terça-feira, 27 de maio de 2008

Primeiro transplante de coração realizado no Brasil e na América Latina comemora seus 40 anos.

40 anos de esperança para o coração

O primeiro transplante de coração realizado no Brasil e na América Latina, no início da manhã de 26 de maio de 1968, comemora seus 40 anos. Esse feito memorável e marco da Medicina brasileira, dentre outros, merece ser especialmente lembrado pelo seu significado de esperança de vida para milhares de pessoas, pelo que representou de avanço no meio médico e científico e pelo exemplo de capacidade e determinação daqueles que o realizaram.

No cenário nacional de transplantes de órgãos, hoje realizados anualmente aos milhares, o transplante de coração pioneiro sucedeu em poucos anos os transplantes de rins no Rio de Janeiro em 1964 e em São Paulo em 1965. A façanha foi liderada com determinação e audácia, no Hospital das Clínicas da USP, pelo professor Euryclides de Jesus Zerbini, paulista de Guaratinguetá nascido em 10 de maio de 1912 e graduado médico em 1942, estrela maior de uma constelação brilhante de 41 homens e mulheres destemidos que dignificaram e engrandeceram a cardiologia brasileira, a qual, por esse e outros feitos, passou a se destacar sobremaneira no cenário mundial.

Destacaram-se na equipe os cirurgiões doutores Delmont Bittencourt, Euclides Marques, Geraldo Verginelli, Miguel Marcial e Sérgio Oliveira, o cardiologista Dr. Luiz Décourt e o anestesista Dr. Ruy Gomide. Foi o lavrador matogrossence João Ferreira da Cunha (João Boiadeiro), de 23 anos, com avançada doença do miocárdio e insuficiência cardíaca, que recebeu o primeiro coração transplantado, mas morreu de rejeição imunológica 28 dias depois. Esta era a mais temida complicação na época, questão hoje praticamente superada. O doador foi Luis Ferreira de Barros, um jovem falecido por atropelamento automobilístico.

Embora tudo estivesse preparado, o Brasil e a equipe do professor Zerbini perderam, por menos de seis meses, a primazia do primeiro transplante cardíaco mundial, então realizado pelo Dr. Christian Barnard, em 3 de dezembro de 1967 na Cidade do Cabo na África do Sul, em um dentista negro, tendo como doadora uma mulher branca acidentada. A realização do transplante cardíaco foi mais um exemplo da ousadia que faz progredir o conhecimento científico e dignifica o homem. Herança desse e de outros pioneirismos, o transplante de órgãos no Brasil é hoje uma realidade de salvação para milhares de pessoas sem alternativa para continuar vivendo. Atualmente, cerca de 54% dos transplantados cardíacos sobrevive por 10 ou mais anos, um sucesso da evolução técnica, da competência profissional especializada e do controle terapêutico altamente eficaz.

Mas, nesse momento de comemoração jubilosa algumas reflexões são necessárias a respeito – de ordem ética - e quanto às prioridades médico-sociais, à ampla disponibilidade, à melhoria de toda a operacionalidade envolvida e aos custos implicados, visando à expansão do procedimento e torná-lo mais viável e acessível. Nesse contexto, diversas dificuldades se destacam, como a insuficiente oferta de doadores, a pouco ágil captação de órgãos, a deficiente infra-estrutura hospitalar necessária para novos centros e a restrita formação de pessoal especializado, cujas soluções dependem de uma política de interesse, eficaz e resolutiva. Apesar dos obstáculos, o Brasil é um dos países que detém o maior número de transplantes em geral, com cerca de 11 mil realizados anualmente, dos quais cerca de 3 mil são cardíacos. No entanto, a demanda reprimida por transplantes em geral é da ordem de 70 mil necessitados aguardando na fila. O Sistema Público de Saúde (SUS) paga 95% dos mesmos e o restante é pago por convênios.

No Brasil, o transplante de órgãos é regulamentado pela Lei 9.434 de 4/2/1997, decreto 2.268 de 30/6/1997 e Lei 10.2111 de 23/3/2001. Algumas entidades de apoio existem, como a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, e a Aliança Brasileira de Doação de Órgãos e Tecidos. Também está implantado o Sistema Nacional de Transplantes, do Ministério da Saúde, regulamentador técnico, operacional e normativo, com base na lei e decreto de 1997. Em cerca de 28 cidades de todas as regiões do Brasil, existem 47 centros capacitados, envolvendo 1.338 equipes preparadas para o transplante cardíaco.

Enfim, a Medicina segue promovendo conquistas para que todos possam desfrutar vida digna e saudável. Dos órgãos, instituições, associações e autoridades implicadas esperam-se eficazes políticas de assistência e apoio à saúde que acompanhem essas conquistas, visando beneficiar enorme contingente de necessitados.

Luiz F. Junqueira Jr é professor titular de Clínica Médica, Cardiologia e Fisiologia Cardiovascular da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB). É doutor em Clínica Médica/Cardiologia, mestre em Fisiologia, especialista em Clínica Médica e Cardiologia, bacharel em Ciências Biomédicas e graduado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP).





 

Luiz F. Junqueira Jr / UnB

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