quarta-feira, 7 de maio de 2008

Grupo lança manifesto contra pesquisa com célula-tronco

Com argumentos jurídicos, científicos e políticos, um grupo de profissionais do Direito e da Biologia lançou hoje um manifesto contra a realização de pesquisas com células-tronco embrionárias. O assunto está em discussão no Supremo Tribunal Federal (STF).

Hoje, completaram-se dois meses que o julgamento do caso foi suspenso por um pedido de vista do ministro Carlos Alberto Direito. Embora o prazo fosse de 30 dias, até agora, Direito não apresentou o voto e o caso continua suspenso.

Na Declaração de Brasília, juristas e cientistas reforçaram a tese de que o ser humano se constitui a partir da concepção e que os embriões congelados representam vida a ser preservada. "O ser humano, em todas as fases de sua vida, não pode ser manipulado como um objeto ou coisa, dispondo-se de sua vida, não importando a finalidade alegada", diz o manifesto. O documento aponta ainda um "falso dilema" que "pretende contrapor a vida dos embriões congelados à terapia e cura de muitos que padecem de doenças graves".

Os cientistas reforçaram a tese de que não há avanços efetivos nas pesquisas com células embrionárias e que o mais importante seria o aprofundamento nos estudos com células-tronco adultas. "Passou-se uma falsa impressão para doentes e suas famílias de que havia uma urgência na questão. Não há urgência nenhuma. Até hoje, não há nenhum tratamento feito com célula-tronco embrionária. Os doentes têm de estar na frente dos hospitais pedindo pesquisas com células-tronco adultas", disse a doutora em microbiologia Lenise Garcia, professora do Instituto de Biologia da Universidade de Brasília (UnB).

A Lei de Biossegurança, aprovada em 2005 pelo Congresso, permite o uso de células embrionárias consideradas inviáveis ou que estão congeladas há mais de três anos. O STF julga uma ação de inconstitucionalidade do ex-procurador-geral da República Cláudio Fontelles, para quem a lei viola o direito à vida assegurado pela Constituição. Os defensores da legislação argumentam que não há vida em embriões congelados, pois ela só se consolida com a gestação. Eles sustentam que as pesquisas com células embrionárias podem avançar na busca da cura de doenças como câncer e mal de Parkinson, além de lesões do sistema nervoso central.

Lei
Presente ao lançamento do manifesto de hoje, a médica e doutora em biologia molecular Alice Teixeira Ferreira disse que a inclusão do estudo com células de embrião na Lei de Biossegurança foi "uma carona legislativa", pois o projeto original tratava apenas da produção de "organismos geneticamente modificados, o que não é o caso dos embriões". Alice disse ainda que o trecho da lei que fala em pesquisa com embriões inviáveis para a gestão "é um absurdo porque embrião inviável não serve para pesquisa".

Uma cópia da declaração pública será enviada aos ministros do STF. O presidente do Supremo, ministro Gilmar Mendes, disse, logo depois da posse, que pretende pôr o tema em votação ainda neste primeiro semestre. Antes do pedido de vista, o relator, ministro Carlos Ayres Britto, deu parecer favorável à realização das pesquisas que usam células-tronco embrionárias. Para Britto, "o embrião fora do útero não se classifica como pessoa" e, portanto, não estaria sob a tutela do Estado nem se enquadraria nos princípios constitucionais de preservação da vida

Fonte:UnB

Agenda 21 nacional e indicadores de desenvolvimento sustentável: contexto brasileiro

National agenda 21 and sustainable development indicators: the brazilian context

A falta de articulação entre dois importantes documentos norteadores do desenvolvimento sustentável no Brasil fez o país perder a oportunidade de implementá-los com mais rapidez.

A conclusão é de uma pesquisa feita na Universidade de São Paulo (USP), que avaliou a Agenda 21 – conjunto de estratégias que se caracteriza por ser um protocolo de intenções para o desenvolvimento sustentável – e os Indicadores de Desenvolvimento Sustentável do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O trabalho, que analisa os dois documentos surgidos em 2002, apresentando os pontos positivos, avanços, lacunas e perspectivas, foi realizado pelo Projeto do Sistema de Informações Ambientais para o Desenvolvimento Sustentável (Siades), que surgiu em 2003 com o objetivo de construir uma rede de indicadores de desenvolvimento sustentável e de avaliar as políticas públicas ambientais.

Na Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP, o Siades é coordenado pelo professor Tadeu Fabrício Malheiros, e no Departamento de Saúde Ambiental da USP, pelo professor Arlindo Philippi Jr.

“Essa rede teve por objetivo agregar outros pesquisadores que trabalham com essa temática em diversas universidades, com experiências diferentes em cada estado. Ela também agrega o governo e as instituições relacionadas à elaboração e implementação das políticas públicas no Brasil”, afirmou Malheiros.

A pesquisa, publicada na Revista Saúde e Sociedade, avalia que, apesar de ambos os documentos terem sido desenvolvidos no mesmo momento e possuírem como foco a temática do desenvolvimento sustentável do Brasil, “a não priorização da integração desses processos gerou lacunas no conjunto de indicadores, enfraquecendo a oportunidade de se criar condições para a avaliação e a revisão da implementação do plano nacional de desenvolvimento sustentável e das Agendas 21 locais”.

A Agenda 21 Global é resultante da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio 92), realizada em 1992 no Rio de Janeiro. Seguindo o documento, com estímulo das discussões e dos resultados da conferência, o governo e a sociedade deram início a um conjunto de ações de construção de Agendas 21, focado na realidade brasileira, em âmbito nacional, regional e local.

No Brasil, as experiências de Agenda 21 locais são poucas, entre as quais as iniciativas de São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória, Joinville e Florianópolis. De acordo com o estudo, quase um terço dos 5.560 municípios brasileiros, informou ao IBGE, em 2002, ter dado início ao processo de agenda local.

“Apesar disso, o tema é ainda recente e requer mais atenção por parte das instituições de pesquisa e aplicação prática pelas instituições governamentais e não-governamentais, com atuação em política e gestão de sustentabilidade”, apontou Malheiros.

Segundo ele, como se trata de um documento resultante de um processo participativo, com status de plano nacional de desenvolvimento sustentável, a Agenda 21 dá subsídio potencial à formulação de políticas focadas no desenvolvimento duradouro. Ou seja, por ser um protocolo de intenções o documento não carrega o poder da obrigatoriedade de implementação, uma vez que não é lei.

“A lei contribui, sim, para a efetivação da Agenda 21, mas não a vemos como fator único, pois as outras questões necessárias para torná-la realidade e fazê-la funcionar de fato estão muito mais na forma de gestão e de operacionalização, e isso tem a ver com as pessoas e como elas atuam. Às vezes, a lei não consegue resolver isso. Essa é a coisa mais importante, esse engajamento da sociedade e das instituições, que não depende da lei, mas de boa vontade das pessoas envolvidas”, afirmou.

Novos indicadores
Também em 2002, o IBGE lançou a primeira edição dos Indicadores de Desenvolvimento Sustentável (IDS). Dos 50 indicadores, 30 seguem o modelo de indicadores das Nações Unidas, três receberam algumas adaptações, nove foram introduzidos com formulações alternativas e oito, totalmente novos, foram acrescentados para contemplar questões de particular interesse para o Brasil.

“Foram incluídos, por exemplo, o fator desigualdade racial em relação ao rendimento familiar e à educação, o indicador de queimadas e incêndios florestais e o desflorestamento da Mata Atlântica e Amazônia, por serem importantes questões para a realidade brasileira”, disse Malheiros.

Em uma revisão feita em 2004, o IBGE incluiu os indicadores de desertificação e arenização, concentração de poluentes em áreas urbanas, qualidade das águas interiores, balneabilidade, adequação de moradia e acesso à internet, além de incluir novos indicadores de relevância para o contexto brasileiro, como a questão das terras indígenas, tráfico de animais silvestres, doenças relacionadas ao saneamento inadequado, acidentes de transporte, consumo mineral per capita, entre outros, em um total de 59 indicadores.

Segundo o coordenador do Siades, apesar de importantes, as experiências brasileira da Agenda 21 têm concentrado esforços muito mais no período de construção do que na avaliação.

“O desenvolvimento sustentável é uma questão dinâmica, não dá para prevermos ao acaso e, no momento seguinte, achar que as coisas já estão prontas. Para garantir que esse processo dinâmico possibilite a construção da sustentabilidade é preciso ter um processo permanente de avaliação, que permita um constante ajuste”, destacou.

Outro ponto questionável é que os indicadores do IBGE, apresentados em 2004, não têm encontrado paralelo com os objetivos e metas da Agenda 21, deixando algumas lacunas.

“Uma delas, por exemplo, é a área urbana. Sabemos hoje que a sustentabilidade do Brasil depende de tratar a questão urbana. Quase 80% da população vive hoje em área urbana. Temos que considerar isso, essa é uma área descoberta, sabemos que é por falta de informação no país como um todo, mas acho também que se esse olhar tivesse sido dado pela Agenda 21 brasileira, teríamos, quem sabe, melhores propostas”, explicou.

Essa questão, segundo o estudo do Siades, reforça a necessidade de se colocar esforços na integração das atividades de implementação e acompanhamento da Agenda 21 brasileira e dos indicadores IDS do IBGE.

Apesar dessas lacunas, segundo o pesquisador, o Brasil ocupa um posição privilegiada em relação aos países da comunidade européia. “Entendemos que o apoio dado pelas agências de fomento como FAPESP, Capes e CNPq tem sido bastante importante para consolidar uma rede de pesquisa e de promoção de eventos. Na Comunidade Européia, atualmente tem havido muitos cortes de verbas, enquanto nesse sentido o Brasil pode ser parabenizado, pois temos bons investimentos. Sou bastante otimista”, disse Malheiros.

De 30 de junho a 3 de julho, o Siades promoverá o Wipis 2008 – Workshop Internacional de Pesquisa em Indicadores em Sustentabilidade, que será realizado na Escola de Engenharia de São Carlos. Mais informações em http://hygeia.fsp.usp.br/siades .

Para ler o artigo Agenda 21 nacional e indicadores de desenvolvimento sustentável: contexto brasileiro, de Tadeu Fabricio Malheiros, Arlindo Phlippi Jr. e Sonia Maria Viggiani Coutinho, disponível na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP), clique aqui.

Alex Sander Alcântara / Agência FAPESP

Oferta de oxigênio para as células pode diminuir as lesões cutâneas causadas pela parasitose

Não é novidade que o estado de baixo teor de oxigênio em tecidos orgânicos, conhecido como hipóxia, é um fator importante para o câncer, conferindo ao tumor um prognóstico ruim, com baixa resposta a quimioterapias. Mas, até o início da década, praticamente nada se sabia sobre a possibilidade de a hipóxia ocorrer em doenças parasitárias, ou qual o seu efeito efeito no progresso das infecções.

Nos últimos seis anos, um grupo de pesquisas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com a leishmaniose como modelo de estudos, tem feito grandes avanços no sentido de desvendar como o microambiente – com mais ou menos oxigênio – altera as células de tecidos lesionados.

Os pesquisadores descobriram, entre outras coisas, que a oferta de oxigênio para as células pode diminuir as lesões cutâneas causadas pela parasitose que atinge até 30 mil pessoas por ano no Brasil. As pesquisas são coordenadas por Selma Giorgio, professora do Laboratório de Leishmaniose do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp.

Segundo Selma, a origem das pesquisas está em um trabalho feito por ela em 1998 em colaboração com a professora Ohara Augusto, do Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP).

“Na época, percebemos que as lesões de animais com leishmaniose eram muito necróticas e tinham infecção secundária com bactérias. Isso nos levou a acreditar que naquela lesão havia um microambiente hipóxico”, disse Selma.

Ela aponta que a suspeita se baseou no conhecimento há longo tempo consolidado pelos pesquisadores que estudam câncer. A presença de áreas hipóxicas seria uma característica de carcinomas. “Os tumores de mama, por exemplo, apresentam pressão de oxigênio de cerca de 25 miligramas de mercúrio, enquanto a média encontrada em tecidos normais é de 65 miligramas”, disse.

O grupo coordenado por Selma começou, então, a utilizar a leishmaniose como modelo para estudar se as lesões eram de fato hipóxicas. Em 2005, Wagner Arrais-Silva, em seu doutorado, conseguiu confirmar a presença de hipóxia nas lesões. O estudo foi publicado na revista Experimental and Molecular Pathology.

Em maio de 2005, Selma passou a receber apoio da FAPESP na modalidade Auxílio a Pesquisa, em projeto sobre o tema. “Em paralelo, outros pesquisadores do grupo começaram a estudar o comportamento dos macrófagos, tipo de célula muito importante do sistema imune e hospedeira do parasita Leishmania em ambiente com pouco oxigênio”, disse.

Outra pesquisadora do grupo, Adriana Degrossoli, obteve em seu doutorado dados importantes sobre a capacidade de os macrófagos modularem a infecção com o parasita, produzindo proteínas de estresse.

O trabalho foi publicado no Journal of Biomedical Science e posteriormente, em 2006, na Experimental Biology and Medicine. Em 2007, foi apresentado no Encontro Anual da Sociedade Norte-Americana de Biologia Celular, em Washington, nos Estados Unidos.

“Mais recentemente, o grupo mostrou que, in vitro, quando infectados com Leishmania, os macrófagos também produziram o fator de transcrição HIF, expresso em células tumorais e macrófagos associados a tumores. A produção de HIF, conforme constatamos, era importante para manter o macrófago vivo e a infecção”, disse. Esse trabalho foi publicado, no fim de 2007, na revista Immunology Letters.

Oxigenação hiperbárica
O grupo, de acordo com Selma, também trabalhou em colaboração com o University College of London, da Inglaterra, para mostrar que o HIF regula, com patógenos intracelulares, a expressão de uma proteína envolvida na resistência à infecção por Leishmania, Salmonella e micobactérias. O trabalho foi publicado na revista Blood, da Sociedade Norte-Americana de Hematologia.

“Em paralelo a esse projeto, nós também tivemos a intenção de modificar o microambiente lesional com uma situação oposta: a oxigenação hiperbárica. Se a hipóxia pode estar influenciando no desenvolvimento da infecção, imaginamos que talvez fosse possível mudar o seu curso ao inverter o microambiente, com uma maior oxigenação”, indicou.

Em artigo publicado em 2004 na revista Parasitology International, os pesquisadores descreveram um efeito observado in vitro e uma pequena melhora nas lesões dos animais tratados com hiperbárica.

O grupo continuou otimizando os protocolos de tratamento e testando a possibilidade de utilização da oxigenação hiperbárica como tratamento adjuvante. O trabalho, publicado em 2006 na revista Acta Tropica, mostrou que a terapia de oxigenação de fato reduzia lesões leves causadas por leishmaniose em camundongos.

“Atualmente, colaboramos também com o grupo do professor Fabio Trindade Maranhão Costa, do IB da Unicamp, que estuda o efeito do tratamento hiperbárico em camundongos com malária, cuja infecção afeta as hemácias. O aumento nos níveis de oxigênio no sangue pode ter efeitos tóxicos no parasita”, disse Selma.

Por Fábio de Castro / Agência FAPESP

Mobit: Inovação tecnológica como ponto central de políticas industrial e tecnológica

A pesquisa Mobilização Brasileira para a Inovação (Mobit) mostra que algumas das principais economias do mundo colocaram a inovação tecnológica como o ponto central de suas políticas industrial e tecnológica. O estudo foi feito a pedido da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) pelo Observatório da Inovação e Competitividade e pelo Centro de Análise e Planejamento (Cebrap). Foram analisados sete países: Estados Unidos, França, Canadá, Irlanda, Reino Unido, Finlândia e Japão. O estudo também levantou dados sobre o Brasil.

"A pesquisa não compara os países para retirar políticas a serem implementadas no Brasil, e sim busca captar tendências e montar um painel de diretrizes. Testamos uma série de hipóteses e traduzimos [os dados] em recomendações ao governo brasileiro para uma continuidade da política de inovação montada no País a partir de 2003", explicou Glauco Arbix, coordenador da Mobit e coordenador-geral do Observatório da Inovação, uma parceria entre o Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), a ABDI, o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Arbix discutiu os resultados da pesquisa Mobit, que demorou dez meses para ser concluída, em um seminário no IEA, realizado dia 25 de abril. Para fazer o estudo, os pesquisadores utilizaram bibliografia sobre o tema e também visitaram os países estudados, onde entrevistaram pessoas de governo responsáveis pela elaboração e execução das políticas industriais locais.

O que existe em comum
Os estudos da Mobit mostraram que apesar de os sete países serem muito diferentes, há várias medidas em comum tomadas por eles. Todos estão preocupados com suas capacidades de elaboração, seleção e execução de políticas, e em todos a inovação está no coração de suas estratégias competitivas. "São estratégias voltadas para coisas que esses países não faziam nos anos 1990, para aumentar a competitividade, a eficiência, ampliar a participação no mercado mundial", apontou Arbix.

Os pesquisadores da Mobit notaram ainda que as estratégias desses países são voltadas para o futuro, e "não para empresas que precisam de socorro hoje". Portanto, no aperfeiçoamento de seus sistemas nacionais de inovação, esses sete países perseguem sistemas de pesquisa e inovação de ponta, nos quais o fomento às atividades de pesquisa e desenvolvimento e fortes investimentos em educação são mecanismos-chave. "O foco dos programas, o esforço e os investimentos são orientados para ampliar as atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação nas empresas, para aumentar a capacitação dos funcionários", comentou Arbix.

Outro ponto comum às sete nações é o debate sobre o papel da universidade e como ampliar sua interação com o setor produtivo. Há um grande interesse desses países em atrair profissionais estrangeiros para as universidades. O sistema de competição por recursos é mais sofisticado do que no Brasil, segundo Arbix, mas ele não detalhou as diferenças entre as práticas brasileiras e estrangeiras. Os sistemas de avaliação das universidades nesses países buscam comparar as instituições com os melhores padrões existentes no mundo.

As políticas desses países trabalham outras dimensões da inovação, como a gestão, as estratégias, a estruturação dos negócios. "Inovação não é só pesquisa e isso não significa menosprezar a academia", esclareceu Arbix. Os sete países estudados distinguem claramente o que são recursos para gerar conhecimento novo daqueles usados para inovação. "Eles compreendem que o conhecimento é fundamental para os processos de inovação, mas os esforços para produzir conhecimento são diferentes dos esforços necessários para produzir as aplicações desse conhecimento", completou.

Outro ponto comum entre os sete países está na continuidade das políticas. "Vimos pessoas que continuavam em postos-chave, mesmo com mudanças no governo. Isso é maturidade política, algo que não temos quando se trata de política industrial e tecnológica, e que se conquista com o amadurecimento", afirmou Arbix.

Os sete países e o Brasil
A seguir, Arbix falou do Brasil. Aqui, há também o reconhecimento, em tese, da importância das novas áreas do conhecimento para a política industrial e para a inovação. "Mas política industrial no Brasil ainda é confundida com redução do custo-Brasil. Estamos em um estágio inicial desse reconhecimento da inovação como elemento-chave para diversificação da economia", disse ele.

O País não adota os melhores indicadores internacionais de desempenho para usar como referência de comparação da performance em pesquisa. Há avanços na aproximação universidade-empresa, mas ainda há resistências quanto a esse movimento e inadequações institucionais não resolvidas nem mesmo pela Lei de Inovação federal. O Brasil também caminhou no sentido de criar um sistema competitivo na busca de financiamento. E não dá importância para a atração de pesquisadores estrangeiros.

Enquanto nos sete países a elaboração e coordenação de políticas são concentradas nos centros de mando, sua sustentação política dentro do governo é forte e há grande estímulo para a articulação do governo com o setor produtivo, no Brasil isso tudo ainda se dá de forma fragmentada. Mas todos, inclusive o Brasil, criaram novos programas e instituições nos anos 1990 e 2000 para apoiar as atividades de inovação. A maior parte dos países observa os Estados Unidos para desenhar suas políticas; já o Brasil foca os EUA, mas também experiências européias e asiáticas.

Segundo Arbix, a presença do Estado é forte em todos os sete países, mesmo nos EUA, que pregam a não intervenção estatal. Todos adotaram políticas industriais que definem áreas prioritárias. Prioridade, para essas nações, significa receber mais recurso. "O Brasil tem dificuldade em determinar a relação entre orçamento e prioridade", criticou.

As recomendações para o Brasil
Na parte final de sua apresentação, Arbix trouxe as recomendações da Mobit. A primeira é aprofundar o diálogo com o setor produtivo, por meio de fóruns permanentes que tenham a presença de lideranças empresariais. A segunda é criar uma malha mundial de pesquisadores brasileiros no exterior, que possam oferecer informações, fazer prospecção e apontar tendências do que ocorre em outras partes do mundo. A terceira é organizar uma campanha de divulgação de leis, programas e instrumentos disponíveis para apoiar a inovação.

Uma quarta recomendação é aumentar a coesão, articulação e coordenação na implementação da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE), reforçando seu comando. A Mobit sugere ainda a criação de um fundo nacional para inovação, um sistema que apóie as empresas quando seus planos de inovação ainda estiverem na fase de pré-projeto, com ênfase na formação de fundos de venture capital para novas empresas, atividades e produtos.

A sexta sugestão é fomentar a criação de redes de inovação voltadas para a cooperação universidade-empresa. Nesse caso, o papel do governo seria facilitar a articulação e subsidiar a governança das redes, que poderiam ser locais, setoriais ou temáticas, mas de acordo com as prioridades da PITCE. Por fim, a Mobit recomenda a montagem de um sistema de monitoramento dos programas de apoio à inovação, com definição de metas para os programas e projetos.

O debate no seminário no IEA
O seminário foi aberto por Paulo Sotero, jornalista e diretor do Brazil Institute do Woodrow Wilson International Center for Scholars, um dos realizadores do debate, e Cesar Ades, diretor do IEA. Na primeira parte do encontro, Evando Mirra, diretor da ABDI, falou da inovação como um dos eixos centrais da PITCE elaborada em 2003 e lançada em 2004, e dos instrumentos criados para fomentar as atividades inovativas. A seguir, Arbix fez a apresentação dos resultados da Mobit.

A segunda parte do seminário foi ocupada pelo debate sobre o estudo, com a participação de Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp); David Kupfer, professor do Instituto de Economia e coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); e Mario Salerno, professor e chefe do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da USP e coordenador executivo do Observatório da Inovação e Competitividade. A moderação do debate ficou a cargo de Ricardo Sennes, sócio-diretor da Prospectiva Consultoria. Cerca de 80 pessoas acompanharam o seminário. Os debatedores tiveram acesso à íntegra do estudo antes.

Brito Cruz destacou que a Mobit reuniu argumentos para justificar melhor os incentivos em andamento no Brasil, além de sinalizar novas direções. Contudo, ressaltou que a pesquisa poderia destacar quais foram os obstáculos que esses países enfrentaram para planejar e colocar suas políticas em prática. Brito ressaltou ainda, entre as conclusões da Mobit, a centralidade da empresa quando se fala em políticas para inovação. A respeito dos referenciais internacionais aplicados para as universidades, Brito destacou ser importante também estender isso para as empresas. "Se a ambição não for para competir com o mundo, é melhor nem começar", disse.

O diretor da Fapesp falou do debate sobre a relação universidade-empresa, destacando que no Brasil ainda existe um obstáculo relacionado a uma visão estreita sobre o tema, que coloca a universidade como um simples laboratório de P&D que a empresa deveria ter e não tem, ou de que a empresa está sugando o setor público e de que a relação público-privada é sempre ligada a algum escândalo. Outro fator citado na Mobit, a desinformação das empresas, está relacionado à pouca presença de pesquisadores na empresa, na visão de Brito Cruz. São esses profissionais os capacitados para fazer projetos para os editais dos programas de incentivo à inovação existentes no País.

Sobre a coordenação, Brito acredita que o problema está menos na fragmentação e mais na ausência de uma coordenação suficientemente legítima, de forma que os demais atores entendam a política e que ela faça sentido. Ele também perguntou para onde o Brasil caminha nesse assunto. Lembrou que o País vem de uma fase sem crescimento, em que se habituou a planejar seus investimentos de forma a fazer mais coisas com menos recursos. Novas instituições, que sejam de peso e façam a diferença, não foram criadas nas últimas décadas. E o investimento do Brasil em P&D em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) está estacionado na casa do 1% desde, pelo menos, o começo da atual década. Falta investimento das empresas, para ele. "Precisamos pensar instrumentos que apontem como aumentar esse investimento", concluiu.

David Kupfer, da UFRJ, expôs boa parte dos argumentos apresentados em sua entrevista para Inovação, como a existência de episódios dispersos em inovação, que formam redes em que existem nós, mas sem pontos de ligação entre eles, a falta de massa crítica para inovar no Brasil e de consumidores de inovação. Destacou o fato de inovação ser hoje um termo usado de maneira corriqueira, de haver casos pontuais bem-sucedidos no que se refere à ação do poder público de incentivar a inovação nas empresas, e de ser possível inovar sem passar pela ciência e tecnologia, ou seja, pela atividade de pesquisa. Contudo, disse ele, as experiências mostradas pelo estudo sinalizam a importância da produção e do uso do conhecimento na criação de coisas novas.

O economista lembrou ainda que no Brasil a política de inovação disputa espaço com a resolução de problemas mais sérios e urgentes ligados ao nosso subdesenvolvimento. Além disso, recordou que, segundo a Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 65% das empresas estão alheias à inovação. Do restante, 31% são empresas imitadoras, cuja inovação é algo novo para a própria empresa, mas não para o mercado. Do grupo de 70 mil firmas da amostragem da Pintec, apenas 4% inovam para o mercado, ou seja, introduzem novos produtos depois de investir em atividades de P&D. "Temos três anos de Pintec e esses números não divergem muito de uma edição para a outra", apontou.

Mario Salerno, da USP, um dos pesquisadores que participaram da elaboração da PITCE em 2003, ressaltou a falta de uma empresa ícone do Brasil. "Não temos uma empresa que domine uma tecnologia-chave", apontou. Além disso, o País não faz propaganda do que tem. "Em Davos, a Confederação Nacional da Indústria indiana fez propaganda dos softwares que eles produzem. Não temos nada semelhante a isso", contou.

Respondendo a Brito Cruz sobre as dificuldades de implementação de políticas, Salerno falou da França, país que estudou para a Mobit. Os franceses têm 750 milhões de euros para aplicar em nove pólos setoriais. Houve conflitos entre aplicar os recursos em pequenas ou grandes empresas, e o governo decidiu aplicar nas pequenas, porque são importantes para dinamizar a atividade das firmas maiores. No Japão, segundo Salerno, praticamente não há interação entre universidade e empresa. Comentando a fala de Kupfer a respeito da falta de usuários de inovação, Salerno disse que o Brasil tem poucos instrumentos de extensionismo tecnológico, algo bastante praticado nos países estudados na Mobit. (J.S.)

Fonte: Inovação Unicamp

1o Prêmio Dow de Sustentabilidade

O 1o Prêmio Dow de Sustentabilidade visa a reconhecer a contribuição da comunidade acadêmica brasileira para temas relativos à sustentabilidade e ao cumprimento das metas globais de Sustentabilidade para 2015 da The Dow Chemical Company.

Serão premiados os melhores trabalhos na categorias Graduação, Mestrado e Doutorado, de acordo com os critérios definidos no regulamento. A premiação é aberta a trabalhos desenvolvidos em todos os campos do conhecimento, desde que relevantes em relação aos temas do prêmio.

Informações sobre a Dow
A Dow é uma companhia química diversificada que utiliza a força da inovação, ciência e tecnologia para aperfeiçoar constantemente o que é essencial ao progresso humano.

A Companhia oferece uma ampla variedade de produtos e serviços para clientes em mais de 175 países, ajudando-os a obter o que é essencial para a sua vida, de água potável, alimentos e produtos farmacêuticos a tintas, embalagens e produtos de higiene pessoal.
Baseada no compromisso com seus princípios de sustentabilidade, a Dow tem vendas anuais de US$ 54 bilhões e emprega 46.000 pessoas em todo o mundo. As referências à "Dow" ou à "Companhia" significam a The Dow Chemical Company e suas subsidiárias consolidadas, a não ser que detalhadas expressamente de outra forma.

Informações adicionais sobre a Dow podem ser encontradas em www.dow.com .

Fonte: Dow