quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Quem é negro, quem é branco: desempenho escolar e classificação racial de alunos

Who is black, who is white: school performance and the racial classification of school children

Até que ponto a classificação racial dos alunos em uma escola, feita pelos próprios professores, pode influenciar no desempenho escolar? A pergunta foi feita por Marília Carvalho, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

A pesquisadora analisou uma amostra de 230 alunos e oito professores de 1ª a 4ª séries do ensino fundamental de uma escola pública da capital paulista.

“Partimos da hipótese de que a atribuição de raça, no âmbito da escola, não estava relacionada apenas às características físicas e ao nível socioeconômico”, disse Marília. Segundo a pesquisa, a classificação feita pelas educadoras também apresentou forte relação com o nível de aprendizagem dos alunos. “A maioria dos indicados para as aulas de reforço escolar foi classificada como sendo negra”, conta.

A pesquisa envolveu entrevistas com as professoras e coordenadoras pedagógicas da escola. Familiares dos alunos também preencheram um questionário de caracterização socioeconômica e as crianças responderam, em sala de aula, a um breve questionário de autoclassificação racial.

De acordo com o estudo, as professoras tenderam a perceber como negras aqueles com maior dificuldade de aprendizado, além de avaliarem de forma um pouco mais negativa o desempenho desses alunos. “Nossa hipótese inicial foi confirmada: as professoras ‘clareiam’ crianças de melhor desempenho e avaliam com maior rigor as que percebem como negras”, diz Marília.

A tendência foi particularmente mais intensa em relação aos meninos, o que indica a presença de uma forte associação entre masculinidade negra e baixo desempenho escolar. Para Marília, a justificativa mais viável é que as professoras estejam reproduzindo nas relações escolares uma discriminação préexistente e de origem social.

“Mas não basta apenas acusar as professoras de discriminação racial, pois elas não são mais ou menos racistas do que a grande maioria dos cidadãos brasileiros. Vivemos em uma sociedade historicamente racista. Precisamos discutir o assunto com maior profundidade, pois se trata de um problema mais amplo e que envolve a sociedade como um todo”, ressalva a pesquisadora.

Os resultados do estudo foram publicados no artigo “Quem é negro, quem é branco: desempenho escolar e classificação racial de alunos”, na Revista Brasileira de Educação.

Para ler o artigo na íntegra, na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP), clique aqui

Fonte: Thiago Romero / Agência FAPESP - 25/10/2005