segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Coletor Solar desenvolvido pela Embrapa permite maior produção de madeira para reflorestamento

A germinação lenta e irregular das sementes de Teca devido à elevada dormência, é uma das principais limitações enfrentadas pelos produtores desta madeira. Para amenizar estes problemas, Embrapa Rondônia (Porto Velho/RO), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, adaptou o coletor solar para tratamento de substratos, desenvolvido pela Embrapa Meio Ambiente, para induzir a germinação das sementes de Teca.

O coletor solar, que também pode ser chamado de solarizador, é um aparelho que permite a captação da energia solar e transformação em energia calorífera. Normalmente, esta técnica é utilizada para eliminar os agentes causadores de doenças e pragas de solo, que infestam substratos naturais.

Para adequar esta técnica à germinação das sementes de Teca, os pesquisadores da Embrapa Rondônia, Rodrigo Barros Rocha, Abadio Hermes Vieira e José Roberto Vieira Júnior estudaram as condições climáticas para adaptar este equipamento para esta nova utilização. Resultados de experimentos mostram que houve aumento na velocidade e uniformidade de germinação, com exposição da semente ao calor seco no interior do equipamento, diz Rocha.

“A fabricação do solarizador tem baixo custo e pode ser facilmente construído pelos agricultores familiares”, afirma José Roberto.

O coletor solar é uma caixa de madeira com medida de 1,0 m x 1,5m, seis tubos metálicos cobertos com plástico ou vidro transparente que permite a entrada de raios solares, chegando a temperatura de mais de 80ºC. Para a região Norte, os pesquisadores recomendam que seja utilizado o vidro, pela quantidade e freqüência das chuvas. Entretanto, é importante salientar que o vidro não deve apresentar uma espessura muito grande.

A madeira em sua construção deve ser de boa qualidade, pintada em cor preta para melhor absorção do calor e envernizada. No fundo da caixa deve ser colocada uma chapa metálica sobre uma camada de 5 cm de isopor ou outro isolante térmico, para auxiliar na retenção de calor. Seis tubos de 15 cm de diâmetro de ferro galvanizado, pintados de preto do lado de fora. De acordo com Rodrigo, a fabricação deste equipamento é de baixo custo, em torno de R$ 400,00, sendo acessível ao pequeno produtor.

Os resultados avaliados têm mostrado que da taxa relativamente baixa de germinação entre 25% a 35% no período de 10 a 90 dias, o tratamento no coletor solar permite a obtenção de taxa de germinação de 80% ao final da segunda semana.

Segundo Rodrigo, o aumento da uniformidade e da taxa de germinação são os principais benefícios do uso da solarização para a quebra da dormência das sementes de Teca, que visa proporcionar não somente uma economia na produção de mudas como também aumentar sua uniformidade, impactando positivamente na homogeneidade de todo o plantio.

Os Experimentos
Os experimentos para determinar o efeito da solarização sobre a germinação das sementes de teca, foram realizados no campo experimental da Embrapa Rondônia, em Porto Velho.

A Teca
A Teca (Tectona grandis) é uma espécie nativa das florestas tropicais de monção do Sudeste Asiático (Índia, Myanmar, Tailândia e Laos), que têm se destacado nos plantios na região amazônica pelo crescimento volumétrico e qualidade de madeira. Uma das principais limitações para a produção de mudas de Teca é a germinação lenta e irregular das sementes, inseridas em fruto de endocarpo e mesocarpo duros e de alta resistência.

De acordo com Abadio, o total da área reflorestada com esta espécie no mundo é estimado em cerca de três milhões de hectares, concentrando-se na Indonésia, Índia, Tailândia, além de extensas plantações na Oceania e África. Alemanha, Arábia Saudita, Austrália, Dinamarca, Emirados Árabes, EUA, Japão, Holanda, Itália e Reino Unido são os maiores importadores. No Brasil, os maiores plantios estão localizados no Mato Grosso, com ciclos de 25 anos, sendo que em Rondônia os municípios de Pimenta Bueno, Espigão d´Oeste e Nova Brasilândia se destacam como maiores produtores. A área plantada em todo o Estado é de cerca de três mil hectares, cujos plantios têm entre 10 a 15 anos, com exceção de uma área em Pimenta Bueno, onde já está sendo realizado o corte da Teca. As placas oriundas deste corte são exportadas, principalmente para os Estados Unidos. Apesar do longo período de maturação, o reflorestamento com Teca pode ser considerado um ótimo investimento, exalta o pesquisador.

Abadio enfatiza que as pesquisas realizadas no Campo Experimental da Embrapa Rondônia, em Ouro Preto d´Oeste, indicaram resultados promissores para a implantação de reflorestamento com essa espécie na região, podendo também ser utilizada para fins comerciais, devido ao crescimento rápido, atinge aproximadamente três metros no primeiro ano e cinco metros no segundo, é uma madeira resistente a cupins, carunchos ou outros insetos. A divulgação deste trabalho faz parte das ações do projeto “Estratégias de Comunicação para a divulgação científica de resultados da pesquisa florestal desenvolvida pela Embrapa na Amazônia Ocidental (ComCiência Florestal)”, conduzido pela Embrapa Rondônia com recursos do CNPq/PPG7.

A demanda da madeira se dá por várias vantagens, pois além de muito utilizada nos revestimentos de navios, fabricação de móveis, construção naval, laminação, lenha e carvão vegetal, é recomendada para o reflorestamento, devido à sua durabilidade, estabilidade, facilidade de pré-tratamento, resistência natural ao ataque de fungos, insetos, pragas e brocas.

Fonte: Embrapa Rondonia

Low conservation of gene content in the Drosophila Y chromosome

Sem monotonia genética

Em novembro de 2007, um consórcio internacional de pesquisadores concluiu a compilação de um catálogo de seqüências de DNA de 12 espécies diferentes de moscas drosófilas.

O objetivo do trabalho, que teve participação brasileira e gerou, na época, um conjunto de oito artigos na revista Nature, era possibilitar uma ampla análise comparativa de genomas múltiplos da mosca, trazendo esclarecimentos sobre os processos evolucionários e aprofundando o conhecimento sobre um dos mais importantes organismos modelo para a biologia.

Um ano depois da conclusão do catálogo, cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que haviam participado do consórcio acabam de publicar os resultados do trabalho sobre o cromossomo Y das 12 espécies de drosófilas.

Um artigo sobre a nova pesquisa – que correspondeu à tese de doutorado de Leonardo Koerich, orientada por Antonio Bernardo de Carvalho, do Departamento de Genética da UFRJ – foi publicado no domingo (16/11), na edição on-line da Nature e em breve estará disponível na edição impressa.

Uma das conclusões é que o conteúdo genético dos cromossomos Y é muito pouco conservado entre as 12 espécies – isto é, os genes variam mais do que se imaginava. Outro achado importante contradiz a teoria de que em todas as espécies os cromossomos Y se originam por degeneração dos cromossomos X: pelo menos nas drosófilas isso não ocorre, pois a estrutura dos cromossomos Y tem tamanho crescente.

Além dos brasileiros, assinam o artigo Xiaoyun Wang e Andrew Clark, do Departamento de Genética e Biologia Molecular da Universidade Cornell, nos Estados Unidos.

De acordo com Carvalho, a baixa conservação do conteúdo genético do cromossomo Y foi uma descoberta surpreendente. O cromossomo Y da Drosophila melanogaster tem 12 genes de cópias simples. Apenas três deles se repetiam em todas as outras espécies.

“Apenas um quarto dos genes do cromossomo Y é compartilhado por todas as espécies. É um conteúdo altamente variável. Como parâmetro de comparação, podemos citar que, nos autossomos – os cromossomos não sexuais – de todas as 12 espécies, 95% dos genes estão no mesmo cromossomo”, disse.

O estudo também sugere uma explicação para essa baixa conservação, segundo Carvalho. Na maior parte dos casos, os genes nos cromossomos Y foram adquiridos tardiamente, há menos de 63 milhões de anos – uma origem recente em termos evolutivos, já que o conteúdo genético dos outros cromossomos remonta há até 260 milhões de anos.

“Investigando apenas uma espécie de drosófila não poderíamos ter certeza, mas, comparando as 12 pudemos começar a determinar por que o conteúdo gênico é tão pouco conservado. Essa é a vantagem de termos à disposição um conjunto de dados tão bom”, afirmou.

Segundo ele, a literatura internacional admite que a origem do cromossomo Y seja o cromossomo X, de estrutura muito maior. Ambos teriam formado um par idêntico em uma época remota, mas, ao longo da evolução, teriam se especializado, com Y perdendo genes maciçamente. O novo estudo derruba a tese de que o cromossomo Y é um X degenerado em todas as espécies.

“Já se sabia que nenhum dos 12 genes do cromossomo Y da Drosophila melanogaster possui ortólogo – isto é, um gene equivalente no cromossomo X. Mas, enquanto a teoria diz que os cromossomos Y se originam por perda de genes, no caso da drosófila observamos que há ganho de genes”, destacou.

Taxas singulares
Os pesquisadores conseguiram medir a taxa de ganho de genes dos cromossomos, isto é, quantos genes eles ganham e perdem a cada milhão de anos. A taxa de ganho foi dez vezes maior do que a de perda no caso da Drosophila melanogaster. “O Y da drosófila não parece de forma alguma estar evoluindo como o de outras espécies”, disse Carvalho.

Por razões técnicas, segundo o pesquisador, foi possível medir a taxa do ganho de genes apenas na D. melanogaster – que é estudada desde o início do século –, enquanto nas outras linhagens foi medida apenas a taxa de perda de genes. Para comparar uma taxa à outra, os pesquisadores partiram de um pressuposto comum na análise evolutiva: admitiram que as taxas de ganho e perda observadas na melanogaster e nas outras linhagens são homogêneas.

“Agora estamos tentando remover esse pressuposto estudando o cromossomo Y das outras linhagens. Mas o resultado foi sólido o suficiente para dar boa segurança de que houve mais ganho que perda de genes nos cromossomos das moscas”, afirmou.

Com os resultados, resta saber agora como surgiram os cromossomos Y da drosófila. “A limitação é que as 12 espécies estudadas divergiram evolutivamente há apenas 60 milhões de anos. Para descobrir de onde vem o cromossomo Y da drosófila, teremos que estudar linhagens evolutivamente mais distantes”, apontou.

Para isso, a equipe está utilizando uma nova tecnologia de seqüenciamento em larga escala que permite procurar, diretamente no conteúdo gênico das outras linhagens, genes que estejam presentes em seus cromossomos Y e não nos da Drosophila melanogaster. “Estamos agora analisando o cromossomo Y de cerca de 300 espécies de drosófilas que divergiram há mais tempo”, disse.

Embora a pesquisa trate fundamentalmente de uma questão de ciência básica, Carvalho explica que também há aplicações possíveis para os resultados. O desenvolvimento de métodos para o estudo dos cromossomos Y – especialmente difícil para ser trabalhado – tem sido utilizado para investigar cromossomos de outros trechos do genoma. “Além disso, a compreensão do cromossomo Y é muito importante porque ele está relacionado a muitos casos de esterilidade masculina”, disse.

O artigo Low conservation of gene content in the Drosophila Y chromosome, de Leonardo Koerich, Antonio Bernardo de Carvalho, Xiaoyun Wang e Andrew Clark, pode ser lido por assinantes da Nature no link

Fonte: Fábio de Castro / Agência FAPESP

UnB desenvolve software para auxiliar na alfabetização no idioma japonês

Software ajuda a aprender japonês
Alunos da UnB criam ferramenta que auxilia a alfabetizar no idioma. Programa pode ser adaptado a outros cursos e línguas

O Brasil é o país que possui a maior colônia estrangeira de japoneses. Calcula-se que cerca de 1,5 milhão de descendentes vivam em nosso território, filhos dos quase 200 mil japoneses que desembarcaram por aqui na primeira metade do século passado. Agora, a direção do fluxo migratório mudou. Nos últimos 25 anos, é cada vez maior a emigração de brasileiros para a terra do sol nascente, fator que aumenta no Brasil o interesse pela cultura e pela língua japonesa.

O idioma tem característica ideográfica. É um desafio estudá-lo. Para diminuir as dificuldades e aumentar o rendimento dos estudantes do primeiro semestre do curso de Letras/Japonês da Universidade de Brasília, o ex-aluno George Moroni criou um software que auxilia no aprendizado da língua. O projeto foi apresentado como trabalho de conclusão da graduação.

O programa de computador funciona online, na plataforma Moodle, voltada para educação a distância. A idéia de Moroni foi adaptada com a ajuda dos alunos de Letras/Japonês Marcelo Xavier e Filipe Ferreira Adão. Atualmente, o software é utilizado apenas para as aulas no Departamento de Letras da UnB, mas tem potencial para ser adaptado a outros cursos e idiomas.

A ferramenta traz os dois silabários do japonês – hiragana e katakana – cada um com 46 caracteres. O aluno pode consultar qualquer uma das bases, clicando nas letras e ouvindo o som a que correspondem (veja quadro com explicação).







CARÊNCIA
A idéia de criar o software surgiu após o autor constatar que, no Brasil, não há recursos adequados para aprender japonês. Os livros utilizados no curso da UnB são da década de 1970, contêm design ultrapassado e o áudio foi adaptado de fitas cassete. “O material está defasado. As editoras não têm interesse em produzir algo voltado para a licenciatura em japonês”, explica Moroni.

Outra dificuldade é que a maioria dos calouros entra no curso sem nenhum conhecimento na língua. Com isso, os professores do primeiro semestre gastam muito tempo das aulas para alfabetizar os estudantes. O software desenvolvido por Moroni possibilita o treino em casa e acompanha o ritmo de cada aluno.

COMPLEMENTO
Além de capacitar para a escrita, o programa de computador reúne vídeos e documentos com os conteúdos das aulas ministradas na universidade. Após um ano, o projeto cresceu e hoje conta com uma equipe de 15 pessoas para dar continuidade à iniciativa. Monitores da disciplina Japonês I auxiliam na adaptação do conteúdo que será colocado na internet.

A participação dos alunos é uma das formas de exercitar o didatismo, proposta da licenciatura em Japonês. Uma professora do curso revisa o conteúdo para, então, ser colocado na rede. “Nossa idéia é chegar ao estudante da forma mais simples possível. O exercício dá uma chance aos futuros professores para que desenvolvam um método de ensino”, afirma Moroni.

INFLUÊNCIAS
A escrita japonesa tradicional é o kanji. Os ideogramas têm origem chinesa e representam diversas palavras. Em 1981, o Ministério da Educação japonês definiu uma lista com 1.945 kanjis oficiais.

Para o dia-a-dia, os japoneses utilizam dois silabários que facilitam a escrita – hiragana e katakana. A base de cada um deles tem 46 caracteres, mas, com as diferenças de sons, o número salta para 61.

Geralmente, os estudantes aprendem primeiro o hiragana. O katakana é um silabário criado para a escrita de onomatopéias, nomes de animais ou apenas para dar ênfase à determinada palavra no texto. Outra utilização do silabário é na transcrição de expressões estrangeiras adaptadas ao japonês. Os orientais costumam importar muitas palavras de outros países, especialmente dos Estados Unidos.

A influência é tão forte que, em alguns casos, os japoneses sequer sabem como é a palavra originalmente em japonês.

Perfil
George Moroni Teixeira é graduado em Letras/Japonês pela Universidade de Brasília (UnB). Atualmente trabalha como voluntário no desenvolvimento do software de ensino de japonês. Marcelo Xavier é técnico em análise de sistemas e aluno do 2º semestre de Letras/Japonês. Filipe Ferreira Adão é aluno do 3º semestre de Letras/Japonês.

Fonte: Carolina Vicentin / UnB

Tecnologias para a Inclusão Social e Políticas Públicas na América Latina

No seminário Tecnologias para a Inclusão Social e Políticas Públicas na América Latina, que será realizado nos dias 24 e 25 de novembro, no Rio de Janeiro, representantes das esferas governamental, acadêmica e sociedade civil trocarão experiências sobre projetos de tecnologias sociais que podem ser implementados no continente.

O objetivo é promover a discussão analítico-conceitual e metodológica sobre as tecnologias sociais e formular propostas para o desenho de políticas científico-tecnológicas orientadas à inclusão social.

Promovem o encontro o Departamento de Política Científica e Tecnológica da Universidade Estadual de Campinas, o International Development Research Centre, o Instituto de Estudios sobre la Ciencia y la Tecnología da Universidad Nacional de Quilmes e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

Mais informações pelo e-mail

Fonte / Agência FAPESP

A importância de estudar as particularidades da interação entre os organismos que compõem os ecossistemas

Diversidade de interação
A quantificação e localização das espécies dentro dos biomas é a estratégia mais comum utilizada pelos gestores ambientais na elaboração de políticas de conservação. No entanto, essa visão sobre a biodiversidade não pode ser vista de modo isolado: na prática, o funcionamento dos ecossistemas e a interação entre os organismos que o compõem também são abordagens imprescindíveis para o melhor entendimento da dinâmica ambiental visando à criação dessas políticas.

As idéias são de Thomas Lewinsohn, professor titular do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que proferiu a palestra “Espécies e diversidade: interação em plantas e insetos fitófagos”, na semana passada, na sede da FAPESP, na capital paulista, durante o simpósio “Biologia evolutiva e conservação da biodiversidade: aspectos científicos e sociais”.

“Em geral, as políticas ambientais de diversos países se baseiam apenas em dois tipos de informação: a contagem das espécies e sua distribuição geográfica, especialmente as que estão ameaçadas de extinção”, disse Lewinsohn, que também é coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da Unicamp.

“Não há nada de errado nisso, ao contrário, essas informações são necessárias, mas não são suficientes por serem muito desvinculadas do processo de funcionamento dos ecossistemas como um todo. É preciso levar em conta também o que chamamos de diversidade de interação”, explica.

Segundo ele, em um cenário de grande preocupação ambiental, qualquer projeto que vise à conservação da biodiversidade, seja ela de espécies vegetais ou animais, também depende da conservação dos processos ecossistêmicos, ou seja, da possibilidade de os sistemas ecológicos estarem funcionando integralmente.

“Quando temos acesso a informações de que um determinado lugar é muito rico em espécies, esses dados por si só não nos dizem quais são as perspectivas de manutenção dessas espécies em termos da viabilidade de funcionamento do ecossistema”, afirmou.

Lewinsohn destaca que a proposta não é de substituição, mas de extensão. “Os projetos de pesquisa não devem deixar de ter foco no estudo das espécies, mas devem abranger também os aspectos que funcionem como indicadores de funcionamento dos ecossistemas. A idéia de diversidade de interações é apenas uma maneira de ir em direção a esse objetivo. Devemos estender, do ponto de vista operacional, esse conceito de biodiversidade para incluir aspectos mais explicitamente vinculados com o funcionamento”, defendeu.

A diversidade de interação, conceito que segundo ele é cada vez mais comum na literatura especializada, é caracterizada pelo conjunto de espécies animais ou vegetais que coexistem e se relacionam entre si por meio de uma rede de interações.

A preocupação de Lewinsohn está na formalização desse conceito para que ele seja incorporado em procedimentos gerais usados no monitoramento e na avaliação da biodiversidade, abordagem que, segundo ele, “ainda não é posta em prática mundialmente, uma vez que todas as políticas públicas e grandes avaliações são elaboradas a partir da riqueza de espécies vegetais e animais, o que também não deixa de estar correto”.

“Quando falamos em interações, a palavra ‘rede’ é importante por ela remeter à possibilidade de aproveitar desenvolvimentos teóricos recentes, como a teoria de redes complexas, que tem encontrado aplicações em muitas áreas, desde a organização do transporte público até a análise de redes de relacionamento social, passando por estudos sobre a dinâmica da internet”, ressaltou.

Segundo Lewinsohn, uma das abordagens conceituais que a teoria de redes complexas tem permitido está relacionada com a análise de fragilidades e vulnerabilidades em diversas áreas do conhecimento, incluindo o meio ambiente.

“Por analogia podemos usar essa teoria para analisar, por exemplo, qual é a vulnerabilidade à perda de indivíduos de um conjunto amplo de espécies organizado por meio de suas interações. Assim é possível entender, por exemplo, como a perda de uma espécie em um ecossistema se propaga e pode afetar outras espécies, como um efeito dominó”, disse.

Nesse cenário teórico, Lewinsohn trabalha atualmente com a rede de interações entre espécies de plantas e de insetos herbívoros em regiões diversas das serras do Espinhaço e da Mantiqueira. Trabalha também com espécies do Cerrado, principalmente nas cidades de Itirapina (SP) e Mogi Guaçu (SP), além de Fortaleza dos Aparados (RS), Conselheiro Mata (MG) e Martinho Prado Júnior (SP).

Em linhas gerais, uma das conclusões desses estudos, segundo ele, é que a organização dessas redes é marcada por características evolutivas muito antigas.

“Tais características persistem mesmo com as mudanças climáticas, quando ocorre um conservadorismo nas relações entre as espécies. Outro achado desses trabalhos é que o acoplamento dos insetos com as plantas é tão intenso que sua distribuição geográfica, em grande escala, acaba sendo fortemente determinada por essas relações”, disse.

Fonte: Thiago Romero / Agência FAPESP