sábado, 24 de fevereiro de 2007

Inaugurado o Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN)

A inauguração do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN), feita oficialmente na sexta-feira (23/2), na capital do Rio Grande do Norte, é apenas uma pequena parte de um projeto que promete ser histórico para a ciência brasileira.

Os planos dos idealizadores do instituto prevêem muito mais do que a criação do parque neurotecnológico que está sendo chamado de “campus do cérebro”. De acordo com um deles, Sidarta Ribeiro, o grupo planeja a implantação de 12 centros semelhantes espalhados pelas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Depois de Natal, o primeiro deverá ser instalado no sul do Piauí.

Segundo o diretor do IINN, a escolha dos locais foi feita com o propósito de descentralizar a ciência de ponta no país e, ao mesmo tempo, de atrair pesquisadores de alto nível que estejam trabalhando no exterior. Para Ribeiro, a preocupação social é importante para gerar sinergia que atraia apoios e recursos, além de garantir a continuidade dos projetos.

Formado em biologia pela Universidade de Brasília, Ribeiro fez mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutorado na Universidade Rockfeller. Em seguida, mudou-se para a Universidade de Duke, na Carolina do Norte, onde trabalhou no laboratório de Miguel Nicolelis, outro dos mentores do IINN – o terceiro é Claudio Mello, da Universidade do Oregon. Durante o 2o Simpósio Internacional de Neurociências, que terminou no domingo (25/2), Ribeiro falou com a Agência FAPESP.


As funções projetadas para as instalações do instituto, os centros de saúde e educação inaugurados agora e a própria escolha da região de Natal para instalar o IINN mostram que o projeto é permeado por uma evidente preocupação social.
Sidarta Ribeiro - Acreditamos que fazer ciência não basta. Ela não vai ser transformadora por si só num país como o Brasil. Com as desigualdades e a miséria que temos, a ciência de alta qualidade, feita de forma isolada, fica inacessível em uma torre de marfim. Muitas vezes o cientista se isola e, preocupado com sua ciência, não quer lidar com o problema da infra-estrutura, da miséria e do crime. É como se ele achasse que está na Noruega ou nos Estados Unidos, o que chega a ser moralmente questionável, inclusive porque a ciência é cara. A ciência é transformadora e revolucionária e precisa chegar à sociedade, principalmente até as crianças. As crianças são o futuro, por isso nossa missão social está voltada para a atenção infantil. Se fizermos este investimento, vamos chegar em outro patamar de desenvolvimento. Para comprovar, é só olhar para os países que fizeram isso.

Não é difícil conciliar projetos sociais com ciência de ponta?
Ribeiro - Sim, é mais comum que a ciência de ponta esteja distante do cotidiano das pessoas. Mas, por isso mesmo, acreditamos que estamos criando um modelo novo, com um princípio multiplicador. O IINN é o primeiro instituto de uma série – nossa idéia é fazer 12 deles no Nordeste, Norte e Centro Oeste, em várias áreas além da neurociência. O segundo está programado para ser implantado no sul do Piauí, onde o Estado mais precisa de uma iniciativa como essa. A idéia é ensinar às crianças algo que vá alem do básico.

Projetos com essas características conseguem recursos com mais facilidade?
Ribeiro - Quando a missão é científica e também social, existe uma clara sinergia e fica mais fácil angariar apoio para os projetos. Temos visto isso na prática. Essas características estreitam os diálogos com os ministérios da Ciência e Tecnologia e da Saúde, por exemplo. Facilita também o diálogo com doadores privados, como é o caso com a senhora Lily Safra, que fez generosa doação. Isso garante a visão de longo prazo e garante que se estará na fronteira científica, pois os projetos vão operar recursos para financiar a ação social.

Quer dizer que os projetos se tornam mais sustentáveis quando se aproximam das comunidades?
Ribeiro - À medida que criamos um parque tecnológico onde poderemos produzir multieletrodos e desenvolver interfaces entre cérebro e máquina, nos aproximamos de uma sinergia. A idéia é que Natal possa ser, em neurociências, o que Bangalore, na Índia, representa para a ciência computacional. Isto é, que possamos financiar a ciência de ponta e a ação tecnológica fazendo aplicações tecnológicas, criando oficinas, incubando empresas, vendendo produtos e estando presentes no mundo real, que também é o mercado. Trata-se de uma visão de ação social dentro do mercado.

Com a criação do IINN houve uma intenção deliberada de trazer de volta para o Brasil cientistas radicados no exterior?
Ribeiro - Sem dúvida, atrair brasileiros de volta ao país é um objetivo intencional. Eu mesmo fiquei dez anos fora e os outros dois idealizadores do IINN, Miguel Nicolelis e Cláudio Mello, ainda estão no exterior. Queríamos voltar para cá e criar uma coisa nova, em lugar novo. Não queríamos voltar para as estruturas existentes, que mal conseguem absorver os pesquisadores daqui e onde não há espaço para a repatriação. As verbas são pequenas em todo lugar e entendemos que não adianta dividir o bolo sem antes fazê-lo crescer. Vamos trazer novos recursos, dos Estados Unidos, da Europa e do Japão. Queremos convencer os cientistas que moram fora – brasileiros ou não – de que é possível fazer ciência de ponta num lugar lindo como Natal, dando um outro sentido de vida que não teriam em um lugar totalmente desenvolvido.

O Brasil tem chance de ganhar relevância internacional no campo das neurociências?
Ribeiro - Sem dúvida. O Brasil é um país não desenvolvido economicamente, mas, ao mesmo tempo, grande e rico. Embora os investimentos em ciência e tecnologia sejam menores do que o desejado, eles têm sido consistentes e contínuos ao longo das últimas décadas, desde a criação do CNPq nos anos 50. Tudo isso contribui para criar uma massa crítica de pesquisadores com uma série de características positivas para a ciência nacional. Talvez a principal delas seja a criatividade, a capacidade de resolver problemas com jogo de cintura. O problema é que existiu por muito tempo um complexo de inferioridade que dizia o seguinte: se os cientistas dos países mais ricos estão estudando certas áreas, vamos buscar áreas não competitivas. Mas isso é suicídio. Porque se buscamos o que não é competitivo, nunca vamos estudar o que é realmente importante. Seremos sempre tecnologicamente subservientes. Também não adianta lutar guerras que já foram vencidas ou tentar posicionar na liderança onde já perdemos a corrida. Temos que buscar áreas em que a corrida esteja acontecendo neste momento, buscar posição na fileira da frente e correr para ser pelo menos uma das lideranças. A estratégia é identificar as áreas que são importantes, mas onde o jogo ainda não está decidido. A neurociência é certamente uma dessas áreas.

E o Brasil tem capacidade para avançar para as primeiras posições?
Ribeiro - Tem capacidade total. É o que ocorre com o trabalho de Miguel Nicolelis na Universidade Duke, por exemplo. Ele é um dos líderes mundiais no tema do registro de multieletrodos. Então, podemos transplantar tecnologias e soluções para o Brasil, já começando na frente, para que não tenhamos que ultrapassar um a um todos os outros que participam da corrida. Na neurociência, que é do que estamos falando, ninguém está parado. Na Coréia do Sul estão trabalhando firme, assim como no Japão, em Israel e nos Estados Unidos.

Por que a neurociência é uma área onde o jogo ainda não está decidido?
Ribeiro - Nessa área temos visto, nos últimos dez ou 15 anos, uma revolução tecnológica que levou a uma revolução conceitual. Vários dogmas da neurociência estão caindo. Os cientistas têm dissecado os mecanismos de funcionamento do cérebro: como funciona o neurônio; por que um neurônio é diferente de outro; como se organizam os grupos de neurônios em colunas; como as diferentes áreas se comunicam; como a informação é distribuída entre as diferentes áreas para gerar a percepção, emoção, ação, sono, formação das memórias, consciência – que é a pergunta mais difícil: como se forma a consciência e como ela se expressa. A concepção do que é o cérebro está mudando em função de uma revolução técnica. Por outro lado, essa revolução técnica gera uma revolução na aplicação. O que estão fazendo no Japão em robótica é incrível. Aplicações na interface entre cérebro e máquina são outro exemplo – como tirar o sinal neural, levar ao computador, analisar aquilo e retornar para o cérebro, permitindo que uma pessoa em uma cadeira de rodas possa controlar um cursor para navegar na internet, ou controlar um braço robótico, ou mesmo um robô inteiro. Não falta muito, porque os robôs já estão prontos. As portas estão abertas para avançar nessa área.

Pode exemplificar alguns dos dogmas que foram superados pela revolução tecnológica na neurociência?
Ribeiro - Um deles é o pressuposto de que, no adulto, não existe neurogênese, isto é, a criação de novos neurônios. Outra noção que caiu por terra é a de que a organização do córtex é toda feita em "gavetas", com cada coisa num único lugar, e não distribuídas.

Que avanços técnicos que permitiram estas mudanças?
Ribeiro - Os novos métodos para estudar o cérebro são muito poderosos. Um deles é o registro de multieletrodos desenvolvido por Nicolelis. Também nos beneficiamos muito da ressonância magnética funcional. A biologia molecular foi outro avanço, que veio nos últimos 20 anos com a invenção das técnicas de PCR [reação em cadeia da polimerase], que permitem manipular, introduzir e extrair genes, ou aumentar sua expressão em determinadas condições. Há muita coisa em sistemas – métodos para olhar toda a atividade cerebral ou de várias regiões. Quando podíamos registrar um neurônio por vez, tirávamos determinadas conclusões. Quando podemos olhar 100, 200 ou mil por vez, tudo muda. Outro ponto importante é o uso das células-tronco – a promessa de curar qualquer doença, ou muitas das doenças degenerativas substituindo células mortas ou defeituosas por células novas. Com tudo isso tivemos uma revolução técnica que se expande para o campo conceitual e atinge o cidadão comum.

Por que um pólo tecnológico dedicado à neurociência vai trabalhar também com pesquisa relacionada ao biodiesel?
Ribeiro - A neurociência é o que fazemos, mas somos, antes de tudo, cientistas, e é evidente que o biodiesel é uma grande revolução. A visão que temos é de transformação social e o biodiesel permite isso, porque faz com que uma família na agricultura comunitária possa sair de uma renda mensal de R$ 300 para R$ 3.500 plantando mamona. Achamos que isso é uma maneira de ajudar essas famílias a melhorar sua condição socioeconômica, de fazer com que seus filhos possam ter boas condições em casa e que o trabalho que fazemos na escola seja acompanhado de boa alimentação, equipamento, livros e tudo mais. A idéia também faz parte do nosso conceito de criação de um modelo auto-sustentável. É grave no Brasil que se crie instituições com uma única fonte de financiamento. Quando o poder muda, aquilo acaba. À medida em que podemos ter várias fontes de financiamento, garantimos a perenidade da instituição científica. O biodiesel poderá participar dessa base de financiamento mais ampla.

Fonte: Agência Fapesp