domingo, 27 de julho de 2008

Pesquisa da UnB sintetiza produto a partir de resíduo do caju e descobre potencial como fator de proteção solar

Derivados do caju contra raios solares - Composto sintetizado no Instituto de Química já tem patente internacional

O líquido proveniente da castanha de caju (LCC) já é usado em larga escala na indústria de tintas e automotiva. Novas aplicações para esse produto estão sendo pesquisadas na Universidade de Brasília (UnB), no Laboratório de Isolamento e Transformação de Moléculas Orgânicos (Litmo). Uma das linhas de pesquisa desenvolvidas no local é a transformação dos constituintes do LCC em substâncias com maior valor agregado, como por exemplo, o protetor solar.

Em estudos preliminares realizados por meio de uma parceria com laboratórios farmacêuticos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o composto sólido sintetizado a partir do LCC apresentou bons resultados. Os testes revelaram ausência de toxicidade à luz in vitro e in vivo, ausência de irritação cutânea e ocular, ausência de mutagenicidade e genotoxicidade (poder de causar mutações) e capacidade de proteger contra os raios UVA-UVB. Os testes foram feitos em cobaias e o LCC foi fornecido pela empresa Iracema de Fortaleza.

Uma das autoras da pesquisa, Maria Lucilia dos Santos, professora do Instituto de Química (IQ) da UnB, conta que apesar do LCC ser cáustico e poder até provocar queimaduras se usado na sua forma bruta, algumas das novas substâncias sintetizadas pela equipe apresentaram elevado fator de proteção solar.

Os novos compostos químicos ainda não podem ser divulgadas, pois a professora Lucilia e o professor Luiz Antônio Soares Romeiro, da Universidade Católica de Brasília (UCB) depositaram o pedido de patente da invenção compartilhada entre UnB-UCB-UFRJ, no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi) em 2003. E o pedido de patente internacional também já foi aceito pela World Intellectual Property Organization (WIPO).

Para chegar aos compostos com essas propriedades, a equipe planejou moléculas estruturalmente parecidas com a de protetores solares comerciais. Por serem derivadas do LCC, as novas substâncias apresentam uma longa cadeia carbônica que lhes conferem baixa solubilidade em água, e evita que saiam em água com facilidade. O sistema de insaturação conjugada presente nos filtros solares seria o responsável pela absorção dos raios ultravioletas.

Em 2004, esse estudo ganhou o prêmio especial do Congresso Brasileiro de Cosmetologia da Associação Brasileira de Cosmetologia (ABC) e foi escolhido para apresentação no ano de 2005, no Congresso Latino-americano de Cosmetologia, em Lima (Peru).

PERFIL
Maria Lucilia dos Santos é professora do Instituto de Química da UnB e trabalha no Laboratório de Isolamento e Transformação de Moléculas Orgânicos (Litmo). É pós-doutora pela Universidade da Flórida (EUA), doutora e mestre em Química pela UnB. Contatos pelo telefone (61) 3307 2150 ou pelo e-mail.

Fonte: Roberto Fleury/UnB Agência

Pesquisa da UFRJ estuda interações entre amebas de vida livre e o ser humano

Terapia fotodinâmica pode ser opção para tratar a dermatose

De nome bastante familiar aos leigos, as amebas são organismos unicelulares de corpo gelatinoso, que podem assumir formas variáveis. Caracterizam-se por possuírem pseudópodos (ou falsos pés), extensões do corpo formadas a partir de uma projeção do fluido interno da célula, que ajudam na movimentação e busca de alimentos. Podem viver livremente, em especial na água, ou parasitando outros seres vivos. Curiosamente, todos os seres humanos são hospedeiros de amebas, como por exemplo, a Entamoeba coli, que compõe a flora intestinal.

Uma pesquisa do Laboratório de Bioengenharia de Sistemas, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF) da UFRJ, estuda as interações entre amebas de vida livre e o ser humano. Em parceria com a Virginia Commonwealth University (VCU), nos Estados Unidos, o estudo já descobriu alguns mecanismos de destruição de células humanas pela ameba, que ainda não haviam sido identificados. Estas amebas, especificamente, são encontradas em ambientes de água doce, como lagos, rios e pequenas poças d’água. “Quando o ser humano entra em contato com esta água, os protozoários passam a se expressar como parasitas, causando diversas doenças”, explica Fernando Costa e Silva Filho, coordenador do laboratório. Caso crianças entrem na água e ingiram estas amebas, podem apresentar um quadro de meningite similar ao causado por bactérias. Esta forma da doença ainda é pouco conhecida no Brasil.

Amebas e lentes de contato
Uma manifestação bastante comum de doenças causadas por estas amebas no Brasil está relacionada ao uso de lentes de contato. “Usuários de lentes podem apresentar pequenas feridas (ulcerações) no globo ocular, muito similares às provocadas por vírus. Nos olhos, as características de infecções por ameba e vírus são bastante parecidas. No entanto, as feridas causadas pelo protozoário podem se interiorizar e causar lesão no sistema nervoso central, especificamente no feixe nervoso que leva à formação de visão”, alerta o professor.

"Quando este tipo de ameba infecta o ser humano, elas tendem a se prender mais a dois tecidos: o nervoso e o epitélio retiniano (da retina do olho). Daí o risco de uma criança que nade em um lago contaminado, por exemplo, sofrer algum problema no sistema nervoso central", continua o pesquisador.

Invasivas ou não-invasivas
Em parceria com a universidade nos Estados Unidos, o estudo mostrou que um tipo específico de molécula encontrado pela ameba na membrana basal (conjunto de proteínas a que o protozoário entra em contato após a destruição da célula humana), define se ela será instruída a invadir o organismo humano, atingindo o Sistema Nervoso Central, ou a se manter no epitélio.

"Já criamos testes para dizer se uma ameba isolada é potencialmente invasiva ou não. Por exemplo, caso um paciente entre um contato com determinado tipo de ameba de vida livre e apareçam feridas em seu olho, saberemos se ela se manterá apenas no globo ocular ou provocará conseqüências mais graves, como cegueira", esclarece Fernando.

O laboratório também trabalha na caracterização de uma molécula que se acredita existir apenas nas amebas invasivas. “Esta molécula já foi isolada, e agora estamos tentando purificá-la. Vamos verificar se ela sozinha exerce o mesmo efeito na célula que a ameba inteira. Caso isso aconteça, usaremos esta função para quem sabe gerar kits de diagnósticos de ameba a serem comercializados”, afirma o professor. O tipo de tratamento para as enfermidades causadas por amebas invasivas e não-invasivas é diferente.

Muitas vezes, mil amebas encontradas em um mesmo ambiente podem ser da mesma espécie, mas possuem subpopulações que se comportam de maneira diferente. “Quando o clínico prescreve o remédio que não traz resultados, ele está na verdade induzindo uma pressão seletiva. Isto significa que o medicamento está facilitando a proliferação dos agentes mais patogênicos, aqueles que sobrevivem ao remédio e se multiplicam”, explica Fernando. Para diminuir o risco deste problema, o clínico deve descobrir o tipo de ameba predominante no paciente e prescrever um tratamento específico.

Além do professor Fernando, participam desta pesquisa, (Influência de componentes de matriz extracelular na interação de células pró e eucarióticas com superfícies biológicas e não biológicas), Bruno da Rocha Azevedo, aluno de doutorado do laboratório, e Francine Marciano Cabral, do departamento de Microbiologia e Imunologia da Virginia Commonwealth University. (Priscila Biancovilli)

Fonte: Olhar Vital

25 de julho de 1905: Nasce Elias Canetti

A 25 de julho de 1905 nascia Elias Canetti, o pensador que via o alemão como "idioma da ternura", defendia relacionamentos nada convencionais e usava a própria biografia como instrumento de reflexão.

Segundo seu biógrafo Sven Hanuschek, Elias Canetti se voltava com veemência contra "todo tipo de especialização". Uma postura compreensível, considerando que, apenas em seus primeiros 16 anos de vida, Canetti falou quatro idiomas e teve contato com mais seis línguas e universos culturais. Para depois se transformar num escritor cuja obra dificilmente se enquadra em gêneros. Elias Canetti ensaísta? Não apenas. Também dramaturgo, sociólogo, etnólogo etc, etc, etc.

Ladino, inglês, alemão, búlgaro
Seu nome não é associado num primeiro momento à Alemanha, embora ele tenha optado pelo idioma alemão para escrever – a língua "da ternura" entre seus pais e que se tornaria seu principal instrumento de expressão. Canetti, na verdade, passou no país pouco de seu longo tempo de vida (morreu em 1994).

Nascido na Bulgária a 25 de julho de 1905, em Ruse, um porto localizado às margens do Danúbio, aprendeu na infância o ladino de seus pais – uma variante do espanhol falada pelos judeus sefarditas da Península Ibérica –, que haviam chegado à Bulgária depois de passar pela Turquia.

Aos seis anos de idade, sua família se mudou para Manchester, onde Canetti entrou em contato com o inglês. Um ano depois, com a morte do pai, sua mãe seguiu com os filhos para Viena. Em 1916, mudaram mais uma vez, indo para a Suíça.

De lá, Canetti foi para Berlim, onde concluiu a escola. Em 1924, começou a estudar Química na Universidade de Viena, onde finalizou seu doutorado. Da Áustria saiu apenas 14 anos mais tarde, em 1938, com a tomada do país pelos nazistas.

Biografia como espelho de uma época
Via Paris Canetti seguiu para Londres, que seria, ao lado de Zurique, um de seus "portos" no decorrer de uma biografia fragmentada não incomum para a época. Talvez seja exatamente em função de tantos deslocamentos de culturas e perspectivas que a autobiografia de Canetti, publicada em três volumes (A Língua Absolvida; Uma Luz no meu Ouvido; O Jogo de Olhos), seja um dos pontos mais interessantes de sua obra. Uma obra composta por mil páginas publicadas e um volume dez vezes maior armazenado em seu espólio. E que vem sendo aberto, por determinação do próprio autor, com o passar dos anos.

Diante de tamanha terra ainda incógnita na obra canettiana, não foram poucos os jornais de língua alemã que se deram ao luxo de publicar textos inéditos do escritor por ocasião de seu centenário, em 2005. Como o semanário Die Zeit, que publicou na época quatro contos dos chamados Estenogramas, escritos entre 1933 e 1942.

Ou o diário Frankfurter Rundschau, que foi buscar no espólio do irmão Georg uma carta inédita, na qual o iniciante Elias lamenta, em outubro de 1935, "o desprezo silencioso por um homem que se diz escritor, mas não é publicado", numa referência direta ao comportamento da família, inclusive da mãe, durante uma de suas visitas à França, onde viviam.

"Autor do século 20 que mais refletiu"
Do espólio de Canetti vão surgindo várias surpresas. Outras só virão à tona à custa de um trabalho minucioso no universo de milhares de páginas escritas, dia após dia, desde 1942, durante mais de 50 anos. Além das anotações iniciais e cheias de lacunas armazenadas pelo escritor a partir de meados dos anos 20.

Não pelo volume de anotações, mas pela riqueza quase ferina de seu olhar, "Canetti é, provavelmente, o autor do século 20 que mais refletiu", diz o biógrafo Hanuschek. Reflexões essas que vão do ensaio filosófico-etnológico sobre as ambivalentes relações entre Massa e Poder (volume publicado pela primeira vez em 1960, pelo qual Canetti recebeu em 1981 o Prêmio Nobel de Literatura), passando pelos ataques à história e seus cronistas, para terminar (ou recomeçar) no confronto com a morte, um de seus temas recorrentes.

Insistência no protesto
Toda a obra é permeada, como define o diário Neue Zürcher Zeitung, por sua "insistência no protesto", sentida nas anotações e aforismos. Sejam estes sobre religião – vista como escândalo, quando tem como meta tornar tênue a aceitação do efêmero – ou sobre a história, vista como um reordenar contínuo de novas ruínas.

O olhar em direção ao homem Elias Canetti, no entanto, remete a uma frase do próprio: "Todas as grandes relações pessoais são para mim um enigma". Casado de 1934 até 1963 com Veza Taubner-Calderon, e de 1971 a 1988 com Hera Buschor, Canetti via na "vida de casal" uma aberração.

Os relacionamentos com suas várias amantes durante o primeiro casamento – Frieda Benedikt, Marie-Louise von Motesiczky, entre outras – provam, segundo o biógrafo Hanuschek no diário Die Welt, "a busca de constelações complicadas e de difícil equilíbrio, que impedem um relacionamento de casal regular e podem ser ampliadas a todo momento". Para manter tais artimanhas amorosas em funcionamento, Elias Canetti morou, mesmo durante o longo casamento com Veza Taubner, sozinho.

Fonte : Soraia Vilela / DW