terça-feira, 18 de dezembro de 2007

O impacto da paisagem e da gente do sertão em Guimarães Rosa

Cenários do sertão
A revista Estudos Avançados termina o ano com um mergulho profundo no universo do escritor Guimarães Rosa. Em homenagem aos 50 anos de uma das maiores obras-primas da literatura brasileira, Grande Sertão: Veredas, a publicação do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP) lança o dossiê “Guimarães Rosa”, com artigos sobre os cenários e a gente do sertão.

O lançamento da revista, que é acompanhada do CD Sons do Grande Sertão, acontecerá nesta segunda-feira (18/12), às 17h, no auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU). Os textos, no entanto, já estão acessíveis em formato digital na biblioteca eletrônica Scielo.

Segundo o editor-executivo da revista, Marco Antonio Coelho, o dossiê traz novidades mesmo para quem conhece a fundo a obra de Guimarães Rosa. “Os artigos não são voltados para a análise crítica da obra de Rosa. Nossa idéia era tratar dos cenários e da gente sertaneja que estão presentes nos seus livros, além das manifestações culturais que até hoje se inspiram neles”, disse.

Os participantes do dossiê, além de Coelho, são Marily da Cunha Bezerra, Dieter Heidemann, Carlos Rodigues Brandão, Dario Luis Borelli, Wagner Dias, Ivan Vilela, Waldecy Tenório, Carlos Augusto Monteiro e Suzi Frankl Sperber.

Determinados a apresentar uma perspectiva nova sobre o autor, os editores optaram por um olhar jornalístico a respeito do movimento social, extraliterário, que emana de sua obra, segundo Coelho. “Guimarães Rosa tem seus escritos extensamente estudados do ponto de vista literário. Falamos também sobre a obra, mas achamos fundamental mostrar sua repercussão junto a comunidades populares, tanto no interior de Minas Gerais quanto nos grandes centros do país”, disse.

Os autores dos artigos, de acordo com Coelho, são especialistas na obra de Rosa que estiveram imersos em seu universo também por meio de trabalhos de campo. “Um exemplo é o artigo de Carlos Rodrigues Brandão, que fez grandes excursões pela região e cujo trabalho é bastante elucidativo sobre o que é o sertão. O texto de Carlos Augusto Monteiro também faz uma descrição geográfica da região e a relaciona com a obra de Rosa”, afirmou.

Identificação popular
O artigo de Coelho documenta a experiência dos Miguilins, grupos de contadores de história formados em Cordisburgo (MG), terra natal do autor. “Isto é um fenômeno fantástico que não acontece com nenhum outro escritor. Os “Miguilins” são adolescentes da região preparados, desde os 10 ou 12 anos, para se tornarem contadores de histórias. Eles sabem contos inteiros ou trechos de obras de Guimarães Rosa, que acabam apresentando em vários lugares do país. Todo o processo está documentado no dossiê.”

Assim como os próprios Miguilins, os artigos abordam diversos eventos roseanos de Cordisburgo e de seus entornos, mostrando a identificação e a intimidade da obra de Rosa com a cultura popular. “Guimarães Rosa trata de temas da vida e do cotidiano do interior com uma linguagem verdadeira e ao mesmo tempo muito elaborada. São detalhes curiosos da vida local, histórias que refletem a magia da região e com as quais a gente do sertão se identifica”, declarou.

O alcance extraliterário da obra de Rosa também se reflete na música segundo Coelho. “Ele influenciou de forma notável compositores de todos os estilos. Por isso decidimos incluir o CD. Consultamos o músico Ivan Vilela, professor da Faculdade de Música da USP de Ribeirão Preto, especialista em viola caipira. Com a ajuda dele selecionamos as músicas. Tivemos apoio da Petrobras para a produção”, contou.

Além de faixas instrumentais inspiradas na obra de Guimarães Rosa e nas paisagens e gente dos sertões, o CD traz o crítico literário Antonio Candido interpretando os versos da Canção de Siruiz e o empresário José Mindlin lendo o trecho final de Grande Sertão: Veredas. Todas as faixas do CD podem ser acessadas no site do IEA: http://www.iea.usp.br/iea/revista/rev58.html

Fonte: Fábio de Castro / Agência FAPESP – 18/12/2006