quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Animais em aulas práticas: podemos substituí-los com a mesma qualidade de ensino?

Animals in practical lessons: can we substitute them maintaining the quality of education?

Aulas práticas sem animais
Ao comparar o nível de aprendizagem de dois grupos de alunos do curso de medicina que tiveram aulas práticas demonstrativas com e sem utilização de camundongos, pesquisadores do Centro Universitário Lusíada, em Santos (SP), concluíram que é possível manter a mesma qualidade de ensino com a substituição dos animais por outras fontes de conhecimento.

O estudo se concentrou na disciplina de histologia, que estuda os tecidos do corpo humano, em aula prática referente à demonstração de técnicas citológicas. O conteúdo ministrado aos 128 alunos, divididos em duas turmas, foi idêntico, com diferença apenas na coleta das células. A primeira turma coletou células dos órgãos de animais sacrificados e a segunda utilizou células da mucosa oral dos próprios alunos.

O trabalho, conduzido pelos professores Renata Diniz, Ana Lúcia Duarte e Charles de Oliveira, foi publicado na Revista Brasileira de Educação Médica. “Como a finalidade da aula era visualizar características celulares, não importava se a célula fosse de humanos ou de animais, já que componentes de interesse como o núcleo e o citoplasma são iguais em ambos os casos”, disse Renata à.

Com as demonstrações práticas das células encerradas, um questionário para avaliação da aprendizagem foi aplicado nos alunos. As respostas foram inseridas em um banco de dados informatizado e analisadas de maneira quantitativa e qualitativa. “A análise estatística apontou desempenho semelhante das duas turmas por não haver diferenças significativas de acertos e erros nas questões”, afirma.

Segundo ela, o trabalho não propõe a eliminação total dos animais em sala de aula. “A idéia é apenas alertar professores da área de saúde para a existência de outras metodologias de ensino que possam oferecer o mesmo nível de aprendizagem respeitando a vida animal”, explica Renata, ressaltando que, após os resultados do estudo, a disciplina de histologia do Centro Universitário Lusíada não utilizou mais camundongos em aulas práticas.

Outra metodologia bastante utilizada no exterior e que está se tornando freqüente no Brasil, explica Renata Diniz, são os modelos que imitam peles e órgãos de animais e de humanos. “Hoje existem modelos que imitam a elasticidade da pele para que o aluno consiga praticar técnicas cirúrgicas. A vantagem é que o mesmo modelo pode ser utilizado durante vários anos e o aluno pode praticar o mesmo procedimento várias vezes. O animal, por sua vez, após ser sacrificado é aproveitado em poucas aulas”, compara.

Sentimentos diversos
Em uma das questões do questionário, os alunos tinham que indicar também três sentimentos vivenciados na presença dos animais, a partir de 18 palavras listadas. Os sentimentos mais citados foram curiosidade, ansiedade e tranqüilidade. Por outro lado, felicidade e orgulho não foram assinalados por nenhum estudante.

Em seguida, os sentimentos foram agrupados em positivos, negativos, curiosidade e indiferença. Considerando os dois grupos analisados, o sentimento negativo foi indicado por 50% dos indivíduos e o positivo por 18%. De acordo com a análise separada dos sexos masculino e feminino, verificou-se um predomínio de sentimentos negativos entre as mulheres (61%) em comparação com os homens (27%).

“De maneira geral, o comportamento emocional dos alunos muda com a presença de animais em aulas práticas. Eles ficam mais agitados, principalmente os homens, e acabam passando essa ansiedade para os colegas”, justifica Renata Diniz.

Para ela, a alta prevalência de sentimentos negativos entre as mulheres pode ser explicada pela maior aversão em relação ao sofrimento dos animais. “Os homens, talvez por uma questão social, tendem a disfarçar suas emoções, o que explicaria o baixo predomínio de sentimentos negativos relacionados aos animais de laboratório”, sugere a pesquisadora, que também leciona no curso de medicina veterinária do Centro Universitário Monte Serrat (Unimonte), em Santos.

Para ler o artigo Animais em aulas práticas: podemos substituí-los com a mesma qualidade de ensino?, disponível na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP), clique aqui.

Fonte: Thiago Romero / Agência FAPESP - 31/01/2007

Geographic distribution of hepatitis C virus genotypes in Brazil

Além da alta prevalência do vírus da hepatite C entre os brasileiros, a falta de sintomas em grande parte dos casos é um outro obstáculo para a identificação dessas infecções. Agora, conforme mostra um estudo publicado na Brazilian Journal of Medical and Biological Research de janeiro, mais um fator complicador pode ter surgido: a grande diversidade viral no país.

“Descrevemos neste artigo que a distribuição dos genótipos varia muito entre as diferentes regiões brasileiras”, disse João Renato Pinho, do Instituto Adolfo Lutz de São Paulo, um dos autores principais do trabalho.

A avaliação feita com o material genético de 1.688 pacientes revelou a existência de algumas prevalências em determinas áreas do país. Na região Norte apareceu mais o genótipo tipo 1, enquanto o Centro-Oeste registrou mais o do tipo 2 e o Sul o de tipo 3.

Em todo o país, a tabela de freqüência dos genótipos mostra que o tipo 1 é o mais encontrado, com 64,9% de ocorrência. Na seqüência aparecem o tipo 3 (30,2%) e o tipo 2 (4,6%). Os genótipos dos tipos 4 e 5 foram encontrados em poucos casos.

Até hoje, em todo o mundo, onde existem 170 milhões de pessoas contaminadas com o vírus da hepatite C, seis grandes tipos de genótipos foram detectados. O tipo 1 e o tipo 4, em alguns casos, são menos fortes que os demais.

“Em particular, chama a atenção no caso do Brasil a elevada freqüência do genótipo 3 na região Sul, o que deve refletir o importante componente genético trazido pelos imigrantes de países como Itália, Alemanha e da região do Leste Europeu”, disse Pinho.

Como a distribuição encontrada no Brasil é muito semelhante à da Europa, os pesquisadores trabalham com a hipótese de que a infecção pelo vírus da hepatite C no país se espalhou recentemente, depois da chegada das grandes ondas de imigrantes.

“Isso confirma dados internacionais que associam a alta freqüência dessa infecção com o uso de transfusões de sangue e de outros hemoderivados até antes de 1991”, explica Pinho. Segundo estimativas dos pesquisadores, no Brasil a hepatite C deve estar presente entre 0,8% e 3,4% da população. “Isso faz com que pelo menos 1,3 milhão de brasileiros possam ser acometidos pela doença”, conta o cientista.

Como a hepatite C é uma doença assintomática, na opinião do pesquisador do Instituto Adolfo Lutz o quadro é preocupante. “Entre 5% e 20% dos casos poderão evoluir para cirrose hepática após 20 anos de infecção. E, dentro desse universo, outros 20% podem apresentar carcinoma hepatocelular”, afirma.

Além de conhecer melhor os tipos de genótipos virais da hepatite C que existem no Brasil – o estudo também trouxe surpresas no Mato Grosso e no Maranhão, estados com alta prevalência do tipo 2, e em Pernambuco, onde o tipo 3 é alto –, outras medidas podem ser tomadas para que a infecção de hepatite C não fuja do controle. “A evolução da doença pode ser evitada com o diagnóstico rápido e com a instalação de tratamento precoce”, diz Pinho.

Para o pesquisador, é fundamental que os integrantes do chamado grupo de risco sejam avaliados com testes sorológicos. “Estamos falando de pessoas que receberam sangue antes de 1991, hemofílicos, hemodialisados, filhos de mães com hepatite C, cônjuges de pessoas que tiveram a infecção, doadores para transplantes e usuários de droga. Isso é muito importante, porque muitas vezes a infecção é assintomática nas fases iniciais”, explica.

Para ler a íntegra do artigo na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP), clique aqui

Fonte:Eduardo Geraque / Agência FAPESP - 31/01/2005