quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Alcoolismo em adolescentes

Resultados preliminares de duas pesquisas feitas na Universidade Estadual Paulista (Unesp) apontam o elevado consumo de álcool entre estudantes no interior paulista. Os estudos, realizados nas cidades de São José do Rio Preto e Araraquara, analisaram, no total, os hábitos de mais de 2,5 mil alunos. Os resultados são preocupantes.

No primeiro levantamento, coordenado por Raul Aragão Martins, professor do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce), foram entrevistados 1.227 alunos, com idade entre 15 e 18 anos, de duas escolas públicas de São José do Rio Preto.

Martins explica que a metodologia da pesquisa teve como base o Audit (Alcohol Use Disorder Identification Test), um teste de identificação do uso abusivo de bebidas que inclui um questionário proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A pontuação desse método pode variar entre 0 e 40. Mais de 8 pontos indica que o indivíduo consome álcool em níveis acima do tolerável.

Dos entrevistados, 18% marcaram mais de 8 pontos no teste Audit. Além de um número elevado de doses por dia, os integrantes desse grupo admitiram beber em média duas vezes por semana. “Esse é um número considerado extremamente elevado, uma vez que os jovens nessa faixa etária não deveriam beber nem socialmente”, disse Martins. Desses adolescentes que bebem pelo menos duas vezes por semana, 70% são do sexo masculino.

O pesquisador traçou também um paralelo entre os resultados do Audit com as notas dos alunos. “Quanto maior foi a pontuação no teste, ou quanto mais o aluno bebia, pior o seu desempenho escolar. Além disso, quanto mais cedo ele começa a beber, maior é a chance de se tornar dependente”, aponta.

De acordo com Martins, se não houver nenhum tipo de intervenção, seja por parte da família ou pela escola, por exemplo, metade dos adolescentes pode se tornar dependente do álcool após dez anos. “Ou seja, do total de jovens analisados em São José do Rio Preto, 9% correm sérios riscos de virarem alcoólatras”, afirma.

Propaganda enganosa
Na outra pesquisa, feita em Araraquara e coordenada por Ângela Viana Fernandes, professora da Faculdade de Ciências e Letras (FCL), os dados obtidos são igualmente preocupantes. Dos 1.307 alunos entrevistados, dos ensinos fundamental e médio de instituições públicas e particulares, 14% admitiram se embriagar pelo menos uma vez por mês.

Além disso, sob o efeito da bebida, 30,5% afirmaram ter se envolvido em brigas, 14% faltaram à escola no dia seguinte e 9,5% dirigiram carros sem estar em condições adequadas. Ângela constatou ainda que o álcool é a droga preferida entre os adolescentes: mais de 60% dos pesquisados disseram ter experimentado algum tipo de bebida alcoólica, enquanto 49,6% tiveram contato com o tabaco e 21% com a maconha.

Para os pesquisadores, a veiculação de propagandas na mídia e a legislação branda sobre a comercialização de bebidas alcoólicas são os dois fatores que mais favorecem o consumo entre os jovens. “A mídia é uma das principais responsáveis por esse consumo excessivo. As propagandas não consideram o álcool como uma droga e isso provoca graves conseqüências em toda a sociedade”, afirma Martins, do Ibilce.

Fonte: Thiago Romero / Agência FAPESP - 04/01/2006