quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Tecam Laboratórios desenvolve testes de toxicidade em defensivos agrícolas

Janete Moura, Cynthia Bomfim e Regina Sawaia Sáfadi freqüentaram na mesma época as aulas do curso de graduação em Biologia no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP). Quando se formaram, em 1982, cada uma escolheu especializar-se em uma área: Janete fez seu doutorado em genética; Cynthia, em biologia celular; e Regina Sawaia, em ecologia. A diversidade de escolhas — elas não sabiam — acabou por ajudar as amigas quando, em 1992, resolveram unir suas competências para fundar o Tecam Laboratórios. As três jovens empresárias detectaram uma oportunidade concreta, que a sinergia de suas especialidades permitia aproveitar: uma mudança na legislação introduziu a exigência de que os testes de segurança dos defensivos agrícolas — para saber, por exemplo, seu grau de toxicidade — passassem a ser feitos aqui no Brasil. As fábricas de defensivos se tornaram os primeiros clientes do Tecam; mas não os únicos: a empresa entra agora em seu 15º ano de vida com faturamento de R$ 2,7 milhões e carteira de mil clientes.

O começo
Uma técnica para avaliação da toxicidade consiste em expor organismos aquáticos (como algas, crustáceos e peixes) e mamíferos (como ratos e coelhos) aos defensivos agrícolas. Entre outros testes, é preciso comprovar se o produto químico traz risco de mutagenicidade — ou seja, de causar mutação genética nos organismos em contato com o defensivo. Como o Tecam já tinha know-how para analisar contaminação de organismos aquáticos, não foi difícil analisar a qualidade da própria água. Por isso, passou também a atender distribuidoras que precisavam certificar a potabilidade da água que vendiam. Esse serviço, o Tecam presta até hoje. Por extensão, a empresa também passou a prestar serviço na análise físico-química de alimentos industrializados, dando informações, por exemplo, para a rotulagem nutricional, com a quantificação e detecção de vitaminas, colesteróis, açúcares etc.

Mas... E o PIPE?
A trajetória bem-sucedida teve sua prova de fogo quando chegaram ao mercado produtos contendo organismos geneticamente modificados (OGMs). As biólogas do Tecam perceberam que ali nascia um novo nicho de negócios. "Não foi uma decisão simples, pois havia muita incerteza sobre a postura que o Brasil adotaria em relação aos transgênicos, já que no mundo dois cenários se desenrolavam: a Europa exigia a rotulagem dos alimentos contendo transgênicos e os EUA, não", explica Janete sentada à mesa de seu escritório, uma sala sem divisórias de onde ela pode interagir com todas as mesas da Diretoria.

Para ganhar a capacidade de detectar a presença ou não de OGMs em um produto e assim disputar esse novo mercado, o Tecam teria de assumir o risco de investir na montagem de um laboratório de biologia molecular, sem saber — naquele momento — quais seriam as regras do negócio. Em 1999, quando planejou o Laboratório de Biologia Molecular, o Tecam não tinha sede própria. À medida que a empresa crescia, mais uma casa de aluguel era agregada às instalações. Em 2000, seus 15 funcionários atuavam numa seqüência de três casas no bairro da Lapa. A arquitetura definitivamente não era a desejada pelas sócias.

O problema central para a empresa, naquele momento, era o custo elevado dos equipamentos necessários para realizar a tarefa. O principal deles, uma "máquina de PCR", peça fundamental em laboratórios de biologia molecular. PCR é a sigla, em inglês, para Polymerase Chain Reaction — ou, em português, Reação em Cadeia da Polimerase. Esse processo permite fabricar moléculas de DNA em quantidade grande a partir de fragmentos de moléculas de DNA — quer dizer, a partir de quantidades pequenas de DNA. Genes são feitos de DNA. A descoberta desse processo foi tão importante para as tecnologias da engenharia genética que deu o Prêmio Nobel de Química a seu inventor — o bioquímico norte-americano Kary Mullins —; a máquina de PCR faz o processo de reações encadeadas inventado por ele acontecer automaticamente.

E o que isso tem a ver com o mercado que as empresárias do Tecam almejavam, o de rotulagem de transgênicos? É que a quantidade de DNA de material transgênico presente em cada amostra de alimento é pequena. Sem aumentar essa quantidade, não é possível analisar as características do produto necessárias para definir os dados para a rotulagem. Por isso é que Janete, Cynthia e Regina precisavam da máquina de PCR. Preço: US$ 100 mil. Naquela época, em janeiro de 1999, a cotação do dólar passou de R$ 1,20 para R$ 2. Não dava para a empresa bancar o investimento, com sete anos de vida e faturamento anual perto dos R$ 300 mil. O que elas fizeram então? Pediram o dinheiro ao PIPE, é claro. "Na época não tínhamos sequer noção de como montar um plano de negócios", afirma a sócia Regina Sáfadi.

Para aprender a lidar com administração do negócio e captar recursos novos, Janete participava de todas as reuniões que pudessem ajudar neste sentido. Um encontro promovido pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) entre pequenos empresários e investidores foi o estopim para que as sócias decidissem buscar ajuda no PIPE. As pesquisadoras recearam que uma eventual injeção de capital de risco na empresa poderia lhe tirar a autonomia — sócios capitalistas têm como objetivo principal a remuneração do dinheiro empregado no negócio. "O caminho do PIPE nos pareceu melhor", conta Regina. Para montar o laboratório, o Tecam apresentou, em 1999, o projeto PIPE e conseguiu que a Fapesp investisse US$ 105 mil e R$ 73,1 mil. Recursos necessários para comprar a máquina de PCR, um espectrofotômetro de raios UV visível, uma capela de fluxo laminado, duas geladeiras, dois freezers, um moedor, uma centrífuga e três mini-centrífugas.

Durante a implantação do laboratório, outra ocorrência não prevista ameaçou os propósitos do Tecam: os órgãos internacionais de segurança biológica, especialmente da Europa, não mais se satisfaziam apenas com a informação sobre a presença ou não de OGMs em alimentos — passaram a exigir também a informação sobre a quantidade deles presente nas amostras. A Europa exige rotulagem para produtos com mais de 1% de material transgênico; o Japão, por exemplo, só exige rótulo quando o índice for de 5%. A mudança impôs uma nova necessidade para a empresa: um equipamento de PCR mais sofisticado do que o previsto no projeto de pesquisa aprovado pela Fapesp — antes mesmo de ele ter chegado. Para saber a quantidade de transgênicos em um determinado alimento é preciso usar a técnica do PCR em tempo real — a mesma usada na área médica para quantificar a carga viral de uma amostra de sangue. "Felizmente, para o sucesso do projeto, a Fapesp concordou com as alterações propostas", explica Janete.

Mas as moças não ficaram só no PIPE — o total investido para o desenvolvimento do serviço de detecção de OGMs foi de R$ 450 mil, dos quais um terço eram recursos próprios. O Tecam tornou-se a primeira empresa nacional a ostentar o certificado da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para atuar em análises de detecção de OGMs em alimentos. É credenciada pelos Ministérios de Saúde e da Agricultura, e certificada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Sem este documento, o Tecam não trabalharia com OGMs. Esse pioneirismo deu credibilidade ao laboratório.

Hoje em dia...
Hoje em dia, sete anos depois do primeiro PIPE, trabalham no Tecam 56 funcionários, sendo 40% com formação superior. Em 2002, a empresa se mudou para um prédio de quatro andares e mil metros quadrados no bairro da Vila Romana, na Zona Oeste de capital de São Paulo. O prédio foi projetado com a finalidade de abrigar cinco laboratórios diferentes. São dois blocos de concreto ligados por pontes metálicas. No último andar, a Diretoria fica no bloco da frente. No bloco de trás estão os Laboratórios de Biologia Molecular e de Ecotoxicologia. São duas salas independentes que não se comunicam diretamente. O acesso é feito por um corredor lateral, onde ficam disponíveis os paramentos que os pesquisadores colocam antes de entrar. É condição importante para não contaminar o local. Enquanto o Laboratório de Biologia Molecular abriga as máquinas de PCR convencional e em tempo real, o Laboratório de Ecotoxicologia guarda aquários com algas e com uma espécie de peixe comum na costa brasileira, o paulistinha, entre outros equipamentos. Os laboratórios de análises físico-químicas, microbiológicas, microscópicas ficam no andar térreo para facilitar o acesso de entrada de amostras. Há, ainda, o Laboratório de Análises Toxicológicas sediado numa área de 20 mil metros quadrados em São Roque, interior do Estado, onde ratos e cobaias são usados em ensaios.

Dos mil clientes da empresa, apenas 20 são usuários dos serviços de detecção de OGMs. A maioria é formada por empresas exportadoras de soja para Europa, China e Japão, que precisam se proteger contra a comercialização involuntária de grãos transgênicos. Janete acredita que o perfil da clientela deverá mudar assim que a comercialização e rotulagem de transgênicos no Brasil forem definidas. Atualmente, uma lei determina a identificação na embalagem de alimentos para o consumo humano quanto à presença OGMs, mas uma disputa entre lobbies de empresários, políticos e ambientalistas adia a regulamentação. O Tecam espera este mercado se abrir para poder ocupar intensivamente o Laboratório de Biologia Molecular, que, podendo fazer até 200 análises por mês, tem uma capacidade ociosa de 50%. "Enquanto o mercado doméstico ainda não se desenvolveu por falta de regulamentação da lei, o mercado exportador é dominado pelos laboratórios estrangeiros", explica Janete.

Hoje existem seis laboratórios no País aptos a qualificar e detectar OGMs em alimentos; quatro são estrangeiros. O Tecam tem o quarto posto em volume de análise neste sofisticado mercado. Para ficar à frente da concorrência, o Tecam monitora as novas exigências da vigilância sanitária. "A gente tem de se antecipar às mudanças, como foi no caso dos transgênicos", conta Janete. A eficiência da empresa, que consegue elaborar um resultado de amostra em quatro dias, ainda não foi suficiente para que ela galgasse posições nesse ranking. "Existe uma relação muito forte entre os laboratórios estrangeiros e as empresas estrangeiras que comercializam grãos. Geralmente, as matrizes das empresas de comércio exterior já têm contratos de longo prazo com as matrizes dos laboratórios, especialmente os europeus", afirma Regina.

O Tecam aposta na credibilidade e na eficiência da empresa para quebrar "essa espécie de monopólio ou conluio" que existe no setor. Não há como proteger a técnica uma vez que ela não pode ser patenteada. Além da análise de OGMs já constar na literatura científica, ela deve obedecer a regras e padrões internacionais coordenados pela União Internacional de Química Pura e Aplicada (Iupac, na sigla em inglês). "Nossa perspectiva nos próximos dez anos é construir uma credibilidade que possa nos garantir acesso ao mercado internacional. Já temos recebido consultas de empresas estrangeiras que querem registrar seus produtos aqui no Brasil", afirma Regina.

Fonte: Davi Molinari / Inovação Unicamp