relativos ao futuro dos filhos.

Uma das principais características das disposições quanto ao futuro expressas pelos jovens entrevistados é a intenção de chegar ao ensino superior. Segundo as autoras da investigação, isso deve ser interpretado como um dos efeitos da expansão da escolarização ocorrida na sociedade brasileira na última década, que traz em seu bojo uma modificação significativa na maneira como as fronteiras presentes no interior do sistema de ensino são percebidas. Para os jovens dos grupos populares, sobretudo, o ensino superior é visto como uma necessidade na luta contra o desemprego ou contra os trabalhos manuais extenuantes que esses adolescentes vêem os adultos à sua volta desempenhando.

Além dessa dimensão relativa à relação com os estudos, os jovens se distinguem também por suas disposições quanto ao trabalho, que variaram em função da ocupação ou do modo de exercício desta considerados interessantes ou desejáveis. Num extremo estão os jovens cuja preocupação, fundamentalmente, é evitar o tipo de trabalho manual desempenhado pelos adultos que os cercam, enfatizam as educadoras.

De acordo com a pesquisa, esses adolescentes querem um trabalho “mais leve”, “menos controlado”, “que não seja de faxineira”, “que não seja de jardineiro”, “que não tenha que trabalhar em pé” etc. No outro extremo estão os jovens que buscam imitar ou ultrapassar as condições de trabalho dos adultos de referência, buscando posições de comando e de autonomia: “montar minha construtora”, “montar uma academia de ginástica”, “abrir empresa de moda” e mesmo “operar na bolsa de valores”, conforme declararam.

O trabalho também mostrou a tendência de as famílias guiarem os investimentos escolares dos filhos em função do veredicto da escola. Tanto no caso das famílias dos grupos populares, quanto no caso das famílias dos grupos médios, as ambições dos alunos só deixam de se correlacionar perfeitamente com a posição social de suas famílias quando a escola acena num sentido diferente daquele que é esperado, ou seja, quando o desempenho escolar fica aquém ou além do necessário para se alcançar a formação profissional desejada. O que indica, segundo as pesquisadoras, a importância estratégica da escola na definição do que os jovens e suas famílias pensam como futuros possíveis e impossíveis.

Segundo as especialistas, o exame dos mecanismos que contribuem para a produção de visões de mundo responsáveis por orientar os investimentos dos indivíduos numa direção ou noutra, definindo proibições e possibilidades, é questão fundamental para o melhor entendimento da persistência dos altos níveis de desigualdades presentes na sociedade brasileira. Elas argumentam:

“Compreender a visão de mundo como algo que se constrói a partir de condições concretas de existência, e não por um legado não tangível que uma geração transmite à seguinte, tem implicações bastante relevantes. A construção do futuro depende de uma exposição consistente e significativa a condições concretas de existência que possam confirmar ou negar os destinos de classe previamente traçados.”

Fonte: Paulo Cesar Nascimento / Jornal da Unicamp

2º Latin America Risk Assessment Workshop

A Sociedade Brasileira de Toxicologia e a União Internacional de Toxicologia (Iutox) realizarão o 2º Latin America Risk Assessment Workshop (2º Workshop Latino-Americano de Avaliação de Riscos).

O evento ocorrerá em Águas de São Pedro (SP), entre 21 e 29 de março de 2009, e as inscrições para seleção estarão abertas até o dia 15 de dezembro.

Com o objetivo principal de aumentar a capacitação de recursos humanos na área de avaliação do risco no uso de substâncias químicas, o workshop abordará temas como: princípios gerais de toxicologia e análise de risco, imunotoxicologia, toxicologia da reprodução, mutagênese e carcinogênese, avaliação e manejo do risco.

A organização do evento, que terá participação de especialistas brasileiros e norte-americanos, toma por base a longa experiência da Risk Assessment Summer School, organizado pela Iutox há 20 anos. Além da abordagem clássica dos temas sob a forma de palestras, os participantes devem apresentar estudos de caso que serão discutidos em grupos e posteriormente apresentados em plenárias.

Mais informações: www.sbtox.org.br

Fonte: Agência FAPESP

Seda de aranha é desenvolvida em laboratório na UnB

UnB produz seda de aranha em laboratório - Material poderá ser utilizado em cirurgias e colete à prova de balas. Código genético foi inserido em bactérias

Criar materiais que aliem a resistência, a flexibilidade e a leveza das teias de aranha é objeto de desejo de estudiosos em todo o mundo. No Brasil, esse objetivo ficou mais palpável com uma pesquisa realizada no Instituto de Biologia (IB) da Universidade de Brasília (UnB).

A bióloga Betúlia de Morais Souto conseguiu produzir a seda desses animais utilizando as bactérias Escherichia Coli (encontradas na flora intestinal). A descoberta abre espaço para o desenvolvimento de suturas médicas empregadas em cirurgias e coletes à prova de balas, entre outras aplicações. “Poderemos deixá-las mais flexíveis, ou menos, da forma como desejarmos”, explica.

As bactérias funcionam como um importante instrumento para obter o material, uma vez que permitem a fabricação em quantidade controlada. O método evita a criação das aranhas em cativeiro, ambiente de difícil adaptação, além da dificuldade de retirar a seda diretamente do organismo dos animais.

Para chegar ao resultado, foi preciso inserir fragmentos de código genético do aracnídeo na bactéria. O processo, conhecido como tecnologia do DNA recombinante, consiste em enxertar os genes de modo que a estrutura orgânica do microrganismo produza as proteínas, com a multiplicação da E. Coli.

Infográfico: Apoena Pinheiro/UnB Agência



FLEXIBILIDADE
O estudo da bióloga segue a mesma linha de outra pesquisa feita na UnB, também com a aranha Nephilengys, mas voltado para a identificação dos genes responsáveis pela produção dos diferentes tipos de sedas e suas características mecânicas, ambos sob orientação do pesquisador Elíbio Rech.

A pesquisa, uma tese de doutorado da cientista Daniela Matias Bittencourt, mostrou que o fio da moldura reúne a característica de esticar até 27,84% da sua dimensão e requerer força de 1 x 105 J kg-1 para se romper.

O kevlar, material usado na indústria aeroespacial, carros de corrida e coletes à prova de balas, extremamente resistente, possui extensabilidade de 5% e requer menos força, 3 X 104 J kg-1, para se partir.

Segundo Daniela, usar as proteínas da teia na indústria é apenas uma questão de tempo. “As qualidades mecânicas da seda são muito impressionantes. Com certeza vai trazer grandes possibilidades de produção de materiais com novas características mecânicas ”, diz.

Além de mais tecnologia para o mercado, Daniela visualiza benefícios à proteção do meio ambiente. “O kevlar vem do petróleo, que não é renovável. Mas se conseguirmos produzir proteínas tão resistentes quanto aquelas feitas em laboratório, teremos qualquer material de forma sustentável.”

PATENTE
- As seqüências utilizadas na transformação genética são responsáveis pela produção da seda. A UnB efetuou um pedido de patente que restringe aos estudiosos da universidade os estudos com esses fragmentos.

- Betúlia utilizou, na sua dissertação de mestrado, a seqüência genética responsável pela produção da seda de uma aranha nativa da Mata Atlântica, a Nephilengys cruentata, reforçando que a biodiversidade brasileira guarda excelentes oportunidades, tanto científicas quanto econômicas.

Aranha mais primitiva também tem seda
As caranguejeiras sempre foram tidas como rudimentares por caçarem no chão, apenas com suas patas. Além disso, seriam menos complexas por ter, ao contrário de outras espécies, apenas uma ou duas glândulas indiferenciadas de fios para fazer o casulo embaixo da terra ou em cima de arvores, com seda e folhas.

Apesar de suas características, essas aranhas terrestres ou arborícolas podem estar no início da cadeia evolutiva que deu origem às aranhas orbiculares, como a Nephilengys, que produzem a teia em orbital.

A pesquisa de Daniela descobriu nas caranguejeiras da floresta Amazônia, a Avicularia juruensis, seqüências referentes a sedas das aranhas que fazem teias. “Encontramos seda que nunca havia sido descrita nesse tipo de aranha”, conta Daniela. Pela primeira vez, esse conhecimento surge na literatura científica.

PERFIL
Betúlia de Morais Souto é mestre em Biologia Molecular pela Universidade de Brasília (UnB), onde também concluiu a graduação em Ciências Biológicas. Contatos pelo e-mail

Daniela Matias de Carvalho Bittencourt é doutora e mestre em Biologia Molecular pela Universidade de Brasília (UnB). Graduou-se em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atualmente é pesquisadora da Embrapa Acre.Contatos pelo e-mail ou e-mail

Fonte: Fabiana Vasconcelos / UnB

CNPq divulga os novos 101 Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT)

101 novos institutos

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) divulgou nesta quinta-feira (27/11) a relação final dos projetos que constituirão os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT).

Os projetos apresentados foram avaliados por uma comissão formada por pesquisadores brasileiros e estrangeiros e receberão recursos públicos da ordem de R$ 600 milhões.

Participam do programa a FAPESP e as fundações estaduais de amparo à pesquisa do Amazonas (Fapeam), Pará (Fapespa), Minas Gerais (Fapemig), Rio de Janeiro (Faperj) e Santa Catarina (Fapesc).

Além do Ministério da Ciência e Tecnologia, por meio do CNPq, integram a iniciativa o Ministério da Educação, por meio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de nível Superior (Capes), o Ministério da Saúde, a Petrobras e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Foram selecionados 101 projetos, das 261 propostas enviadas a partir do lançamento do edital do CNPq em 4 de agosto. Os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia selecionados começarão a funcionar ainda este ano. O Norte sediará oito institutos, que receberão R$ 42 milhões; no Nordeste, 14 institutos terão R$ 59 milhões; no Centro-Oeste, três instituições terão recursos de R$ 18 milhões; na região Sul os 13 institutos selecionados receberão R$ 53 milhões, e no Sudeste, onde se encontram 63 unidades – o maior número de sedes – o aporte chega a R$ 319 milhões.

Dos projetos aprovados, 35 são do Estado de São Paulo ( confira a relação). Por meio de termo de cooperação firmado entre a FAPESP e o CNPq serão investidos nos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia a serem sediados em São Paulo R$ 187.166.343,00, divididos igualmente entre as duas instituições para o apoio aos 35 projetos selecionados.

O apoio da FAPESP permitiu a duplicação dos recursos federais investidos em São Paulo para criação de institutos no estado. A Fundação também propôs que as duas instituições aprovassem valores adicionais de R$ 25 milhões em razão da alta qualidade das propostas verificada durante o processo de análise.

Os projetos aprovados têm as características dos Projetos Temáticos da FAPESP, modalidade que se destina a apoiar propostas de pesquisa com objetivos suficientemente ousados, que justifiquem maior duração e maior número de pesquisadores participantes.

A lista dos 101 projetos aprovados está disponível no site do CNPq, em (www.cnpq.br/resultados/2008/015.htm).

Fonte: Agência FAPESP

Secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas defende a criação de novas políticas para o setor de transportes

Crise ainda maior

Os incentivos oferecidos pelo governo brasileiro para a indústria automobilística têm permitido que o país registre o crescimento exponencial dos veículos flex fuel: cerca de 7 milhões de unidades já foram produzidas desde 2003, sendo que praticamente 90% de toda a produção atual nacional de veículos leves usa também o biocombustível.

Luiz Pinguelli Rosa, secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, alerta, no entanto, que o Brasil necessita criar rapidamente políticas estratégicas para o setor.

“Os incentivos financeiros à indústria automobilística devem ser condicionados a políticas de restrição dos automóveis pesados utilizados pelas famílias nas grandes cidades. São verdadeiros carros de combate que, na minha opinião, não têm outra finalidade a não ser dar status para quem os têm”, disse na semana passada durante a Conferência Internacional sobre Biocombustíveis, em São Paulo.

“Estamos vivendo uma crise econômica e sabemos que o mercado por si só não resolverá o problema. Na questão climática, não será diferente: a venda de automóveis flex fuel não resolverá todas as questões. O Brasil precisa de políticas públicas que mudem o perfil de consumo no setor de transportes. A crise financeira atual pode ser pequena frente ao que poderá ser a crise ambiental”, alertou o também diretor do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Pinguelli Rosa mencionou que o uso em escala do álcool como combustível no Brasil se deu por meio de políticas públicas do governo brasileiro, criadas durante o primeiro choque do petróleo, em 1974, quando foi lançado o Programa Brasileiro de Álcool (Proálcool) visando à substituição em larga escala dos derivados de petróleo.

“Apesar de, felizmente, terem sido bem-sucedidas, essas políticas não foram criadas por motivações ambientais. Mas, hoje, chegamos a um ponto crítico ambientalmente em que é preciso incentivar o transporte público ao mesmo tempo em que se incentiva o uso do álcool nos automóveis”, disse.

Pinguelli Rosa contou que o Plano Nacional de Mudança Climática deverá ser assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no início de dezembro, antes da próxima Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), na Polônia. Para ele, um assunto importante que deve ser discutido junto ao governo no âmbito desse plano de ações é o uso do carvão vegetal. “O Brasil não tem apenas o álcool automotivo como biocombustível. É preciso estimular a siderurgia com carvão vegetal proveniente de florestas plantadas. Hoje, metade do carvão vegetal utilizado na siderurgia vem da floresta plantada”, afirmou.

Fonte: Thiago Romero/ Agência FAPESP