segunda-feira, 28 de maio de 2007

A saliva como espécime biológico para monitorar o uso de álcool, anfetamina, metanfetamina, cocaína e maconha por motoristas profissionais

Pego pela boca
Os motoristas que costumam dirigir sob o efeito de entorpecentes que se cuidem. Um estudo feito por um pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que um teste simples baseado em uma amostra de saliva é capaz de detectar o consumo de álcool, maconha, cocaína e anfetamina.

Trata-se de um método alternativo ao exame de sangue ou urina. A vantagem é que o teste pode ser aplicado pelos próprios policiais de trânsito no local da ocorrência. “O método dispensa a presença de um profissional de saúde especializado para colher a amostra ou o deslocamento do motorista para um hospital habilitado a efetuar as análises”, disse o autor da pesquisa, Maurício Yonamine.

Segundo Yonamine, determinadas substâncias encontradas na saliva indicam que o indíviduo estava sob o efeito de drogas no momento em que o material foi coletado, diferente dos exames de urina, por exemplo, que chegam a detectar a presença de substâncias ingeridas até uma semana antes.

O coletor de saliva é composto por um tubo de ensaio e um chumaço de algodão com ácido cítrico para estimular a salivação. “Basta colocar o algodão na boca do suspeito, guardar o material e levá-lo para análise”, disse o farmacêutico-bioquímico. No laboratório, a saliva passa por um processo de cromatografia, utilizada para separar as diferentes substâncias presentes no material coletado, associado à espectrometria de massa, que identifica o tipo de substância encontrada.

“Existe uma tendência mundial pela utilização de amostras alternativas, como cabelo e suor. No Brasil, por exemplo, é muito complicado punir alguém pelo uso de drogas, pois o suspeito precisa aceitar ser levado a um hospital, deixar que amostras de sangue sejam colhidas e esperar pelo resultado. Pela saliva, em quatro horas já é possível obter o resultado”, disse Yonamine.

A pesquisa foi apresentada na tese de doutoramento “A saliva como espécime biológico para monitorar o uso de álcool, anfetamina, metanfetamina, cocaína e maconha por motoristas profissionais”, sob orientação do professor Ovandir Alves Silva, da FCF.

Veja a tese completa clicando aqui.

Fonte: Thiago Romero / Agência FAPESP - 28/05/2004

Insetos desvendam crimes

UnB sedia laboratório piloto de entomolgia forense, que permite estimar quando, como e onde mortes e assassinatos ocorreram

Na pista de um serial killer, a novata agente do FBI Clarice Starling é destacada para entrevistar um perigoso psicopata encarcerado, o psiquiatra Hannibal Lecter. Ele é um profundo conhecedor da mente criminosa e vai ajudá-la a capturar o terrível assassino, cuja marca é tirar a pele das vítimas e colocar uma espécie de mariposa dentro de suas bocas. No clássico do suspense O Silêncio dos Inocentes, os protagonistas encenados por Jodie Foster e Anthony Hopkins têm nas pistas deixadas, como o inseto, uma importante ferramenta para chegar ao homicida.

Assim como no cinema, esses rastros dão à polícia do mundo real informações muitas vezes cruciais para desvendar crimes. O estudo de insetos com finalidade policial, a chamada entomologia forense, é uma dessas armas. A especialidade permite estimar data da morte e, em alguns casos, sua causa e se o corpo foi transportado de um lugar para outro. Na Universidade de Brasília (UnB), a entomologia forense virou uma disciplina e suscitou a criação de laboratório piloto e a construção de um centro nacional da especialidade, sediado na capital.

Coordenado pelo professor de entomologia e parasitologia José Roberto Pujol Luz, o Laboratório de Dipterologia (estudo das moscas) do Departamento de Zoologia do Instituto de Ciências Biológicas coleta dados amostrais desde junho de 2003. O Centro de Entomologia Forense foi criado a partir dele e funciona desde dezembro de 2003. Mas foi em 12 de fevereiro de 2004, durante o 25º Congresso Brasileiro de Zoologia, realizado na UnB, que o local foi oficialmente inaugurado. Ele fica no Departamento de Zoologia do Instituto de Ciências Biológicas da UnB (no ICC Sul).

A iniciativa surgiu no próprio Instituto de Criminalística da Polícia Civil do Distrito Federal, a partir da proposta de um perito em criminalística – Luciano Arantes, biólogo formado pela UnB – que atuou no laboratório de DNA forense. “Ele sabe que temos bons recursos técnicos e humanos”, comenta Pujol, que abraçou a idéia do colega.

PARCERIA
Em fevereiro de 2003 foi organizado na UnB o primeiro seminário sobre o assunto no país. O Estado da Arte da Entomologia Forense no Brasil, que reuniu especialistas de diversas universidades, representantes das polícias civil e federal e do Ministério da Justiça, foi o estopim para a montagem da disciplina e a realização do centro. Para torná-lo real, também entrou em cena o Ministério da Ciência e Tecnologia. O apoio dos dois ministérios foi essencial para a equipagem do laboratório, com a compra de materiais óticos, como lupa e microscópio, computadores, e uma câmara para criação de insetos.

Em outubro de 2003, Pujol e seus alunos analisaram larvas e insetos coletados num experimento tradicional para estabelecer parâmetros de análise em entomologia forense. Em junho, depois de sacrificar três porcos, deixaram os cadáveres num descampado na fazenda experimental da UnB, a Água Limpa, dentro de gaiolas especiais para que os insetos fossem retidos ali.

Periodicamente, os especialistas iam ao local coletar espécimes, fotografar e filmar o processo de decomposição. O motivo da experiência, autorizada pela comissão de ética e pesquisa da universidade, é que a decomposição do porco é praticamente idêntica à do ser humano. “Mais que isso, a fauna que procura a carcaça do suíno é a mesma que aparece em cadáveres humanos”, completa o cientista.

FASES
A idéia, conta ele, é mapear a ação das larvas e dos insetos adultos nos porcos e descrever o tempo de cada uma das fases de crescimento de moscas e besouros, principais agentes da decomposição. “Já é conhecido o padrão de desenvolvimento no litoral. Agora, queremos saber exatamente quanto uma larva demora no cerrado, entre todos os estágios evolutivos, para chegar à maturidade”, explica Pujol. Os gêneros Cochliomyia, Chrysomya e Lucilia, as populares moscas varejeiras, são alguns dos principais alvos desse trabalho. Desde o ovo, passam por três fases como larva para depois formar um casulo e finalmente ganhar asas.

Ao delimitar esse intervalo, que leva cerca de 10 a 20 dias e varia de espécie para espécie, os entomologistas podem calcular o período de habitação daquelas moscas no cadáver. Isso é um importante dado para a polícia, já que, geralmente, há ovos desde o primeiro dia após a morte em ambientes abertos.

“Então, se eu sei quanto tempo aquela mosca demora em cada fase, posso dizer que a larva, encontrada no estágio 2, está lá há sete dias, por exemplo”, descreve o biólogo. O problema é que normalmente coabitam num mesmo cadáver larvas de diversas espécies e em estágios diferentes. Nesse caso, é necessária uma equação complexa, que estipula uma média de tempo para a infestação.

Pujol, entretanto, adverte que não há como determinar a data exata da morte. “Posso apenas dizer que a mosca está lá, mais ou menos, entre o período X e o Y, nunca o dia em que a pessoa morreu”, afirma. Portanto, ele reforça a necessidade de um olhar multidisciplinar, que dê mais informações sobre o quadro encontrado pela polícia. “A entomologia vai auxiliar a juntar as peças do quebra-cabeças, não é ela quem dá as respostas conclusivas”, reforça o especialista. Peritos de várias especialidades devem observar o cadáver e, ao final da análise, unir informações ao que foi constatado pelo entomologista.

CAUSA MORTIS
Outros dados podem ser revelados pelo estudo dos insetos no que se relaciona a crimes. Em certos casos, é possível descobrir o motivo da morte. “Se uma pessoa ingeriu cocaína, heroína ou se morreu de overdose, as larvas estarão repletas dessas substâncias”, lembra Priscila Madsen, orientanda de Pujol. Se a morte foi por ingestão de chumbinho, um raticida conhecido, acontece o contrário. “O veneno afastas as moscas e, se for esse o motivo, não haverá larvas naquele cadáver”, afirma a estudante de biologia.

Também é possível dizer se a pessoa foi levada de um lugar a outro depois de morta, caso haja rastro de insetos de origens diferentes daquela onde foi encontrada a vítima. “Se um cadáver é achado num local e junto dele há um inseto que não é dali, já posso saber que ele não morreu naquele lugar. Depois vou estudar qual o habitat natural daquele inseto e dar novas pistas à polícia”, argumenta o biólogo.

Esse mesmo raciocínio pode ser aplicado a investigações de outras naturezas, como o tráfico de entorpecentes. “Há um caso famoso na Austrália, onde decifraram toda a rota do tráfico a partir de insetos que vieram prensados no carregamento de drogas apreendido”, afirma Pujol. Ele explica: “Contrariando todos os indícios, os entomólogos provaram que as drogas vinham da Tailândia, já que os insetos encontrados eram exclusivos de lá”.

CONTATO
José Roberto Pujol Luz, professor titular do Departamento de Zoologia do Instituto de Biologia da UnB, pelo telefone (61) 3307 2265 ou pelo e-mail .

Fonte: UnB

Como combater o cigarro, um vilão legal

Hospital Universitário de Brasília (HUB)  oferece apoio a pessoas que desejam parar de fumar


Nicotiana tabacum é um nome estranho, não acha? Mas cerca de 30 milhões de brasileiros fazem uso diário dela. Conhecida como nicotina, ela é a principal componente do cigarro. A droga tem princípios cancerígenos, acelera os batimentos cardíacos, atrapalha a digestão e traz vários males à saúde. Além disso, vicia tão fortemente quanto a cocaína e o álcool. Por isso é tão difícil parar por conta própria.

Para quem já tentou ou quer abandonar o tabaco, uma boa notícia. É possível encontrar apoio no Hospital Universitário de Brasília , onde funciona desde 2002 o Ambulatório de Cessação de Tabagismo. Coordenada pelo professor Carlos Alberto Viegas, chefe do Serviço de Pneumologia do HUB, a iniciativa oferece aos fumantes que querem largar o cigarro informações com terapias de grupo e remédios. Mil pessoas já foram atendias. “E há duas turmas abertas”, comenta o médico.

Para se inscrever no projeto, deve-se entrar em uma fila de espera. Esse primeiro cadastro ocorre por telefone. Quando chega sua vez, a pessoa participa de um encontro semanal, com duração de um mês em grupos de 15 a 20 pessoas. A equipe é composta por um assistente social e um médico – ambos com curso de capacitação em tabagismo.

Nos encontros, há depoimentos dos próprios participantes e informações sobre o projeto e sobre os males do tabagismo. Os assuntos se dividem em:

ENCONTROS TEMA
1ª SEMANA Entender por que se fuma e como isso afeta a saúde
2ª SEMANA Os primeiros dias sem fumar
3ª SEMANA Como vencer os obstáculos para permanecer sem fumar
4ª SEMANA Benefícios obtidos após parar de fumar

USO DE REMÉDIOS
Os medicamentos que fazem parte do tratamento são um antidepressivo e a goma com nicotina, usada como substituto dessa substância no cigarro. Os dois produtos são distribuídos gratuitamente pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal – à qual o programa do HUB está ligado. Mas, caso os remédios faltem no estoque, o paciente é aconselhado a comprá-los para dar continuação ao processo de abandono do tabaco. O tempo de utilização varia muito de paciente, mas a média é de dois meses. A partir desse período, a tendência é retirar a droga.

Segundo o médico de pneumologia e coordenador do projeto de controle do tabagismo do Distrito Federal, Celso Antonio Rodrigues da Silva, a utilização do medicamento é fundamental. “Sem o medicamento, a eficácia do programa em fazer as pessoas largarem o cigarro cai de 80% dos participantes para cerca de 50%”, diz ele. A pessoa que suprime de vez o tabaco tem grande chance de sofrer da síndrome de abstinência, uma reação pela falta da nicotina que causa agitação, tontura, insônia, dor de cabeça, sem falar no desejo absurdo de fumar. Daí a necessidade de usar a goma, em que a concentração de nicotina é 75% menos que no cigarro. “Mas isso já é suficiente para tranqüilizar o paciente e fazê-lo superar os primeiros dias sem fumar.”

A legislação brasileira proíbe a venda de cigarros a menores de 18 anos, mas o consumo entre menores é uma realidade, de acordo com pesquisas da Faculdade de Medicina da UnB. No Distrito Federal, por exemplo, a dependência de nicotina atinge cerca de 10% dos adolescentes. Apesar de não ter atendido nenhuma pessoa com menos de 18 anos, Viegas afirma que o atendimento se dará normalmente caso os jovens procurem o ambulatório.

SERVIÇO
Ambulatório de Cessação de Tabagismo do Hospital Universitário de Brasília (HUB). O atendimento acontece de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h, no térreo da unidade 2 do HUB, no setor de Espirometria. É preciso se inscrever antes pelo telefone (61) 3448 5280.


CONTATO
Coordenador do Ambulatório de Cessação de Tabagismo, professor Carlos Alberto Viegas, chefe do Serviço de Pneumologia do HUB, pelo telefone (61) 3448 5280 (pela manhã) ou pelo e-mail .

PREJUÍZOS DO TABAGISMO
O cigarro é composto por mais de quatro mil substâncias tóxicas, incluindo nicotina, monóxido de carbono, alcatrão, agrotóxicos, e cancerígenas, como arsênico, níquel, cádmio e chumbo. A nicotina causa dependência da mesma forma que a cocaína, a heroína e o álcool. A fumaça do tabaco é inalada para os pulmões e chega ao cérebro entre sete e 19 segundos, velocidade quase igual a de substâncias introduzidas por uma injeção intravenosa.

O tabagismo é diretamente responsável por:
• 30% das mortes por câncer;
• 90% das mortes por câncer de pulmão;
• 25% das mortes por doença coronariana;
• 85% das mortes por doença pulmonar obstrutiva crônica.

Outras doenças que também estão relacionadas ao uso do cigarro são aneurisma arterial, trombose vascular, úlcera do aparelho digestivo, infecções respiratórias e impotência sexual no homem. A mulher grávida que fuma, além de correr o risco de abortar, tem mais chance de ter filho de baixo peso, menor tamanho e com defeitos congênitos.

Fonte: Instituto Nacional de Câncer, do Ministério da Saúde. Coordenação Nacional de Controle de Tabagismo e Prevenção Primária (Contap) "Falando Sobre Tabagismo". Rio de Janeiro, 1996

Fonte: UnB