domingo, 7 de outubro de 2007

Brasil deve intensificar pesquisas para o uso energético do hidrogênio

Mais amparo aos estudos sobre a utilização energética do hidrogênio, em especial o uso das células a combustível alimentadas pelo gás, poderá conferir ainda maior visibilidade ao Brasil no cenário bioenergético mundial e permitir avanços para a economia do País. O posicionamento é defendido pelo secretário executivo do Centro Nacional de Referência em Energia de Hidrogênio (CENEH), Newton Pimenta Neves Júnior. “O apoio às pesquisas precisa ser intensificado, assim como o fluxo de recursos a elas destinado”, afirma Neves, que será um dos oradores da Conferência Internacional do Transporte, evento integrante da 2ª Enerbio, entre os dias 9 e 11 de outubro, em Brasília.

O recado é especialmente significativo quando se fala em uma das apostas de empresas em todo o mundo para se adequarem a tempos de ‘atitudes ecologicamente corretas’: o uso veicular do hidrogênio com as células a combustível. As células lembram uma bateria que, quando alimentadas com hidrogênio, produzem a energia necessária à propulsão do motor elétrico de um veículo. “A utilização do hidrogênio traz vantagens importantes, como emissão quase nula de gases do efeito estufa e de ruídos, além da eficiência energética. Seria uma mudança fantástica trocar os motores a combustão por essa tecnologia”, aponta Neves.

Vantagem - Segundo o especialista, o Brasil tem na liderança da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar uma grande vantagem para o desenvolvimento desse sistema, já que o biocombustível é uma importante fonte de hidrogênio. “O País não terá produção suficiente para abastecer o mundo de etanol, pois é um grande usuário do produto. Mas a utilização do etanol pode responder por uma parcela importante da solução dos problemas ambientais relacionados ao uso da energia”, explica.

Transformação - O aproveitamento da infra-estrutura dos postos de abastecimento já existente é uma oportunidade interessante para o País, segundo Neves. Uma das alternativas apontadas para comercialização do novo combustível é instalar, nos postos, equipamentos chamados reformadores para a transformação do etanol em hidrogênio. Os carros seriam dotados de cilindros de armazenamento – como no caso do gás veicular – que alimentaria a célula a combustível capaz de fornecer energia ao motor elétrico do automóvel. A outra possibilidade é o abastecimento normal do carro com etanol e um reformador se encarregaria da transformação do álcool em hidrogênio, solução interessante mas que envolve grandes desafios tecnológicos.

Há veículos desse tipo cuja autonomia já alcança 500 quilômetros com cilindros de hidrogênio, o que equivale a um tanque de álcool, embora o preço a ser pago pelo consumidor ainda não seja competitivo. Estados Unidos e Japão lideram os estudos para aperfeiçoamento da tecnologia de células a combustível automotivas. Há perspectiva, inclusive, de entrada em produção de automóveis desse tipo nos Estados Unidos progressivamente a partir de 2010, algo ainda improvável no Brasil, segundo Neves, devido aos altos custos. Ele reforça que quanto ao desenvolvimento do sistema no Brasil, muito ainda precisa ser feito, uma vez que “não dispomos de tecnologia para produção de células a combustível para uso automotivo e há apenas um protótipo nacional de automóvel, produzido com finalidades de estudo”. O protótipo é um projeto da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde está sediado o Centro Nacional de Referência em Energia de Hidrogênio.

A garantia de recursos para pesquisas aceleraria a produção nacional das células, amenizando uma das desvantagens atuais, o alto custo do equipamento e seus componentes, em sua maioria, importados. Neves prefere não citar diferença de valores entre um carro movido a células a combustível e um veículo convencional. “São produtos que não estão no mercado, por isso é preciso ter cuidado ao se fazer essa comparação. A favor das tecnologias mais limpas, é também importante frisar que a comparação seria mais justa se ao fazer os cálculos fossem levados em conta os ganhos ambientais”, argumenta.

Outra medida necessária é aumentar o tempo útil das células, uma vez que as garantias típicas obtidas junto a fornecedores estão por volta de 1500 a 2000 horas de uso ou 12 meses, e seus tempos de vida estão na faixa de 5000 horas.

Metas - Pimenta Júnior afirma que, a pedido do Ministério da Ciência e Tecnologia, um levantamento dos investimentos realizados desde 1999 em projetos de pesquisa e desenvolvimento em hidrogênio e células a combustível está em realização.

A análise permitirá estabelecer metas de investimentos que propiciem um trabalho de mais longo prazo, com pesquisadores trabalhando para formar equipes sólidas nesse campo. “Muito já foi conversado com o governo e algumas atividades estão em andamento, mas é imprescindível impor maior velocidade à tomada de decisões e à implementação de ações efetivas para dinamizar o setor”, resume, ao citar a necessidade de incentivos, também, para a formação de pessoal apto a trabalhar com esse novo modelo energético.

Aplicação - A utilização em automóveis é uma das principais possibilidades de acesso dos cidadãos às células a combustível, mas a aplicação não pára por aí. Elas são utilizadas em telecomunicações, gerando energia para estações de retransmissão de dados, por exemplo, ou como gerador de energia em locais não providos de rede elétrica, além de ter uso previsto para itens como celulares e notebooks. “Não é um dispositivo pronto, estamos falando de muitas aplicações, ou seja, há muito ainda a ser estudado”, conclui.

Fonte: Enerbio