domingo, 21 de outubro de 2007

Lei seca evita 273 mortes em dois anos

“Não conheço nada com esse impacto em termos de saúde pública”. A frase do psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Unidade de Pesquisa em Álcool e Outras Drogas (Uniad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ilustra com exatidão os resultados de uma pesquisa científica que procurou avaliar as conseqüências da lei municipal implantada na cidade de Diadema em julho de 2002. Nessa cidade da Grande São Paulo, os bares estão proibidos de abrir das 23h às 6h.

“Deixaram de ocorrer 273 assassinatos em 24 meses de vigência da lei. É uma média de 11 mortes por mês”, anunciou Laranjeira em apresentação do estudo realizada na quarta-feira (20/10), em São Paulo. As análises estatísticas dos dados levantados pela equipe da Unifesp foram feitas em conjunto com os técnicos da Pacific Institute for Research Evaluation, dos Estados Unidos. O estudo foi financiado pela instituição norte-americana e pela FAPESP, dentro do Programa de Pesquisas em Políticas Públicas

“A principal novidade não é mais uma vez termos encontrado a relação entre o álcool e a violência. O que me impressionou foi a intensidade do efeito da lei. Onze mortes por mês é um número importante”, disse o pesquisador norte-americano Robert Reynolds, que há 35 anos investiga a relação entre álcool e violência. O pesquisador lembra que a margem de confiança do estudo é de 95%. “É quase certo que a queda nos homicídios está relacionada com a lei seca”, afirma.

Para chegar aos números de mortes que foram poupadas desde que a lei seca na cidade de Diadema entrou em vigor, os pesquisadores usaram os números de homicídios na cidade desde 1995. Foram analisados os sete anos anteriores ao início da medida e os 24 meses subseqüentes. “Em análises multivariadas, procuramos controlar um série de fatores para se chegar à relação entre o fechamentos dos bares e a queda nos números de homicídio”, explica Laranjeira.

Com experiência internacional de mais de três décadas – Reynolds atualmente trabalha com casos da América Latina, Romênia e de ex-repúblicas soviéticas onde o problema do alcoolismo é grave – o pesquisador é categórico: “Não se trata de uma panacéia. O resultado significativo obtido em Diadema não significa que isso possa ser aplicado em toda e qualquer cidade que tenha altos índices de homicídio.”

O importante, segundo o pesquisador, é ter o exemplo em mente mas também a consciência de que cada cidade precisa buscar o seu caminho de ação. Em Diadema vivem 350 mil pessoas em uma área geográfica pequena, que não ultrapassa os 30 quilômetros quadrados.

Para Laranjeira, o exemplo da cidade da Grande São Paulo deve ser considerado como um dos itens importantes em uma política pública que queira controlar o consumo de álcool e suas conseqüências. “Outras ações, como a cobrança de licença para que o comerciante possa vender bebidas alcoólicas também são interessantes em cidades maiores, como é o caso de São Paulo”, disse.

Fonte: Eduardo Geraque e Thiago Romero / Agência FAPESP - 21/10/2004